Carlos Fidelis: Votar no puxador ou só na legenda resolve? 13 pontos para reflexão
Tempo de leitura: 7 min
Por Carlos Fidelis Ponte*
Há uma questão anterior à discussão sobre puxadores, voto de legenda e distribuição das candidaturas: esta não é uma eleição justa.
Não porque as urnas não sejam confiáveis ou porque os votos não serão corretamente contados, mas porque os cidadãos chegam à urna submetidos a condições profundamente desiguais para se informar, compreender a realidade e formar suas escolhas.
Por isso, antes de perguntar como distribuir melhor os votos que já temos, precisamos enfrentar a questão decisiva: como conquistar os votos que ainda não temos?
A disputa ocorre em um ambiente marcado pela concentração de poder econômico e comunicacional, pelo domínio da extrema direita em parcelas importantes das redes, pela fabricação industrial de mentiras, pela exploração do medo e do ressentimento e, em determinados territórios, pelo poder de coerção do crime organizado.
É nesse terreno desigual que precisamos disputar cada voto. Isso exige estar onde as pessoas estão, compreender suas condições de vida, ouvi-las, disputar interpretações da realidade e construir vínculos de confiança.
Exige também não abandonar questões que preocupam legitimamente a sociedade. Corrupção, segurança pública, violência, família, religião, valores e costumes não podem ser entregues à exploração demagógica.
Não podemos deixar que nossos adversários escolham os temas, definam seus significados e ofereçam sozinhos as respostas. Precisamos disputá-los.
Combater a corrupção exige instituições fortes, transparência e controle público; enfrentar a violência, segurança eficaz, inteligência, prevenção e presença do Estado; proteger as famílias, o emprego, a renda, moradia, educação, saúde e segurança; respeitar valores e convicções religiosas, liberdade, tolerância e dignidade.
É com essa perspectiva que devemos discutir puxadores, voto de legenda, concentração de votos e composição das chapas. Tudo isso importa — e muito —, mas pode nos levar a olhar apenas para dentro, como se o eleitorado fosse um estoque conhecido a ser repartido da forma mais eficiente. Não é.
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Uma eleição não se ganha apenas distribuindo melhor os votos que já temos. Ganha-se, sobretudo, conquistando os votos que ainda não temos.
O desafio é construir uma combinação de candidaturas capaz de preservar quem já está conosco, mobilizar quem está próximo, alcançar novos territórios e segmentos e fortalecer Lula, nossos candidatos a governador, o Senado e as bancadas proporcionais.
Os 13 pontos que seguem partem de uma pergunta simples, mas decisiva: estamos organizando nossas candidaturas apenas para distribuir melhor os votos que já temos ou também para conquistar os que ainda precisamos ter?
1. Estamos discutindo demais como distribuir os votos que já temos
Antes de distribuir os votos que já temos, precisamos descobrir como conquistar os que ainda não temos.
A discussão sobre puxadores, legenda e concentração de votos é importante, mas não pode substituir a questão estratégica fundamental: como ampliar nossa votação?
Precisamos preservar quem confia em nós, mobilizar quem está próximo e conquistar quem ainda não está conosco. A questão é saber que combinação de candidaturas maximiza a votação do partido e da Federação.
2. Voto no puxador, voto no candidato e voto na legenda somam
Para conquistar cadeiras, todos esses votos somam; a diferença está também em como as vagas serão distribuídas internamente.
Nas eleições proporcionais, o voto no puxador, em qualquer outro candidato e na legenda contribui para a votação do partido ou da Federação. O voto nominal também ajuda a definir quem poderá ocupar as cadeiras conquistadas, observadas as regras do sistema proporcional. São duas questões distintas: quantos votos conseguimos somar e como eles se distribuem entre nossas candidaturas.
3. Concentrar votos não significa necessariamente aumentar votos
Concentração pode redistribuir votos que já são nossos sem acrescentar novos votos ao conjunto.
Um puxador é estrategicamente importante quando conquista eleitores que, sem ele, não votariam na Federação. Mas pode também receber votos de quem escolheria outro candidato do mesmo campo. Nesse caso, há sobretudo redistribuição interna, não ampliação da votação. Não basta saber quantos votos uma candidatura tem; precisamos saber quantos efetivamente acrescenta à votação total.
4. Um grande puxador pode continuar crescendo — ou estar próximo do teto
O tamanho atual de uma candidatura não revela necessariamente seu potencial de expansão.
Uma candidatura forte pode continuar conquistando eleitores ou já estar próxima de seu teto, enquanto outra, hoje menor, pode ter maior potencial de crescimento em determinados territórios ou segmentos. Precisamos saber quanto cada candidatura ainda pode crescer, onde e de onde virão esses votos, recorrendo a dados, pesquisas e conhecimento territorial, e não apenas à intuição.
5. Nem todo voto de uma candidatura menor é transferível para o puxador
Retirar uma candidatura não significa transferir seus votos para outra.
Candidaturas territoriais, comunitárias, profissionais, religiosas, corporativas ou apoiadas em redes pessoais — inclusive de perfil mais fisiológico — podem mobilizar eleitores vinculados especificamente àquela liderança. Sem ela, esses votos podem migrar para outra força ou simplesmente deixar de ser dados naquele cargo. Uma candidatura pequena pode, portanto, trazer votos que o puxador não alcançaria.
6. Mas o efeito também funciona no sentido inverso
Uma candidatura pode beneficiar-se da força eleitoral coletiva sem fortalecê-la politicamente na mesma proporção.
Uma candidatura pode trazer votos próprios e, ao mesmo tempo, beneficiar-se dos votos dos puxadores, das demais candidaturas e da legenda. Pode, assim, aproveitar a força coletiva sem acrescentar, na mesma proporção, densidade programática, representação política ou capacidade de mobilização. Somar eleitoralmente não é necessariamente agregar politicamente.
7. Candidaturas que não são puxadoras também mobilizam
Uma candidatura não precisa ser puxadora para acrescentar votos e ampliar nossa presença social e territorial.
Candidaturas menores podem mobilizar territórios, categorias, movimentos, comunidades e redes que os grandes nomes não alcançam. Individualmente podem parecer pequenas; somadas, podem representar parcela importante da votação e conferir ao partido e à Federação maior capilaridade.
8. As candidaturas proporcionais também fortalecem outras campanhas
Uma candidatura proporcional não produz apenas votos para si: pode produzir votos para as majoritárias e para outras proporcionais.
A relação funciona em várias direções. As majoritárias ajudam as proporcionais, mas estas também podem mobilizar votos para Lula, para nossos candidatos a governador e para o Senado, organizar campanhas e ativar redes nos territórios. Podem ainda fortalecer outras candidaturas por meio de dobradinhas baseadas na complementaridade de territórios, segmentos e capacidades de mobilização.
9. A força simbólica também precisa entrar na conta
Votos medem uma dimensão da candidatura; não medem toda a sua capacidade de representação e mobilização.
Trajetórias, causas, territórios, categorias e valores podem produzir identificação e confiança. Uma candidatura pode não ser puxadora e, ainda assim, possuir relevância territorial, capacidade de agregação e forte significado político e simbólico.
10. Cada candidatura precisa ser avaliada pelo que acrescenta — e pelo que eventualmente subtrai
A pergunta decisiva não é quanto uma candidatura vale sozinha, mas qual é seu efeito sobre a chapa.
Precisamos avaliar quantos votos novos acrescenta, quanto ainda pode crescer, que territórios e redes alcança, que força simbólica mobiliza, quanto contribui para outras campanhas e se complementa ou apenas disputa o eleitorado das demais candidaturas. Rejeição, sobreposição e competição interna também entram nessa conta. O que importa é o efeito de cada candidatura sobre o resultado coletivo.
11. O saldo para o conjunto deve ser o critério
O maior candidato não é necessariamente aquele que mais acrescenta ao conjunto.
Um puxador pode ser fundamental porque traz muitos votos novos; uma candidatura média, porque apresenta grande potencial de crescimento; e uma menor, porque alcança eleitores aos quais os grandes nomes não chegam. Inversamente, uma candidatura muito votada pode estar principalmente redistribuindo votos que já seriam nossos. O critério deve ser o saldo eleitoral e político para a chapa e para a Federação.
12. Então, votar no puxador ou só na legenda resolve?
A questão não é escolher entre puxadores, legenda e demais candidaturas, mas encontrar a combinação que maximize a força coletiva.
Todos esses votos somam para o partido ou para a Federação, embora o voto nominal também seja relevante para definir quem ocupará as cadeiras conquistadas. Não se trata de opor concentração e dispersão como se uma delas fosse sempre a estratégia correta, mas de descobrir, com base em evidências, qual combinação permite conquistar mais votos e produzir o melhor resultado coletivo.
13. O que precisamos maximizar
O objetivo é maximizar a votação, a capilaridade, a mobilização e a força política.
Concentrar votos e ampliar votos não são a mesma coisa.
Uma estratégia eficaz precisa combinar eficiência na distribuição com expansão do eleitorado, sem sacrificar capilaridade, capacidade de mobilização e consistência política.
Isso exige pensar menos em candidaturas isoladas e mais em um sistema de candidaturas: como se complementam, que votos acrescentam, que territórios e redes alcançam e como contribuem para Lula, nossos candidatos a governador, o Senado e as demais proporcionais. O objetivo não é apenas conquistar mais cadeiras, mas construir a maior e melhor bancada possível: numericamente forte e politicamente consistente.
Essa estratégia precisa ser permanentemente avaliada. Dados eleitorais, pesquisas, escuta e conhecimento territorial devem mostrar onde estamos crescendo, quem ainda não alcançamos e o que precisamos mudar. Muitos dos que ainda não votam em nós querem emprego, melhores salários, segurança, serviços públicos de qualidade, oportunidades e uma vida melhor para seus filhos. Precisamos ouvi-los, compreender suas preocupações e construir, a partir de suas experiências concretas, caminhos políticos capazes de mudar suas vidas.
O Rio de Janeiro oferece uma advertência que não podemos ignorar. Muitos de seus problemas são anteriores ao bolsonarismo e têm causas e responsabilidades diversas. Mas foi no Rio que Bolsonaro construiu grande parte de sua trajetória política, e o estado se tornou uma das principais bases do bolsonarismo. A experiência fluminense permite, portanto, confrontar discurso e resultado.
Diante de uma retórica que há anos promete segurança, ordem, combate à corrupção e defesa da família e dos valores, cabe perguntar: o que efetivamente melhorou na vida das pessoas?
A persistência da violência, as crises político-institucionais, a expansão do crime organizado e o controle armado de territórios expõem o fracasso dessas respostas para solucionar os problemas que prometiam enfrentar. O Rio não deve ser estigmatizado, mas compreendido como advertência. O Brasil não pode seguir esse caminho.
Os votos que ainda não temos não serão conquistados sozinhos. Precisamos ir buscá-los. Vamos à luta.
Nas redes e nas ruas, nos locais de trabalho e de estudo, nos bairros e nas comunidades, vamos disputar cada voto, conversar, ouvir antes de falar e aprender com quem ainda não está conosco.
Precisamos compreender suas dificuldades, preocupações e esperanças, disputar não apenas as respostas, mas também a maneira de compreender os problemas, combater a mentira sem abandonar o diálogo e mostrar que há caminhos concretos para melhorar a vida.
Cada conversa pode abrir uma porta. Cada candidatura pode ampliar nossa presença. Cada militante pode trazer mais alguém para essa construção.
Por um Brasil democrático, inclusivo, sustentável, pacífico e soberano. Por Lula. Pela democracia. Pela vida. Pelo presente. Pelo futuro que queremos construir.
*Carlos Fidelis Ponte é presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes) e membro do Conselho Nacional de Saúde e pesquisador da Fiocruz.
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo
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