Ângela Carrato: O suicídio de Vargas há 72 anos, as eleições de outubro, a mídia subimperialista e Tio Sam
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Por Ângela Carrato*
Há exatos 72 anos, em 24 de agosto, o então presidente Getúlio Vargas se suicidou com um tiro no peito.
A tragédia chocou a nação e acabou impedindo o golpe militar em marcha, patrocinado pela classe dominante com o apoio dos Estados Unidos.
Golpista, escravagista e subserviente aos interesses do Tio Sam, a classe dominante brasileira odiava Vargas. Ao invés de vê-lo como o verdadeiro fundador do nosso moderno Estado nacional, preferiu transformá-lo em inimigo por ter criado a CLT, dar reajuste ao salário mínimo bem acima da inflação e priorizado a soberania nacional ao estabelecer o monopólio estatal do petróleo, criar a Petrobras, a Eletrobras e a Companhia Siderúrgica Nacional.
Getúlio não havia feito nada diferente do que dirigentes estadunidenses ou europeus como Franklin D. Roosevelt, Churchill e Charles de Gaulle.
Roosevelt, por exemplo, tirou os Estados Unidos da “Grande Depressão” e criou uma série de programas sociais. Churchill e de Gaulle não mediram esforços para garantir a soberania e o desenvolvimento do Reino Unido e da França no pós-Segunda Guerra, quando uma nova realidade mundial passou a vigorar.
Essas figuras foram e continuam sendo exaltadas como verdadeiros heróis em seus países e em grande parte da mídia ocidental.
Enquanto isso, a classe dominante brasileira e a sua subimperialista mídia corporativa fazem questão de ignorar o 24 de agosto e tudo o que Getúlio significou e continua significando de positivo para o Brasil.
Se em outras épocas o silêncio sobre Getúlio foi considerado “normal”, por se tratar de uma figura “do passado”, como explicar este silêncio agora, em que a sombra do passado se torna mais presente do que nunca?
Mais de sete décadas após seu suicídio, os adversários que enfrentou mudaram apenas de nome, mas os interesses imperialistas são os mesmos.
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Basta observar o que tem acontecido no Brasil, em especial na campanha para as eleições gerais de outubro próximo.
Vamos tomar como exemplo apenas as duas últimas semanas.
São vários os candidatos que disputam o Palácio do Planalto, mas apenas um tem efetivo compromisso com a democracia, o desenvolvimento econômico e social e com a nossa soberania.
O nome desse candidato é Luiz Inácio Lula da Silva, eleito três vezes presidente da República.
Independente da idade e do que tenham feito anteriormente os candidatos de oposição, o que os une é o ódio a Getúlio Vargas e a Lula.
Não por acaso figuras tão lamentáveis de extrema direita como Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos e Augusto Cury defendem a privatização de tudo o que há e deixam claro a admiração por presidentes imperialistas, como Donald Trump, ou capachos de Trump, como Javier Milei e Nayib Bukele, nomes que já entraram para a história pela destruição e sofrimento que têm causado a suas populações.
No mínimo, era de se esperar que a mídia corporativa brasileira, ao traçar o perfil destes candidatos, mostrasse quem é quem, o que pensam, fizeram e pretendem fazer. Mostrasse quem essas figuras exaltam e idolatram.
Mas não.
A julgar pelos fatos não publicados, a mídia corporativa brasileira continuará escondendo do seu público que Caiado é aquele ruralista que já defendeu tolerância zero para com os integrantes do MST, que Zema queria privatizar escolas, postos de saúde e até delegacias em Minas Gerais, enquanto Cury quer maior proximidade com Trump e gosta do modelo de governo adotado por Milei e Bukele.
Quanto a Renan Santos, a mídia faz questão de ignorar seu passado golpista de co-fundador do MBL, aquele movimento que contribuiu em muito para a derrubada de Dilma Rousseff, em 2016. O MBL se transformou no tal partido Missão.
O passado condenável destes candidatos está sendo ocultado do público como fizeram com a vida pregressa do ex-capitão Jair Bolsonaro, em 2017.
Ainda hoje existe quem acredite que Bolsonaro e família são contra o “sistema” e que nunca se valeram da vida pública para seus interesses particulares.
No caso do senador Flávio Bolsonaro, por exemplo, existem gravações, vídeos e todo o tipo de provas ligando-o às “rachadinhas”, e ao mega escândalo de corrupção do banco Master, do seu “amigo-irmão”, Gabriel Vorcaro.
Isso só tem sido possível, porque a mídia blinda Bolsonaro e família ao mesmo tempo em que persegue abertamente Lula e um dos seus filhos, Fábio Luiz.
Toda campanha eleitoral é a mesma coisa. Fábio Luiz, que a mídia rebatizou como “Lulinha”, é alvo de alguma denúncia sem qualquer prova, porém com muita convicção.
Ao contrário de mostrar o absurdo da denúncia contra “Lulinha”, a mídia a potencializa, através de manchetes e reportagens sem a menor consistência.
O objetivo é claro: influir negativamente na campanha de Lula, para tentar derrotá-lo, ao mesmo tempo em que blinda o verdadeiro corrupto.
Áudios, vídeos e documentos não faltam mostrando a ligação de Flávio com a corrupção do Banco Master. Vorcaro chegou a doar R$ 61 milhões, dinheiro que roubou dos aposentados, para supostamente financiar um filme sobre Jair, e o dinheiro simplesmente sumiu. Já se passaram 100 dias desde que Flávio prometeu “em breve” explicar tudo.
Não era para o ministro do STF, André Mendonça, relator do Caso Master, ter pedido a quebra do seu sigilo bancário?
Mendonça, no entanto, faz cara de paisagem e deixa Flávio livre, leve e solto, mesmo em se tratando de um candidato à presidência da República.
Agindo assim, Mendonça, que foi indicado para o STF por Jair Bolsonaro, dá provas de a quem serve.
A blindagem de Mendonça e da mídia a Flávio chegou a tal ponto, que jornalistas, artistas, intelectuais, juristas e cidadãos comuns estão fazendo um abaixo-assinado digital denunciando a situação e cobrando providências dos responsáveis.
Que me lembre após a redemocratização, esta é a primeira vez que um abaixo-assinado tão significativo, cobrando diretamente da mídia tratamento isonômico para com a cobertura dos diversos candidatos, acontece.
Está claro que as pessoas não são bobas.
Está claro, também, em que time o ministro Mendonça joga. Sequer os sigilos bancário, telefônico e telemático de Flávio Boldonaro foram quebrados.
Esse tipo de jogada da mídia corporativa e de setores da classe dominante brasileira lembra muito o que Getúlio enfrentou, especialmente nos últimos meses antes de seu suicídio.
Foi nesse período que o cerco a ele se intensificou, com a mídia, capitaneada pelo jornalista Carlos Lacerda, falando que o governo estava mergulhado em um “mar de lama”, acusando Getúlio e familiares de corrupção.
O alvo principal era um filho do presidente.
Até hoje não se encontrou qualquer indício desta corrupção, com o próprio Lacerda protagonizando um episódio que acelerou todo o desfecho.
Ele foi alvo de um controverso atentado, que matou o militar que fazia a sua segurança. O crime foi atribuído a um guarda-costas de Getúlio, que o admitiu, até onde se sabe, sob pesada tortura.
Getúlio, ciente de que os militares se preparavam para derrubá-lo, com o apoio dos de sempre, preferiu sair “da vida para entrar na história”, conforme registrou em sua Carta Testamento.
Lula conhece muito bem estes fatos e diferentemente de Getúlio, vem dando lição atrás de lição de resiliência e sabedoria política aos seus inimigos.
Para os que acreditavam que poderiam desestabilizá-lo com falsas denúncias envolvendo seu filho, ele simplesmente disse que é responsabilidade do filho se defender e provar a inocência. Disse ainda que não fará nada para auxiliá-lo e que a lei é para todos.
Postura completamente diferente de Bolsonaro, que disse que jamais admitiria um filho sendo investigado. Para tanto trocou delegados e anunciou que trocaria até o ministro da Justiça se fosse necessário. Lembra-se?
Outra forma de tentar pressionar Lula tem sido através do pesquisismo. Dia sim e no outro também, o setor financeiro banca e a mídia divulga pesquisa apontando encurtamento da diferença entre Flávio Bolsonaro e Lula na preferência do eleitorado.
Longe de mim duvidar de metodologia científica, mas será que ela está sendo efetivamente seguida? Sabemos que a definição sobre onde pesquisar, as perguntas a serem feitas e as informações de que dispõem as pessoas são fundamentais para as suas respostas.
É ai que entram em cena as manchetes negativas da mídia contra Lula e seu filho. Essas manchetes acabam criando um ambiente negativo para Lula, ao qual se soma a proposital não cobertura dos avanços do atual governo em praticamente todas as áreas.
O Jornal Nacional, que raramente noticia uma ação do governo Lula, agora, sob o argumento de que o presidente é candidato à reeleição, não cobre nada sobre as suas ações administrativas e dá, para a agenda dos candidatos, o mesmo espaço de uma visita a um shopping por parte de um dos adversarios de Lula à sua proposta de ênfase na defesa e soberania nacional.
Mais grave ainda tem sido a não cobertura da mídia aos gigantescos comícios que Lula realizou nesta primeira semana de campanha eleitoral.
Só os comícios pelas eleições Diretas Já, no início dos anos 1980, mobilizaram tanta gente quanto estes de Lula. Seus comícios em São Bernardo do Campo, João Pessoa, Belo Horizonte e Rio de Janeiro lotaram espaços gigantescos como estádios e praças, onde cabem milhares de pessoas.
Como a mídia esconde esses comícios ou lhes destina meros flashes nos noticiários das TVs, eles passaram a ser denominados como “Data Povo”. Ou seja: o verdadeiro registro da preferência popular.
A título de comparação, vale lembrar que a maioria dos candidatos de oposição sequer tem agenda diária de campanha. Quanto ao principal deles, Flávio Bolsonaro, suas agendas têm sido um fiasco, como atesta sua decisão de não fazer o ato para lembrar a controvertida facada em seu pai, em Juiz de Fora (MG), e os flopados comícios na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, e em Belo Horizonte.
Na capital mineira, o local escolhido foi um ginásio coberto com lotação máxima de 9 mil pessoas. Menos de 1,5 mil compareceram.
No último final de semana, bem ao seu estilo, o candidato do PL tentou usar a multidão presente na Festa do Peão Boiadeiro, em Barretos (SP), a seu favor.
Muita gente não gostou e se irritou. Houve pancadaria e confusão, que já se tornaram marcas da extrema direita.
Mas foi no domingo que Lula deixou nítida toda a sua sabedoria política.
Através de sua assessoria, já havia informado que não compareceria a debates do primeiro turno. O primeiro desses debates foi na TV Bandeirantes. No mesmo horário, preferiu conceder entrevista para a âncora da TV Record, Mariana Godoy, exibida durante o programa Domingo Espetacular. A audiência da Record foi muito maior do que a do debate presidencial, que se mostrou um show de horrores.
A Band convidou apenas candidatos de direita, inexplicavelmente excluindo os de esquerda. Além disso permitiu que os candidatos presentes falassem o que bem entendessem e atacassem Lula de forma virulenta. Detalhe: Flávio e Zema também não compareceram.
Mais uma vez o ”Data Povo” mostrou de que lado as pessoas estão.
Lula está certíssimo ao agir assim, uma vez que não disputa apenas com esses candidatos mequetrefes de oposição.
A verdadeira disputa dele nesta eleição é contra Trump, o poderio do Norte Global, da Faria Lima, do agro e da mídia corporativa brasileira.
Lula também sabe que a principal agência de inteligência dos Estados Unidos, a CIA, já está em campo. A prisão de Fernando Cerimedo na Bolívia, por suspeita de mandar assassinar sua ex-companheira, acabou pondo a nu a sua fazenda de robôs e a interferência que teve nos recentes resultados das eleições em Honduras, no Chile, Peru e na Colômbia.
Nestes países, os candidatos progressistas e de esquerda arrancaram na frente com larga vantagem, que foi sendo encurtada à medida em que o pleito se aproximava. Em todos eles, coincidentemente, no dia da eleição, o candidato progressista ou de esquerda estava empatado com o da extrema-direita, apoiado por Trump.
Coincidência?
Óbvio que não. Tanto que Lula, na última sexta-feira, teve uma longa conversa telefônica com Trump, que se encontra às voltas com a derrota, ao lado de Israel, na guerra contra o Irã.
Trump continua fazendo bravatas de que pode transformar o Irã em pó ou que irá proibir o comércio dos países latino-americanos com a China. Lula, por sua vez, tem intensificado os contatos com Vladimir Putin e com Xi Jinping, parceiros no BRICS.
Lula sabe onde pisa.
Sabe, por exemplo, que as bravatas de Trump são na realidade a busca pela própria sobrevivência política. Em 3 de novembro, os estadunidenses vão às urnas para escolher os novos integrantes do Congresso Nacional, nas chamadas eleições de meio de mandato.
Com popularidade em torno dos 30%, Trump arrisca-se a perder a maioria em uma das casas legislativas ou até nas duas. Vale dizer, sua presidência se tornará bastante dificil, principalmente porque são candidatos da ala mais à esquerda do Partido Democrata os que têm crescido na preferência popular.
As apostas são de que jovens políticos, como o prefeito de Nova York, Zohran Mandani, surgirão, colocando fim à onipotência do ocupante da Casa Branca.
A derrota de Trump poderá vir de dentro dos Estados Unidos.
Por tudo isso, se a conjuntura nacional, que levou Getúlio ao suicídio, pode ter semelhanças com os dias atuais, a situação dos Estados Unidos e na política internacional é totalmente diferente.
Nos anos 1950, os Estados Unidos, logo após a vitória na Segunda Guerra Mundial, dava início à Guerra Fria, ao passar a combater o comunismo representado pela até então aliada União Soviética.
Nesta terceira década do século XXI, os Estados Unidos não só estão em declínio, como foram ultrapassados pela China. O poder real deslocou-se para a Ásia e Lula é, nada mais, nada menos, do que o principal líder do Sul Global, que envolve a América Latina, África e parte da Ásia.
Getúlio manteve-se bastante isolado internacionalmente. E acabou aceitando pressões para que nunca se encontrasse com o então presidente da Argentina, Domingo Perón, com quem tinha muitas afinidades.
Naquela época, como agora, o temor dos governantes dos Estados Unidos era uma América Latina unida e disposta a lutar por seus interesses.
Lula sabe muito bem disso e também da importância de um Brasil soberano.
Tanto que sua vitória é tida como imprescindível para o futuro da democracia e do próprio Sul Global.
Daí, para as forças democráticas todo cuidado nesta eleição é pouco.
Lula aprendeu muito com o que Getúlio fez e também com o que não pode fazer.
Já a carcomida classe dominante brasileira e sua mídia subimperialista continuam as mesmas.
Com seu suicídio, Getúlio conseguiu afastar o golpe militar por 10 anos.
Lula, ao vencer pela quarta vez, terá conseguido ir infinitamente mais longe.
Afirmará em definitivo o desenvolvimento e a soberania brasileira, mas também a da nossa tão sofrida América Latina.
Não é pouco o que está em jogo.
*Ângela Carrato é jornalista, professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG, a Universidade Federal de Minas Gerais.
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.




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