VIOMUNDO

Diário da Resistência


Política

No CE, empregados e filhos de ex-torturador atacam manifestação


26/03/2012 - 18h35

do Movimento Levante Juventude

A juventude cearense realizou uma ação de “esculacho”, neste dia 26, no escritório de advocacia do ex-delegado da Polícia Federal em Fortaleza (CE), José Armando Costa, localizado no bairro da Aldeota, na rua João Carvalho, 310. Foram cerca de 80 pessoas do Levante Popular da Juventude no ato, iniciado às 10h da manhã, que levaram cartazes, faixas e materiais de agitação e propaganda para denunciar o “Dr. Armando”, como era conhecido durante a ditadura civil-militar brasileira.

Durante a ação, saíram de dentro do escritório Armando Costa Advogados Associados os filhos e funcionários do ex-torturador para tentar impedir a colagem de cartazes e as denúncias dos manifestantes. Os advogados do “Dr. Armando” entraram em conflito com os jovens, tentando impedi-los de continuar a ação, mas não houve feridos. A Polícia foi acionada, porém, vendo que se tratava de um ato pacífico, não abordou as pessoas na manifestação. O próprio José Armando Costa encontrava-se no local, mas não teve coragem de sair.

Um carro de som estava na região para divulgar à população do entorno quem era Armando Costa. A primeira reação dos vizinhos e operários que trabalham em obras próximas ao escritório foi de surpresa, pois o ex-delegado hoje em dia é dono de um dos escritórios de direito de maior prestígio em Fortaleza. De acordo com Paulo Henrique Lima, integrante do Levante Popular da Juventude, foram feitas panfletagens no bairro e os moradores e trabalhadores demonstraram apoio aos manifestantes.

Entre os jovens que participaram da ação estavam alguns ex-presos políticos, o Coletivo Aparecidos Políticos (de agitação e propaganda no Ceará), da União Nacional dos Estudantes e o Sindicato dos Gráficos do estado.

QUEM É O DR. ARMANDO

José Armando Costa foi delegado da Polícia Federal em Fortaleza (CE) no início da década de 1970. À época, presos políticos relataram à Justiça Militar que a tarefa do delegado era fazer interrogatórios logo após as sessões de tortura e também os coagia a assinar falsos depoimentos sob ameaça.

Costa aparece nos depoimentos de ao menos cinco ex-presos políticos torturados no Ceará, contidos no projeto Brasil Nunca Mais, da Arquidiocese de São Paulo. “Olha, rapaz, se você não concordar com isso que eu mandei colocar, você pode entrar numa faixa pesada”, teria dito ao engenheiro Lavoisier Alves Cavalcante, com 28 anos em 1973, conforme depoimento da vítima.

No depoimento de Ricardo de Matos Esmeraldo, estudante de 24 anos em 1973, teria desdenhado das torturas sofridas pela vítima quando levado à sua presença para interrogatório. “Dr. Armando, então, disse que aquilo era tolice e que em matéria de surra, até ele, Dr. Armando, havia apanhado de seus pais, motivo por que o interrogando não devia dar muita atenção àquele tratamento”.

José Armando Costa também é citado nos depoimentos, todos coletados em 1973, de Geraldo Majela Lins Guedes, comerciante, 24 anos, José Auri Pinheiro, estudante, 22 anos, e Vicente Walmick Almeida Vieira, físico, 31 anos. Em todos os casos, as vítimas sofreram tortura e foram levadas à presença de Costa, frequentemente identificado como “Dr. Armando”, para interrogatório.

De acordo com uma matéria do jornal universitário Campus, da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, que o entrevistou na edição 336, de 25 de Maio de 2009, José Armando Costa cursou direito na Universidade Federal do Ceará e, assim que se formou, ingressou na Polícia Federal como delegado. Além do Ceará, onde chegou a ser superintendente da PF, atuou em Brasília, Bahia, Rio de Janeiro, Piauí, Rio Grande do Norte e Pernambuco.  Ao se aposentar da polícia, em 1993, Costa abriu um escritório de advocacia em Aldeota, bairro nobre de Fortaleza. Publicou seis livros sobre direito.

Também foi corregedor-geral dos Órgãos de Segurança Pública do Ceará. A associação 64/68 Anistia pediu sua exoneração em 2009 devido a seu envolvimento com torturas. Na ocasião, entrevistado pelo jornal “O Povo” (edição 24 de julho de 2009) afirmou: “Vamos admitir que eu torturei. Se meu único erro foi esse e de lá pra cá os meus detratores não encontram mais nenhum motivo pra me execrar, então respeite que este homem tem muita dignidade”.

Leia também:





37 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do VIOMUNDO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie. Leia o nosso termo de uso.

lauper ciccone

04 de setembro de 2012 às 23h15

SÓ QUE VIVEU NA ÉPOCA E PASSOU PELAS MÃOS DOS TORTURADORES PODEM DIZER O QUE DEVE SER FEITO!

Responder

Leonidas Arapaho

05 de abril de 2012 às 17h27

Querem saber de uma coisa ??? MORTE AOS TORTURADORES !!! AH, SIM !? E MORTE TAMBÉM AOS TERRORISTAS QUE QUERIAM MESMO É IMPLANTAR O COMUNISMO EM NOSSO PAÍS. FODAM-SE TODOS!!!
AGORA FICAM TODOS POSANDO DE SANTINHOS, PORRA !!!

Responder

rafa

02 de abril de 2012 às 18h35

viva viva viva

Responder

mfs

02 de abril de 2012 às 12h17

O pior é o cara dizer que a única acusação contra ele é de ter sido torturador. Ou seja, depois de tantos anos, o calhorda ainda acha que torturar é coisa de pequena monta, nada que provoque constrangimento moral. "Ah… é só isso que vocês têm contra mim?" Se esses açougueiros de carne humana já tivessem puxado cadeia, a conviver com lacraias da pior espécie, talvez tivessem começado a pensar diferente.

Responder

Ivan

28 de março de 2012 às 11h54

Antigamente eu respeitava esse grupo de manifestantes. Depois de segunda-feira não mais, pois não foi isso o que aconteceu segunda-feira (26/3/12). Testemunhei, pois trabalho na clínica do lado. Tinha no máximo 20 pessoas.

Responder

Ivonete

27 de março de 2012 às 16h49

Acho que suas excelências do legislativo e do judiciário precisam punir os torturadores, antes que a população o faça. Fico apreensiva com a integridade física dessa juventude que desponta com uma indignação tão bela.

Responder

    Horridus Bendegó

    27 de março de 2012 às 21h52

    Brilhante dedução!

    Como a causa não tem o desfecho esperado, a Juventude briosa pretende se livrar da cumplicidade com as instituições!

Vinicius Garcia

27 de março de 2012 às 14h38

Volto a repetir o que comento em post com esse assunto (torturador): não acredito em inferno, esses "senhores" tem de responder em vida pelos crimes cometidos.

Responder

Jose Mario HRP

27 de março de 2012 às 11h47

É, execração pública é pior que cadeia!
Vergonha, aqui e agora!
Quem mandou ser criminoso e acreditar que jamais seria desmascarado?
Muitos outros vão ver o que é bom pra toce, daqui pra frente!

Responder

Geysa Guimarães

26 de março de 2012 às 23h16

Não vejo com bons olhos essas manifestações in loco.
Atingem a família, que não tem nada a ver com isso.
Cada um que responda pelos seus atos.

Responder

    Marcio H Silva

    27 de março de 2012 às 00h49

    E as famílias dos mortos e torturados? não foram atingidas?
    As famílias destes caras já sabem quais as origens de seu DNA e estão se lixando pra gente, para os mortos e torturados…….tá na hora deles tomar conhecimento de que os crimes cometidos naquela época NÃO ficarão impunes……

    Geysa Guimarães

    27 de março de 2012 às 12h50

    Foram atingidas pelo cara, o que não é a mesma coisa.
    Da forma raivosa como vc e outros reagem, imagino que, no lugar do torturador, não teriam feito diferente.
    O desejo de vingança os deixa cegos, impiedosos e injustos.

    Vinicius Garcia

    27 de março de 2012 às 14h36

    Geysa a família defende se quiser, eu não defenderia, fosse meu pai ou irmão, teria sim vergonha, muita vergonha.

    Geysa Guimarães

    27 de março de 2012 às 16h15

    Vergonha? Por meu pai ou meu irmão? Eu não sou eles.
    Respondo pelo que EU faço.
    Acho terrível lançar culpa ou castigos sobre quem não teve participação no crime.´
    Não sou habitante de Exu.

    Henrique F. Kardozo

    28 de março de 2012 às 09h26

    Concordo contigo Geysa….olho-por-olho, dente por dente, nunca vai ser a resposta….ainda mais quando se parte pra quem nada teve a ver com a tortura.

    Geysa Guimarães

    28 de março de 2012 às 13h47

    Henrique:
    Ufa, um colega sensato!
    Pois é, quanto ao torturador, que sofra o que merece, mas estender a punição aos familiares, é coisa de BÁRBAROS.
    Eles que negativem meus comentários à vontade. Ser criticada por quem pensa tão pequeno, é elogio. Multidão sedenta por sangue existe desde que o mundo é mundo – infelizmente.

    George A.F. Gessário

    28 de março de 2012 às 16h06

    Não quero levantar polêmica mas a CF 88 resguarda o respeito á dignidade da pessoa humana até mesmo aos torturadores, quanto mais aos familiares destes… Me parece realmente a lei de talião esses protestos.

    Geysa Guimarães

    28 de março de 2012 às 19h38

    Sabia não, George. Obrigada pela "luz".
    Claro, não é porque o torturador torturava que se vai sair torturando a ele, família e o que vier a reboque.
    Sadismo para combater o sadismo? Não tem lógica.

    Marta

    30 de março de 2012 às 23h05

    Geysa e onde está a sua lógica?

    Jéssika

    28 de março de 2012 às 22h58

    O que aconteceu foi uma manisfestação pacífica, em que o sujeito que cometeu esses crimes foi exposto,SOMENTE ELE. Em momento algum nome de parente foi citado ou coisa do tipo. Se a família dele se sentiu exposta foi por única e exclusiva culpa do bandido, que sujou a "honra' de sua família torturando inocentes. Se eu acho que isso deva colocado embaixo do tapete? CLARO QUE NÃO! Que sujeitos como esse, que torturaram inocentes e hoje ganham rios de dinheiro colocando bandido na rua( pq uma pessoa que defende a tortura, COM CERTEZA não vai defender boas coisas), sejam expostos e que a sociedade saiba que eles existem e que ainda podem fazer muito mal a nós!

    André Oliveira

    02 de abril de 2012 às 07h54

    Como assim olho-por-olho ? Alguém colocou o vovozinho bonzinho no pau da arara ? Estupraram a filha dele na frente dele ? Colocaram ele na cadeira do dragão ? Afogaram ele ? Deram choque nas bolas dele ? Enfiaram cassetete no fiofó dele ? Mataram ele com tiro na têmpora ?

    Marcio H Silva

    28 de março de 2012 às 01h00

    Lembre-se que pinheirinho aconteceu porque estes crimes do passado não foram resolvidos. Fica-se a certeza da impunidade. Tem sim que chamar estes caras as falas e puni-los tanto quanto os responsáveis por pinheirinho, porque se não houver punição, estes crimes se repetirão.
    Estes militares deveriam saber que cedo ou tarde os seus crimes seriam cobrados. Deveriam na época ter se preocupado com as consequências que seus atos trariam para suas famílias no futuro…….

    Marta

    30 de março de 2012 às 23h04

    Geysa, isto está acontecendo exatamente porque não houve punição para os torturadores, assassinos e estupradores do regime militar. Somente os que se rebelaram contra a ditadura foram punidos, mortos, torturados e alguns tiveram seus corpos desaparecidos. Tortura e morte com desaparecimento dos corpos são crimes que não podem ser anistiados. E mais: os torturadores de então estão desafiando o povo fazendo comemoração pelo 31 de março. Queremos justiça. Os militares do golpe estupraram também nossa Constituição. Eles têm que ser julgados e com direito de defesa, oportunidade que não deram a quem se opôs ao golpe.

    Euclides

    27 de março de 2012 às 18h04

    Cara Geysa, O que você acha que acontecia com a família dos que eram presos, pelos chacais da ditadura? Você acha que as prisões eram feitas, no maior sigilo, de forma que nem o vizinho sabia? Engano, seu, era feita as escancaras, muitas vezes com forte aparato militar. O que na época era o mesmo que estigmatizar toda a família, pois eram parentes de um comunista, você não tem ideia do que isso representava em termos de segregação pública, era como se fossem leprosos acometidos da peste, tinha até comerciante que se recusava a vender mercadorias aqueles familiares. Logo, estão recebendo, em vida, exatamente, o que fizeram no passado, me parece justo, com uma diferença brutal, nem estão sendo presos, nem torturados.

    Geysa Guimarães

    27 de março de 2012 às 18h54

    Euclides:
    Fazer o mesmo com a família dos torturadores iguala tudo. Essa Justiça me parece de Talião, de fundamentalistas, xiitas e correlatos.
    Quer dizer que não adianta o filho, por ex., dizer: "Sou inocente, não tenho nada a ver com isso".
    Vc responde: "Mas seu pai não é".
    Qué isso? Essa é a democracia que dizem que queriam?

    NB – tenho tio que foi "perseguido" pela ditadura. Com ele sempre foram discretos, apareciam na casa da vovó de madrugada, de forma silenciosa. E toda a família foi investigada, na categoria. Mas sei que nos porões o "pau" comia, e execro tortura – sob qualquer forma. E o que estão fazendo me parece ser uma delas.

    luis

    28 de março de 2012 às 09h38

    Cara Geysa, eu acho que a questão não está bem colocada. Eu iria por outro lado da questão. Nós estamos diante de um dilema que é o seguinte: Foram cometidos crimes sem prescrição, contra humanidade. Não existe ao que parece institucional para o caso, há não ser que nosso judiciário mude de atitude ou o nosso congrresso.
    A estratégia que os estudantes estão realizando não é de fazer justiça e sim de EXPOR PARA O BRASIL QUEM SÃO OS CRIMINOSOS!
    Me parece até onde sei do assunto que as minifestações estão ocorrendo não em relação a parentes e sim diretamente onde estes moram, trabalham.
    Claro é que não devemos misturar estas questões e entendo em parte sua preocupação. Não é porque um pai foi torturador, estuprador e coisas mais que um filho também será.
    Agora, creio que sempre em algum momento, algo possa parecer em parte injusto. O fato é que filho que defende pai torturador, está fazendo por ser da família e ou porque pensa como seu pai!

    rafa

    02 de abril de 2012 às 18h32

    A FAMÍLIA DEVE SABER quem é o cara.

    bob

    04 de abril de 2012 às 16h09

    vc deveria analisar quem foi torturado por esse homem,cueldades q ele praticou,vc parece q foi e sempre será a favor da ditadura militar.

Zamora

26 de março de 2012 às 22h27

Dr. Armando… quem diria… quanta dignidade.
É por isso que não acredito em cabelos brancos.
Dizem que até mesmo os canalhas envelhecem.

Responder

Anjo

26 de março de 2012 às 21h59

É isso mesmo, tem de divulgar e mostrar para todo mundo quem são eles, que agora se passam por pessoas de bem. Tem de divulgar o endereço na internet, as fotos do patifes, telefone, email e tudo mais que conseguir, vamos deixar eles em paz não, ao menos os fantasmas de quem morreu sob tortura tem de permanecer na conciencia de cada um deles, se que eles tem isso…

Responder

Mateus_Beatle

26 de março de 2012 às 21h43

Quanto cinismo!

Responder

Bley

26 de março de 2012 às 21h31

A gente do Ceará não vai deixar esquecido as arbitrariedades da ditadura contra os seus briosos filhos!

Responder

José Eduardo

26 de março de 2012 às 20h20

Certo, o sujeito tem a "dignidade" de um psicopata!

Responder

    Fabio_Passos

    26 de março de 2012 às 23h41

    Este "digníssimo" torturador não pode continuar impune.
    Precisa responder pelas atrocidades que cometeu.

Lucy

26 de março de 2012 às 19h59

Não teve dignidade, decência, alma, pingo de clemência pra parar de arrancar unhas quando imploravam, urrando pelo amor de Deus . Nós também não vamos parar de falar. Se eu fosse filha, no máximo, nada declararia. E jamais teria-lhe considerado meu pai.

Responder

pperez

26 de março de 2012 às 19h24

Não vai demorar para Bolsonaro ter outro ataque de furia!

Responder

pretextato

26 de março de 2012 às 19h23

Cara de pau, hein, Dr. Armando. Pergunte aos seus filhos, se por acaso o torturado tivesse sido o senhor, o que eles fariam hoje? Iriam dizer que isso é bobagem? que era o mesmo que levar umas palmadas do pai ou da mãe? Deixa de ser cretino Dr. Armando! Prepara os pulsos que a Comissão da Verdade vem aí para lhe dar de presente um par de pulseiras para suas mãos ficarem bem juntinhas para facilitar a reza. Outra: ninguém proibirá seus filhos de o visitarem no IPPS, lugar bom prá cabra ruim de sua marca.

Responder

Deixe uma resposta

Apoie o VIOMUNDO - Crowdfunding
Blogs & Colunas
Mais conteúdo especial para leitura