VIOMUNDO

Diário da Resistência


Política

Santayana: “Temos o dever de defender o nosso brio, sempre e quando ele for atingido”


08/06/2012 - 09h14

por Mauro Santayana,no JBonlinevia seu blog

(JB)- A opinião nacional aprovou a decisão da presidente Dilma Rousseff de mencionar, em seu discurso no Itamaraty, na saudação ao Rei Juan Carlos, as dificuldades dos brasileiros que chegam à Espanha, ou por ela transitam. O monarca não tinha como responder, se não como o fez, dizendo que os brasileiros são bem vistos naquele país. É provável que assim não pense exatamente o Rei, mas ele se encontra “en mission”.

Os países soberanos têm todo o direito de negar a entrada de um ou outro estrangeiro em seu território, sem dar explicações, mas nenhum país do mundo, no exercício desse direito, deve permitir que seus agentes de fronteira tratem mal os recusados. Os documentos de viagem, ao identificá-los como cidadãos desse ou daquele país, recomendam que os seus direitos humanos sejam respeitados. Se se encontram na fronteira terrestre ou em algum porto, não há problemas maiores: basta que não transponham as barreiras imigratórias. Mas quando se encontram em aeroportos, como o de Barajas, em Madri, cabe às autoridades que lhes negarem a entrada deles cuidar com respeito, de forma a que possam esperar as providências de retorno com um mínimo de conforto.

Em respeito aos estados de que são cidadãos, devem ser alimentados regularmente e, se for o caso, receber assistência médica completa. Não é o que vem ocorrendo em Madri, e, com menor freqüência, em Lisboa. Nossos compatriotas, em escolha aleatória pelos policiais, costumam ser repelidos como apátridas. Mais do que isso: como se não fossem seres humanos. Em alguns casos, diante do protesto natural dos atingidos, houve agressão física e moral. O relato de alguns dos brasileiros detidos em Madri é brutal. Para esses policiais, até prova em contrário, toda jovem brasileira que chegava aos aeroportos ibéricos era prostituta; todo rapaz, travesti ou traficante de drogas; todas as pessoas mais velhas, mendicantes dos serviços sociais europeus. Ainda em abril, 15 brasileiros foram deportados em um só dia, embora tivessem documentação em ordem.

Nunca foi da índole dos brasileiros receber mal os que aqui chegam. Somos país de imigrantes que aqui fizeram a sua pátria. Sendo assim, enquanto éramos ofendidos e humilhados no exterior, mantínhamos o mesmo respeito para com todos os que aqui chegavam. É certo que, embora raramente, alguns não eram admitidos, fosse por que não viessem munidos de vistos exigidos pelo princípio de reciprocidade, fosse por falta de outros papéis necessários. Mas não consta que fossem humilhados com palavrões, e tivessem seus pertences apreendidos, como ocorria – e ainda ocorre – em Madri, em Lisboa e no Porto.

As autoridades espanholas começam a anunciar procedimentos menos duros. Mas, para que isso ocorresse, foi necessário que exigíssemos dos espanhóis o cumprimento de regras semelhantes às requeridas aos brasileiros em suas fronteiras. Imediatamente os espanhóis buscaram entendimentos conosco. Seria melhor que assim não fosse; que não fôssemos obrigados a contrariar a nossa forma de ser, e passar a ter atitude rigorosa na exigência de reciprocidade, para que os espanhóis descessem de sua arrogância e se dispusessem a negociar.

Por mais queiram os globalizadores, que sonham com governos mundiais e o livre trânsito de mercadorias, mas não o de pessoas, as nações ainda vivem. E o cimento das nações é a solidariedade interna de seus povos. Quando atingem a face de um brasileiro no exterior, é a nação inteira que se sente esbofeteada. Sem atuar com a mesma grosseria com que nos tratam, temos o dever de defender o nosso brio, sempre e quando ele for atingido.

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24 comentários

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Frente Esquerda Unida lança campanha por ‘comissão da verdade’ sobre bancos falidos « Viomundo – O que você não vê na mídia

10 de junho de 2012 às 13h43

[…] Santayana: “Temos o dever de defender o nosso brio, sempre e quando ele for atingido” […]

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Mário

10 de junho de 2012 às 02h44

Da espanha nem azeite eu compro. Esse paizinho merece esse elemento como rei. Uma maravilha essa tal espanha. No passado cometeram um genocídio, atrocidades contra os índios das Américas, como denunciou Bartolomé de las Casas em uma de suas obras “Breve relato da destruição das Índias”.
O passado condena. Eu nada espero e nada quero desse povinho.

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Luiz

09 de junho de 2012 às 08h34

Depois de ser flagrado caçando, esse rei perdeu bastante de sua moral.

Quanto aos mau tratos de espanhóis a brasileiros, acho que essa turma não caiu na real: a Espanha está numa pior, em termos econômicos. Melhor seria baixarem o facho e reduzirem sua arrogância substancialmente.

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abolicionista

08 de junho de 2012 às 22h49

A propósito, vamos apresentar esse rei à guilhotina?

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Zamora

08 de junho de 2012 às 21h46

Hablas español?
No, graças a Dios…

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abolicionista

08 de junho de 2012 às 19h29

O que nós precisamos é de uma internacional comunista! Chega de defender estado burguês!

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Paciente

08 de junho de 2012 às 15h12

Eu, realmente, não perco mais tempo com pós-modernos e globalizantes. Não tenho mais paciência. O sentimento de pertença a uma coletividade existirá enquanto houver entre os termos “eu” e “você” ou “nós” e “eles”.

Fico contente com isso? De modo algum. Constatar isso é constatar que diferenças de gênero nunca cessarão, bem como as raciais e as de classe. Pelo menos isso é real e não o delírio que imaginou, um dia, que diferentes nações de europeus ficariam “amiguinhas”. Não rola.

A convivência entre as nações (e entre os grupos sociais) é tensiva, as vezes violenta, as vezes, como prefiro, negociada. Isso se a aspiração de ambas as partes for de convivência. No caso da Espanha, flagrantemente não era. Era imperialista e ponto.

Nessa novela me importa saber é o capitulo seguinte: a Telebrás vai comprar o que a Telefônica vai vender? Ou vai aparecer algum tucano sem clareza sobre onde termina o “nós” e onde começa o “eles”?

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Renato

08 de junho de 2012 às 14h32

Espanhóis e portugueses sonharam que pertenciam ao Primeiro Mundo, tratavam-nos com empáfia e prepotência. Felizmente voltaram a ser o que eram: “potências colonialistas do passado” , pois hoje só visitamos estas “relíquias históricas” por causa de seus museus. A Espanha é um país que não deve ser levado a sério, pois tem como rei um energúmeno, filhote do franquismo e grande parte da sua população aprecia touradas.O que dizer de uma gente assim. Qual a importância destes países no cenário mundial? Nenhuma.. Vamos nos preocupar com nações que realmente contam: Rússia, China, África do Sul, Índia, Venezuela, França…

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    Scan

    08 de junho de 2012 às 16h15

    Paisecos de merda cujo único valor é terem aeroportos que servem para baldeações.
    Espanha é Barajas e Barcelona, o resto é apêndice.

Elias

08 de junho de 2012 às 13h07

Os espanhóis sempre foram gente boa. No bairro do Brás, em São Paulo, eram eles os mais engraçados, juntos com os italianos onde conviviam em inúmeros cortiços daquela região Brás/Mooca. Espanhóis e italianos eram rivais. Espanhóis = corintianos, italianos = palmeirenses. Mas também havia o vice-versa. Sim, eles eram rivais, mas nada parecido com hoje, onde torcidas ‘desorganizadas’ cometem atos assustadores. Os espanhóis têm sua parte na miscigenação brasileira. Por isso, alguma coisa está errada na alfândega espanhola. Creio que devam corrigir isso o mais breve possível. Afinal, temos tanta coisa em comum. Será que se esqueceram disso?

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augusto2

08 de junho de 2012 às 12h28

sra Dilma e sr Patriota: eu, cidadão brasileiro, lhes peço uma coisa. Dois pontos.
Que tenhamos vergonha na cara!
Para ontem.

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Fabio Passos

08 de junho de 2012 às 12h26

Aposto que o PIG e seus militantes (uma ralé ético-intelectual) condenou a Dilma por ter criticado o rei.

Todos sabemos que uma das principais características da pior “elite” do mundo e de seus servos é o “capachismo” explícito diante das nações superdesenvolvidas.

Mesmo quando a “autoridade” é um meliante desqualificado:

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José Eduardo

08 de junho de 2012 às 12h18

A Espanha que va a la mierda!

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Fabio Passos

08 de junho de 2012 às 11h57

Não podemos tolerar racismo e preconceito.
Os brasileiros são vítimas de tratamento desumano por “autoridades” da Espanha. É o Estado espanhol cometendo agressões contra brasileiros claramente motivado por racismo.

Dilma fez muito bem.
Espero inclusive que tenha reforçado a cobrança de forma mais dura em particular.

Responder

    pperez

    08 de junho de 2012 às 18h10

    O Rei com a Dilma tá parecendo o inesquecivel Jorge Loredo na pele do mendigo vestido de lorde da praça da alegria!
    Veio aqui pedir algum e saiu devendo…. bem feito!

    Jotace

    09 de junho de 2012 às 00h05

    Inclusive ao nosso chanceler e ao embaixador do Brasil na Espanha, caro Fábio. Eles sempre estiveram ‘em negociações’ enquanto aos viajantes brasileiros sequer era permitido fossem enxotados de volta ao Brasil antes de devidamente humilhados. Será bom nunca esquecermos isso e lutarmos contra as empresas piratas espanholas que aqui pilham os trouxas brasileiros. Abs, Jotace

Jose Mario HRP

08 de junho de 2012 às 11h37

Deixa ficar assim…….nós aqui e eles lá!
A espanholada é rotineiramente arrogante e racista!
Yo TÔ FORA!
Nosso país tradicionalmente trata bem estrangeiros, essa coisa feia que fizemos com os Haitianos é ridícula e os espanhóis ????, que se vayam!

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José Ricardo Romero

08 de junho de 2012 às 11h01

Os ibéricos, portugueses e espanhóis, estão se mordendo de inveja do Brasil e dos brasileiros. Nós temos futuro, somos a bola da vez, no sentido positivo, e eles o são no sentido negativo.

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    Antonio

    08 de junho de 2012 às 11h56

    Estive no mês de maio em Portugal e parte da Espanha. Fui muito bem tratado pela população. Notei grande diferença de tratamento pelos funcionários públicos. São mal humorados, te atendem com grosseria e indiferença. Uma diferença gritante entre o homem comum e o funcionário público. Não sei se isso ocorre por orientação dos governantes ou reflete a insegurança atual desses funcionários devido à crise. De qualquer forma, nada justifica atitudes grosseiras e agressivas contra nós, turistas brasileiros.

Ana Cruzzeli

08 de junho de 2012 às 10h42

Não Santayana, a mudança ocorreu e ocorrerá mais profundamente pois estamos em melhor situação financeira que eles.
Infelizmente o vil metal ainda toca nos corações dos homens amolecendo sua sandice.

A piedade do homem ainda pode ser comprada, infelizmente, pois ela está a venda.

Responder

    Jotace

    08 de junho de 2012 às 17h42

    Prezada Ana Cruzzeli,

    Leio sempre os admiráveis artigos do Mauro Santayana sobre o problema dos brasileiros que têm a desdita de visitar a Europa via Espanha ou Portugal. Mas desta vez, é como diz você, ele cometeu um equívoco: pois a (aparente) boa vontade das autoridades espanholas em respeitar o nosso país, os nossos compatriotas, não decorreu da nossa tão tardia e amena política de reciprocidade.(?). De fato, nunca houve um pedido público de desculpas que refletisse o reconhecimento da bestialidade que a arrogância da decadente nação colonial primava em dedicar-lhes. Só o estado de miséria em que se encontra a Espanha, e os proventos que auferem – e poderão auferir- suas companhias pirats por serviços da piór qualidade, levaria o rei-matador-de-animais a mostrar uma face da humildade e levar a Espanha a fazer um singular acordo: o de acatar as normas internacionais que determinam respeito a cidadãos de outros países…Cordial abraço do, Jotace

Roque

08 de junho de 2012 às 10h03

Perdemos a chance… Deixamos de prender o rei. O que se fez com cidadãos brasileiros nos aeroportos da Espanha foi uma tirania. Nestes casos pode-se cometer o tiranocídio… He,he,he

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Remindo Sauim

08 de junho de 2012 às 09h43

Em seu editorial de hoje, sobre o escândalo midiático do mensalão, finalmente o jornal Zero Hora, aqui de Porto Alere, descarta a acusação de Roberto Jefferson que iniciou o processo em 2005. Este mesmo veículo sustentou por 7 anos, em reportagens e notas de seus colunistas, esta mesma versão. Conclui-se que o editorialista leu a peça acusatória e nela não encontrou nada que sustentasse a acusação original. Neste mesmo editorial, desclassifica a acusação para caixa 2, que são os recursos não contabilizados pelo partido, neste caso nas eleições municipais de 2004, amplamente divulgado pelo próprio Partido dos Trabalhadores em 2005, e ignorados por este mesmo veículo. Estes recursos não contabilizados se referem a empréstimos feitos pelo PT para cumprir compromissos da campanha municipal de 2004 em todo o Brasil, com seus candidatos e partidos coligados. Note-se que todas estas transferências foram feitas dentro da lei e que na justiça eleitoral as contas desta campanha foram sancionadas pelo STE.

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