Fernando Nogueira da Costa: Apólogo V — A Geração Alfa e o Bastão da Democracia
Tempo de leitura: 5 min
Do presente ao futuro — depois de 2026
Por Fernando Nogueira da Costa*
Em um bar, na Avenida Paulista tomada por uma multidão vestida de vermelho, empunhando bandeiras brasileiras e cartazes em defesa da democracia e da reeleição de Lula, um ex-professor encontra com ex-alunos de diversas gerações.
A noite avançava na Avenida Paulista. A manifestação havia terminado, mas ainda passavam pequenos grupos cantando e carregando bandeiras.
O garçom perguntou:
— Mais uma rodada?
O professor respondeu:
— A última! Afinal, precisamos preservar recursos para as próximas gerações!
O Millennial aproveitou a deixa.
— Professor, minha filha nasceu em 2015. Pertence à Geração Alfa, o termo usado para descrever as crianças nascidas a partir de 2010 até cerca de 2025, sucedendo a Geração Z. A letra “alfa” é a primeira do alfabeto grego e foi escolhida porque este é o primeiro grupo nascido inteiramente no século XXI e no terceiro milênio.
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— Então ela será uma das herdeiras dessa longa história.
— Ela já conversa com assistentes virtuais, usa aplicativos educacionais e aprende com vídeos. Às vezes parece saber mais tecnologia do que eu.
A Z brincou:
— É a primeira geração capaz de ensinar os pais a usar o celular antes de aprender a escrever!
O X comentou:
— Mas essas crianças terão emprego quando crescerem? Robôs e inteligência artificial poderão substituir muitas atividades.
O professor refletiu:
— O futuro do trabalho dependerá não apenas das tecnologias, mas das instituições econômicas e políticas. A automação poderá aumentar a produtividade e reduzir jornadas, ou concentrar riqueza e ampliar a precariedade.
— Quem decidirá isso? — perguntou o Millennial.
— A sociedade, por meio de conflitos, negociações, escolhas coletivas e decisões políticas. Tecnologia não determina sozinha a distribuição de seus benefícios.
A Z consultou o celular e acrescentou:
— A Geração Alfa também enfrentará mudanças climáticas, envelhecimento populacional e novas disputas geopolíticas.
— E talvez precise construir instituições internacionais mais cooperativas. Problemas globais exigem soluções coordenadas, embora os interesses nacionais continuem divergentes.
O X perguntou:
— Professor, depois de tantas crises, o senhor ainda acredita no progresso?
— Acredito na possibilidade de progresso, não em sua inevitabilidade. A História não é uma escada rolante levando automaticamente a humanidade para cima.
— Então pode haver retrocessos?
— Evidentemente. Vejam nossa trajetória. A Geração 68 enfrentou a ditadura. A Geração X ajudou a consolidar a redemocratização. A Geração Y conheceu avanços de inclusão social e crises políticas. A Geração Z enfrentou ameaças autoritárias, pandemia e desinformação digital. A Geração Alfa herdará tanto nossas conquistas quanto nossos problemas não resolvidos.
O Millennial perguntou:
— Qual é a principal lição de tudo isso?
O professor pensou por alguns segundos.
— Nenhuma geração salva sozinha a democracia. Ela depende da cooperação entre pessoas com experiências, valores e interesses diferentes.
O X observou:
— Mas a política também é conflito.
— Naturalmente! Democracia não significa ausência de conflito. Significa criar regras e instituições capazes de transformar antagonismos em disputas pacíficas, negociações e decisões legítimas.
A Z perguntou:
— E se os adversários não aceitarem essas regras?
— As instituições precisam proteger a ordem constitucional. Mas a resposta democrática também exige enfrentar as condições sociais e políticas alimentadoras do autoritarismo: desigualdade, insegurança, ressentimento, desinformação e descrédito nas instituições.
O Millennial comentou:
— Então, defender a democracia não é apenas votar a cada quatro anos…
— Exatamente! É defender a liberdade de expressão, a pluralidade política, a imprensa livre, a educação pública, os direitos sociais, a independência dos Poderes e a legitimidade das eleições.
— E aceitar perder uma eleição? — perguntou o X.
— Sobretudo isso! Quem só aceita a democracia quando vence não é democrata: é neofascista candidato a dono do país!
Todos riram.
A Z fez uma última pergunta:
— Professor, sua geração não deveria simplesmente passar o bastão e descansar?
O velho professor olhou para os ex-alunos.
— Passar o bastão, sim. Abandonar a corrida, não!
— Mas o senhor já tem 75 anos!
— E daí? A democracia não estabelece aposentadoria compulsória para cidadãos!
O Millennial mostrou no celular uma fotografia da filha, de onze anos, segurando um pequeno cartaz feito para uma atividade escolar.
Nele estava escrito: “Democracia é quando todo mundo pode falar e ninguém manda sozinho.”
O professor sorriu.
— Essa menina conseguiu resumir em uma frase aquilo explicado em livros inteiros de cientistas políticos!
O X levantou seu copo:
— À Geração 68, por ter enfrentado a ditadura!
O Millennial acrescentou:
— À Geração X, por ter aprendido a viver somente na democracia!
A Z continuou:
— À Geração Y, por ter lutado por inclusão social!
O professor corrigiu, brincando:
— E à Geração Z, porque terá de impedir os algoritmos de elegerem presidentes sozinhos!
Todos brindaram.
— E à Geração Alfa! — completou o pai. — Para ela receber um país mais democrático, justo e sustentável! E o manter desse modo!
O garçom chegou com a conta.
O professor examinou o valor, arregalou os olhos e exclamou:
— Meu Deus! A inflação das caipirinhas ameaça minha aposentadoria!
O X sugeriu dividir a despesa.
O Millennial propôs um sistema progressivo de contribuição segundo a renda.
A Z quis pagar com Pix.
E o professor encerrou:
— Está vendo? Cinco gerações, quatro propostas e um problema coletivo. A democracia começa justamente quando precisamos decidir juntos quem paga a conta!
Moral da estória: A democracia é uma herança sem escritura definitiva.
Ao longo de oito décadas, as gerações brasileiras experimentaram diferentes configurações do mesmo sistema político, econômico e social.
A Geração 68 aprendeu, sob a ditadura, a liberdade poder ser retirada pela força.
A Geração X descobriu, durante a redemocratização, o fato de recuperar direitos políticos não resolver automaticamente as desigualdades econômicas.
A Geração Y vivenciou a ampliação das oportunidades sociais, mas também sua vulnerabilidade diante das crises.
A Geração Z compreendeu a democracia continuar sendo ameaçada não apenas por tanques nas ruas, mas também pela desinformação, pela intolerância e pela mobilização autoritária nas redes digitais.
A Geração Alfa enfrentará um desafio ainda mais complexo: preservar a liberdade política em sociedades transformadas pela inteligência artificial, pela automação, pela crise climática e pelas mudanças demográficas.
A experiência histórica dessas gerações demonstra a democracia não ser um estado de equilíbrio alcançado definitivamente, mas um processo dinâmico de construção coletiva. Sua sobrevivência depende da interação entre instituições, movimentos sociais, partidos políticos, cidadãos, tecnologias e condições materiais de existência.
A principal herança da Geração 68 não é uma ideologia pronta, nem um conjunto de respostas definitivas. É a consciência de nenhuma conquista histórica estar garantida para sempre.
O professor, antes de deixar o Bar Prainha Paulista, resumiu essa experiência aos antigos alunos:
— Na juventude, lutamos pelo direito de escolher nossos governantes. Na maturidade, lutamos para ampliar os direitos sociais. Na velhice, continuamos lutando para impedir os nossos filhos e netos perderem essas conquistas. Aprendemos a democracia não ser propriedade de uma geração, de um partido ou de um governante. É uma construção histórica coletiva.
E concluiu:
— O bastão da democracia não se passa para os mais velhos pararem de correr. Passa-se para os mais jovens poderem correr até mais longe, sem precisar voltar ao ponto de partida.
Naquela noite, ninguém saiu do bar convencido de ter encontrado a solução definitiva para os problemas brasileiros. Mas todos saíram convencidos de algo mais importante: enquanto diferentes gerações puderem conversar, discordar, aprender umas com as outras e decidir coletivamente seu futuro, a democracia continuará tendo defensores.
E, de preferência, com caipirinhas pagas pela geração mais antiga — enquanto a Previdência Social mais a Complementar permitir!
Amanhã, 03/11, Apólogo VI: Trilha Sonora das Gerações Meia-Oito à Dois-Meia ou
do Rádio à Inteligência Artificial
*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.




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