Valter Pomar: Vamos pensar ”daqui para frente”

Tempo de leitura: 4 min
Fotos: Reprodução de redes sociais

Vamos pensar “daqui para frente”

Por Valter Pomar, em seu blog

Depois de ler, na imprensa, uma declaração do companheiro Rui Falcão, acerca dos motivos que o levam a considerar positivo, não apenas que Marta apoie Boulos, o que sem dúvida é positivo; mas também que seria positivo ela regressar ao PT, resolvi seguir seu conselho e me pus a pensar “daqui para frente”.

Sendo assim, pulei 2024 – sobre o qual há quem considere tudo decidido – e me pus a pensar em 2026.

E, de fato, assim pensando, “daqui para frente”, logo me tranquilizei.

Otimismo exagerado? Não, apenas ciência das probabilidades.

Afinal, desde 1980, quando o PT foi fundado, aconteceram 9 eleições presidenciais (não coloco na conta a de Tancredo, feita num colégio eleitoral, boicotado pelo PT, com base numa resolução que aliás o Rui Falcão ajudou a redigir).

E o fato tranquilizador é que candidaturas petistas venceram 5 daquelas 9 eleições, a saber: Lula em 2002 e 2006, Dilma em 2010 e 2014, novamente Lula em 2022.

Portanto, são muito altas as chances de uma nova vitória em 2026. E, vencendo em 2026, temos tudo para ganhar novamente em 2030 e 2032, como ganhamos em 2010 e 2014.

Além do atual mandato, teríamos mais três mandatos em seguida. O que talvez torne possível, quem sabe, além da “união e reconstrução”, também alguma “transformação”.

Como se comprova, é ótimo pensar “daqui para frente”.

Mas… sabe como é, historiador é meio viciado em pensar no passado… acabei recordando que depois de 2014 teve 2016 e 2018-2022, dois anos e pouco com um golpista, depois quatro anos governados por um cavernícola.

E lembrei, também, que como resultado daquilo, o Brasil que Lula recebeu para governar em 2022 estava bem pior do que no ano de 2002, quando Lula recebeu pela primeira vez a faixa presidencial.

Pior para os que vivem do seu próprio trabalho, vale ressaltar. Os ricos, estes sempre passam muito bem, obrigado.

Ou seja, fizemos vários governos cheios de boas medidas, mas os caras fizeram o país andar para trás, anulando boa parte do que fizemos.

Como se vê, o negócio é mesmo pensar “daqui para frente”. Pois, se pensarmos “daqui para trás”, a gente acaba assediado por alguns pensamentos negativos, por exemplo acerca dos que contribuíram para a vitória do golpe de 2016 e toda a desgraça que veio depois.

Portanto, basta! Vamos pensar “daqui para frente”!! Mas não apenas em eleições, pois já vimos que não basta ganhar eleições.

Nós sabemos ganhar eleições, embora com dificuldades crescentes, tanto nos municípios e estados, quanto em legislativos. Também sabemos governar e implementar boas políticas públicas.

O que nós ainda não demonstramos saber é como evitar que, no futuro, siga prevalecendo a vontade da classe dominante, mesmo que o governo federal esteja ocupado pelo PT.

Como superar a inércia do passado, o peso da correlação de forças, as limitações legais do próprio governo, as determinações estruturais de um país primário exportador e dominado pelo capital financeiro?

Como evitar que façamos ou deixemos de fazer determinadas escolhas, que acabam nos prejudicando?

Como enfrentar as diferenças estruturais entre “nós” e “eles”, por exemplo, a de ser mais fácil destruir do que construir, mais fácil manter o status quo do que fazer mudanças estruturais, mais fácil governar quando se é parte da classe dominante e exploradora, do que quando se é parte da classe dominada e explorada?

É fundamental pensar nas eleições. Mas também é fundamental pensar no conjunto da obra.

Acontece que o Partido tem perdido progressivamente sua, nossa, capacidade de pensar sobre alguns temas. Sobre eleições, seguimos pensando. Sobre outras questões, pensamos cada vez menos ou até mesmo deixamos de pensar.

O que, obviamente, vai atrofiando nossa ação e, por tabela, vai atrofiando também nosso pensamento, num círculo vicioso.

Nosso Partido, é bom lembrar, é composto por dezenas de milhões de pessoas, filiadas e não filiadas.

A maior parte dessas pessoas não acompanha nossos debates internos. São simpatizantes e eleitoras.

Outra parte constrói diariamente o Partido: é a militância. E uma parte dessa militância ocupa posições de direção, o que inclui do Lula até os dirigentes municipais e setoriais.

Nos últimos anos, tenho escutado muitos desses dirigentes fazendo discursos em que afirmam mais ou menos o seguinte: “não podemos esquecer por qual motivo fundamos este partido”.

Alguns destes discursos são comoventes e profundamente sinceros, outros perdem no quesito sinceridade, mas o importante é perceber que tem algo acontecendo e gerando esta preocupação.

Talvez o que esteja acontecendo, entre muitas outras coisas, é que, junto dos discursos esquálidos e comoventes sobre a importância do Partido, aparecem muitos sinais em sentido contrário, levando parte da nossa militância a ter algumas dúvidas existenciais.

Por exemplo: se uma pessoa é eleita pelo Partido, não uma, mas inúmeras vezes; se esta mesma pessoa trai seu eleitorado e seu Partido, não apenas uma, mas também inúmeras vezes; se essa pessoa, com esta traição, contribuiu direta ou indiretamente, para desgraçar a vida de grande número de brasileiros; e se, mesmo assim, esta pessoa pode ser aceita de volta no seu Partido, com pompa e circunstância; se as coisas são assim, o que mais pode acontecer “daqui para frente”?

A eleição de São Paulo capital é muito importante. Mas certamente há outros partidos em que Marta pode se filiar, para poder cumprir a honrosa tarefa.

Ademais, entendo os motivos que Marta têm para querer voltar ao PT. E, também, entendo os motivos pelos quais Rui Falcão afirma que o PT é o “leito natural” de Marta.

Mas, seguindo o conselho de Rui e pensando “daqui para frente”, prefiro não compartilhar o “leito” partidário com quem cometeu tamanha violência contra o Partido.

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Comentários

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Zé Maria

.

Excelentes Questionamentos do Presente
Para Pensarmos “Daqui Pra Frente”:

Excertos

“O que nós [do PT] ainda não demonstramos saber é como evitar
que, no futuro, siga prevalecendo a vontade da classe dominante,
mesmo que o governo federal esteja ocupado pelo PT.

Como superar a inércia do passado, o peso da correlação de forças,
as limitações legais do próprio governo, as determinações estruturais
de um país primário exportador e dominado pelo capital financeiro?

Como evitar que façamos ou deixemos de fazer determinadas escolhas,
que acabam nos prejudicando?

Como enfrentar as diferenças estruturais entre “nós” e “eles”, por exemplo,
a de ser mais fácil destruir do que construir, mais fácil manter o ‘status quo’
do que fazer mudanças estruturais, mais fácil governar quando se é parte
da classe dominante e exploradora, do que quando se é parte da classe
dominada e explorada?”

.

Zé Maria

O Boulos que se cuide!

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