VIOMUNDO

Diário da Resistência


Política

Santayana: O golpe no Paraguai e a Tríplice Fronteira


26/06/2012 - 19h34

por Mauro Santayana, no JB

A moderação dos Estados Unidos, que dizem estranhar a rapidez do processo de impeachment do presidente Lugo, não deve alimentar o otimismo continental. Em plena campanha eleitoral, a equipe de Obama (mesmo a senhora Clinton) caminha com cautela, e não lhe convém tomar atitudes drásticas nestas semanas. Esta razão os leva a deixar o assunto, neste momento, nas mãos da OEA.

Na verdade, se as autoridades de Washington não ordenaram a operação relâmpago contra Lugo, não há dúvida de que o Parlamento paraguaio vem sendo, e há muito, movido pelo controle remoto do Norte.

E é quase certo que, ao agir como agiram, os inimigos de Lugo contavam com o aval norte-americano. E ainda contam. Conforme o Wikileaks revelou, a embaixada norte-americana informava a Washington, em março de 2009, que a direita preparava um “golpe democrático” contra Lugo, mediante o Parlamento. Infelizmente, não sabemos o que a embaixada dos Estados Unidos em Assunção comunicou ao seu governo depois e durante toda a maturação do golpe: Assange e Meaning estão fora de ação.

Não é segredo que os falcões ianques sonham com o controle da Tríplice Fronteira. Não há, no sul do Hemisfério, ponto mais estratégico do que o que une o Brasil ao Paraguai e à Argentina. É o ponto central da região mais populosa e mais industrializada da América do Sul, a pouco mais de duas horas de voo de Buenos Aires, de São Paulo e de Brasília. Isso sem falar nas cataratas do Iguaçu, no Aquífero Guarani e na Usina de Itaipu. Por isso mesmo, qualquer coisa que ocorra em Assunção e em Buenos Aires nos interessa, e de muito perto.

Não procede a afirmação de Julio Sanguinetti, o ex-presidente uruguaio, de que estamos intervindo em assuntos internos do Paraguai. É provável que o ex-presidente — que teve um desempenho neoliberal durante seu mandato — esteja, além de ao Brasil e à Argentina, dirigindo suas críticas também a José Mujica, lutador contra a ditadura militar, que o manteve durante 14 anos prisioneiro, e que vem exercendo um governo exemplar de esquerda no Uruguai.

Não houve intervenção nos assuntos internos do Paraguai, mas a reação normal de dois organismos internacionais que se regem por tratados de defesa do estado de direito no continente, o Mercosul e a Unasul — isso sem se falar na OEA, cujo presidente condenou, ad referendum da assembleia, o golpe parlamentar de Assunção.

É da norma das relações internacionais a manifestação de desagrado contra decisões de outros países, mediante medidas diplomáticas. Essas medidas podem evoluir, conforme a situação, até a ruptura de relações, sem que haja intervenção nos assuntos internos, nem violação aos princípios da autodeterminação dos povos.

A prudência — mesmo quando os atos internos não ameacem os países vizinhos — manda não reconhecer, de afogadilho, um governo que surge ex-abrupto, em manobra parlamentar de poucas horas. E se trata de sadia providência expressar, de imediato, o desconforto pelo processo de deposição, sem que tenha havido investigação minuciosa dos fatos alegados, e amplo direito de defesa do presidente.

Registre-se o açodamento nada cristão do núncio apostólico em hipotecar solidariedade ao sucessor de Lugo, a ponto de celebrar missa de regozijo no dia de sua posse. O Vaticano, ao ser o primeiro a reconhecer o novo governo, não agiu como Estado, mas, sim, como sede de uma seita religiosa como outra qualquer.

O bispo é um pecador, é verdade, mas menos pecador do que muitos outros prelados da Igreja. Ele, ao gerar filhos, agiu como um homem comum. Outros foram muito mais adiante nos pecados da carne — sem falar em outros deslizes, da mesma gravidade — e têm sido “compreendidos” e protegidos pela alta hierarquia da Igreja. O maior pecado de Lugo é o de defender os pobres, de retornar aos postulados da Teologia da Libertação.

Lugo parece decidido a recuperar o seu mandato — que duraria, constitucionalmente, até agosto do próximo ano. Não parece que isso seja fácil, embora não seja improvável. Na realidade, Lugo não conta com a maior parcela da classe média paraguaia, e possivelmente enfrente a hostilidade das forças militares. Os chamados poderes de fato — a começar pela Igreja Católica, que tem um estatuto de privilégios no Paraguai — não assimilaram o bispo e as suas ideias. Em política, no entanto, não convém subestimar os imprevistos.

Os fazendeiros brasileiros que se aproveitaram dos preços relativamente baixos das terras paraguaias, e lá se fixaram, não podem colocar os seus interesses econômicos acima dos interesses permanentes da nação. É natural que aspirem a boas relações entre os dois países e que, até mesmo, peçam a Dilma que reconheça o governo. Mas o governo brasileiro não parece disposto a curvar-se diante dessa demanda corporativa dos “brasiguaios”.

No Paraguai se repete uma endemia política continental, sob o regime presidencialista. O povo vota em quem se dispõe a lutar contra as desigualdades e em assegurar a todos a educação, a saúde e a segurança, mediante a força do Estado. Os parlamentos são eleitos por feudos eleitorais dominados por oligarcas, que pretendem, isso sim, manter seus privilégios de fortuna, de classe, de relações familiares.

Nós sofremos isso com a rebelião parlamentar, empresarial e militar (com apoio estrangeiro) contra Getulio, em 1954, que o levou ao suicídio; contra Juscelino, mesmo antes de sua posse, e, em duas ocasiões, durante seu mandato. Todas foram debeladas. A conspiração se repetiu com Jânio, e com Jango — deposto pela aliança golpista civil e militar, patrocinada por Washington, em 1964.

A decisão dos países do Mercosul de suspender o Paraguai de sua filiação ao tratado, e a da Unasul de só reconhecer o governo paraguaio que nasça das novas eleições marcadas para abril, não ferem a soberania do Paraguai, mas expressam um direito de evitar que as duas alianças continentais sejam cúmplices de um golpe contra o estado democrático de direito no país vizinho.

Leia também:

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15 comentários

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Lugo a blogueiros: Quatro medidas de Franco explicam golpe no Paraguai « Viomundo – O que você não vê na mídia

03 de agosto de 2012 às 10h46

[…] Santayana: O golpe no Paraguai e a Tríplice Fronteira […]

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Lugo diz que narcopolítica e Rio Tinto foram motivos do golpe « Viomundo – O que você não vê na mídia

23 de julho de 2012 às 18h40

[…] Santayana: O golpe no Paraguai e a Tríplice Fronteira […]

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Alexandre Bitencourt

27 de junho de 2012 às 17h21

” … O maior pecado de Lugo é o de defender os pobres, de retornar aos postulados da Teologia da Libertação. …”

Muito boa análise, não tinha pensado por esse lado ainda!
As ideias da Teologia da Libertação se aproximam da Igreja primitiva, dos primeiros cristãos, de uma época em que Igreja e Estado eram separados.
Todos que se aproximam dessas idéias, são odiados pelos que detem o poder, da mesma forma como eram odiados os primeiros cristãos pelas elites judaicas e romanas. Não poderia ser diferente com as elites cristãs atuais.

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Em solidariedade ao povo paraguaio e volta de Lugo « Viomundo – O que você não vê na mídia

27 de junho de 2012 às 15h56

[…] Santayana: O golpe no Paraguai e a Tríplice Fronteira […]

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Sagarana

27 de junho de 2012 às 15h23

Ainda bem que o missivista não sugeriu a invasão do país vizinho, o fechamento do Congresso e da Corte Suprema. Mas faltou pouco.

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    Alex Gonçalves

    29 de junho de 2012 às 01h07

    Onde? Mostre no texto quando o Santayana chega perto de sugerir algo assim…

Pedro

27 de junho de 2012 às 13h29

A classe dominante e seus representantes, no caso do Paraguai os que votaram contra o Lugo, não têm mais outra característica senão serem inimigos do povo. São os representantes do que os americanos estão chamando de 1%, ou seja, a camarilha que tem que ser, necessariamente, contra o povo.

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Renato

27 de junho de 2012 às 09h15

Estranho, quem elege os Senadores e Deputados do Congresso do Paraguai?
O POVO. Então o processo de impeachment tem legitimidade sim.
80 Deputados é um número pequeno! – Mas para a população do Paraguai, acima de 7 milhões é um número razoavel, até para os padrões tupiniquins. Prorpocionalmente para os padrões Brasileiros, teriamos apenas 24 deputados.

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José da Mota

27 de junho de 2012 às 09h13

Amanhecer com um artigo de Tarso Genro no Blog do Altamiro Borges e mais este do Mauro Santayana, é um chamado, ainda, que, para um soldado solitário como eu, repetindo, solitário, ainda, pois aguardo de minha de tempos remotos, casa, o chamado. Pois morrer pela pátria ou viver sem razão é sentido, mas viver sem razão quando nos traem em pátria, como se pátria traíssse e não traída, aí pátria deixa de ser razão, como o viver.
Em outros comentários e até artigos que arrisquei, em meu semi-analfabetismo, escrever sobre o mensalão “da tentativa de golpe de estado” no Brasil e que só não aconteceu porque o Supremo Tribunal Federal e principalmente Gilmar Mendes se não me engano ainda procurador Geral da União, ou que fosse já como ministro, juntos, acordaram a tempo e impediram o impeachiment de Lula. Porque até a maioria dos petistas já haviam caído no conto do vigário do mensalão e ameaçavam se rebelar contra o governo.
Hoje, aLguns petistas, desavisados ou influênciados por uma pequena parcela de petistas bloguistas, principalmente, que conscientemente por razões meramente pessoais, alteram os rumos desta história por outras intrigas com Gilmar Mendes. Ficam indignados e levam outros a tanto quando deixo comentário dizendo que o PT lhe deve gratidão eterna, como à todo o Supremo Tribunal Federal. E deveria agradeço-los com honrarias em nome da pátria, porque sustentaram corajosamente a democracia. Pois a rasteira havia sido dada e sorrateiramente rápida, e caso alguém não ficasse de pé logo como o STF e Gilmar Mendes, a derrubada do governo era certeira, estaria concretizada.
Tarso Genro conta-nos duas histórias em uma, Fernando Lugo e Lula vem de um mesmo movimento. Mexer com uma elite intocável desde séculos pela primeira vez. Não se venderam e não se venderão, por isso esteve, no caso do Lula, e estará no caso de Fernando Lugo, em risco de sofrer um golpe de estado o tempo todo.
Está na hora de aproveitar o ensejo, porque estamos em plena pressão para votar o mensalão o mais breve possível, apressadamente, para criar mais um pandemônio político no país e diminuir a força do Lula. Também, aos petistas como Tarso Genro no mesmo ensejo, humildemente deve dar início ao processo de reconhecimento e agradecimento oficializado ao STF e a Gilmar Mendes pelo impedimento do golpe de estado no Brasil com o mensalão, e o fortalecimento e garantida da democracia.
Também não cabe a você, Tarso Genro, político de sua envergadura, se manter ocupado só com os problemas do Rio Grande do Sul. Esta aqui um exemplo prático do que falo, a falta de mais, para somar, manifestações coerentes e verídicas sobre temas como o golpe de estado no Paraguay, por um político de sua consciência e importância.
José da Mota.

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Willian

27 de junho de 2012 às 08h43

Acho que falta povo à “resistência” de Lugo.

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Werner [email protected]_2

27 de junho de 2012 às 08h31

enquanto a grande – e velha – oligárquica midia radio-televisiva tiver um só lado, será fácil darem golpes… basta um tropecinho na economia. A propaganda anti-pt/gov federal é 24h, basta ouvir os radios e ver tv. Até em programas de entretenimento. É coisa de louco!

Mas o governo federal acha que não é necessária uma Lei de Meios, que comunicação pública FEDERAL não é prioridade, que tem que enfiar dinheiro nestas midias vendidas… depois, vão querer que nós saiamos às ruas para defender o “governo trabalhista”.

Então tá.

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    LEANDRO

    27 de junho de 2012 às 09h06

    Então, quando algo der errado e a mídia divulgar, vem a “tal ley de medios” e censura? Como na venezuela e argentina? O presidente do Paraguai foi deposto, o vice assumiu como manda a constituição do país, a vida continua normalmente e nenhum jornal foi proibido de nada…se é na casa do chavez……

LEANDRO

27 de junho de 2012 às 08h11

Olha que o novo herói da esquerda declarou.
“O senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL), ex-presidente da República que deixou o cargo após processo de impeachment, defendeu nesta terça-feira a ação do Congresso do Paraguai que afastou o presidente Fernando Lugo do poder. Collor disse que não houve “quebra da legalidade” nem “golpe de Estado”, uma vez que a Constituição do país vizinho prevê o impeachment aprovado pelo Congresso do país –mesmo com o curto prazo para a sua defesa.”
O Brasil faz papel de bobo indo a reboque de argentina e venezuela que não tem quase nada a perder com o Paraguai. Fora os brasiguaios temos um saldo de US$ 2 bilhões a nosso favor no comércio com o Paraguai.

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Fabio Passos

27 de junho de 2012 às 07h14

Os ianques mantém a América Latina submissa e subdesenvolvida com apoio das oligarquias locais… corruptas, entreguistas e golpistas.

Evidente que é preciso reagir.
O retrocesso político não é bem vindo.

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Jaime

26 de junho de 2012 às 21h04

O que me chama atenção neste momento é o quanto Brasil, Argentina e Uruguai se descuidaram do parceiro Paraguai. Desde 2009 os norte americanos sabiam e manobravam, e no entanto os demais países faziam cara de paisagem. Com um serviço de informações desses não precisa inimigo nenhum.
O outro ponto para o qual Santayana chama atenção é sobre a importância do Congresso. Sem prestar atenção a quem se elege na Câmara e no Senado, nenhum presidente irá prestar e nenhum Judiciário irá prestar, neste caso, porque teoricamente os indicados passam pelo crivo do Parlamento.
O Brasil e o Paraguai são emblemáticos. No Paraguai é gritante a conformação do país como um fazendão e no entanto o povo achou que os proprietários é que iriam representar seus interesses.

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