Marcelo Zero: Quem é democrata, no plano mundial?

Tempo de leitura: 3 min
Marcelo Zero: ‘’No plano mundial, os verdadeiros faróis da democracia deixam que à luz de todos os países brilhe autonomamente”. Gleisi Hoffmann (@gleisi), em perfil de rede social, mostra isso: ''Encerrei minhas atividades na China em encontro com a ministra adjunta de relações exteriores Hua Chunying ( @SpokespersonCHN). Conversamos sobre as agendas realizadas na semana e a importância de aprofundarmos as relações Brasil-China. Um dos assuntos importantes na pauta foi informar o entendimento dos nossos partidos em avançar na discussão para a cooperação entre o projeto chinês do Cinturão e Rota da Seda com o Programa brasileiro de Aceleração do Crescimento - PAC, propondo as áreas de investimentos e colaboração. Hoje a China é grande parceira comercial do Brasil. Nossas maiores exportações são para o povo chinês e esperamos que os investimentos chineses tenham grande presença no Brasil". Fotos: Reprodução de rede social

Quem é democrata, no plano mundial?

Por Marcelo Zero*

A viagem de uma representação do PT à China, chefiada pela presidenta do partido, Gleisi Hoffmann, vem ocasionando uma série de críticas sem quaisquer fundamentos.

Tais críticas subiram bastante de tom, após a presidenta do partido, ter elogiado, com razão, a experiência econômica, social e política da China das últimas décadas.

Critica-se, sobretudo, o apoio do PT a uma suposta “ditadura”, quando, há pouco tempo, o governo Lula sofreu uma tentativa de golpe Estado.

Bom, em primeiro lugar, as forças que tentaram dar, recentemente, um golpe de Estado no Brasil detestam a China.

Bolsonaro, como se sabe, teve uma relação muito hostil, em relação a Beijing, principalmente na época do chanceler Eduardo Araújo. Chegou-se até mesmo a se acusar o novo coronavírus de ser um “vírus chinês comunista”.

A extrema-direita brasileira, latino-americana e internacional, que é de onde vêm as reais ameaças à democracia brasileira, têm a China como uma grande inimiga.

Portanto, aproximar-se à China não significa aliar-se com quem defende ditaduras no Brasil. É exatamente o contrário.

Em segundo, e esse nos parece o ponto principal, a China, no plano internacional, contribui, ao contrário de outras potências, para o desenvolvimento dos demais países e para a conformação de uma ordem mundial mais simétrica e democrática.

Em que momento histórico a China ameaçou nossa democracia?

Em que ocasião, a China, que se tornou nosso principal parceiro econômico e comercial, tentou impor seu modelo político ou seus valores ao Brasil?

Quando foi que a China tentou evitar que o Brasil mantivesse boas relações com outras nações?

A China, como se sabe, tem uma política externa pragmática, universalista, não-ideologizada e não-intervencionista. Busca, essencialmente, cooperar e fazer comércio com todo o mundo. Exatamente como o Brasil faz.

Ao agir dessa forma, a China contribui para a paz, para o multilateralismo e para a multipolaridade.

Há, contudo, países que não vêm com bons olhos essa grande ascensão da China no cenário mundial e as mudanças geoeconômicas e geopolíticas que acontecem celeremente no quadro internacional.

Os EUA, em particular, enxergam tal ascensão e tais mudanças como ameaças graves aos seus interesses hegemônicos.

A bem da verdade, EUA e alguns aliados querem impor, ao resto do mundo, uma nova Guerra Fria, no contexto da qual, as nações teriam de “escolher” entre seus dois polos antagônicos: o polo das “democracias”, o polo do “Bem”, ou o polo das “autocracias”, o polo do “Mal”.

Essa visão simplória e maniqueísta da nova ordem mundial introduz tensões desnecessárias no planeta, tende a gerar conflitos e erode a consolidação da multipolaridade e de um real multilateralismo.

Mas, mais do que isso, ela representa uma atitude autoritária, antidemocrática e arrogante, que visa a constranger os países que, como o Brasil, não querem se submeter a alinhamentos com ninguém.

Não se pode ser ingênuo, em política externa.

Essa pressão para o alinhamento com o polo do “Bem”, baseada numa caricatura ridícula da complexidade e diversidade do mundo, não provêm, na realidade, de alguma preocupação legítima com a disseminação da democracia pelo planeta.

Como se sabe, EUA e alguns aliados não hesitam em apoiar países com regimes claramente ditatoriais ou autocráticos, desde que eles estejam alinhados com seus interesses.

De outro lado, a história da América Latina demonstra, de forma cabal, que, em várias ocasiões, regimes democráticos foram derrubados, com o apoio dos EUA e de países europeus, porque não se alinhavam com os interesses dominantes no continente.

A hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude.

Por isso, o Brasil de Lula não se submete a essa “escolha” maniqueísta, autoritária e hipócrita.

Entre EUA e Europa, de um lado, e China e Rússia, de outro, o Brasil escolhe o Brasil, país com interesses próprios e independentes, que deseja ter boas relações com todas as nações e que almeja contribuir para a conformação de uma ordem mundial multipolar, multilateral e simétrica, capaz de dar soluções para os graves problemas do planeta, como o aquecimento global, a fome, a pobreza, as desigualdades e as guerras.

Entre o “Bem “e o “Mal”, o Brasil escolhe soberanamente os interesses e os valores ditados por sua democracia; não os interesses de outros, travestidos cinicamente de preocupações democráticas.

Nenhum país pode impor democracia a outros. Se alguns países, em vez de promover cooperação e negociações, se concentram em impor aos outros dilemas maniqueístas e simplórios, então esses países dificilmente podem ser denominados de “faróis da democracia”.

No plano mundial, os verdadeiros faróis da democracia deixam que a luz de todos os países brilhe autonomamente.

*Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais.

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Comentários

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Zé Maria

Excertos e Adendos

Não se pode ser ingênuo em política externa.
[…]
Os EUA, em particular, enxergam a ascensão da China e as
mudanças geoeconômicas e geopolíticas no cenário mundial
como ameaças graves aos seus interesses hegemônicos.

A bem da verdade, EUA e alguns aliados querem impor,
ao ‘resto do mundo’, uma nova Guerra Fria, no contexto da qual,
as nações teriam de ‘escolher’ entre seus dois polos antagônicos:
o polo das ‘democracias, o polo do ‘bem’, ou o polo das ‘autocracias’,
o polo do ‘mal’.

Essa visão simplória e maniqueísta da nova ordem mundial introduz
tensões desnecessárias no planeta, tende a gerar conflitos e erode
a consolidação da multipolaridade e de um real multilateralismo.

Mas, mais do que isso, ela representa uma atitude autoritária, antidemocrática e arrogante, que visa a constranger os países
que, como o Brasil, não querem se submeter a alinhamentos
com ninguém.

Essa pressão para o alinhamento com o polo do ‘bem’, baseada
numa caricatura ridícula da complexidade e diversidade do mundo,
não provêm, na realidade, de alguma preocupação legítima com
a disseminação da democracia pelo planeta.

Como se sabe, EUA e alguns aliados não hesitam em apoiar países
com regimes claramente ditatoriais ou autocráticos, desde que
eles estejam alinhados com seus interesses.

De outro lado, a história da América Latina demonstra, de forma cabal,
que, em várias ocasiões, regimes democráticos foram derrubados
[notadamente por Golpes Militares, como no Brasil, na Argentina
e no Chile, por exemplo], com o apoio dos EUA e de países europeus,
porque não se alinhavam com os interesses dominantes no continente.

“A hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude”.
[Cit. François de La Rochefoucauld]

Por isso, o Brasil de Lula não se submete a essa ‘escolha’ maniqueísta, autoritária e hipócrita[, muito menos o Partido dos Trabalhadores (PT)].

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Zé Maria

A Quadrilha Ultraliberal de Extrema-Direita está elogiando
a Balbúrdia Neofascista Lavajatista Golpista de Junho/2013
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Documentário (Requentado de 2019) na GLOBO play, que
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