Fernando Nogueira da Costa: Apólogo IV — O Nativo Digital e a Democracia sob Ataque

Tempo de leitura: 4 min
Ilustração feita pelo ChatGPT (IA) com instruções de Fernando Nogueira da Costa

 Da polarização à inteligência artificial — 2016-2026

Por Fernando Nogueira da Costa*

Em um bar, na Avenida Paulista tomada por uma multidão vestida de vermelho, empunhando bandeiras brasileiras e cartazes em defesa da democracia e da reeleição de Lula, um ex-professor encontra com ex-alunos de diversas gerações.

A ex-aluna da Geração Z, nascida em 2001, estava inquieta. Consultava sem celular incessantemente.

— Professor, minha geração cresceu ouvindo falar na crise do mundo. Crise econômica, crise política, crise climática, pandemia, guerras… Até parece termos nascido durante uma liquidação de catástrofes!

— Vocês receberam um mundo hiperconectado, mas não necessariamente mais compreensível.

— Em 2018, vi Lula ser preso pelo lawfare, em uma guerra jurídica por motivação político-partidária, e Bolsonaro ser eleito presidente. A política parecia ser uma guerra de fake news nas redes sociais.

— A comunicação política mudou profundamente. As plataformas digitais permitiram mobilizações rápidas, mas também favoreceram a disseminação de desinformação, ataques pessoais e discursos extremistas.

— E muitos passaram a acreditar mais em influenciadores em lugar de professores, jornalistas ou cientistas.

— A autoridade do conhecimento foi desafiada por uma “economia da atenção”. Quanto mais indignação uma mensagem provoca, maior pode ser sua circulação.

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O Millennial comentou:

— Antigamente, pelo menos, era preciso ler uma notícia inteira para ficar indignado.

— Hoje basta o título! — completou o X.

O professor riu.

— E às vezes nem isso. Basta uma imagem fora de contexto!

A Z prosseguiu:

— Depois veio a pandemia. Estudei pela internet, perdi contato presencial com amigos e acompanhei diariamente notícias sobre mortes à distância.

O professor ficou sério.

— A pandemia de Covid-19 mostrou a importância da ciência, do SUS, das universidades públicas e da coordenação governamental. Também revelou desigualdades profundas: alguns podiam trabalhar em casa via home office; outros precisavam sair para garantir a sobrevivência.

— E houve disputas políticas até sobre vacinas.

— Quando a saúde pública se transforma em guerra ideológica, a sociedade paga um preço elevado pelo negacionismo científico dos ignorantes de extrema-direita.

A jovem continuou:

— Também acompanhamos o movimento Black Lives Matter, as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, os incêndios florestais, as enchentes e a emergência climática.

— Vocês aprenderam os problemas nacionais estarem conectados a sistemas globais. Clima, energia, tecnologia, finanças, migrações e geopolítica não respeitam fronteiras.

— Em 2022, acompanhei a eleição de Lula contra Bolsonaro. Depois, em 8 de janeiro de 2023, vi ao vivo a invasão e o quebra-quebra das sedes dos Três Poderes em Brasília.

— Aqueles ataques demonstraram o neofascismo de movimentos dispostos a contestar violentamente o resultado eleitoral e as instituições democráticas.

— Minha geração não viveu a ditadura militar. Mas viu pessoas defendendo sua volta…

— Por essa dependência de trajetória, a memória histórica importa. Quem não conhece o custo da perda das liberdades civis pode ser seduzido por promessas autoritárias de ordem e segurança.

A Z perguntou:

— E a reação institucional?

— A responsabilização de envolvidos em atos antidemocráticos foi necessária, respeitados o devido processo legal, a individualização das condutas e o direito de defesa. A democracia não pode ser indefesa, mas também não pode abandonar seus próprios princípios.

A jovem assentiu: — Sem anistia!

— Em 2024, as enchentes no Rio Grande do Sul mostraram outra face das redes sociais: mobilização solidária, arrecadações e voluntariado.

— Excelente observação! A mesma tecnologia capaz de espalhar mentiras também pode coordenar ações coletivas de enorme valor social. Seus resultados dependem das instituições, dos incentivos e das escolhas humanas.

— E agora temos inteligência artificial generativa. Alguns colegas temem perder o emprego.

O professor apontou para o próprio celular.

— Eu a utilizo para pesquisar, comparar argumentos e elaborar textos. Dou todas as instruções para ela executar. Quem é criativa é a inteligência humana. Apesar da IA ser uma ferramenta capaz de produzir respostas convincentes não substitui o pensamento crítico.

— O senhor não teme ser substituído por uma inteligência artificial?

— Só se ela aprender a dar aula, escrever livros, contar piadas inteligentes sem graça e pagar caipirinhas para ex-alunos!

Todos riram. O garçom, passando pela mesa, interrompeu:

— Professor, até agora a inteligência artificial não pagou nenhuma conta aqui!

— Está vendo? Ainda há vantagens competitivas na inteligência humana!

A Z voltou ao assunto político.

— Em 2026, a disputa eleitoral foi intensa. A democracia brasileira parece estar sempre sendo testada.

— Porque a democracia não é uma máquina funcionando automaticamente. É um sistema complexo, sustentado por instituições, confiança social, participação cidadã e aceitação das regras comuns.

— Então o desafio da minha geração é defender a democracia também no ambiente digital?

— Exatamente. Aprender a distinguir informação de manipulação, discordância de intolerância, oposição legítima de ataques à ordem constitucional.

A Z levantou o copo.

— Nossa geração pode ser chamada de viciada em telas, mas não queremos viver presos a algoritmos.

— Ótimo! — respondeu o professor. — A liberdade começa quando aprendemos a questionar aquilo que tentam nos fazer acreditar.

Moral da estória: A tecnologia amplia tanto as possibilidades de cooperação democrática quanto os riscos de manipulação autoritária. A defesa da democracia exige memória histórica, educação crítica, responsabilidade digital e respeito às instituições.

Amanhã, 02/11, Apólogo V: A Geração Alfa e o Bastão da Democracia

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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