VIOMUNDO

Diário da Resistência


Política

Elio Gaspari: Pelo menos, sete votos a favor e quatro contra


25/04/2012 - 10h09

Hoje o STF julgará as cotas

por Elio Gaspari, na Folha de S. Paulo, sugestão de Eduardo Guimarães

O Supremo Tribunal Federal julgará hoje a constitucionalidade das cotas para afrodescendentes e índios nas universidades públicas brasileiras. No palpite de quem conhece a Corte, o resultado será de, pelo menos, sete votos a favor e quatro contra. Terminará assim um debate que durou mais de uma década e, como outros, do século 19, expôs a retórica de um pedaço do andar de cima que via na iniciativa o prelúdio do fim do mundo.

Em 1871, quando o Parlamento discutia a Lei do Ventre Livre, argumentou-se que libertando-se os filhos de escravos condenava-se as crianças ao desamparo e à mendicância. “Lei de Herodes”, segundo o romancista José de Alencar.

Quatorze anos depois, tratava-se de libertar os sexagenários. Outro absurdo, pois significaria abandonar os idosos. Em 1888, veio a Abolição (a última de país americano independente), mas o medo a essa altura era menor, temendo-se apenas que os libertos caíssem na capoeira e na cachaça.

Como dizia o Visconde de Sinimbu: “A escravidão é conveniente, mesmo em bem ao escravo”. A votação do projeto foi acelerada pelo clamor provocado pelo linchamento de um promotor que protegia negros fugidos no interior de São Paulo. Entre os assassinos, estava James Warne, vulgo “Boi”, um fazendeiro americano que emigrara depois da derrota do Sul na Guerra da Secessão.

As cotas seriam coisa para inglês ver, “lumpenescas propostas de reserva de mercado”. Estimulariam o ódio racial e baixariam a qualidade dos currículos da universidades. Como dissera o barão de Cotegipe, “brincam com fogo os tais negrófilos”. Os cotistas seriam incapazes de acompanhar as aulas.

Passaram-se dez anos, pelo menos 40 universidades instituíram cotas para afrodescendentes e hoje há milhares de negros exercendo suas profissões graças à iniciativa.

O fim do mundo ficou para a próxima. Para quem acha que existe uma coisa como ditadura dos meios de comunicação, no século 21, como no 19, todos os grandes órgãos de imprensa posicionaram-se contra as cotas. Ressalve-se a liberdade assegurada aos articulistas que as defendiam.

Julgando a constitucionalidade das iniciativas das universidades públicas que instituíram as cotas, o Supremo tirará o último caroço da questão. No memorial que encaminharam na defesa do sistema, os advogados Márcio Thomaz Bastos, Luiz Armando Badin e Flávia Annenberg começaram pelos números:

“Em 2008, os negros e pardos correspondiam a 50,6% da população e a 73,7% daqueles que são considerados pobres. (…) Em 1997, 9,6% dos brancos e 2,2% dos pretos e pardos de 25 ou mais idade tinham nível superior”.

E concluíram: “A igualdade nunca foi dada em nossa história. Sempre foi uma conquista que exigiu imaginação, risco e, sobretudo, coragem. Hoje não é diferente”.

O senador Demóstenes Torres, campeão do combate às cotas, chegou a lembrar que a escravidão era uma instituição africana, o que é verdade, mas não foram os africanos que impuseram as escravatura ao Brasil.

Nas suas palavras: “Não deveriam ter chegado aqui na condição de escravos, mas chegaram….”

Hoje o Supremo virará a última página da questão. Ninguém se lembra de James Barne, mas Demóstenes será lembrado por outras coisas.

Leia também:

STF julga hoje lei que criou o Prouni e as cotas para negros na UnB

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37 comentários

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alderijo bonache

23 de julho de 2012 às 18h16

Debóstenes Torres, figura sinistra que aviltou mais ainda o nosso emasculado Senado Federal!

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marcos

02 de maio de 2012 às 17h48

as vezes o PIG acerta? eh isso? Vcs leem a Folha? Como pode?

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Senzala começa a entrar na Casa Grande | Viva Marabá Carajás Brasil

01 de maio de 2012 às 19h55

[…] Senzala na Casa Grande var cid= 8660; Tweet (function() { var s = document.createElement('SCRIPT'), s1 = document.getElementsByTagName('SCRIPT')[0]; s.type = 'text/javascript'; s.async = true; s.src = 'http://widgets.digg.com/buttons.js'; s1.parentNode.insertBefore(s, s1); })(); 0 comments Por Dennis de Oliveira, na revista Fórum: Depois da votação unânime do Supremo Tribunal Federal a favor das cotas raciais nas universidades, fiquei pensando em como o racismo está impregnado fundo na sociedade brasileira. E este racismo se combina com um elitismo que parece até atávico em certas pessoas. Negro, pobre e brasileiro Os argumentos dos que são contrários as cotas raciais nas universidades lembram falas de vários tempos passados em momentos que se discutiam – e aprovavam – normas que beneficiavam grupos sociais excluídos. Algumas delas foram bem lembradas pelo jornalista Elio Gaspari, em coluna publicada na FSP de 25/04 e republicadas no portal Viomundo: […]

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A Senzala começa a entrar na Casa Grande | Dennis de Oliveira | Revista Fórum

27 de abril de 2012 às 11h08

[…] Os argumentos dos que são contrários as cotas raciais nas universidades lembram falas de vários tempos passados em momentos que se discutiam – e aprovavam – normas que beneficiavam grupos sociais excluídos. Algumas delas foram bem lembradas pelo jornalista Elio Gaspari, em coluna publicada na FSP de 25/04 e republicadas no portal Viomundo (https://www.viomundo.com.br/politica/elio-gaspari-pelo-menos-sete-votos-a-favor-e-quatro-contra.html): […]

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mario

26 de abril de 2012 às 09h06

Como é que o ACM Neto quer ser prefeito da maior cidade negra do Brasil pelo DEM? O povo de salvador sabe disso?

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    Willian

    26 de abril de 2012 às 17h23

    Bem, o povo de lá elegeu o avô dele durante anos. Deve saber, né?

Francisco

26 de abril de 2012 às 06h59

Seria o cúmulo da cara-de-pau: não demarcam as terras dos quilombolas, não demarcam as terras, dos indígenas, não regularizam a posse da terra urbana (favelas) dos afro-descendentes…

Revogar a única (única!) compensação que essas minorias conseguiram epla escravidão e terror que viviam e vivem é pedir briga por pouco!!!

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Lenin

25 de abril de 2012 às 23h27

Meninos! o interessante é a afirmação de gaspari sobre a imprensa -ele n é tolo,sei;mas declarou q a mesma é,sim,escravocrata;alguns "colunistas" poupados,admite q a imprensinha mal sabe da Revolução Francesa…e em pleno sec. "21".Então,singelo,pergunto:q moral tém a mesma p/ falar do resto,se sua mentalidade,no sentido de atraso (uma platitude),continua no sec 19?!

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Herminio

25 de abril de 2012 às 21h16

O Elio Gaspari está correndo um sério risco de ser demitido da folha, escreendo em favor das cotas mas o que importa é que o texto está muito claro esóquem é contra o sistema decotas ou está mal informado ou tem má fé.

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Jotapeve

25 de abril de 2012 às 20h50

Vou tentar adivinhar os votos contras(não é tão difícil assim): Cezar Peluso, Gilmar Dantas, Celso de mello e Marco Aurélio.

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rapazinho

25 de abril de 2012 às 20h04

as cotas no brasil começaram aqui no rio de janeiro, no quintal da toda poderosa, mais tarde se espalhando pelo braza a fora …..
isso foi uma afronta aos nobres cariocas, um absurdo isso acontecer aqui bem embaixo das nossas barbas
vamos botar esses "populistas" pra correr daqui rapidinho…..e que comece o massacre da serra eletrica,cortem as cabeças

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Regina Braga

25 de abril de 2012 às 19h24

Gostei do resultado…que bom,podemos acabar com a escravidão,dos negros.Vamos tbém comunicar ao CDHU de Sampa,que nordestino não é escravo.Esses demotucanos,vão aprender qdo?

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Douglas O. Tôrres

25 de abril de 2012 às 18h04

Tem muita gente que vai ficar mais irada ainda,Lula presidente,2 vezes,O Brails passa ao largo da crise,e como disse o Chico,falando grosso com os EUA e fino com Chavez,Evo,Cristina,Elege seu "post" como sucessor,recente pesquisa mostra a popularidade do 2 em alta,milhões sobem de classe,e agora se vislumbra mais uma vitória,que é do povo brasileiro,é muita mudança para o "neuroniozinho conservador" aguentar vão entra em parafuso.

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Diniz

25 de abril de 2012 às 17h34

Não é mais possível que nesta nossa sociedade, de maioria supostamente cristã, não se perceba o quanto os negros já foram discriminados e espoliados criando uma situação de desvantagem de oportunidades para estes . É necessário corrigir esta desvantagem com políticas inclusivas como a das cotas raciais. Nos ensina o sábio Rui Barbosa (no séc. XIX, veja como estamos atrasados !): "A regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam. Nesta desigualdade social, proporcionada à desigualdade natural, é que se acha a verdadeira lei da igualdade… Tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real."

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Eudes H. Travassos

25 de abril de 2012 às 16h55

Eu comemorarei muto se o resultadio no supremo for realmente este.

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Augusto Soares

25 de abril de 2012 às 16h03

Acabar com a escravidão por decreto foi moleza. Políticas de reparação que é bom, dona princesa Isabel e afins nem aí. Mais um ponto para Lula e Dilma.

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Ramalho

25 de abril de 2012 às 14h57

Dizem de Demóstenes, não este, o grego, o seguinte: "…Demóstenes vê decair tanto sua reputação quanto influência. Chegou mesmo a ser condenado por ter se deixado comprar por um ministro de Alexandre e facilitar sua fuga de Atenas. Foi preso mas conseguiu fugir, exilando-se de Atenas por longo período". Como se vê, "atavismo nominal" também existe.

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Conservador316

25 de abril de 2012 às 14h43

"afrodescendentes", hahahahahahahaha

Esses politicamente corretos.

Não existem mais brasileiros, a partir de hoje teremos:

lusodescendentes

italodescendentes

japaodescendentes.

hehehehehehehe

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    Eduardo Guimarães

    25 de abril de 2012 às 16h11

    No caso japonês seria "nipodescendente", cavalgadura

    Willian

    26 de abril de 2012 às 17h25

    Ele falou em petralhês, Eduardo.

Paulo Fernandes

25 de abril de 2012 às 14h30

“A igualdade nunca foi dada em nossa história. Sempre foi uma conquista que exigiu imaginação, risco e, sobretudo, coragem. Hoje não é diferente”. Isso.

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EUNAOSABIA

25 de abril de 2012 às 12h26

Gaspari representa o sintoma de uma época, só isso.

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    Aline C Pavia

    25 de abril de 2012 às 15h15

    Você se auto-declara NEGRO ou BRANCO no censo do Ibope, filho?

    Zhungarian Alatau

    25 de abril de 2012 às 16h00

    Eunaosabia na prova de antropologia: "Ah, 'fessora, o maior antropólogo do Brasil é Ali Kamel…"

    E a professora: "Zero pra vc, Eunaosabia!"

    Ele sempre a-do-rou levar pau.

    Aliás, sabem por que o computador do Eunaosabia vive dando pau?

Marat

25 de abril de 2012 às 11h31

As vezes o Gaspari é lúcido!

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    EUNAOSABIA

    25 de abril de 2012 às 12h42

    Só é "lúcido" quando lhes agradam rapaz.

    Essa é a verdade…

    Marat

    25 de abril de 2012 às 14h30

    Não é questão de agrado, caro nãosabia, é questão de análise isenta e séria. Abraços.

    EUNAOSABIA

    25 de abril de 2012 às 14h32

    Eu sei disso amigo, nem precisava ter respondido, eu manjo isso faz é tempo.

    Marat

    25 de abril de 2012 às 23h41

    Caro, se vc se autodenomina Eunãosabia, mas manja as coisas faz tempo, como posso eu, um humilde cidadão responder, ou retrucar? Terei de me calar ante sua claridivência – rsrsrs – só estou brincando. Abraços fraternos

    Zhungarian Alatau

    25 de abril de 2012 às 16h01

    Ai, e o computador desse Eunaosabia deu PAU de novo!

    Mario

    25 de abril de 2012 às 17h40

    rsrsrs… pois tu sai lá da sua toca, no Blog do Noblat e vem aqui, ENS? És tu mesmo, menino? E eu que achava que tu ficavas lá durante 24 horas por dia. a única diferença é que vc é um pouco mais manso aqui.

    Diniz

    25 de abril de 2012 às 18h31

    Eu gostaria de perguntar para o EUNAOSABIA o seguinte. A revista Veja manteve um repórter (Policarpo Jr.) em contato direto com o bicheiro-bandido Carlinhos Cahoeira DURANTE 8 ANOS para obter informações. DURANTE ESTES 8 ANOS o repórter da Veja não soube de nenhum dos DIVERSOS trambiques do Demóstenes, tão íntimo do bicheiro-mafioso ? Como isto é possível ? A VEJA NÃO SABIA DE NADA ? Responda-me EUNAOSABIA…

    Marat

    26 de abril de 2012 às 15h13

    Aquela capa "Será que ele sabia?" parece ter sido feita, na verdade, para o Policarpo…

    Camargo

    26 de abril de 2012 às 10h39

    Taí um frase que incomoda muita gente, seja de direita ou de esquerda…

    Paulo

    26 de abril de 2012 às 15h11

    Muito óbvio, meu caro.. Defende teses menores (com todo o respeito ao negro e à questão das cotas), para daí se "credenciar" para socar a lenha no governo que, supõe ele, pertenceria de direito ao seu irmão Serra.

Davi Lemos

25 de abril de 2012 às 11h13

Demóstenes Cachoeira será lembrado por muitas coisas, e nenhuma delas foi coisa boa. Demóstenes só é exemplo de como NÃO se deve ser.

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Pedro

25 de abril de 2012 às 10h52

Ainda não podemos dizer que pouco nos interessam as opiniões disso que chamamos de imprensa. Toda a ênfase no "ainda". É sempre difícil dizer, dessa instituição reacionária chamada imprensa, que seus dias estão contados. Mas a ideologia que ela divulga, que, no fundo, é a de que o capitalismo é a forma natural das relações entre os homens, alguns dizem, cinicamente, a melhor, já virou um saco mais esburacado do que nossas estradas.
Essa imprensa defendeu, na época da escravidão, que o direito de possuir escravos era sagrado. Sempre defendeu que a propriedade privada é intocável, pouco importando que ela já tenha se convertido no que há de mais conservador.

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