VIOMUNDO

Diário da Resistência


Política

Gerry Epstein: As forças da austeridade estão no comando


19/08/2011 - 18h47

Tradução do coletivo da Vila Vudu, sobre debate a partir de artigo de Nouriel Roubini

da Real News Network

PAUL JAY, editor-chefe, TRNN: Bem-vindos à The Real News Network. Sou Paul Jay, falando de Washington. Ontem e anteontem, muita gente que acompanha temas de economia e inúmeros blogs tem discutido artigo publicado por Nouriel Roubini.

Roubini preside um think tank de pesquisa em New York e é professor da New York University. É frequentemente apresentado como o único especialista que previu o crash de 2008. E é também conhecido como homem que crê nos mercados e no capitalismo. Seja como for, há alguns dias NR escreveu que:

“Tudo isso leva a concluir que, ao que parece, Karl Marx acertou, no mínimo em parte, quando disse que a globalização, a intermediação financeira sem qualquer controle, e a redistribuição de renda e riqueza, do trabalho para o capital, poderia levar o capitalismo à autodestruição (embora, pelo que já se viu, o socialismo não tenha conseguido fazer melhor). As empresas cortam empregos porque não há demanda final suficiente. Mas, com menos empregos, cai a renda do trabalho, aumenta a desigualdade e a demanda final acaba por ficar ainda mais reduzida.

Manifestações populares, do Oriente Médio a Israel e ao Reino Unido – e logo também, sem dúvida, em outras economias avançadas e mercados emergentes – são todas provocadas pelas mesmas questões e tensões: desigualdade crescente, pobreza, desemprego e desesperança. Até as classes médias já sentem, em todo o mundo, que a renda e as oportunidades encolheram.”

JAY: O título do artigo é “Danou-se, então, o capitalismo?”. Hoje, para conversar conosco sobre o artigo e o blog de mesmo título e o estado da economia global, convidamos Gerry Epstein, co-diretor do Instituto PERI em Amherst, Massachusetts. Obrigado por aceitar nosso convite. E então, Gerry? O que lhe parece? O capitalismo acabará por destruir-se, como diz Roubini?

EPSTEIN: Bem, é verdade que nada vai muito bem. Quanto a isso, concordo com Roubini. Ele, evidentemente, usou o nome de Marx para chocar e chamar atenção, e deu certo. Marx, é claro, não foi o único a usar esse tipo de argumento. Mas não há dúvidas de que, sim, a economia global enfrenta problemas seríssimos, alguns dos quais Roubini destaca. Está em curso essa gigantesca deriva, com o poder e a riqueza desertando da classe trabalhadora e das classes médias em muitas partes do mundo, e isso, somado à farra e à crise financeiras, levou a um grave problema de demanda agregada. E não – absolutamente não há instituições, conjunto de instituições ou agentes nos EUA e na Europa e em outras economias capazes e competentes para gastar dinheiro, gastar renda, para fazer reviver a economia. E os únicos grupos com alguma possibilidade de fazer a economia reviver, no ponto a que chegamos desse processo, são governos e bancos centrais. As forças de direita na Europa e aqui, nos EUA, estão fazendo o possível para impedir que o governo e os bancos centrais tirem a economia global da estagnação e da crise em que estamos hoje. Por tudo isso, sim, a situação parece-me gravíssima.

JAY: Mas, nem só a direita… Não sei exatamente o que você define como direita. Quero dizer, se você divide a elite entre liberais neoliberais e conservadores … Que diferença faz, se estão todos embarcados, direita e esquerda, no trem da ‘austeridade’? Há poucas vozes, todas da elite, que falam sobre estímulos e empregos… Nas páginas de finanças que se leem nos jornais, há até gerentes de fundos que dizem o que precisa ser feito. Mas… são poucos e são vozes solitárias.

EPSTEIN: Sim, há bem poucas vozes, e acho bom que gente como Roubini comece a falar mais alto e argumentando contra a tal ‘austeridade’ que nos cerca por todos os lados. O xis da questão, contudo, é que, com a Europa sem querer e sem poder cumprir um papel expansionista, com Obama rendido às forças de Wall Street, e com a direita norte-americana ativa, com o Japão afundado em problemas financeiros e econômicos – e com até a China já reduzindo suas políticas de aumentar a demanda e o crescimento econômico –, o que parece é que em lugar algum da economia mundial há agentes que queiram impulsionar uma política de expandir a economia. Claro que vários pontos, inclusive os EUA e os europeus, poderiam desempenhar essa função, mas todos se recusam a trabalhar para expandir a economia global.

JAY: Veja… Você sabe que Roubini cita Marx, mas a citação não é absolutamente fiel nem completa, porque Marx não… – O que Marx disse nada tinha a ver com desigualdade e distribuição de renda. Se entendi bem, Marx nunca falou sobre crescimento e desenvolvimento, no caso de haver um percentual mínimo de pessoas que de fato comandam toda a economia. Hoje se trata de apenas uns muito poucos que possuem praticamente tudo. E há pouca gente interessada em falar da questão da propriedade, porque, você sabe, a questão é a concentração da propriedade. E todos sabemos o que aconteceu em termos de regulação financeira: o poder político que deriva dessa propriedade torna inócua qualquer política racional que pudesse, talvez, mitigar o que está acontecendo, a crise em que estamos; torna impossível qualquer tentativa.

EPSTEIN: É. Há 1% de muito ricos nos EUA que abarcam praticamente todos os ganhos do crescimento econômico há, pelo menos, 30 anos; abarcaram, acumularam praticamente toda a riqueza que o país produziu e, pela mesma via, abarcaram e acumularam enorme poder político. O que Marx disse é que, quando se tem um sistema comandado por pequeno grupo de capitalistas que empobrece cada vez mais toda a economia, a economia está madura para uma revolução. Infelizmente, o que estamos vendo nos EUA é que essa direita está tirando vantagem do quadro em que vivemos, em boa parte financiada pelos irmãos Koch e outros fabulosamente ricos e apoiada por parte significativa da imprensa. Assim sendo, em vez de os trabalhadores e as classes médias organizarem-se sob programa progressista ou de esquerda, como Marx escreveu que aconteceria, para derrubar o sistema existente, o que estamos vendo é a direita cada vez mais mobilizada e organizada.

Mas Roubini também disse que o socialismo não seria alternativa viável, porque já teria sido testado e não teria funcionado. Isso não é bem assim. Nunca conhecemos socialismo amplo em países ricos como os EUA. E, como Eric Hobsbawm escreveu repetidas vezes, foi a ameaça do socialismo e a ameaça do comunismo considerados como alternativa possível e viável ao sistema capitalista que forçou o capitalismo a reformar-se, quando se reformou e assumiu característica de capitalismo com redistribuição de renda e riquezas.

JAY: Em outras palavras, o New Deal. Você está falando do New Deal e de programas europeus semelhantes.

EPSTEIN: Mas não só durante o New Deal. Vários programas e políticas sociais foram resultado da Guerra Fria e da existência – vista como ameaça – da União Soviética. Hoje… Vivemos provavelmente o primeiro momento, na história do capitalismo, em que, nos grandes países capitalistas, não há qualquer tipo de ameaça real, pela esquerda, contra o capitalismo – embora, claro, partidos de esquerda tenham alcançado poder político considerável em vários países da América Latina e noutros pontos.

Seja como for, entendo que o principal desafio à nossa frente é o que fazer para mobilizar a classe média e os trabalhadores, a partir de um fundamento progressista, para que realmente se oponham e desafiem o sistema em que vivem – necessariamente oprimidos e sacrificados –, como Marx pensava que aconteceria (mas não está acontecendo).

JAY: Permita-me perguntar diretamente: o quanto, em que medida, o momento em que vivemos lhe parece perigoso? Se se lê o que Roubini escreveu, é como se estivéssemos à beira de outro precipício equivalente aos anos 1930s.

EPSTEIN:
O momento parece-me extraordinariamente perigoso, porque acho que vivemos um momento no qual as forças da ‘austeridade’ estão no pleno comando. Nos anos 1930s foi o que aconteceu, exatamente: as forças da ‘austeridade’ assumiram o pleno comando na Europa; e, em 1937, assumiram o pleno comando também nos EUA. Nessa situação, com o déficit pendente sobre a cabeça de todos, mercados financeiros, públicos e privados, não há ‘gás’ para que se possa esperar qualquer tipo de pressão expansionista, pró crescimento, na economia global. Essa é a situação que, sim, obriga a temer a desintegração política, além da desintegração econômica. O perigo, me parece, é muito real.

E a menos que alguns líderes, ou se forem empurrados de baixo para cima, como sugeri, a assumir posição a favor da expansão da economia, da redistribuição de renda e riqueza, do combate à miséria, tirando dos mais ricos para dar aos médios e mais pobres… Só restará ao mundo esperar profunda estagnação econômica ou crise econômica extremamente séria.

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12 comentários

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“Evitar que os cidadãos pensem é uma tarefa permanente da mídia” | Viomundo - O que você não vê na mídia

25 de agosto de 2011 às 12h41

[…] Gerry Epstein: O comando é das forças da austeridade […]

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Samuel Lima: Algumas observações sobre a cobertura da crise | Viomundo - O que você não vê na mídia

22 de agosto de 2011 às 23h44

[…] Gerry Epstein: As forças da austeridade estão no comando   […]

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Augusto

20 de agosto de 2011 às 14h30

só digo uma palavra: Zeitgeist.
Quem não souber o q estou dizendo q pesquise.

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P A U L O P.

20 de agosto de 2011 às 07h35

A saída da crise foi a segunda guerra mundial.

Então estaria em vias de começar a terceira…

Ou 'Elenin-Nibiru' chegaria antes…

FAÇAM SUAS APOSTAS … HEHEHE

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Roger

19 de agosto de 2011 às 22h22

Porque em todas as materias que leio, ninguém fala da armadilha do modelo economico-financeiro atual, de moeda inflável, no qual são os bancos expandem o suprimento monetário criando dinheiro do nada, a partir de demandas de emprestimos/financiamento, e cobram juros por esse dinheiro que "lhes pertence", sem ser seu?

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    francisco.latorre

    20 de agosto de 2011 às 12h43

    por que não falam?..

    ora. porque esse é o ponto.

    dinheiro. virtual. em excesso.

    não tem como ser absorvido. no mundo real.

    o bico da sinuca. é esse.

    farão.. fazem.. tudo. pra evitar essa discussão.

    ..

Roger

19 de agosto de 2011 às 22h08

Porque em todas as materias que leio, ninguém fala da armadilha do modelo economico-financeiro atual, de moeda inflável, no qual são os bancos expandem o suprimento monetário criando dinheiro do nada, a partir de demandas de emprestimos/financiamento, e cobram juros por esse dinheiro que "lhes pertence", sem ser seu?

Em outras palavras, porque a realidade exposta pelos documentários Zeitgeist, de Peter Joseph – inclusive a previsão do Boom iminente do endividamento publico alucinante dos países – nunca é abordada? É como se fosse algo pornográfico (e é!)?

Até as pedras do chão sabem que os países emitem moedas através de seus bancos centrais, emitindo titulos nos quais prevêem pagar não somente o principal, em alguns anos, mas juros escorchantes. É uma bola de neve que iria estourar a qualquer momento – e está estourando! Por enquanto, parece que só a China vai bem (ou menor, "menos mal") nesse quesito. Sua relação dívida/PIB é proporcionalmente a menor do mundo, me parece.

(aliás, um amigo estava comentando comigo que na China não tem – ou quase não teria, não sei – imposto. Por um simples motivo: tudo é do governo mesmo, rssss. Então os lucros das empresas possuidas pelo governo, seriam injetados diretamente no social. Não sei se é verdade…)

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Paulo

19 de agosto de 2011 às 21h34

tempos interessantes… rs

vejo três quadros futuros: fascismo, revolução ou um grupo de direita moderada tentando controlar tanto a população quanto a econômia para que tudo se "resolva" e nada realmente mude, apenas cesse.

ps: eu ainda acredito na utopia, por mim a revolução seria feita, imagine os estados unidos socialista? kkkkkk

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    Hell Back™

    20 de agosto de 2011 às 20h32

    "… imagine os estados unidos socialista? " Pensar nessa possibilidade é o mesmo que Deus fazer as pazes com o demônio. rs

Fabio_Passos

19 de agosto de 2011 às 19h26

A ruína do neoliberalismo é oportunidade de resgate da democracia e construção de um mundo mais justo.

O governo de fato são as oligarquias financeiras.

A esquerda ocidental que optou pela via institucional "democrática" não apenas se nega a enfrentar os interesses das oligarquias financeiras, mas tal qual a direita, está aliada ao regime e é responsável por implementar as políticas neoliberais de privilégios as diminutas minorias ricas e de opressão as classes pobres.

Temos todo este vigor revolucionário das massas pulsando em todo o planeta… e nenhuma força política institucional de esquerda que as represente.

Este vácuo de representação é terreno fértil para o fascismo.

Temos uma oportunidade exepcional de por abaixo este regime asqueroso.
E ao mesmo tempo corremos o risco de sucumbir a tentação totalitária da direita fascista.

Quais as ações concretas que devemos tomar para derrubar o regime capitalista e construir uma democracia verdadeira?

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    Roberto Locatelli

    20 de agosto de 2011 às 11h29

    Assino embaixo, Fabio.

    Sobre a esquerda na América Latina, o que vemos é que ela aceitou administrar o capitalismo. Mesmo líderes como Chávez e Evo Morales não enfrentam a questão central: construir condições para o socialismo.

    Mas, vá lá, pelo menos Chávez e Morales enfatizam a necessidade de organização popular. Outros líderes, como Lula, Dilma, Fernando Lugo (Paraguai) e Ollanta Humala (Peru) sequer cogitam em estimular a organização dos trabalhadores.

Outras Palavras: Sob o governo dos modelos matemáticos | Viomundo - O que você não vê na mídia

19 de agosto de 2011 às 19h03

[…] Gerry Epstein: As forças da austeridade estão no comando   […]

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