Por Marcelo Zero*
A direita “civilizada”, realmente democrática, foi extinta após o golpe contra a presidente Dilma e a enxurrada ideológica do lavatismo e do antipetismo de matiz fascistoide.
Na ânsia obsessiva de “destruir o PT”, as oligarquias destruíram a democracia e a política, criando uma onda política extremamente reacionária que acabou por levar ao poder Jair Bolsonaro, o miliciano fascista, que passou a exercer hegemonia absoluta sobre a direita brasileira.
A direita tradicional foi simplesmente varrida do mapa político brasileiro. Os civilizados de verdade que sobraram acabaram aderindo ao campo liderado pelo PT e seus aliados.
Do outro lado, só temos extrema direita da pior espécie. E ela se divide entre bolsonaristas assumidos e bolsonaristas disfarçados de “moderados”, que só enganam os incautos e aqueles que querem ser enganados.
Flávio não é e nunca foi “moderado”, assim como Tarcísio, Caiado, Zema, Michelle etc. não são e nunca serão “moderados, “civilizados” e “democráticos”.
A democracia e a “civilização” simplesmente não estão no DNA bolsonarista.
As nossas oligarquias e a grande imprensa, nessas eleições, tentaram enganar a população com uma suposta candidatura palatável e confiável.
Mas a maioria do povo reagiu no segundo turno e não caiu no engodo montado para destruir os direitos da população, entregar o Brasil e corroer as instituições democráticas.
Agora, hipócritas e cínicas, deserdadas pelo fujão que elas sabiam ser um raso criminoso, fingem que foram enganadas. Não sabiam de nada, coitadas!
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A hipocrisia, como dizia La Rochefoucauld, é a homenagem que o vício presta à virtude.
A história registará as “homenagens”. Mas não esquecerá a traição à soberania nacional, aos direitos dos mais necessitados e à democracia. Também não serão facilmente olvidados a fuga vergonhosa e o abandono do país.
Não há polarização em nosso país
Já tinha escrito sobre isso. Porém, sou obrigado a reafirmar algo evidente. Uma polarização, por óbvio, implica a existência de dois polos extremados, normalmente um da extrema direita e um de esquerda extremada e rígida.
Ora, desde quando o campo de Lula é um campo de uma extrema esquerda rígida e agressiva?
Isso é puro delírio ideológico, totalmente desconectado da realidade.
Só há um polo extremado, que é, evidente, o polo do fascismo, da extrema direita.
Os governos Lula sempre foram governos de coalização, que governaram conciliando interesses e forças políticas diversificadas. Nesse sentido, esses governos, especialmente este último, foram uma segunda via, uma via progressista e moderada que serviu e serve de contenção à via destrutiva da extrema direita. O que se chama de “terceira via”, a via dos moderados e conciliadores, sempre foi a via de Lula.
Não haverá terceiro turno
A agenda política e econômica aprovada nas urnas não é a agenda negociada pelo fujão Bolsonaro com o “mercado”.
Mesmo assim, as oligarquias pressionam fortemente para que Lula promova um ajuste fiscal fortemente regressivo, centrado no corte nas políticas públicas que beneficiam os mais necessitados. Um “tesouraço” a lá Milei. Só falta imporem a equipe do seu agrado.
Ademais, nossas oligarquias e o establishment ortodoxo pretendem vetar quaisquer debates, mesmo os de nível elevado e cuidadosos, sobre formas de redução das absurdas taxas de juros, que tendem a inviabilizar ajustes fiscais moderados, racionais e não traumáticos, e de eventuais e bem estudadas medidas complementares, como o de um controle mínimo e cauteloso sobre a conta de capitais, principalmente em casos de descontrole cambial.
Derrotados e vitoriosos não podem impor anátemas, em circunstâncias tão decisivas e complexas. Sabemos, como dizia Aristófanes, que não há nada mais covarde que o dinheiro (riqueza), mas não se pode interditar, a priori, necessários e enriquecedores debates democráticos.
O medo é o pior conselheiro.
Lembro, a esse respeito, que o Congresso Nacional do Brasil rejeitou, na década de 1990 e no início deste século, os acordos bilaterais de promoção e proteção recíproca de investimentos, firmados nos moldes da OCDE, entre outros motivos porque tais instrumentos bilaterais impediam o país de exercer restrições à saída de capitais.
No primeiro governo Lula, criamos um outro modelo de proteção de investimentos, sem essa e outras cláusulas lesivas à soberania nacional.
A governabilidade terá de extrapolar o presidencialismo de coalizão
Nas atuais circunstâncias, com um congresso de nível muito baixo e conservador, eleito no primeiro turno em meio à névoa política da crise do STF, sem um debate sobre as propostas e os rumos do país, o governo Lula precisará de instrumentos adicionais, para além das negociações da formação do presidencialismo de coalizão.
A mobilização popular terá de ser constante e intensa.
O governo terá de ser do povo, para o povo e, sobretudo, pelo povo.
*Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo
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