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Saul Leblon: Quando o jornalismo promove assalto aos cofres públicos


17/08/2013 - 14h38

Mídia caça tomate sub-aquático

17/08/2013

Eles querem tirar uma lasca do Brasil

por Saul Leblon, na Carta Maior

O capital parasita – leia-se, rentistas, especuladores e a república dos acionistas sem pátria – acha que chegou a hora de tirar uma lasca do Brasil.

Um pedaço do pré-sal, talvez.

Ou um naco das reservas em dólar.

Quem sabe um escalpo extra da população para atingir ‘a meta cheia’ do superávit fiscal.

Os preparativos para o assalto começaram há algumas semanas; deixaram os rastros de sempre nas manchetes nada sutis do jornalismo ‘especializado’.

A interpretação que a mídia e consultorias oferecem para o salto do dólar nesta 6ª feira, quando a moeda norte-americana avançou 2% e beirou R$ 2,40, inclui-se nesse esforço de achacar a nação por asfixia.

O jornal Valor Econômico foi originalmente um veículo conservador com apego à exatidão útil aos mercados.

Rasgou a fantasia este ano; hoje é mais um clarim estridente dessa ordem unida de achacadores.

Para se credenciar, limou a redação da competência heterodoxa de que dispunha e despediu a seriedade.

Ajustou-se.

Agora é o porta-voz dos administradores de carteiras.

Uma gente sôfrega que se move por impulsos irrefletidos em relação ao próximo e ao distante; sejam eles a sorte da economia ou os destinos da sociedade.

É desse circuito algo reptiliano que saltou o bote desfechado esta semana contra o pré-sal.

Coube ao Valor atribuir ao governo aquilo que a ganância parasitária pleiteia: abdicar dos 30% cativos da Petrobrás no pré-sal.

Um balão de assalto.

A república dos acionistas gostaria de ‘realizar’ depressa o valor potencial das maiores reservas de petróleo descobertas no planeta nos últimos 30 anos.

O nome do atalho é petroleiras internacionais.

O método: remeter in bruto o óleo, sem refino.

E gerar caixa.

Somas elevadas.

A república dos acionistas ganharia duas vezes.

Se a Petrobrás deixa de gastar como investidor universal da exploração, com pelo menos 30% em cada poço, como manda a lei, sobra mais para distribuir dividendos aos detentores das carteiras.

Que ganhariam de novo se o petróleo fosse bombeado direto para fora do país, sem alimentar impulsos industrializantes, sem expandir polos tecnológicos, sem engatar cadeias de equipamentos com elevados índices de nacionalização e prazos mais largos.

Entre os favorecidos nessa elipse do interesse nacional, figura a família Marinho, dona do jornal Valor, juntamente com os Frias, e um dos maiores acionistas da Petrobras.

Transitamos, como se vê, no campo da injeção de interesses direto na veia do noticiário.

Nesta 6ª feira foi a vez do ataque especulativo contra o câmbio.

O chamado ‘over shoot’ do dólar – uma desvalorização abrupta e pronunciada– vem sendo urdido em ladainha, há várias semanas, pelo mesmo noticiário especializado .

A esperança, confessa, é que o ajuste cambial — que o país precisaria fazer para devolver competitividade a sua indústria e refrear o déficit externo — desembeste.

E ocupe o lugar do tomate no jogral do ‘descontrole dos preços’, lubrificando a defesa do choque redentor dos juros .

O conjunto atenderia ainda à determinante política do mutirão conservador, que consiste em decretar o necrológio do governo Dilma, com injeção de algum oxigênio às candidaturas anêmicas da oposição tucana.

Fatos.

As moedas emergentes – todas elas – perderam valor no mundo nesta 6ª feira.

Motivo: a expectativa de uma mudança de ciclo econômico mundial, com a recuperação dos EUA.

O BC norte-americano pode apertar um pouco menos o espirrador de liquidez por lá, se a recuperação, de fato, acelerar o passo de forma consistente (hipótese ainda controversa).

Se isso acontecer, os juros norte-americanos tendem escalar níveis capazes de gerar uma fuga de investidores do resto do mundo, Brasil inclusive.

Os juros futuros dos títulos do Tesouro dos EUA flexionaram nessa direção na 6ª feira.

Mas não há fuga de investidores do Brasil, por enquanto.

Nem há razões para tal. Ao contrário.

A brasileira foi uma da raras economias ocidentais cujo consumo de massa se manteve em expansão durante a crise.

Ademais de ser dotada de um robusto pacote de investimentos pesados. E de um fiador de futuro composto de bilhões de barris de petróleo.

O que fez a ganancia infecciosa nesta 6ª feira foi aproveitar a onda externa e ‘antecipar’ o cenário de uma fuga, precificando-o nas cotações do dólar.

O que eles querem?

Querem que o Brasil atue para apagar o fogo da avidez, dando um pedaço das reservas de US$ 380 bi à fome descabida aos mercados especulativos.

É agora ou nunca.

A verdade é que o mote do descontrole econômico, alardeado como a contra-face ‘estrutural’ dos protestos de junho, não pegou.

Fanhosas apresentadoras de refogados na TV foram para o sacrifício, pendurando legumes no pescoço.

O ridículo lhes cai bem, mas não prosperou: em julho, houve deflação de alimentos.

O custo da cesta básica caiu em 18 capitais. A indústria cresceu.

O PIB se arrasta, mas estamos longe do alarmismo inscrito no noticiário.

A popularidade da Presidenta Dilma desenhou uma inflexão de alta em agosto.

Segundo o Datafolha, ela vence qualquer adversário no 2º turno.

O conservadorismo, ao contrário,mimado pela mídia, não tem nenhum candidato de fôlego.

Seu núcleo duro foi atropelado pelas revelações de corrupção sistêmica no metrô de São Paulo.

Se é para tirar uma lasca do país, há que ser agora, na turbulência que o ajuste de ciclo internacional provoca nos portfólios especulativos.

Depois pode ficar tarde.

Um jornalismo rudimentar no conteúdo, ressalvadas as exceções de praxe, mas prestativo na abordagem, reveste esse assalto com uma camada de verniz naval de legitimidade incontrastável.

A crise mundial açoitou impiedosamente a sabedoria excretada dessa endogamia entre o circuito do dinheiro especulativo e o noticiário conservador.

Para dizê-lo de forma educada, a pauta dos mercados autorregulados revelou-se uma fraude datada e vencida.

De um mundo que trincou e aderna, desde setembro de 2008.

Todavia, só se supera aquilo que se substitui.

E nada se colocou em seu lugar.

Ao que parece, o governo continua a acreditar que vencerá a luta pelo desenvolvimento brasileiro armado de ferramentas exclusivas do paiol economicista.

Deixa, assim, o campo livre para o mercado fazer política, na companhia desfrutável do jornalismo especializado.

Tirando uma lasca do Brasil, em nome dos interesses particularistas. Que a mídia equipara aos de toda a sociedade.

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15 comentários

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Julio Silveira

19 de agosto de 2013 às 16h22

Beleza de diagnostico. A muito tempo usam o todo como forma de atender ao interesse de alguns. E muita gente que é prejudicada, no andar dessa carruagem, ainda apoia por falta de visão e entendimento sobre o funcionamento da atuação politica dessa elite brasileira, que tem trabalhado para transformar o país numa nação atrelada aos interesses coronéis.

Responder

Mauro Assis

19 de agosto de 2013 às 11h13

Graças a essa política protecionista é que vamos micar com esse petróleo debaixo do solo.

Em vez do Brasil arrumar um jeito de tirar todo esse óleo debaixo da terra e transformar em dinheiro logo, para investir em educação e outras demandas, limitamos a exploração à capacidade de investimento e gestão da Petrobrás.

Enquanto isso, nos EUA os caras resolveram explorar o gás de xisto há apenas 3 anos e uma parte significativa da energia que eles consomem já é provida por esse gás. Lá eles tem mais de 2000 empresas trabalhando na extração do gás, enquanto que aqui estamos ancorados à Petrossauro.

A idade da pedra não acabou por falta de pedra. A idade do petróleo vai acabar e nós ficaremos com um mundo de ferro velho prá vender no quilo.

Responder

    guilherme

    19 de agosto de 2013 às 22h14

    Se é assim por que querem tanto o nosso petróleo. Por que o nosso petróleo, o da Venezuela, são tão cobiçados. Deve ser porque são bonzinhos querendo nos auxiliar comprando, como você diz, ferro velho.

    Mauro Assis

    20 de agosto de 2013 às 08h18

    Guilherme, vc não entendeu o que escrevi: o ferro velho ao que eu me referi é o patrimônio da Petrossauro (refinarias, navios, plataformas etc) que passará a valer o quanto pesa à medida que o petróleo for perdendo a relevância.

    Quanto a eles cobiçarem o nosso petróleo: o capital anda atrás de, ou seja, “cobiça” oportunidades.

    A gente transformou a exploração petróleo do pré-sal (que embaixo da terra vale nada) em uma má oportunidade, tanto é que o pré-sal foi descoberto há OITO ANOS e cada vez a gente importa mais derivados. Ou seja, a Petrobrás não tem capacidade, nem financeira nem de gestão para transformar esse óleo em riqueza, que poderia realmente nos proporcionar um salto. Na hora que a Petrobrás der conta (para isso ela terá que investir uma montanha de dinheiro que o governo vai ter que aportar, porque ela está no limite da capacidade de se endividar) de tirar esse óleo ele já não terá a relevância que tem hoje.

    Isso vai acontecer primeiro com a Venezuela, vc vai ver. Em menos de três anos os EUA vão parar de comprar óleo deles. Como o óleo deles é extrapesado e eles não tem capacidade de refiná-lo, vão micar com ele.

    Aí, quando eles forem pro buraco, quem sabe teremos um governo sensato o suficiente para entender que o negócio é dar mais grana pros gringos prá que esse petróleo vire grana antes que seja tarde?

    Batista Neto, Jose

    21 de agosto de 2013 às 05h44

    Esse deve ser leitor e seguidor do “professor” Rodrigo Constantino, o novo jenio da doutrina neoliberal!!

    Matheus

    21 de agosto de 2013 às 17h09

    “Em vez do Brasil arrumar um jeito de tirar todo esse óleo debaixo da terra e transformar em dinheiro logo”
    “Petrossauro”

    Aproveita e privatiza a sua mãe para os estadunidenses também.

Mardones

19 de agosto de 2013 às 08h57

“Ao que parece, o governo continua a acreditar que vencerá a luta pelo desenvolvimento brasileiro armado de ferramentas exclusivas do paiol economicista.

Deixa, assim, o campo livre para o mercado fazer política, na companhia desfrutável do jornalismo especializado.”

Isso é inadmissível, mas a Dilma e o PT seguem dando um tapa na cara da população que exige regulação dos meios de comunicação, como manda a Constituição Federal. Por isso, ele perde o meu respeito.

Responder

Paulo Roberto

18 de agosto de 2013 às 18h11

E a Dilma continua acreditando no poder do controle remoto e mantendo tucanos na SECOM.

Responder

Acássia

18 de agosto de 2013 às 14h43

Acho que a maior de todas as batalhas da sociedade é mesmo afastar os ladrões disfarçados de economistas, lobistas, cientistas, jornalistas, acionistas, e consultores. Desmanchando estas máfias o estado estará a salvo.

Responder

    Acássia

    18 de agosto de 2013 às 14h45

    Culpa nossa. Deixamos de fiscalizar os fiscalizadores, agora os ladrões acham que é direito adquirido. Não dão a mínima bola para a sociedade.

Urbano

18 de agosto de 2013 às 14h37

E na partilha feita entre os meliantes da oposição ao Brasil, o pig leva um bom quinhão do butim. Até o Leão foi rendido numa das vezes.

Responder

marco

17 de agosto de 2013 às 19h22

Sr.Leblon.Este ensaio do Banco Central Estadunidense de parar com a emissão de dólares,frios na verdade,tem o propósito de buscar investimentos em seus títulos de dívida,impagável na verdade,contudo eles tem armas atômicas e com elas atormentam os medrosos,e por isso os medrosos os obedecem,mas não tem solução de continuidade já que a economia estadunidense,está em grande recessão,perto da Depressão,embora os torcedores deles,digam o contrário.Além do mais,com a concentração la,que cresce mes a mes,não vejo como podem sair do buraco.Não esqueçamos que as reservas dos países,são em dolares,e por isto a cambada de agiotas,não vê outraz alternativa,senão pressionar o mundo,com as ameaçãs habituais.Como estão entregues,eles principalmente,aos agiotas,terão de buscar alternativas,possivelmente alternativas de guerras,já que pra outras,não tem respostas!

Responder

Jorge

17 de agosto de 2013 às 18h39

Como diz o PHA, o Valor é o PiG cheiroso.

Pelo menos um colar de dólares (moedas, não notas) não ficaria tão ridículo no pescoço da Ana Maria Braga quanto o terrível colar de tomates.

Responder

J Souza

17 de agosto de 2013 às 17h42

Ainda bem que, pelo menos no final do texto, ele não esconde que o governo não é vítima, e, sim, cúmplice…

Responder

    Saulo

    18 de agosto de 2013 às 12h31

    KKKK !!! Acho q vc leu outro texto !!! KKK !!!


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