Fernando Nogueira da Costa: Trilha Sonora das Gerações 68 à 26 ou do Rádio à Inteligência Artificial

Tempo de leitura: 9 min
Ilustração feita pelo ChatGPT (IA) com instruções de Fernando Nogueira da Costa

Um apólogo sobre música, tecnologia e mudanças de comportamento

Por Fernando Nogueira da Costa*

Na festa de confraternização das gerações, uma semana após aquelas rodadas de caipirinha na comemoração da vitória eleitoral de Lula, alguém sugeriu trocar o debate sobre política por um assunto aparentemente menos polêmico: música.

— Vamos descobrir quem teve a melhor trilha sonora da juventude! — propôs o representante da Geração X.

— Ixxi, começou a competição! — ironizou a jovem da Geração Z, sem tirar os olhos do celular.

O Baby Boomer, o mais velho da mesa, ajeitou os óculos e tomou a palavra:

— No meu tempo, a música chegava pelo rádio! A família se reunia na sala para ouvir Maysa, João Gilberto, Roberto Carlos… Quando tocava Chega de Saudade, todo mundo prestava atenção. Não existia essa história de cada um ficar isolado com fones nos ouvidos!

— Nem todo mundo gostava das mesmas músicas, vovô! — provocou a jovem da Geração Z.

— Mas aprendíamos a conviver com as preferências dos outros! — respondeu ele. — O rádio era nossa praça pública sonora. Milhões de brasileiros ouviam as mesmas músicas, ao mesmo tempo. A programação era coletiva, embora escolhida pelas emissoras.

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O representante da Geração 68, de cabelos grisalhos e camisa estampada com gola e botões, levantou um LP dos Beatles.

— Com todo respeito ao rádio, nossa geração fez uma revolução cultural! O disco de vinil permitiu escolher o desejado de se ouvir. Comprávamos um LP, admirávamos a capa, líamos as letras e escutávamos o álbum inteiro. Depois, discutíamos o significado das músicas.

— E o que vocês ouviam? — perguntou a garota da Geração Alfa, sentada ao lado do pai Millennial.

— Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Elis Regina, Milton Nascimento… Nossa trilha sonora acompanhava a contestação à ditadura militar, a revolução dos costumes e os movimentos pelos direitos civis. Em 1968, Pra Não Dizer que Não Falei das Flores virou um hino político. Nas nossas passeatas, cantávamos:

Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais, braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Caminhando e cantando e seguindo a canção…

O Baby Boomer interrompeu:

— Mas vocês também ouviam músicas românticas! Não venham transformar esta festa em assembleia estudantil!

— Claro! — respondeu o veterano de 68. — Dançávamos ao som de Hey Jude, namorávamos ouvindo The Sound of Silence e sonhávamos com um mundo melhor ao ouvir Imagine. A música era também uma educação sentimental. Mas desabafávamos com o rock heavy metal de Led Zeppelin à toda a altura!

A representante da Geração X, usando uma camiseta da Legião Urbana, tirou da bolsa um antigo Walkman.

— Vocês dois dependiam de ficar perto do rádio ou do toca-discos. Nossa geração conquistou a liberdade de levar a música para qualquer lugar!

— Como assim? — perguntou a menina Alfa.

— Com a fita cassete! Gravávamos músicas do rádio, copiávamos discos compactos emprestados e montávamos nossas próprias seleções. Eu tinha uma fita só com Legião Urbana, Titãs, Paralamas do

Sucesso e Cazuza. Em outra, Madonna, Michael Jackson e U2.

— Isso era uma espécie de playlist? — perguntou a jovem Z.

— Exatamente! Só dava muito mais trabalho. Precisávamos esperar a música tocar no rádio, apertar REC na hora certa e torcer para o locutor não falar em cima!

Todos riram.

— E tinha outra vantagem — continuou a representante X. — Com o Walkman, podíamos caminhar, viajar de ônibus e ouvir nossas músicas preferidas sem incomodar ninguém.

O Baby Boomer resmungou:

— Foi aí quando começou essa mania de cada um viver dentro da própria cabeça!

— Não, foi quando conquistamos a autonomia musical! — rebateu ela. — Antes, o programador do rádio decidia. Depois, o comprador do LP escolhia o álbum. Com a fita cassete, passamos a organizar nossas próprias sequências musicais.

O Millennial, pai da menina Alfa, resolveu entrar na conversa. Tirou da mochila um Discman e um antigo iPod.

— Vocês estão esquecendo a maior transformação: a digitalização! Nossa geração começou comprando CDs, passou a gravar coletâneas e terminou baixando arquivos MP3 da internet.

— E não era pirataria? — provocou o representante de 68.

— Nem sempre via Pirate Bay! — respondeu o Millennial, sorrindo. — Mas a indústria fonográfica realmente perdeu o controle sobre a reprodução doméstica. Antes, precisávamos comprar um disco para possuir suas músicas. Depois, passamos a armazenar milhares de arquivos MP3 no computador.

— Quais eram seus ídolos? — perguntou o Baby Boomer.

— Sandy & Junior, Charlie Brown Jr., Racionais MC’s, Los Hermanos, Tribalistas… E, internacionalmente, Britney Spears, Backstreet Boys, Beyoncé, Coldplay e Rihanna.

A representante da Geração X comentou:

— Vocês trocaram a coleção de discos por uma coleção de arquivos.

— Exatamente! — confirmou o Millennial. — O CD digitalizou a gravação, mas ainda dependia de um objeto físico. O MP3 separou definitivamente a música de seu suporte material. Com o iPod, carregávamos milhares de canções no bolso.

A jovem da Geração Z, finalmente, retirou um dos headphones Bluetooth.

— Desculpem, mas vocês estão discutindo uma pré-história tecnológica! Por qual razão guardar milhares de músicas quando posso acessar milhões instantaneamente?

Mostrou a tela do smartphone.

— Aqui tenho Anitta, Ludmilla, Matuê, Marília Mendonça, Billie Eilish, BTS, Taylor Swift… Tudo disponível a qualquer hora!

— Mas quem escolhe o que você escuta? — perguntou o representante de 68.

— Eu escolho! Ou o algoritmo recomenda alguma coisa conforme meu gosto.

— Ah, então você trocou o programador do rádio pelo programador invisível do algoritmo! — observou o veterano, divertido.

— Não é bem assim! — protestou a jovem. — Posso descobrir músicas novas pelo TikTok, acompanhar artistas, compartilhar trechos, criar playlists e ouvir o que quiser.

— Mas o algoritmo conhece suas preferências porque registra seus hábitos — insistiu o representante de 68. — Ele recomenda músicas, influencia seu gosto e pode até restringir sua descoberta ao que já conhece.

— Também pode ampliar meu repertório! — rebateu ela. — Já descobri músicas antigas graças às recomendações. Inclusive, Tempo Perdido, da Legião Urbana!

Todos os dias quando acordo
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo tempo do mundo

A representante X sorriu, satisfeita.

— Finalmente uma contribuição cultural da minha geração!

O Millennial aproveitou para acrescentar:

— Existe também uma transformação econômica. Nossos avós compravam discos; nossos pais, fitas e CDs. Nós começamos comprando arquivos digitais. Agora, vocês pagam pelo acesso a plataformas. A propriedade dos suportes físicos foi substituída, em grande parte, pela assinatura de serviços.

— E quem ganha dinheiro com isso? — perguntou o Baby Boomer.

— Gravadoras, artistas, editoras musicais, plataformas e outros intermediários das big techs — respondeu o Millennial. — O poder econômico se deslocou parcialmente para quem controla os catálogos, os algoritmos, os dados dos usuários e a distribuição digital.

O representante de 68 comentou:

— Mudaram os meios de produção e distribuição, mas a concentração econômica continua!

— Lá vem você com a Economia Política! — brincou a representante X.

— Ora, a música também é uma mercadoria! — respondeu ele. — Só não podemos esquecer seu valor cultural, afetivo e social.

Até aquele momento, a menina da Geração Alfa permanecera entretida com seu tablet. De repente, levantou os olhos e anunciou:

— Vocês todos estão ultrapassados!

A mesa inteira silenciou.

— Como assim? — perguntou o pai Millennial.

— Vocês precisam procurar músicas feitas por outras pessoas. Eu posso pedir à inteligência artificial para criar uma música especialmente para mim!

A jovem Z arregalou os olhos.

— Você já sabe fazer isso?

— Sei! Posso pedir uma música sobre minha escola, meus amigos, meu cachorro ou esta festa. Posso escolher o ritmo, os instrumentos e o assunto. A IA cria uma composição nova!

O Baby Boomer ficou perplexo.

— Mas quem canta?

— Pode ser uma voz sintetizada!

— E quem toca os instrumentos?

— O computador pode gerar os sons!

— E quem compõe?

— A inteligência artificial gera a música a partir do meu pedido!

O representante de 68 colocou cuidadosamente seu LP sobre a mesa.

— Então você está dizendo que a música poderá deixar de ser uma obra compartilhada por milhões de pessoas para se transformar em um produto personalizado para cada indivíduo?

— Pode acontecer! — respondeu a menina. — Mas também posso compartilhar minha criação com todo mundo!

O Millennial interveio:

— A IA generativa ainda está começando a transformar a produção musical. Sua geração continua ouvindo músicas pelo streaming, pelo YouTube, pelos jogos e pelos vídeos curtos. Mas poderá participar diretamente da criação de novas composições.

— Isso significa que qualquer pessoa poderá se tornar compositora? — perguntou a representante X.

— Poderá participar da criação musical sem necessariamente dominar instrumentos ou técnicas tradicionais de composição — explicou o Millennial. — Mas isso não elimina a importância dos músicos, compositores e intérpretes humanos.

O Baby Boomer coçou a cabeça.

— Estou começando a entender. No meu tempo, o rádio escolhia a música. Depois, vocês compravam discos. A Geração X gravava suas seleções. Os Millennials armazenavam arquivos. A Geração Z acessa catálogos e recebe recomendações. E agora a Alfa poderá pedir uma música inédita!

— Exatamente! — comemorou a menina.

O representante de 68, entretanto, não parecia inteiramente convencido.

— Tenho uma preocupação. Nossa geração compartilhava referências culturais. Quando alguém começava a cantar Apesar de Você, muita gente entendia imediatamente seu significado político. Quando ouvíamos Imagine, compartilhávamos um sonho de paz no mundo. Quando tocava Como Nossos Pais, reconhecíamos nossos conflitos geracionais.

— E daí? — perguntou a jovem Z.

— Se cada pessoa ouvir apenas músicas produzidas conforme suas preferências individuais, o que acontecerá com a experiência cultural coletiva? Como uma geração construirá sua memória musical compartilhada?

A representante X concordou:

— É verdade. Quando toca Tempo Perdido em uma festa, muita gente da minha geração canta junto. Não precisamos combinar nada.

O Millennial acrescentou:

— E quando toca Anna Júlia, quase todos os meus antigos colegas sabem o refrão.

Oh, Anna Júlia
Oh, Anna Júlia
Oh, Anna Júlia
Oh, Anna Júlia, Júlia, Júlia
Uou-uou-uou

A jovem Z respondeu:

— Mas nossa geração também tem músicas compartilhadas! Os sucessos viralizam nas redes sociais. Às vezes, milhões de pessoas aprendem a mesma dança em poucos dias.

— Mas os sucessos parecem durar cada vez menos… — observou o Baby Boomer.

— Nem sempre — ponderou o Millennial. — As plataformas também permitem redescobrir músicas antigas. Uma canção pode atravessar décadas e voltar a fazer sucesso.

A menina Alfa, cansada da discussão, interrompeu:

— Vocês falam demais! Que tal eu pedir à IA uma música para nossa festa?

Todos concordaram.

Ela digitou no tablet:

Crie uma música brasileira bem-humorada sobre seis gerações reunidas em uma festa, cada uma defendendo seu aparelho musical preferido. Misture bossa nova, MPB, rock brasileiro, pop, funk e música eletrônica. O refrão deve celebrar a amizade entre as gerações.

Pouco depois, começou a tocar uma composição inédita.

O Baby Boomer reconheceu uma batida de bossa nova.

O representante de 68 identificou uma passagem inspirada na MPB.

A representante X percebeu uma guitarra de rock.

O Millennial gostou do arranjo pop.

A jovem Z aprovou a batida eletrônica.

A menina Alfa levantou o tablet, triunfante:

— Viram? Uma música para todo mundo!

O representante de 68 sorriu.

— Sua inteligência artificial acabou de demonstrar uma coisa interessante: a inovação não precisa destruir o passado. Pode recombinar experiências culturais acumuladas por diferentes gerações.

O Millennial completou:

— Isso é coevolução cultural e tecnológica! Cada inovação transforma a maneira de produzir, distribuir e consumir música, mas também incorpora elementos das anteriores.

— E a gente continua dançando! — acrescentou a representante X.

O Baby Boomer levantou seu copo de caipirinha.

— Proponho um brinde à música! Com rádio, vinil, fita cassete, CD, streaming ou inteligência artificial!

Todos ergueram os copos.

A menina Alfa levantou seu tablet.

Mas, antes do brinde, o representante de 68 pediu a palavra uma última vez:

— Tenho apenas uma sugestão para sua inteligência artificial.

— Qual, vovô?

— Peça para ela não esquecer uma coisa fundamental: a música pode ser produzida por máquinas, mas seu significado nasce das relações humanas.

A menina pensou por alguns segundos e respondeu:

— Então vou pedir uma nova versão com um refrão melhor!

Digitou rapidamente:

Acrescente à música a seguinte mensagem: cada geração tem seu jeito de ouvir, mas a melhor música é aquela capaz de reunir pessoas diferentes.

O aparelho produziu um novo refrão.

Dessa vez, todos cantaram juntos.

Até o Baby Boomer, embora reclamasse da batida eletrônica.

E o representante de 68, satisfeito, concluiu:

— A tecnologia mudou os aparelhos, os suportes e os mercados. Mas, felizmente, ainda não inventaram uma máquina capaz de substituir a alegria de cantar juntos!

A menina Alfa piscou para o pai:

— Ainda não, vovô… Mas posso perguntar à IA!

Moral do apólogo: Cada geração inventa novas maneiras de produzir, distribuir e ouvir música. Entretanto, nenhuma tecnologia substitui o valor cultural de uma experiência compartilhada. A verdadeira inovação não está apenas em personalizar a trilha sonora de cada indivíduo, mas em ampliar as possibilidades de convivência entre diferentes gerações.

Este apólogo permite uma ilustração bem-humorada de seis gerações (BB, 68, X, Y, Z e Alfa 26) em torno da mesma mesa com cada uma exibindo seu aparelho musical característico até a menina Alfa, com seu tablet de IA, surpreender os demais ao produzir uma música reunindo os estilos de todas as épocas.

Veja a exposição virtual “Do cilindro à nuvem” do Museu da Língua Portuguesa, disponível no Google Arts & Culture (a mostra explora as transformações tecnológicas na reprodução musical, desde os primeiros fonógrafos até os atuais serviços de streaming, evidenciando como essas inovações tornaram a música acessível a diferentes públicos e consolidaram sua importância cultural):

https://acervo.museudalinguaportuguesa.org.br/exposicoes/virtuais/8520/do-cilindro-a-nuvem?utm_source=chatgpt.com

Escute a playlist Trilha Sonora das Gerações no Spofify:

Outra dica é o Selo Sesc (apresenta, através de seu catálogo, a amplitude da música brasileira com um olhar atento para produções contemporâneas e para a história da música no país, com o diálogo entre inovação e memória cultural): https://www.sescsp.org.br/selo-sesc/

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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