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Truthout: Quando a Dow e a Monsanto se unem


24/02/2012 - 13h20

Dow e Monsanto Somam Forças para Envenenar o Coração dos Estados Unidos

Por Richard Schiffman, no Truthout

Em um casamento que muitos diriam foi engendrado no inferno, os dois maiores produtores de agroquímicos do país somaram forças em uma parceria para reintroduzir o uso do herbicida 2,4-D, metade do infame desfolhante Agente Laranja, que foi usado pelas tropas norte-americanas para limpar as florestas durante a Guerra do Vietnã. Essas duas gigantes da biotecnologia desenvolveram um programa de administração de semente que, se for bem sucedido, será um grande passo na direção de dobrar o uso do herbicida nocivo no cinturão de milho dos Estados Unidos durante a próxima década.

O problema para os fazendeiros de milho é que as “super sementes” vem desenvolvendo resistência ao Roundup, herbicida campeão de vendas nos Estados Unidos, que é pulverizado em milhões de hectares do centro-oeste e em outros lugares. A Dow Agrosciences desenvolveu uma variedade de milho que ela diz que resolve esse problema. A nova variedade geneticamente modificada tolera o 2,4-D, que vai matar as ervas resistentes ao Roundup, mas deixará o milho em pé.  Os fazendeiros que optarem pelo sistema terão que dar uma dose dupla a suas plantações, com o coquetel mortífero de Roundup mais o 2,4-D, ambos fabricados pela Monsanto.

Mas este plano alarmou os ambientalistas e também muitos fazendeiros, que relutam em reintroduzir um químico cuja toxicidade já foi muito bem documentada. O 2,4-D foi banido por vários países da Europa e em províncias do Canadá. Suspeita-se que a substância seja carcinogênica, e já foi provado, em um estudo conduzido pelo patologista Vincent Garry, da Universidade de Minnesota, que a incidência de defeitos de nascença dobra em filhos de aplicadores de pesticidas.

Pesquisadores dizem que o efeito do 2,4-D sobre a saúde humana ainda não foi totalmente compreendido. Mas ele pode ser um fator de risco em linfomas e leucemias, que foram detectados com frequência entre os veteranos do Vietnã expostos ao Agente Laranja. A Agência de Proteção Ambiental (EPA) afirmou que o químico pode ter “potencial de ruptura endócrina” e interfere no sistema hormonal humano. Pode ser que seja tóxico para as abelhas, pássaros, peixes, de acordo com a pesquisa do Serviço Florestal Americano, e outros. Em 2004, uma coalizão de grupos liderada pelo Conselho de Defesa dos Recursos Naturais e pela Pesticide Action Network, enviou uma carta à EPA cobrando pelo fato de a agência ter subestimado os impactos do 2,4-D sobre a saúde e sobre o meio-ambiente.

A agricultura industrial de larga escala se tornou dependente de aplicações cada vez maiores de agroquímicos. Alguns comparam a situação a um viciado em drogas que requer doses cada vez maiores para ficar entorpecido. O uso de herbicidas aumentou consistentemente no tempo enquanto as ervas desenvolveram resistência e requerem quantidades cada vez maiores e mortíferas de químicos para serem mortas.  Isso exige que a engenharia genética produza agressivamente sementes que aguentem o ataque cada vez mais intenso dos produtos químicos.

Muitos cientistas agrícolas alertam que essa dependência crescente de agroquímicos é insustentável a longo prazo. A fertilidade do solo diminui na medida em que minhocas e microorganismos vitais são mortos pelos pesticidas e herbicidas.  Eles também poluem os depósitos subterrâneos de água e comprometem a saúde dos animais alimentados com grãos contaminados pelos produtos químicos.

Estes impactos estão fadados a crescer. Dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) revelam que o uso de herbicidas aumentou em 173 milhões de quilos de 1996 a 2008. Significativamente, quase metade deste incremento (46%) se deu entre 2007 e 2008 como resultado da venda das novas sementes resistentes a herbicidas como o novo híbrido de milho da Dow.

Ninguém sabe qual será o efeito que o uso desse híbrido terá sobre a saúde dos consumidores norte-americanos. Milho entrelaçado com altos níveis de 2,4-D pode contaminar de tudo, dos cereais do café da manhã ao bife de vaca, que concentra toda a toxina na carne. Já que o milho e frutose de milho são elementos-chave de tantas comidas processadas, alguns especialistas em saúde pública alertam que todos os norte-americanos, em breve, serão cobaias em um experimento de massa mal concebido com um dos principais itens de nossa cadeia alimentar. O departamento de agricultura dos Estados Unidos, o USDA, está considerando desregulamentar as novas variedades de milho geneticamente modificado da Monsanto (o que será usado em conjunto com o 2,4-D) e está aceitando os últimos comentários públicos sobre o tema até o dia 27 deste mês (fevereiro).

Até recentemente, sementes resistentes a herbicidas eram populares com os fazendeiros, que conseguiam alta produtividade quase sem esforço na administração das ervas daninhas. Mas agora que o problema das ervas está voltando com força, alguns estão questionando a sabedoria deste modelo de uso intensivo de químicos na agricultura. O milho biotecnológico da Dow custa quase três vezes o preço da semente comum. E a projeção de que o uso de pesticidas vai dobrar nos próximos anos vai tornar tudo mais caro, e ao mesmo tempo mais destrutivo para as fazendas e para o ecossistema.

Existem alternativas viáveis à  agricultura intensiva em químicos, métodos que passaram no teste do tempo, como a rotação de culturas, o uso de sementes cover, e outras práticas que permitem aos fazendeiros competir naturalmente com as ervas. Já é hora dos fazendeiros recuperarem o conhecimento de seus ancestrais nesta área.

Alguns cientistas agrícolas defendem o desenvolvimento de um sistema integrado de manejo das ervas para substituir o uso insustentável de produtos químicos. Mas as grandes empresas de agroquímicos não têm o menor interesse em dar apoio à agricultura sustentável, que tem o potencial de eliminá-las do mercado. Enquanto houver bilhões de dólares em jogo na venda de herbicidas e de sementes geneticamente modificadas resistentes aos herbicidas, não haverá muito dinheiro disponível para pesquisas que explorem alternativas naturais à  destruição do coração de nossa nação.

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13 comentários

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DonGiovanni43

26 de fevereiro de 2012 às 02h29

Essas nefastas corporações são o mal desse mundo. Ainda levarão a humanidade a ruína.

dica 1: Vejam esse documentário http://www.youtube.com/watch?v=D6-YkHO3kPY = O mundo segundo a Monsanto.

dica 2: http://www.youtube.com/watch?v=Sgd4xLmLBrc = Servidão Moderna

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H. Back™

26 de fevereiro de 2012 às 02h19

O fim da humanidade está próximo ou haverá uma nova seleção natural? Quem sobreviver verá.

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    Mário SF Alves

    28 de fevereiro de 2012 às 10h09

    Tal seleção pode ser tudo, menos natural, caro H. Back.

H. Back™

26 de fevereiro de 2012 às 02h16

Eis aí uma ameaça maior do que a ameaça nuclear, a ameaça biotecnológica.

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Marat

25 de fevereiro de 2012 às 21h07

Dow, Monsanto, Cargill, Syngenta e Embrapa, os cinco cavaleiros do Apocalipse!

Responder

    Mário SF Alves

    28 de fevereiro de 2012 às 12h40

    Sou engenheiro agrônomo, caro Marat, e não concordo com a inclusão da EMBRAPA nesse balaio de gatos. É forçar demais a barra, né não? A meu ver a EMBRAPA, nascida em terras tupiniquins, é apenas mais um instrumento da coisa toda, e, só não é diferente por lhe faltar um maior grau de liberdade no estabelecimento de diretrizes. Mas, afinal, nada de estranho, pois quem manda nesse Estado mais pra Estado de Fato do que de Direito é quem? E tenha certeza, pode incluir na resposta essas mesmas quatro supercorporações que você acabou de mencionar. Ah! Inclua também o sistema econômico vigente e seus aliados ocultos, os produtores de crack. Aí, sim, você vai ter a imagem, não dos 4 ou 5 cavaleiros do apocalipse, mas, o próprio apocalipse.
    Saudações radicalmente democráticas.
    Att.,
    Mário.

    Mário SF Alves

    28 de fevereiro de 2012 às 13h43

    Sou engenheiro agrônomo, caro Marat, e não concordo com a inclusão da EMBRAPA nesse
    balaio de gatos. É forçar demais a barra, né não? A meu ver a EMBRAPA, nascida em terras
    tupiniquins, é apenas mais um instrumento da coisa toda, e, só não é diferente por lhe
    faltar um maior grau de liberdade no estabelecimento de diretrizes. Mas, afinal, nada de
    estranho, pois quem manda nesse Estado mais pra Estado de Fato do que de Direito é quem?

    E tenha certeza, pode incluir na resposta essas mesmas quatro supercorporações que você
    acabou de mencionar. Ah! Inclua também o sistema econômico vigente e seus aliados
    ocultos, os produtores de crack. Aí, sim, você vai ter a imagem, não dos 4 ou 5
    cavaleiros do apocalipse, mas, o próprio apocalipse.
    Saudações radicalmente democráticas.
    Att.,
    Mário.

Luiz

25 de fevereiro de 2012 às 20h21

2 problemas para nós, no futuro: Os agronegócios conduzidos por empresários sem ética e só pelo lucro vão dar um jeito de importar isso daí e outro é que os americanos vão ficar sem água potável e adivinhem onde irão invadir, (digo invadir pq é praxe daquela nação de chegar e roubar sem cerimônias)?

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JoseIvanAquino

25 de fevereiro de 2012 às 17h15

Nossas salas de aula, em todos os níveis e cursos, devem debater o uso dos agroquímicos, a possibilidade de indivíduos e corporações acumularem mais de U$100 milhões de lucros anuais sem revertê-los – naquilo que execederem ao limite – para a mudança radical no uso dos bens coletivos: água, terra, florestas, mar, atmosfera.

José Ivan Mayer de Aquino
Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e Pela Vida

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CC.Brega.mim

25 de fevereiro de 2012 às 02h17

eu fui à itapeva em sp divisa com pr
visitei a escola de agroecologia
os estudantes aprendem técnicas ecológicas
em períodos que respeitam os ciclos da agricultura
e parte de seu trabalho
é aplicar o que aprenderam nos lotes da família
a embrapa também está lá
realizando experiências de agrofloresta
vale a pena conhecer as alternativas..

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Regina Braga

24 de fevereiro de 2012 às 23h19

O duro foi o arsênico nos produtos infantis,na barra de cereal e,o batom contaminado por chumbo.Quem precisa do Monsanto?

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eunice

24 de fevereiro de 2012 às 18h39

Eu ando muito desanimada com o mundo. As pessoass que elegemos apenas usam nosso voto – para depois, descaradamante, pois descaradas é o que são, trabalharem para quem as paga, ou seja, as fabricantes de venenos, os banqueiros e outras gentes desse nível. Se morrem pessoas???Ah! isso não lhes importa nada. E não podemos bani-las. Demoramos décadas para banir os fichas sujas do dinheiro.
Mas….. e para banir os fichas sujas do veneno. Vamos começar nova luta? Mas já temos nossa luta do ganha-pão. Acho que estamos no apocalipse mesmo.

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    Fabio_Passos

    25 de fevereiro de 2012 às 01h06

    Tem de rolar uma Revolução Global que de fim nestes tiranetes corporativos que estão desgraçando a humanidade e o planeta… para fazer lucros.
    Este é o resultado da estupidez de um regime que escravizou 99% da humanidade para benefício de 1%.


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