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Urariano Mota: Os macacos antigos agora vão além dos negros
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Urariano Mota: Os macacos antigos agora vão além dos negros


24/05/2013 - 18h19


Balotelli, o craque da seleção italiana, tem sido vítima de humilhações nos estádios. Foto: Wikipedia

Gringos e macacos  

por Urariano Mota, em Direto da Redação 

Um jovem de grande inteligência e observação, que conhece muitos países europeus, me enviou esta mensagem ontem:

“Para muitos gringos, os brasileiros, os que não são europeus, não passam de macacos. Aquilo que o senhor escreveu em O filho renegado de Deus ainda acontece na Europa. Aquilo não está só como os gringos viam um negro no Recife em 1961. Mas muita gente tenta esconder essa realidade. Ou fazer de conta que não acontece. Mas acontece, todos os dias, ainda hoje”.

E de fato, amigos, leio na Folha de São Paulo nesta quinta-feira  que  jovens da periferia, lá na exemplar Suécia, revoltados, queimaram carros. E que esses protestos começaram depois da repressão policial ter matado um imigrante velho.

Pior, a mesma polícia que matou abre investigação sobre o crime. Mas nem com tal providência evitou a revolta dos jovens. Eles acusam as forças de segurança de abuso de autoridade, de bater em idosos e crianças e de chamar os imigrantes, na maioria negros, de ‘macacos’…”.

Então ligo a mensagem recebida à notícia de hoje, e por isso navego pela internet para ver o quanto a Europa e os Estados Unidos em crise descontam nas costas dos imigrantes os problemas econômicos.

O novo aqui – se novidade há – é o crescimento do ódio em velhos preconceitos contra os latinos, africanos, ou de um modo mais amplo, contra os não-europeus. Assim ocorre na Itália, onde a nova ministra da Integração, Cecile Kyenge, vem recebendo insultos por ser negra e mulher. Sites de extrema-direita a têm rotulado como “macaco congolês”.

Assim é com o jogador Mario Balotelli, o craque da seleção italiana, que tem sido vítima de humilhações nos estádios, como no San Siro, em que a torcida da casa fez barulhos e imitações de macacos para provocá-lo. No primeiro tempo, o atleta mandou a torcida adversária se calar, porém perto do fim do segundo tempo a situação ficou insustentável e o juiz  teve que paralisar o jogo por alguns minutos.

Essas notícias falam que esse não foi um caso isolado. Em Portugal, a situação se repete com uma brasileira de nome Kelly dentro do BBB português. Recentemente, Macau, um dos participantes do Big Brother de Portugal, imitou um macaco enquanto Kelly tomava banho. Já na Espanha, depois de fazer uma falta no atacante Cristiano Ronaldo, na derrota do Barcelona para o Real Madrid, por 2 a 1, o lateral-direito Daniel Alves teve que ouvir insultos no Santiago Bernabéu, de acordo com a imprensa espanhola. O brasileiro, já nos últimos minutos do jogo, escutou sons de imitações de macacos vindos das arquibancadas do estádio.

Esse tem sido um comportamento repetido, da Inglaterra à França, mais a Grécia e onde a crise econômica desponta. O insulto e o desprezo por humanos diferentes  não é novo. A novidade é que os macacos antigos agora vão além dos negros, atingem os muçulmanos, imigrantes pobres, pessoas de pele clara, e tudo que for estranho.

Enquanto escrevo, recebo a informação de que os estrangeiros não gostam de ser tratados  por “gringos” no Brasil. É natural e justo que não se sintam bem. Mas em um contexto de incompreensões e discórdia,  creio que o leitor entenderá o título da coluna.

O trecho do romance O filho renegado de Deus a que o jovem se referiu é este:

“- Eu serei o seu guia e intérprete no Recife, excelência.

Então uma jovem ao lado de Ted Kennedy, com jeito de fina, educada, parecendo uma condessa, então essa senhora vai falar para Edward, em gíria do Sul dos Estados Unidos:

– Quem vai nos servir é este macaco?!

Sim, então nessa frase o negro Filadelfo sentirá, com tamanha raiva, mágoa que o deixará ferido, então o negrinho vai sentir que serão crescidas dentro de si florestas de macacos, um povo de grandes símios, um mato, uma cerrada população de árvores onde pulam chimpanzés como ele, como sua mãe, como sua avó escrava, um povo de caricatura a pular entre árvores, onde se confundem os colonizadores filhos de colonizadores, netos de colonizadores, todos de capacete e rifle em safáris. É natural que não diga nem ao padrinho Manoel de Carvalho, pois o espírito acima de tudo não o perdoaria, e Filadelfo não podia contar que apenas respondeu, quando deveria cuspir, escarrar no imaculado e gentil braço da suave dama, mas apenas disse:

– Senhora, eu não sou macaco.

– Oh, não, o senhor entendeu mal, ela não disse isso – meio a contragosto contemporizou o nobre representante dos Estados Unidos. Ao que ele, o macaco que falava, apenas disse:

– Senhor, eu falo inglês e entendo bem as suas gírias”.

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32 comentários

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patricia ferreira de lima

26 de janeiro de 2014 às 17h16

Acho impressionante o fato das pessoas não conseguirem dar um passo á frente em relação ao racismo,á intolerancia, á impressão de superioridade de uma raça em relação a outras.O civilizado não entende que está agredindo´
Faz isso sem culpa,sem raciocinar sobre qual é o verdadeiro motivo para ter ódio de outra raça.De onde virá a evolução então,já que os que praticam o racismo são formadores de opinião,dirigentes,politicos,pessoas importantes.A morte de judeus,negros,indigenas,mulheres,não significou nada para essa gente civilizada.Então viva a barbarie,viva aos civilizados.Parabens pela sua evolução

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Na recepção ao Papa, Joaquim Barbosa passa direto por Dilma - Viomundo - O que você não vê na mídia

22 de julho de 2013 às 21h10

[…] Urariano Mota: Os macacos antigos agora vão além dos negros […]

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Movimento negro denuncia no Planalto matança de jovens e pressão do latifúndio contra quilombolas - Viomundo - O que você não vê na mídia

22 de julho de 2013 às 12h56

[…] Urariano Mota: Os macacos antigos agora vão além dos negros […]

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Vamos ficar por aqui

27 de maio de 2013 às 10h02

Os europeus não precisam de nós, brasileiros de raça misturada.

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Gerson Carneiro

26 de maio de 2013 às 16h07

“Deixo o Santos para CAIR no mundo”, Neymar.

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Geysa Guimarães

26 de maio de 2013 às 12h34

Salve a “macacada” brasileira, população que mais trabalhou até hoje neste País!

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Roberto Locatelli

25 de maio de 2013 às 22h03

Que me desculpem os que gostam de futebol, mas é o esporte que atrai os piores torcedores. Hulligans da Inglaterra saem armados depois dos jogos, procurando alguém pra matar. Torcidas organizadas brasileiras são, na verdade, grupos de tráfico de drogas, salvo raras exceções. Na Europa, o racismo impera nas torcidas italianas, espanholas e outras.

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Urbano

25 de maio de 2013 às 18h10

Os cretinos creem que uma vez branco, serão sempre brancos. Nem sabem que também virão a ser vidraça, numa outra oportunidade.

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Elias

25 de maio de 2013 às 16h09

Mal sabem os ignaros, que ao imitarem macacos, nada mais fazem que imitar seu pai, sua mãe e seus irmãos, pois já faz muito tempo que Darwin é aplicado nas escolas e só os maus alunos ainda não se deram conta de que somos também uma raça de macacos. A não ser que esses babacas que gritam e pulam nos estádios não sejam humanos, sejam talvez uma espécie asquerosa do mundo da viscosidade ou quiçá da purulência.

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Julio Silveira

25 de maio de 2013 às 10h54

No Brasil. Aconteceu comigo. Uma colega de profissão, madura, dessas que certamente foram obrigadas, por alguma circusntância de sua vida burguesa, a vir para o mercado de trabalho autonomo, e mais, tendo que compartilhar espaço com demais cidadãos, saiu-se com essa:
Disse-nos ela (já que não estavamos sós) no auge de sua insatisfação com o resultado do processo do mensalão, por que não levou imediatamente os condenados para a cadeia, que havia enviado uma carta ao Ministro Joaquim Barbosa para pressioná-lo a acelerar o processo e definitivamente encarcerá-los. Informou isso, afirmando acreditar ser necessário, por ser negro (e ainda buscando uma concordância com os demais colegas). Ela acreditava que negros só trabalhavam quando eram obrigados ou pressionados.
Me revoltei de pronto, tanto que sequer consegui olhar a face da pessoa até o fim do expediente de serviço, que tivemos que compartilhar, sem lhe didicar uma palavra sequer. Esse caso que cito, real, só ilustra o quanto neste país, de mestiços, também é fertil em intolerância e ignorância. Mas aqui ela provem, principalmente, de uma camada social economicamente superior, que faz escola, que costuma misturar, muitas vezes, oportunidade, com isso de superioridade racial. E nós que temos o costume de ficarmos analisando o berço da origem dessa má cultura, avaliamos muito pouco dentro de casa o por que disso ocorrer, e buscar romper definitivamente culturalmente com mais essa má cultura importada. E a proposito esse tipo de preconceito não nasce com as pessoas, eles é cultural, é ensinado, e tem vindo historicamente de dentro das familias.

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Gerson Carneiro

25 de maio de 2013 às 06h14

Um homem também chora
Menina morena
Também deseja colo
Palavras amenas
Precisa de carinho
Precisa de ternura
Precisa de um abraço
Da própria candura
Guerreiros são pessoas
São fortes, são frágeis
Guerreiros são meninos
No fundo do peito
Precisam de um descanso
Precisam de um remanso
Precisam de um sonho
Que os tornem perfeitos
É triste ver este homem
Guerreiro menino
Com a barra de seu tempo
Por sobre seus ombros
Eu vejo que ele berra
Eu vejo que ele sangra
A dor que traz no peito
Pois ama e ama
Um homem se humilha
Se castram seu sonho
Seu sonho é sua vida
E a vida é trabalho
E sem o seu trabalho
Um homem não tem honra
E sem a sua honra
Se morre, se mata
Não dá pra ser feliz
Não dá pra ser feliz

Guerreiro Menino – Fagner

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    Elias

    25 de maio de 2013 às 15h52

    Com todo respeito, Gerson, faço uma pequena observação quanto ao nome de Fagner ao final da letra. Alguém pode pensar que Fagner é o autor, e na verdade o compositor dessa linda canção é Luiz Gonzaga Jr., nosso grande Gonzaguinha.

    ROBERTO SALVINO

    25 de maio de 2013 às 17h24

    Com todo o respeito e vênia, Grande Gerson Carneiro,

    O crédito não deve ser para Fagner, mas sim Gonzaguinha.

    Um grande abraço,

    ROBERTO SALVINO

    Gerson Carneiro

    25 de maio de 2013 às 20h41

    Aceita a correção.

    Viva o Grande GONZAGUINHA !

abolicionista

24 de maio de 2013 às 22h02

Isso é apenas um pequeno sintoma de um mal muito maior. Quanto estive em Paris, ouvi muitos franceses falarem a respeito do que chamavam de a “maré negra”, em outras palavras, uma onda de imigrantes que estaria colocando a Europa em risco. A crise que fustiga o continente está ajudando a engrossar as fileiras do fascismo, boa coisa não vem por aí…

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willian

24 de maio de 2013 às 20h57

Os argentinos também nos chamam de macaquitos.

Responder

    Marat

    24 de maio de 2013 às 23h13

    Prezado William, boa noite.
    Os argentinos chamam de “macaquitos” aqueles brasileiros que adoram vestir camisas com a bandeira estadunidense, que adoram montar lojas e levantar prédios, cujos nomes serão ingleses. Eles chamam de macaquitos os macaquitos que gostariam que aqui fosse uma colônia também de direito dos EEUU. E, ca entre nós, estes são mesmo macaquitos!

    Orivaldo Guimarães de Paula Filho

    25 de maio de 2013 às 10h03

    Perfeita a resposta. E, apoiado.

    Willian

    25 de maio de 2013 às 11h11

    Mentira, quis tirar uma comigo né, Marat. Mas nem a claque aqui vai acreditar em você. Argentinos chamam de macaquitos os brasileiros de pele escura. Não é porque elegeram uma presidente de esquerda que deixaram de ser racistas.

    renato

    25 de maio de 2013 às 19h13

    Mas tem outra conotação, Willian,
    A conotação da Jabuticaba.

    lizvasconcellos

    25 de maio de 2013 às 22h47

    São racistas sim.
    E procurem saber o que aconteceu com a população negra argentina, hoje quase inexistente.

    willian

    26 de maio de 2013 às 09h44

    E a indígena?

Permanente

24 de maio de 2013 às 20h16

Os torcedores mais civilizados da Europa são os Hooligans ingleses. O termo hooligan vem de uma família de espírito irlandês que tinha esse nome. Hoje hooliganismo significa bestialidade nos estádios de futebol e o fenômeno não está restrito exclusivamente à Inglaterra. Muito pelo contrário, os Hooligans ingleses são bastante civilizados comparados aos hooligans de outros países europeus, como os da Sérvia, os de Montenegro e os da Itália. Essas torcidas de fanáticos se julgam arianos de puro sangue. Muitos são nazistas/fascistas de carteirinha e, portanto, racistas e antissemitas. Isto apesar da segunda guerra mundial ter acabado em 1945. Isto apesar de Hitler ter se suicidado em abril daquele ano.

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Clauter

24 de maio de 2013 às 20h14

Esse jogador parece ser feito de aço!!!

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Fabio Passos

24 de maio de 2013 às 19h15

A crise, como bem explicou o Lula, e responsabilidade da ricaiada branca do olho azul.

Repugnante o racismo e o preconceito das nacoes “civilizadas” do ocidente.
O capitalismo enriqueceu materialmente a europa e os eua, mas a miseria etica e intelectual ainda abunda.

Aqui no Brasil, casa-grande e senzala ainda estao de pe… e o PiG reverbera a intolerancia e o desprezo da “elite” branca com o povo brasileiro.

Ja passou da hora de explodir a casa-grande e recuperar tudo o que a ricaiada branquicela e vagabunda roubou do trabalhador.

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João Cesar

24 de maio de 2013 às 19h15

Balotelli é o machista misógino que ofereceu a namorada para dormir com os jogadores do Barcelona caso o time espanhol vencesse seu adversário.

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    claudia

    25 de maio de 2013 às 00h19

    Caramba, não sabia disso! Fui procurar e sua informação está corretíssima.
    Esse Balotelli foi muito podre e cretino e a namorada é uma estúpida por aceitar uma coisa dessas.
    Não respeito esse cara, não e agora estou me lixando para o que acontece com ele!
    Se alguém se interessar, link
    http://www.today.it/sport/balotelli-fidanzata-sesso-con-il-real.html

    Joe

    25 de maio de 2013 às 16h46

    Claudia, concordo o cara é um lixo.
    Mas é disso que está sendo falado, ele foi só um exemplo.

    Joe

    25 de maio de 2013 às 16h47

    Corrigindo>>. Não é disso…

Edgar Rocha

24 de maio de 2013 às 19h07

Os privilegiados precisam urgentemente de inimigos. As vagas estão abertas. Fiquem tranquilos. O trabalho é temporário e os pré-requisitos são bem pouco específicos. É só até passar a crise. Embora fique registrado para a eternidade sua experiência profissional e o nome do funcionário constará no cadastro interno para futuras contratações. Os que têm experiência terão prioridade. E não terão direito à recusa. Caso sejam convocados e não compareçam, serão visitados em suas próprias casas. Deverão oferecer refeição e abrigo aos convocadores e, dependendo do conforto, eles ficam, ao invés de te levarem.
Só uma perguntinha: qual é mesmo a utilidade daquele discurso humanista, cristão e civilizado de não violência, de não se fazer justiça com as próprias mãos, de dar a outra face, de não utilizar-se do artifício odioso de resistência e enfrentamento, de não ser bandido e descer no mesmo nível dos que te agridem, de não perder a razão, pra não ser tachado de intolerante, de não ter raiva, indignação, ira, fúria, etc.?
Há ,sim, lembrei: toda ação de defesa é prerrogativa do Estado. Quem não entende isto e rebela-se diante do agressor, que se vire com os agentes pra conquistar sua simpatia. Senão, perde a cidadania, a liberdade e vira marginal. Simples.

Responder

Francisco

24 de maio de 2013 às 18h52

O ponto não é ser xingado de macaco.

O ponto é, nessa briga, ser King Kong.

Ou, falando em termos claros, nós a macacada temos que reduzir esse xingamento á condição de muxoxo de gente fraca, decadente, neurótica e complexada.

Temos que botar os europeus pra baixo?

Não creio que seja necessário.

Não por cristianismo.

Apenas por pragmatismo – sou mulato – não tenho tempo a perder.

O que temos é que nos colocar pra cima.

King Kong, com muito orgulho.

PS. Que todos sejam, sempre, muito bem vindos ao Brasil. Me orgulho da educação doméstica que minha mãe (D. Rosa e o povo brasileiro), me deram. Mas é necessário saber da serpente(ter sempre claro na mente), que ela é uma serpente…

Responder

    José

    24 de maio de 2013 às 20h41

    Concordo. Lembro de um colega meu que, negro e crescido em um ambiente racista, ao fazer um gol ou mesmo de brincadeira em momentos de bagunça, imitava um macaco. Sua performance, terminava por humilhar os racistas que tinham que reconhecer a derrota, ou a beleza e agilidade do outro preconceituado como inferior. Sempre achei que o filme planeta dos macacos tinha uma mensagem subliminar. Sempre achei aqueles macacos muito familiares. sempre desconfiei que eles tinham medo de alguma coisa, e não eram dos chipanzes. Aqueles macacos, somos nós.


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