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Diário da Resistência


Política

Marcos Coimbra: A eleição de 2014 parece resolvida


21/03/2013 - 11h49

Os “amigos” de Eduardo Campos na mídia de direita e nos partidos de oposição querem que ele seja apenas coadjuvante, observa Marcos Coimbra

A eleição de 2014 parece resolvida. Por mais que alguns se aborreçam

por Marcos Coimbra, em CartaCapital

As eleições de 2014 ainda estão, para a vasta maioria da população, a uma distância colossal. Nas pesquisas, só depois de algum esforço, os cidadãos se recordam de que elas ocorrem daqui a um ano e meio.

Enquanto isso, nos meios políticos e na “grande imprensa”, é como se fossem acontecer amanhã.

Será nossa terceira eleição nacional em que o presidente em exercício é candidato. Antes de Dilma Rousseff, Fernando Henrique Cardoso, em 1998, e Lula, em 2006, passaram pela experiência. Ambos tiveram sucesso, de maneiras diferentes.

A que temos no horizonte se assemelha àquela do tucano. Nada indica que Dilma terá de lidar com turbulências tão fortes quanto as que atingiram Lula, seu governo e o PT em 2005 e 2006. Nem o mais exaltado oposicionista imagina que ela venha a enfrentar situação análoga à que seu antecessor viveu nos meses de auge das denúncias do “mensalão”.

Dilma deve disputar seu novo mandato em um momento mais marcado pela normalidade do que pela excepcionalidade: sem crises agudas na economia, na política ou no cotidiano da sociedade. Em 1998, FHC enfrentou uma crise econômica séria, mas não suficientemente séria para impedir sua vitória relativamente tranquila.

Apesar dessa semelhança, é grande o contraste entre o ambiente de opinião que vivíamos em 1997 e o de agora.

A partir de junho daquele ano, quando promulgada a emenda que permitiu a FHC concorrer a um novo mandato, entramos em período de calmaria. O escândalo da compra de votos para aprovar a mudança constitucional havia amainado, a tropa de choque governista impedira a instalação de qualquer Comissão Parlamentar de Inquérito e a Procuradoria-Geral da União, dirigida por alguém escalado para tudo engavetar, mantinha-se inerte. Os ministros da Suprema Corte preferiam se entreter com outras coisas.

Nesse clima de tranquilidade, ninguém se pôs a especular a respeito de nomes e cenários. Dir-se-ia que, uma vez estabelecido que FHC seria candidato, independentemente dos meios utilizados, os comentaristas e analistas ficaram satisfeitos com a perspectiva de que ele viesse a vencer as eleições seguintes. É como se achassem que não era somente natural, mas desejável que o peessedebista permanecesse no Planalto por mais quatro anos.

Um claro sintoma da pasmaceira é que nem sequer se fizeram pesquisas sobre a eleição até o fim de 1997 (ao menos não foram divulgadas). Apenas uma foi publicada, em novembro. Ninguém se mostrava ansioso a respeito de quem tinha condições de ganhá-la.

O jogo havia sido jogado e o PSDB parecia imbatível.

A vantagem de FHC sobre seus oponentes era, no entanto, muito menor do que a de Dilma hoje. Naquela pesquisa de novembro de 1997, realizada pelo Ibope, o tucano obtinha 41%, seguido por Lula, com 16%, e Sarney, com 9%.

Sua liderança permaneceu modesta nos primeiros meses de 1998: em março, segundo o Datafolha, repetiu os 41% (com Lula alcançando 25% e sem Sarney). Caiu a pouco mais de 30% entre abril e junho, e voltou aos 40% daí em diante. Na véspera da eleição, atingiu o pico, com 49%.

Nas muitas pesquisas sobre a próxima eleição feitas ao longo de 2012, Dilma nunca obteve menos que 55% e muitas vezes chegou aos 60%. Mesmo quando se colocaram na lista nomes para fazer barulho, entre eles o de Joaquim Barbosa.

Quem achou, em 1997, que FHC ganharia com seus 40% não errou. Um presidente bem avaliado, em um momento em que o País vai bem (ou parece andar bem), tem tudo para vencer.

De onde, então, tiram os analistas da “grande imprensa” seu ceticismo em relação às chances de reeleição de Dilma? De onde vem seu afã em identificar os “formidáveis adversários” que poderiam derrotá-la?

No momento estão enamorados do governador pernambucano, Eduardo Campos. Devem acreditar que as possibilidades de alguém do bloco governista são maiores que aquelas de oposicionistas genuínos.

Não é isso, todavia, que desejam os vários “amigos” que Campos tem hoje na mídia de direita e nos partidos de oposição. O que querem é que seja um coadjuvante, que tome da presidenta votos à esquerda e no Nordeste, e faça algo para ajudar o candidato do PSDB a suplantá-la.

É verdade que o dinamismo do socialista atrai os que se sentem desconfortáveis com o estado atual da candidatura tucana. Aécio Neves passa por um momento delicado, espremido entre as traições dos serristas e o patético esforço da velha guarda de seu partido em abduzi-lo e mantê-lo sob controle, encarregando-o da inglória missão de defender a “herança de Fernando Henrique”.

Como o lançamento da Rede de Marina Silva deu em nada, resta aos antilulopetistas no momento a ilusão Campos. Falta combinar com ele se pretende ser o porta-voz da direita e se o eleitorado conservador o reconhecerá e se sentirá confortável com ele.

Mas tudo é secundário. Como em 1997, quando a eleição de 1998 parecia definida – e estava mesmo –, a eleição de 2014 tem cara de resolvida. Por mais que alguns se aborreçam.

Leia também:

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A mídia descontrolada: Episódios da luta contra o pensamento único
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Por Laurindo Lalo Leal Filho



22 comentários

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Urbano

22 de março de 2013 às 17h41

Nem por pensamento, o Brasil não pode se arriscar em substituir a Presidenta Dilma por qualquer aventureiro e/ou bandoleiro da oposição ao Brasil.

Responder

    Willian

    22 de março de 2013 às 17h48

    Não há salvação fora do PT.

    Urbano

    22 de março de 2013 às 19h41

    Concordo contigo, Willian. Embora que neste momento do país seja bom, até pela superpopulação de hienas, abutres, corvos, vermes e retrovírus que encharcam a oposição ao Brasil. Mas não pode e não deve ser uma situação pra se estabelecer indefinidamente, pois enfraquece e muito a democracia. Como democracia não se coaduna com banditismo, vamos ver se lá na frente aparece alguém que seja digno, pois no momento não consigo ver um mísero candidato. Além do mais, a preocupação é para 2018, pois para 2014 temos a Presidenta Dilma Rousseff já devidamente garantida. Inda bem, pois haverá tempo para se ajustar algumas coisas, a fim de melhorar bem mais. Espero.
    Valeu Willian, muito obrigado.

Carlos Ribeiro

22 de março de 2013 às 10h14

O que é bom para o PIG, é extremamente ruim para o Brasil!

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kalifa

22 de março de 2013 às 10h12

Será e a Erundina concorda com ele?Seria ele tão presuçoso como o velho getúlio que acreditava dar rasteira na sombra?Se for tudo o que acha ser o Eduardo campos chegará a papa!rsrsrsrsrs

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kalifa

22 de março de 2013 às 10h10

O eduardo empresta seu nome para representar o fhc!Começou bem!rsrsrsrsrs

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João Rizolli

21 de março de 2013 às 22h12

Coimbra faz uma análise muito percuciente, como sempre; quase científica, eu diria, dadas as credenciais do arguto analista. Mas a análise, tal como as pesquisas que a embasam, retrata o momento em que é feita, permitindo-se, claro, a projeção para o futuro.

Porém, a origem, natureza e razão do lastro político dos possíveis candidatos, e, mais importante, a vontade, os objetivos e até os ressentimentos dos verdadeiros mandarins, amparados – quando não representados – pela midia poderosa, que, mais do que nunca, desenlaça poder imenso na eleição nacional, recomenda os cuidados da bem lançada análise de BONIFA (que nos deve sua identidade), feita acima.

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Isidoro Guedes

21 de março de 2013 às 21h29

Marcos Coimbra acerta na mosca. O que a mídia direitista e alguns supostos “aliados” de ocasião do governador querem não é que ele vá para o 2º turno, mas sim que ele provoque uma segunda rodada de votação para evitar que Dilma vença ainda no 1º turno.
Marina e Eduardo Campos podem até ter o apoio da mídia conservadora para esse fim, , mas não tem a confiança dela para além disso. Pela origem partidária e ideológica eles não tem a confiabilidade de um aliado de primeira hora. Por isso eles ainda preferem Aécio, mesmo que o cambaleante candidato tucano não dê mostras de que vá decolar. De qualquer forma eles continuarão inflando o balão aecista até onde der, até onde for possível. Mas se a corda esticar demais e Aécio não der mostras de ir muito longe, eles terão mesmo que se contentar com uma das barrigas de aluguel que estão gestando para provocar esse 2º turno, e a contragosto terão que apoiar ou Marina ou Eduardo.

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sylvio

21 de março de 2013 às 21h28

Como cantava Caetano :
” os olhos da cobra verde

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Fabio Passos

21 de março de 2013 às 20h27

Nao ha como errar: Candidato com apoio e simpatia do PiG nao presta.

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Eudes Hermano Travassos

21 de março de 2013 às 20h08

Eu adoraria que as coisas fossem tão mecanicamente certas assim, mas não gosto deste otimismo com tanto tempo pela frente, não gosto deste otimismo a tanta distância na mesma proporção com que detesto o pessimismo.
Muito embora, sou daqueles que quando a economia está bem nem um grande escândalo sexual muda a situação, acho que otimismo essa hora só reproduz ufanismo e o melhor jeito de tratar a direita é dormindo sempre com um olho aberto pra ela.

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Francisco

21 de março de 2013 às 19h04

O que assombra é que ninguem (ninguem!) se espante com o fato do Partido Socialista (Campos é uma pessoa, uma mera pessoa) saia em contraponto programático ao mandato petista.

Ou poderia criticar o mandato petista por ser moderado no seu “socialismo”, ou poderia critica-lo por ser “radical”.

Ora, mais moderado que o PT é quase impossível! Restaria a Campos, pela lógica, adotar um discurso à esquerda.

Nessa seara o PSB teria muito a colher! É grande o número de petistas, militantes e simpatizantes, prontos a desembarcar de um partido que passeia nas margens do privatismo desavergonhado.

Ai o PSB se daria bem.

Em uma, no máximo duas, campanhas a presidente o PSB racharia o PT de forma tão contundente que o PT passaria à defensiva. A militancia está cansada de arregos e alcovas visando à “governabilidade” (ou “empregabilidade”…).

E o PT deve tanto a seu programa histórico de governo…

Portanto, assim como recomendaria ao DEMO, se não quiser desaparecer, a adotar o nome de Partido Conservador, recomendaria ao Partido Socialista ser… socialista!

Ele consegue? Mesmo que seja para chegar ao poder?

Responder

Bonifa

21 de março de 2013 às 18h01

Em 1997 a vitória do PSDB era certa. Não havia perspectiva alguma de crescimento da oposição, consubstanciada no PT e contida no limite máximo de 30% pela mídia. Todo o desgaste dapesentado naquela época pelo candidato Fernando Henrique não veio de condições objetivas da economia, seguramente disfarçadas sob a artificialidade absurda da paridade com o dólar. O desgaste de FHC teve origens políticas, veio e foi violento, de dentro mesmo de setores do PSDB. A Folha de São Paulo comandou o ataque, brilhante ataque jornalístico, diga–se de passagem, ao esquema criminoso de compra de votos para garantir a reeleição de FHC. Porquê? Porquê a Folha, tucana até à medula, atacava FHC? Por alguma razão moralista? Não. A Folha e outros órgãos da mídia julgavam que a vez de governar seria naturalmente de José Serra, e que a segunda candidatura de FHC era um golpe sujo de infidelidade e uma usurpação ao direito de candidatura que tinha Serra. Foi uma terrível briga interna, dentro da corte tucana, e isso repercutiu em pesquisas contra a pessoa de FHC, mas na verdade todos eles estavam muito seguros de que, escolhido definitivamente o candidato tucano, este contaria com o apoio de toda a mídia e sua vitória seria tranquila.

Hoje aquele cenário não se pode comparar com as condições em que se encontra a candidatura Dilma. Como sabemos, está na origem da doutrina de Max Weber sobre a Democracia Representativa Liberal, a constatação de que, para permanecerem sempre no poder apesar da aparência de democracia, as classes dominantes devem controlar a imprensa e a Justiça. Qualquer governante neoliberal tucano, pode–se observar com facilidade, seja até mesmo um prefeito, desde que autenticamente tucano, sua primeira providência como governante será procurar controlar a imprensa e a justiça local. Enquanto que os governos trabalhistas, ingênuos idealistas de limitações classistas, procuram dar status republicano a estas instâncias institucionais, além da política partidária que termina sempre por envolvê–las. A arrogância que hoje se verifica e sempre se verificará, vinda da direita neoliberal, tem como base sua certeza de que controla a Mídia e a Justiça de todo o país. E com o concurso destes dois elementos, nenhuma candidatura, por mais popular, empreendedora, necessária, transformadora e respeitável que se apresente, nenhuma candidatura poderá estar segura de se apresentar antecipadamente como vitoriosa.

Responder

    FrancoAtirador

    21 de março de 2013 às 22h35

    .
    .
    Avaliação precisa, meu caro Bonifa.

    Tenho que, no quadro pré-eleitoral que ora se apresenta,

    eventual candidatura própria do PSB seria suicídio coletivo.

    É a única forma de PSDB/DEM/PPS irem para o segundo turno.

    Neste caso, Marina teria lugar certo e Dilma ficaria de fora.
    .
    .

    kalifa

    22 de março de 2013 às 10h14

    Marina?Que marina?

    Ronaldo Marques

    22 de março de 2013 às 11h18

    Amigo, de que dimensão paralela você veio? Sim, porque desta realidade você não pertence.

    João Vargas

    22 de março de 2013 às 14h46

    Parece que a receita do Max Weber não funcionou no Brasil. Pois apesar de dominarem a mídia e a justiça as classes dominantes não foram capazes de manterem o governo.

Brasileiro

21 de março de 2013 às 17h48

É bom ouvir, pra variar, alguém que sabe fazer contas.

Responder

Vlad

21 de março de 2013 às 17h11

A patrulha intelectual do establishment critica, ridiculariza e fala tanto no Eduardo Campos que daqui a pouco vou achar que é medo e há alguma razão para isso.

Por via das dúvidas, talvez seja uma boa sugerir que ele transfira o título para São Paulo e candidate-se a governador.

Responder

    Abel

    21 de março de 2013 às 20h39

    Só se for para disputar com Lula. Quem acha que ganha, vampiro brasileiro? ;)

Julio Silveira

21 de março de 2013 às 15h25

Ruim mesmo, com essa perspectiva, é ainda ser obrigado a votar. Pelo menos nisso os States estão a nossa frente. Lá não são obrigados a irem as urnas quando não acreditam no que tem posto como opções.

Responder

Rasec

21 de março de 2013 às 12h13

Esse blog vai ignorar a pesquisa CNI/Ibope?
Será porque ela desdiz mutio da oposição que se tem feito por aqui?
Lástima!

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