VIOMUNDO

Diário da Resistência


Política

Emir Sader: As raízes da crise egípcia


17/08/2013 - 11h16

por Emir Sader, em seu blog

A chamada “primavera árabe” foi, de forma afoita, chamada por alguns de uma revolução. Foi muito importante, principalmente porque quebrou um eixo fundamental da política dos EUA para a região – a ditadura de Mubarak. Não por acaso o país ocupa o segundo lugar na lista de receptores de apoio militar dos EUA, só superado por Israel.

Mas como fenômeno político, foi a vitória de uma luta antiditatorial. Permitiu que novas forças laicas aparecessem, somadas à força mais tradicional da oposição à ditadura – os islâmicos, organizados na Irmandade Muçulmana.

As eleições tiveram o triunfo dos islâmicos, que derrotaram, por estreita margem, no segundo turno, um candidato ligado à ditadura do Mubarak. Eleito Morsi, foi convocada uma Assembleia Constituinte, com maioria islâmica, mas um peso importante das novas forças laicas.

O erro mais grave de Morsi foi permitir que fosse elaborada e aprovada uma Constituição conforme os valores islâmicos, que impõe esses seus valores ao conjunto da sociedade, dividida entre forças islâmicas e laicas. Somada à crise econômica – que promoveu uma forte pressão do FMI para a aceitação de um empréstimo, com a correspondente Carta de Intenções, que Morsi rejeitou, consciente do que significaria para o país, mas sem elaborar alternativas – o Egito se viu envolvido em nova onda de mobilizações, agora contra sua administração.

Sucederam-se as mobilizações gigantescas, dos dois lados, a favor e contra o governo, numa situação de empate político. Que foi desempatado pela ação do Exército, que tinha sobrevivido incólume ao fim da ditadura e agiu para derrubar o governo do Morsi.

Um golpe militar, mesmo se com apoio popular. Setores que haviam se mobilizado saudaram o golpe, acreditando que poderiam derrotar os islâmicos e acercar-se ao poder.

Mas a capacidade de resistência dos islâmicos terminou rapidamente com essa ilusão. A repressão militar não se fez tardar e a polarização entre o Exército e a Irmandade Muçulmana se impôs.

Os EUA, incomodados, porque têm no Exército seu principal aliado – por isso Obama não pode usar a palavra golpe, porque estaria obrigado a suspender os auxílios militares ao Exército – não podem aparecer publicamente apoiando a interrupção de um processo democrático, mas tampouco podem condenar o regime.

O pior dos mundos se impôs: militarização do país – com o estado de sítio e a nomeação de governadores ligados ao militares nas províncias – e resistência dos islâmicos, com os setores laicos deslocados.

A primavera egípcia desembocou neste outono.

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10 comentários

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Mauro Assis

20 de agosto de 2013 às 14h32

“O erro mais grave de Morsi foi permitir que fosse elaborada e aprovada uma Constituição conforme os valores islâmicos”… professor, o Morsi foi eleito PARA ELABORAR essa carta.A Irmandade Muçulmana elege a maioria dos parlamentares, não importa quantas eleições forem feitas no Egito, e eles não tem o menor compromisso com a democracia. Esse é o nó.

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FrancoAtirador

18 de agosto de 2013 às 17h27

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MÍDIA BANDIDA OCIDENTAL MINIMIZA

ATENTADOS AOS DIREITOS HUMANOS NO EGITO

Egito: Irmandade manterá protestos nesta semana

Depois de uma semana com brutal repressão militar contra os apoiadores de Mohamed Morsi no Cairo, a Irmandade Mulçumana prometeu manter os protestos, mas de forma pacífica.
Manifestações contra governo egípcio chegam a outros países, como Turquia e Paquistão.

Esquerda.net, via Carta Maior

O balanço de vítimas mortais dos protestos de sexta-feira (16) ainda está sendo apurado, mas informações recolhidas pelas agências de notícias internacionais apontam para mais de 60 pessoas mortas, em sua maioria metralhadas pela polícia e pelo exército.

A “Sexta-feira de Raiva”, como era chamada, foi convocada pela Irmandade Muçulmana após o massacre da manifestação da véspera e partiu de várias mesquitas do Cairo após a oração do meio dia.

Os manifestantes foram recebidos com balas e as cenas de batalha campal sucederam-se nas ruas da capital, ocupadas por militares e policiais, com ordens para atirar pelo segundo dia consecutivo. Centenas de manifestantes foram presos sob os efeitos do estado de emergência decretado pelo atual governo.

Na sexta-feira à noite, a Irmandade Muçulmana apelou à continuidade dos protestos diários em todo o país, sublinhando que deverão ocorrer pacificamente até ao recuo do regime instaurado após o golpe que depôs o presidente Mohamed Morsi no mês passado.

As manifestações estenderam-se a cidades como Alexandria, Ismailia, Beni Soueif, Fayoum e Hourghada. E o protesto contra o massacre da véspera atravessou fronteiras, com milhares de pessoas em Istambul e Karachi, as cidades mais populosas da Turquia e do Paquistão, e centenas em Amã e Cartum.

Do lado do governo, é bem visível a radicalização e endurecimento do discurso, com os seus porta-vozes denunciando o “plano terrorista” em marcha por parte da Irmandade Muçulmana, um discurso que recolheu apoio entusiasta por parte da monarquia saudita e dos Emirados Árabes Unidos.

À demissão do vice-presidente El Baradei, que representava a ala liberal do golpe militar anti-Morsi, juntou-se Khaled Dawoud, um dos porta-vozes da Frente de Salvação Nacional que tomou o governo após o golpe, justificando a saída com a ausência de condenação do massacre do Cairo por parte do grupo que chegou ao governo.

Não se sabe se a Irmandade conseguirá fazer o que prometeu e manter protestos pacíficos. Diante da repressão do governo, a resposta de alguns grupos tem sido igualmente violenta. Nos últimos dias, houve vários ataques a barricadas militares e oficiais, a edifícios públicos e igrejas cristãs coptas, cujos fiéis são vistos como apoiadores do golpe que depôs Morsi.

Durante os protestos desta sexta-feira, circularam nas redes sociais várias imagens com apoiadores de Morsi fazendo um cordão de segurança em volta de uma dessas igrejas, impedindo que ataques se repetissem.

A sede da Al-Jazeera no Cairo foi tomada por forças de segurança. O governo egípcio considera a emissora pró-Morsi. Os trabalhadores foram obrigados a sair e o canal continuou a transmitir apenas online.

Tal como outras estações consideradas pró-Morsi pelos militares, a Al-Jazeera já tinha sido alvo de uma rusga policial momentos antes da deposição de Mohamed Morsi, em três de julho. Os equipamentos apreendidos ainda não foram devolvidos.

Um dos seus fotógrafos, Mohamed Bader, está preso desde 15 de julho sob acusação de posse de arma ilegal. Também não há informação sobre o paradeiro de um dos correspondentes da emissora, Abdullah al-Shami, detido na quarta-feira (14). Outros membros da redação enfrentam acusações de ameaça à segurança nacional, devido às notícias que puseram no ar.

A morte do operador de câmara da Sky News na quinta-feira não foi a única entre jornalistas esta semana.

O Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) aponta para três jornalistas mortos e vários presos ou feridos durante os confrontos.

(http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=22525)

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Claudionor Damasceno

17 de agosto de 2013 às 21h33

o grande professor faz uma avaliação simplória. Para os EUA, Mubarak foi tarde. Melhor renovar, colocando alguém que prolongasse seus (e de Israel) interesses estratégicos na região, o que inclui Suez e o acordo de Camp David. A Irmandade Muçulmana articulou com a embaixadora americana no Cairo as manifestações chamadas, poeticamente, de “primavera árabe” e transmitidas ao vivo pela Aljazeera, com comentários diretos de Whashington. Esse esquema de manifestações ja havia sido usado na Iugoslávia. O que houve, durante o governo Morsi, fou um ajuste de contas do Egito profundo com quem mexeu com seus interesses. Mesmo rejeitando a carta de intenções do FMI, o blackout promovido pelos fornecedores de trigo, gás e combustível, além das campanhas nas TVS contra o governo feitas pelo homem mais rico do Egito (Nassef Sawiris), culminaram com um grau de insatisfação e mobilização que abriu espaço para o golpe militar, dirigido por um pupilo da escola de guerra americana. Uma típica situação win X win: os EUA ganham de qualquer modo. Obama não pode usar a palavra “golpe” para definir o que se passou no Egito porque assim iria contra os interesses comerciais de seu país: o dinheiro que diz enviar para o Egito, na verdade vai para a indústria da guerra, o complexo militar-bélico americano, o único setor da economia em crescimento, portanto, fundamental para o império. O smais de dois mil mortos essa semana são parte dessa contabilidade sinistra a que o mundo esta sujeito, enquanto não der cabo desse império moribundo, que necessita fraudar até a contabilidade de seu PIB, incluindo ativos intagíveis inimagináveis…

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    JOTACE

    19 de agosto de 2013 às 18h26

    Excelente comentário o seu, Claudionor. Sem dúvida sua leitura seria recomendável ao professor Emir Sader, autor do artigo flor de laranja que está em discussão. Artigo que, apesar do título, sequer analisa as causas do que ocorre no Egito onde mais uma vez se patenteia a ação criminosa de brutalidade sem limites dos militares golpistas. Cordial abraço, Jotace

FrancoAtirador

17 de agosto de 2013 às 18h03

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CHOVENDO NO MOLHADO

1) Aos United States of America continua não interessando se os demais países são democracias ou ditaduras, civis ou militares, muito menos se prezam pelos direitos humanos ou pela preservação do ecossistema planetário.
O que importa mesmo aos States é se os governos são ou não são alinhados aos interesses econômico-financeiros norte-americanos.

2) No Oriente Médio, a defesa do poderio militar israelense, somada à sustentação política dos países amistosos a Israel, é estrategicamente fundamental para a conquista definitiva da hegemonia econômica dos United States na região.

Por conseguinte, a questão da interferência norte-americana na geopolítica médio-oriental está, como sempre esteve, muito mais vinculada à influência dos United States of America na Economia dos países do Oriente Médio do que propriamente aos regimes islâmicos lá instalados.
A Irmandade Muçulmana foi alijada do governo do Egito, porque ameaçava um recrudescimento da animosidade egípcia a Israel e aos próprios United States.

Golpe Militar pró-Israel/USA, thank you very much!
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Responder

Maria Libia

17 de agosto de 2013 às 16h03

Acabei de escutar na band que não são seiscentos mortos mas, sim, mais de 2mil. Os EUA pagam religiosamente a estes militares. São muitos dólares. O governo dos EUA invade, mata, se apossa da riqueza do país e se acha um país democrático. Eles só não invadiram, ainda, o Brasil, porque tem a nas suas mãos a elite, Fiesp, políticos, Globo, folha, estadão, etc. Mas é só esperar.

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Sergio

17 de agosto de 2013 às 14h59

Eurico, agora chegou minha vez de pedir desculpas, mas na minha modesta visão, nada justifica tirar um governo eleito (chama-se ele Mursi, Jango, Lugo, Zelaya, Dilma, Cabral ou Alckmim) sem o devido processo legal. Pra mim isso é e será sempre golpe. E, cá pra nós, ficar do lado dos milicos só pra ser contra a religião? Isso nossa antiga Arena (depois PDS, depois PFL)também fazia, pois os milicos daqui depois de um certo tempo, passaram a não ver com bons olhos a Igreja, principalmente D.Helder, Arns e outros. Abraço.

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Manoel Teixeira

17 de agosto de 2013 às 14h40

Muitos saudaram o golpe militer no Egito, agora vão ter que arcar com o ônus das mortes.
A Irmandade Muçulmana errou em querer transformar o Egito num Estado religioso, mas derrubar um Governo legitimamente eleito e assassinar opositores é o pior dos mundos. Israel é um Estado religioso, assim como o Irã. Há eleições nos dois. Ganhe quem conseguir mais apoio da população.
Ainda não inventaram nada melhor que isso. É válido para o Brasil. Irã, Israel ou Egito.
Não apoiei, não apoio nem apoiarei nenhum golpe de Estado.
El Baradei já se arrependeu, logo outros o seguirão.
Só que agora não poderão ir às praças. O poder está oficialmente com os militares e com o apoio dos EUA e de Israel, continuarão lá por muitos anos. Mubarak talvez até ganhe o perdão e se aposente com honras de Estado.

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Tomudjin

17 de agosto de 2013 às 14h16

As quatro estações são apenas a forma poética que o sistema encontrou para persuadir os românticos. Não nos enganemos, porém. A “cachaça” desse romance tem um nome: O CAPITAL.

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Eurico

17 de agosto de 2013 às 11h52

Desculpe-me Emir, mas dizer que a única culpa do governo deposto foi querer impor sua fé ao resto da sociedade, é retroceder à era pré Revolução Francesa. Não gosto dos milicos mas gosto menos ainda de forças religiosas que são contra o estado laico. A guilhotina é pouca para eles. Esta é uma questão fundamental no processo civilizatório. Se eu estivesse no Egito estaria lutando ao lado dos milicos.

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