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Gindre: Informação sem contexto pode ser informação nenhuma
Política

Gindre: Informação sem contexto pode ser informação nenhuma


09/08/2013 - 14h51

Mídia Ninja, a crise da Abril e o efeito estufa como critério de desempate na Copa do Mundo

por Gustavo Gindre, em seu ótimo blog

Acompanhei de perto o trabalho que o Mídia Ninja fez nas manifestações de junho/julho no Rio de Janeiro e vi a importância da sua cobertura. Assisti a coragem desses jovens, dispostos a fazer um relato em tempo real das ações violentas de nossa polícia. Como tantos brasileiros, vi inúmeras mentiras oficiais serem desmentidas por reveladoras imagens geradas pelo Mídia Ninja. Também foi fantástico ver como a grande mídia teve sua parcialidade exposta pelo simples contraste com a cobertura em tempo real dos ninjas.

Em grande parte o Mídia Ninja é consequência de dois fatores que se somam para construir a mais radical transformação que se abate sobre a mídia tradicional.

De um lado, o cenário de convergência tecnológica vai tornando a Internet um ambiente multimídia que fagocita as demais mídias. A inerente interatividade da Internet coloca em xeque os modelos unidirecionais da grande mídia. E, ao mesmo tempo, embora não elimine as assimetrias entre grandes grupos econômicos e pequenas experiências colaborativas, a Internet permite que todos possam postar seus próprios conteúdos, ameaçando o oligopólio da grande mídia. Essa parece ser a lição que a bancada do Roda Viva não entendeu.

De outro lado, esse cenário de convergência expôs de uma maneira inevitável os problemas de gestão das empresas familiares que controlam a mídia no Brasil. Com a convergência não é mais possível jogar a sujeira para baixo do tapete e vai ficando cada vez mais evidente que quase todos os grandes grupos de mídia do Brasil estão na bacia das almas, falindo, vendendo patrimônio e diminuindo de tamanho.

É nesse contexto que surgem o Mídia Ninja e diversas outras experiências de mídia colaborativa.

Euforia

Contudo, há que se controlar a euforia. O Mídia Ninja não é a resposta para todos os problemas gerados pelo oligopólio da grande mídia. Eles não são nem mesmo a resposta completa para o desafio de construirmos um jornalismo realmente democrático. Aliás, seria muito injusto cobrar-lhes algo desta envergadura.

Há pelo menos dois grandes desafios que o modelo de jornalismo do Mídia Ninja não consegue responder.

Quando eu ainda ouvia rádio FM, lembro que uma estação jovem do Rio de Janeiro fazia entrevistas na rua com perguntas estapafúrdias como o que o entrevistado achava do efeito estufa como critério de desempate na Copa do Mundo. E as falas postas no ar mostravam pessoas levando a sério aquelas perguntas e buscando oferecer respostas igualmente sérias. Minha hipótese é que o mundo tem ficado cada vez mais complexo, há cada vez mais informação disponível e a grande maioria é totalmente irrelevante. Encontrar sentido nessa barafunda não é tarefa simples.

A grande mídia nasceu e cresceu nos vendendo um serviço de construção de sentido nessa massa crescente de informações. Claro que o sentido que nos vendem traz embutido uma profunda orientação ideológica. Nem poderia ser diferente.

Ora, uma mídia democrática não deveria nos imputar um sentido único para os fatos. Mas, tampouco poderia abrir mão de tentar construir sentidos possíveis. O jornalismo não pode abdicar do seu papel socialmente relevante de construir cenários, analisar contextos, propor alternativas e sugerir nexos causais. E isso a simples cobertura em tempo real não nos fornece.

Muita informação sem contexto pode acabar sendo informação nenhuma.

A grande mídia também cumpriu um importante papel de construir pautas coletivas, que orientassem o debate na sociedade. Novamente, esse serviço vem acoplado com uma visão de mundo conservadora, quando não reacionária. Mas, não devemos jogar o bebê fora junto com a água suja. Essa massa de mídias pode ser muito democrática, mas também pode nos empurrar para um mundo de hiper-fragmentação ou, pior, de segmentação por nichos de mercado. Assim, militantes ambientalistas consomem apenas informações sobre meio-ambiente enquanto fãs do BBB sabem cada vez mais sobre seu reality show favorito e cada um se isola no seu universo informativo. Sem negar a conquista da interatividade e da oferta de informações segmentadas, resta o desafio de saber como construir pautas coletivas a partir de um jornalismo democrático e colaborativo.

Hipocrisia e uma questão para o debate

De uma hora para outra, um bando de jornalistas passou a estar muito preocupado com a origem dos recursos do Mídia Ninja. Esses mesmos jornalistas jamais levantaram sua voz para criticar os empréstimos de pai para filho que sucessivos governos fizeram à grande imprensa brasileira. Ou ao fato da TV Globo ter surgido a partir de dinheiro recebido ilegalmente, vindo da norte-americana Time Life. Ou de como políticos lotearam entre si as outorgas de TV em boa parte do país. Ou ainda à venda de 30% da Abril para o grupo de mídia que deu sustentação ao apartheid sul-africano. Seu obediente silêncio de antes contrasta com o falatório de hoje para demonstrar o tamanho de sua parcialidade em favor de seus patrões.

Por outro lado, há tempos militantes da cultura criticam o Circuito Fora do Eixo (berço do Mídia Ninja) pela suposta contradição entre seu discurso em busca de alternativas para a produção cultural e sua dependência dos mecanismos de renúncia fiscal e dos editais estatais. Esse me parece ser um debate fundamental, não apenas no que se refere ao Fora do Eixo, mas, de uma forma mais ampla, para sermos capazes de entender como o fomento influencia a cultura produzida.

PS do Viomundo: Não acreditamos em informação “neutra”, ou seja, supostamente produzida por venusianos que pairam sobre a sociedade. Como ainda não descobrimos ETs, estamos certos de que cidadãos que produzem informação o fazem a partir de sua formação, classe social, etc. Até aí, morreu Neves. Por outro lado, não temos fetiche pelas novas tecnologias, como se elas fossem mágicas e capazes de produzir alguma transformação. A crença no McBook Pro encantado é muito presente em alguns entusiastas das manifestações de junho. Se não houvesse demanda por informação não filtrada pelo Ali Kamel, poderíamos dar um celular na mão de cada brasileiro Ninja e nada aconteceria. Se não houvesse demandas sociais reprimidas na sociedade brasileira, nem uma chuva de Ipads conectados ao Facebook teria consequências. Em resumo: são os humanos — não a tecnologia, estúpido!

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16 comentários

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Lucila

10 de agosto de 2013 às 16h53

Azenha, podemos nos chatear como pensa a nova geração, mas é a realidade, inclusive orgânica. Recomendo a leitura de mais um relato quilométrico de um ex-Fora do Eixo: https://www.facebook.com/atilioalencar
Também, caso não tenha lido, do livro A Geração Superficial – O que a internet está fazendo com os nossos cérebros, de Nicolas Carr.

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José X.

10 de agosto de 2013 às 15h28

Não estou entendendo nada…

Prá começar, nunca tinha ouvido falar nem de “Mídia Ninja” nem de “Fora do Eixo” antes de aparecerem esses dias no Viomundo.

A única coisa que consegui entender é que esse tal projeto “Fora do Eixo” é polêmico. E que tem dinheiro envolvido…portanto, com certeza tem espertos e otários envolvidos nessa história.

No mais, continua um mistério pra mim toda essa controvérsia.

Quanto ao PS do Viomundo:

“Se não houvesse demandas sociais reprimidas na sociedade brasileira…”

Pelo jeito o Viomundo não conhece um negócio chamado “propaganda”, onde uma mentira é repetida incessantemente até que ela se torna uma verdade.

Ou então “manipulação de massas”, onde “massas” amorfas e/ou anômicas são manipuladas por quem tem o poder da informação.

Estou dizendo isso porque na minha opinião a maioria das pessoas que participaram das recentes jornadas de junho não eram motivadas por “demanda reprimida”, mas por uma lavagem cerebral televisiva que já vem de décadas. Digo isto pelo que vi do tanto de gente desinformada e alienada que foi a favor de tais manifestações.

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Caracol

09 de agosto de 2013 às 19h36

Concordo com o Azenha. Basta ser gerada ou veiculada por um ser humano para que haja contexto na informação.
E vou além: informação sem contexto – se isso fosse possível – ainda assim seria informação SIM. Ao ser humano foi dada suficiente inteligência para analisar informações contextualizadas ou mesmo sem o tal aparente “descontexto”. Reconheço que nem todos fazem uso de inteligência, mas isso é problema do receptor, e não do transmissor.
Exemplo: eu leio a primeira página de O Globo todos os dias. Fazendo-o, não pretendo adquirir informações sobre fatos, mas sim perceber o que é que eles, de O Globo, gostariam que eu acreditasse como sendo os fatos. Evidentemente essa não será – para mim – a fonte pela qual tomo conhecimento dos fatos em si, mas ao menos fico sabendo “o que não foi”, e fico sabendo também o que eles gostariam que “tenha sido”. Num ambiente de hiper-super-mega-macro quantidade de informações sem qualquer pertinência geradas não para informar, mas para desinformar e manter o receptor-leitor numa condição a mais babaca possível, o que eu saco de O Globo já é útil ao extremo.
O pessoal da Mídia Ninja me lembra os hippies da década de 60. Só que esses caras de hoje seguiram as Leis de Darwin e estão usando a tecnologia. Eles devem ter em seu DNA as informações de como o capitalismo os massacrou cruel e perversamente, devem ter em seus cromossomos as informações sobre como, enquanto os massacravam, esses capitalistas ganharam dinheiro com a moda hippie, com a poesia hippie, com a música hippie e etc. hippie.
Eu quero mais é que aqueles jornalistas no Roda Viva com cara de bunda e de pano de chão molhado – querendo saber de onde vem a grana – eu quero mais é que eles se f….
Aprendam a viver sem grana, jornalistas de merda, pois ela está acabando pra vocês.

Responder

Cibele

09 de agosto de 2013 às 19h30

Adorei o PS.

Responder

Felipe

09 de agosto de 2013 às 18h33

“Lukas: Mídia Ninja é parcial?”

O Lukas não leu o texto…

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renato

09 de agosto de 2013 às 18h17

Pablo Capilé e Bruno.
Gostei destes caras.
Um “microfone”, pode ser usado de diversas formas
Eles usaram bem, e vão se aprimorar.
Quem “metia” os microfones na cara da gente antigamente
e era tido como algo fantástico que nos acontecia.
Esta ficando nervoso….
São muitos os microfones.E do outro lado não são mais imbecis.
O mais imbecil nesta história coloca bala dentro da coco cola.

Responder

Cabezon

09 de agosto de 2013 às 17h51

O único comentário realmente relevante nessa discussão é: “Até aí, morreu Neves.” ???? Carvalho, Azenha, quantos anos você tem? Essa é do tempo do onça!

Responder

    Eunice

    10 de agosto de 2013 às 15h30

    O que é relevante?!

    A sua maneira de assimilar acaso é iagual à citada maneira de produzir informação, pelo texto?! Ou seja, de acordo com sua classe?!

Lukas

09 de agosto de 2013 às 16h57

Midia Ninja é parcial?

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