Hugo Albuquerque: A tesoura que ameaça os iranianos

Tempo de leitura: 5 min
Foto: Reprodução

A carta aberta de intelectuais sobre prisioneiros políticos iranianos serve, pelo seu contexto, ao cerco e agressão imperialista contra o Irã

Por Hugo Albuquerque*, em A Terra é Redonda

Recentemente, o jornal britânico The Guardian divulgou uma carta aberta de intelectuais, cujo título em português seria Aos presos políticos do Irã, encurralados ‘entre as lâminas de uma tesoura’. O documento se espalhou como um rastilho de pólvora pelo relevo dos signatários, mas por dois em particular: a icônica militante e ex-prisioneira Angela Davis e o ainda prisioneiro Mumia Abu-Jamal.

Em um primeiro momento, nenhum problema em se denunciar a questão prisional do Irã ou de qualquer país, na verdade, o problema reside no que falta e não no que diz a carta aberta. Se o objetivo era fazer uma discussão sobre prisão política de um país cercado por poderosíssimas máquinas de guerra, é necessário fazer um debate mais abrangente e aprofundado, comparando dados.

Ainda que o manifesto problematize, nesse contexto, a agressão americana-israelense – e o bombardeio de uma prisão iraniana nesse contexto –, se o eixo é discutir política prisional aqui, antes é necessário falar pelo menos das três partes envolvidas sob o mesmo critério – qual a natureza da política prisional de cada país envolvido e o que isso quer dizer?

Um peso, uma medida – base da justiça

Em um primeiro momento, a insuspeita ONG britânica World Prision Brief (WPB) anota que os Estados Unidos possuem a maior população aprisionada entre os três, com 542 presos por 100 mil habitantes em dados do final de 2023. Dados mais recentes do Irã falam em 283/100 mil habitantes (2017), mas dados do WPB de 2014 falam de 228/100 mil habitantes – semelhante a Israel, com 217/100 mil habitantes em 2023 pelo WPB.

Ainda que se discuta que a natureza do aprisionamento iraniano é contestável, uma análise da política prisional de Israel mostra que o país tortura prisioneiros palestinos, muitos dos quais foram detidos sem direito de defesa – o que mostra uma seletividade racial sistemática. Em outras palavras, isso não deveria apenas ser uma conversa sobre como Israel bombardeou uma prisão iraniana, mas sobre como ele aprisiona.

O chocante de tudo isso, contudo, é que os Estados Unidos, o menos criticado dos três países em matéria prisional, é aquele que possui a maior taxa de encarceramento. Parte da legitimidade da carta aberta em questão, inclusive, se dá pelo fato de que Mumia Abu-Jamal é um “preso político” desde 1981 – levando em consideração a própria dubiedade do termo, isto é, haveria, em última instância, “preso não político”?

Em outras palavras, quando se pondera algo de um país em emergência extrema, mesmo que se condene a agressão israelense-americana que ele sofre, o fato é que ao criticá-lo por um problema ignorado nos agressores, o efeito retórico é o de normalização do cerco – ou a ideia de que o país agredido não é santo, o que incute colateralmente a ideia de certa legitimidade nos atos imperiais.

Vejamos que o nosso próprio país está na alça de mira do governo americano, e inclusive o Itamaraty admite a hipótese de um ataque americano ao território brasileiro. O que diríamos de uma carta aberta abordando os – verdadeiros e notórios – problemas prisionais brasileiros nesse contexto hipotético? Sim, pois saibamos ou não, nossa taxa de encarceramento é bem superior à taxa do Irã, segundo dados de 2025.

Apoie o VIOMUNDO

Ou lembremos do contexto da Segunda Guerra Mundial, quando a União Soviética era invadida pelos nazistas, se era o caso de discutirmos naquele contexto a problemática repressão daquele país – ou questionarmos o Dia D porque os Estados Unidos de Franklin Roosevelt ainda toleravam a segregação racial. Qual era o nosso foco e por que fomos incondicionalmente contra o nazifascismo então?

Um detalhe não menos importante, contudo, é como a agressão imperialista ao Irã estimula a paranoia no país, fortalecendo setores mais conservadores ao frustrar saídas diplomáticas e, assumidamente, ainda manter operativos de espionagem para mudar de regime no país – conforme admissão pública de David Barnea, chefe da inteligência israelense, acerca das operações dentro do Irã.

Lembremos que o assassinato do aiatolá Ali Khamenei se deu durante negociações oficiais de paz entre as partes, sem haver declaração formal de guerra. O próprio golpe de 1953 contra o premiê Mohammed Mossadegh, lembrado na carta aberta, não foi apenas um fato isolado, mas instaurou uma monarquia absolutista no país – que inclusive planeja voltar ao poder e tem o apoio americano-israelense.

Quem agride, quem resiste

Nada disso produz um salvo-conduto para o Irã a respeito de nada, apenas que as omissões da carta aberta unicamente desfavorecem Teerã e normalizam seus agressores – sendo que a operação psicológica que assimila o choque global ao ataque ao país se dá, precisamente, pela desumanização do seu povo por meio da exotização do seu regime, o que acontece pela falta de comparações certas e dados exatos.

Em certa medida, os absurdos que Donald Trump promove são exarcebações e admissões públicas de muito do que o ideário – e a retórica – liberal-democrata faz há muito tempo, o que reúne doses de xenofobia, orientalismo e anticomunismo – muitas vezes com essas imagens e estereótipos andando juntos e servindo para deslegitimar países cujo objetivo é continuar explorando.

Isso só é possível com uma tomada de lado de setores progressistas acerca do modelo ocidental, e a legitimidade de se impor sobre outros modelos e que, talvez, a única saída seria disputar esse projeto global de Grande Ocidente – mas o que farão os chineses, terão de tomar o inglês como língua materna, ou fazer cirurgias plásticas para mudar seu fenótipo, como não raro ocorre no Extremo Oriente ocupado por bases americanas?

Grande parte do trumpismo só é possível porque ele é a caricatura pornográfica de um sistema normalizado e naturalizado pela própria intelligentsia, cujas boas intenções normalmente são verdadeiras, mas que é incapaz de perceber que os fundamentos críticos acerca do outro valeriam para si mesmos, o que não anula a crítica, mas exige que ela seja ampliada.

Certa vez, o antropólogo russo Alexei Yurchak, criador do termo hipernormalização, respondeu a uma jornalista portuguesa que “não se fala de regime português hoje, pode-se falar do regime de Salazar, mas não de hoje. Não se fala do regime de Barack Obama a não ser que seja ultradireita” – o regime, assim como o inferno, é sempre os outros ou deles.

Ainda que resvale no orientalismo vez ou outra, o comediante Sacha Baron Cohen escancarou isso em O ditador, filme satírico de 2012, na cena do grande discurso do tirano que ele interpreta: ao defender a ditadura em detrimento da democracia para uma plateia americana, ele descreve exatamente o regime americano causando constrangimento e perturbação.

Em outras palavras, o exercício crítico das vanguardas progressistas ocidentalistas – pois não necessariamente são feitas de ocidentais, mas de quem partilha a visão de mundo euro-americana – é ele próprio viciado na inconsciência da hipernormalização dos regimes e até mesmo da dissidência – tolerada – aos regimes imperialistas a ponto de fazer desaparecer a relação entre opressores e oprimidos.

O intelectual e militante indiano Vijay Prashad nos lembra das muitas simetrias falsas na referida carta aberta, principalmente aquela entre “imperialismo e anti-imperialismo”, mas além disso, existe nela a materialização de um exercício de retórica mais complexo, no qual as omissões se sobressaem aos fatos, moldando um argumento legitimador sem qualquer dimensão real.

Qualquer argumento é texto, mas também contexto e pretexto. E é perfeitamente possível mentir dizendo meias-verdades – e talvez as grandes mentiras demandem justamente recortes da verdade, montados da melhor maneira. Shakespeare já nos ensinou isso em Otelo, quando o ódio mortal do protagonista é despertado por testemunhar uma cena fora do contexto e vista do ângulo errado.

*Hugo Albuquerque é advogado e editor da Autonomia Literária.

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo

Leia também

Frente pela Vida entrega nesta sexta ao presidente Lula carta com as diretrizes para as políticas de saúde

Marcelo Zero: A civilização segundo “Buquelinho Atômico”

Carlos Fidelis: Votar no puxador ou só na legenda resolve? 13 pontos para reflexão

Apoie o VIOMUNDO


Siga-nos no


Comentários

Clique aqui para ler e comentar

Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Leia também