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Cartas de Minas
Cartas de Minas

Temer: Breve histórico de um campeão da dissimulação, scripta manent

17 de fevereiro de 2018 às 13h45

Da Redação

11 de janeiro de 2006. O telegrama foi enviado pelo então cônsul dos Estados Unidos em São Paulo, Christopher J. McMullen, à burocracia dos Estados Unidos, inclusive ao Conselho de Segurança Nacional.

Era o relato de uma conversa com o presidente do PMDB, Michel Temer.

A releitura do telegrama, em retrospectiva, é reveladora.

Temer diz ao cônsul que o PMDB pode fechar aliança com o PSDB — ou renovar com o PT. Ou lançar candidato próprio. Elenca os possíveis candidatos do seu partido, mas sempre com senões.

Temer critica os programas sociais de Lula. Temer não faz objeções à ALCA, um projeto-chave para os Estados Unidos.

Um dos intertítulos do telegrama diz: Com aliados como este…

Os norte-americanos já sabiam!

Temer não está com ninguém, mas com… Temer. Age nas sombras, dissimulado.

Da conversa com o cônsul salta aos olhos a tentativa de reforçar seu papel de interlocutor preferencial. O cara!

Fevereiro de 2015. Eduardo Cunha é eleito presidente da Câmara. Irmãos siameses, diz, sobre a dupla Temer-Cunha, o ex-governador Ciro Gomes.

Segundo o delator Dilson Funaro, foi Temer quem colocou Fábio Cleto, o operador de Cunha, na Caixa Econômica Federal. Na mesma Caixa, operou Geddel Vieira Lima, muito próximo de Temer, na condição de vice-presidente.

A ambição do PMDB pelo poder total se consolidou com a ascensão de Cunha, manobrando sua maioria na Câmara à base de propinas.

29 de outubro de 2015: é a data do lançamento oficial do programa Ponte para o Futuro, anunciado como release Temer no link: http://pmdb.org.br/wp-content/uploads/2015/10/RELEASE-TEMER_A4-28.10.15-Online.pdf.

O vice apresenta seu programa de governo com Dilma sentada na cadeira presidencial.

2 de dezembro de 2015: Eduardo Cunha acolhe o pedido de impeachment de Dilma Rousseff.

7 de dezembro de 2015. Divulgada a carta de Temer a Dilma, em que ele faz a defesa, em termos paroquiais, dos aliados escanteados por Dilma do governo: Moreira Franco, Eliseu Padilha e Edinho Araújo, o homem da Secretaria dos Portos de janeiro a outubro de 2015.

“A senhora não teve a menor preocupação em eliminar do governo o Deputado Edinho Araújo, deputado de São Paulo e a mim ligado”, reclamou Temer em sua carta, que remete à pia batismal da carreira de Temer, o porto de Santos.

“Assessoria do vice disse que ele se surpreendeu com divulgação de carta”, anunciou o G1. Todos acreditamos. Foi o rompimento oficial, mas dissimulado.

Dilma, em retrospectiva, tinha razão para desconfiar — e mandava o ministro da Justiça conversar com o então vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden.

Temer, em sua carta, deixou explícito: “Recordo, ainda, que a senhora, na posse, manteve reunião de duas horas com o Vice Presidente Joe Biden — com quem construí boa amizade — sem convidar-me o que gerou em seus assessores a pergunta: o que é que houve que numa reunião com o Vice Presidente dos Estados Unidos, o do Brasil não se faz presente? Antes, no episódio da “espionagem” americana, quando as conversas começaram a ser retomadas, a senhora mandava o Ministro da Justiça, para conversar com o Vice Presidente dos Estados Unidos. Tudo isso tem significado absoluta falta de confiança”.

Notem que Temer se refere à espionagem dos Estados Unidos, que de fato e comprovadamente aconteceu, como “espionagem”, entre aspas.

Àquela altura, Rodrigo Rocha Loures, o homem da mala, era assessor de Temer na vice-presidência.

Anotações encontradas na casa de Loures pela Polícia Federal, datadas de 2015 e 2016, fazem referência a uma série de medidas que poderiam indicar envolvimento direto de Temer na campanha do impeachment: “vamos ajudar deputado a decidir, ele está indeciso”, diz uma delas. Outra fala em colocar faixas nas proximidades de casas de deputados e uma terceira menciona anúncios em jornais (o que a Fiesp e vários outras entidades fizeram).

07 de março de 2017. Temer, já oficialmente usurpador, recebe Joesley para a conversa íntima no Jaburu. “Sempre pela garagem, viu?”, disse a certa altura.

Temer está seguro de que uma decisão “política” do TSE vai evitar a cassação da chapa Dilma-Temer, como de fato aconteceu.

Joesley fala sobre Geddel Vieira Lima, recém-afastado do governo, com a intimidade de quem recebera dele R$ 4,4 bilhões em créditos da Caixa, quando Geddel era vice-presidente do banco.

Joesley faz uma pergunta-chave sobre o financiamento da campanha de 2018.

O diálogo é concatenado pelo próprio Joesley: Geddel-financiamento de campanha:

Batista – Geddel você tem visto ele?

Temer – Falou comigo hoje, por telefone. (inaudível) uma razão (inaudível)

Batista – Exatamente. Como vai financiar 2018?

Temer – Não sei. (Inaudível) Acho que quando melhorar bem a economia, muda.

É Temer candidato à reeleição, àquela altura contando com os R$ 51 milhões no bunker de Geddel?

Geddel, diga-se, já em 2014, na condição de secretário-geral do PMDB, pregava o rompimento do partido com o governo liderado pelo PT.

Em sua última postagem no Facebook antes de deixar o governo, Geddel, já na condição de ministro de Temer, atacou Dilma: “O país não aguentaria mais ser dirigido por uma pessoa inepta”.

Citado na Lava Jato, terminou a entrevista ao diário A Tarde, de Salvador, dizendo que a menção a ele era “uma leviandade que repilo com vigor”.

Geddel, que por questões regionais rompeu com o PT e fez campanha por Aécio Neves em 2014, foi catapultado por Temer de uma vice-presidência da Caixa para a intimidade da Secretaria de Governo.

Hoje, sabe-se, é o pedaço mais escancarado da quadrilha.

22 de março de 2017. Com esta data, o lobista da Shell em Brasília, Tiago de Moraes Vicente, incrivelmente filiado ao PMDB, assina carta pedindo a Temer audiência com o presidente mundial da companhia, Ben van Beurden, que aconteceria no dia 5 de abril. A carta foi encontrada na casa de… Rocha Loures, o homem da mala.

Naquele mesmo mês de março, o ministro do Comércio britânico, Greg Hands, esteve no Brasil, visitou três capitais e esteve com Paulo Pedrosa, homem forte do Ministério das Minas e Energia, fazendo lobby pela redução de impostos e redução dos licenciamentos ambientais, conforme o diário britânico Guardian.

Temer atendeu aos pleitos da petroleira. Assim, sem mais, nem menos?

O fato é que a dissimulação de Temer atravessa toda esta narrativa.

Por ela, fica claro que ele não dispensará qualquer caminho para se manter no poder, inclusive o que implique em adiar as eleições ou governar cedendo poder ao general Sergio Westphalen Etchegoyen, formalmente chefe do Gabinete de Segurança Institucional, mas na verdade ministro do Interior à moda antiga.

Como escreveu Temer em sua carta a Dilma, provavelmente com uma chantagem embutida:

“Verba volant, scripta manent” (As palavras voam, os escritos permanecem).

Dentre os escritos, aquele, em que Eduardo Cunha contou tudo: “O verdadeiro diálogo ocorrido sobre o impeachment com o então vice-presidente, às 14h da segunda-feira 30 de novembro de 2015, na varanda do Palácio do Jaburu, 48 horas antes da aceitação da abertura do processo de impeachment, foi submeter a ele o parecer preparado por advogados de confiança mútua. Foi debatido e considerado por ele correto do ponto de vista jurídico”.

Leia também:

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