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Diário da Resistência


Os encontros de Urariano Mota com patroas e empregadas domésticas
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Os encontros de Urariano Mota com patroas e empregadas domésticas


11/11/2014 - 13h32

witins

As empregadas e a escravidão

10/11/2014 15:00

Por Urariano Mota, de Recife, no Correio do Brasil

Por caminhos tortos, Joaquim Nabuco teve uma das suas iluminações quando escreveu: “A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil”.

Sim, por caminhos tortos, porque depois de uma frase tão magnífica, de gênio do futuro, Joaquim Nabuco sem pausa continuou, num encanto que esconde a crueldade:

“Ela (a escravidão) espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contato foi a primeira forma que recebeu a natureza virgem do país, e foi a que ele guardou; ela povoou-o como se fosse uma religião natural e viva, com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos; insuflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor…”.

Penso na primeira frase de Nabuco, a da escravidão como característica do Brasil, depois que o Congresso deu um primeiro passo para a superação da herança maldita.

Não quero falar aqui sobre as conquistas legais para as empregadas domésticas, da nova lei sobre a qual os jornais tanto falaram como um aviso: “patroas, cuidado, domésticas agora têm direitos”.

Falo e penso nas empregadas que vi e tenho visto no Recife e em São Paulo.

No aeroporto de Guarulhos eu vi Danielle Winits, a famosa atriz da Globo, muito envolvida com o seu notebook, concentradíssima, enquanto o filhinho de cabelos louros berrava.

Para quê? A sua empregada, vestida em odioso e engomado uniforme, aquele que anuncia “sou de outra classe”, cuidava para que a perdida beleza da atriz não fosse importunada.

Tão natural… os fãs de telenovelas não viam nada de mais na mucama no aeroporto, pois faziam gracinhas para o bobinho lindinho.

Em outra ocasião, numa terça-feira de carnaval à noite, vi no Recife uma jovem à minha frente, empenhada em ver a passagem de um maracatu.

Tão africano, não é?

Junto a ela uma senhora – desta vez sem uniforme, mas carregando no rosto e modos a servidão – abrigava nos braços um bebê.

Os tambores, as fantasias, eram de matar qualquer atenção dirigida à criança, que afinal estava bem cuidada, sob uma corda invisível que amarrava a empregada.

Então eu, no limite da raiva, oferecei o meu lugar à sua escrava sobrevivente, com a frase: “a senhora, por favor, venha com o seu filho aqui para a frente”.

A empregada quis se explicar, coitada, morta de vergonha, enquanto a doce mamãe não entendia o chamamento irônico, pois me olhava como se eu fosse um marciano.

Espantada, parecia me dizer: “como o meu filho pode ser dessa aí?”.

O desconhecimento de direitos elementares às empregadas domésticas, como privacidade, respeito, a falta de atenção para ver nelas uma pessoa igual aos patrões, creio que sobreviverá até mesmo à nova lei.

É histórico no Brasil, atravessa gerações e atinge até mesmo os mais jovens e pessoas que se declaram à esquerda.

É como se estivesse no sangue, como se fosse genético, de um caráter irreprimível.

Até antes delas vão a democracia e a igualdade.

A partir delas é outra história.

Quantas vezes vemos nos restaurantes jovens casais com suas lindas crias, tendo ao lado as escravas, que nem sequer têm direito a provar da bebida e da comida?

Isso nos domingos e feriados, pois esses são os dias das patroazinhas se divertirem.

É justo, não é?

O feminismo se faz para que mulheres sejam cidadãs, mas a cidadania só alcança os iguais, é claro.

Em todas as situações desconfortáveis, se ousamos estranhar, ou agir com pelo menos um olhar atravessado para essa infâmia, recebemos a resposta de que as domésticas são pessoas da família.

Parentes fora do sangue, apenas separadas por deveres, notamos.

É o que se pode chamar de uma opressão disfarçada em laços afetivos.

A ex-escrava é considerada como um bem amoroso, íntimo, mas que por ser da casa come na cozinha e se deita entre as galinhas do quintal.

O que, afinal, é mais limpo que se deitar com os porcos no chiqueiro.

Não estranhem, porque não exagero.

Não faz muito tempo no Recife era assim. E por que estranhar esse tratamento?

Olhem os grandes e largos e luxuosos apartamentos do Rio e de São Paulo, abram os olhos para os minúsculos quartinhos de empregadas, entrem nos seus banheiros, que Millôr dizia serem a prova de que no Brasil empregadas não têm sexo no WC.

Não posso concluir sem observar que os pobres copiam os ricos, e que o tratamento dado às domésticas se estende em democracia para todas as classes sociais.

Menos para as empregadas, é claro. “A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil”, dizia Nabuco.

Urariano Mota, escritor e jornalista. Autor do romance Soledad no Recife, sobre o assassinato pela ditadura brasileira da militante paraguaia Soledad Barret, grávida, depois de traída e denunciada por seu próprio amante o Cabo Anselmo. Escreveu também O filho renegado de Deus e seu livro mais recente é o Dicionário Amoroso do Recife. Seu primeiro livro foi Os Corações Futuristas, um romance na época do ditador Garrastazu Médici. Na juventude publicou artigos, contos e crônicas nos jornais Movimento e Opinião.

Direto da Redação é um fórum de debates, do qual participam jornalistas de opiniões diferentes, dentro do espírito de democracia plural, editado, sem censura, pelo jornalista Rui Martins.

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15 comentários

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Patricia

13 de novembro de 2014 às 13h00

Simplesmente verdade. Me tocou muito esse texto. Obrigada

Responder

augusto2

13 de novembro de 2014 às 10h20

Gostei e apreciei em especial essa frase do urariano.
“como o meu filho pode ser dessa ai?”.
Fiel reproduçao da psiqué escravagista, tão brutal quanto exata.

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Gustavo Horta

12 de novembro de 2014 às 16h53

Houve uma lei de “abolição da escravatura”, mas a escravatura nunca saiu da lei. É mais uma das leis que nunca pegou!
Um grande golpe nas classes menos favorecidas e que aqui, sendo pessoas em sua pátria, foram escravizadas pelos brancos europeus!

mai/2013 >> http://gustavohorta.wordpress.com/2013/05/27/13-de-maio-um-golpe-uma-acao-corretiva/

Felicidade. Sempre.

Responder

Gustavo Horta

12 de novembro de 2014 às 16h45 Responder

Edvard

12 de novembro de 2014 às 15h47

Nos apartamentos funcionais de Brasília há uma situação interessante: a cozinha somente tem interruptor na porta que permite o acesso à área do quarto de empregada.
Ou seja, foi feito para moradores que não vão à cozinha. O interruptor serve a quem a usa, ou seja os empregados. E por incrível que pareça, em tese os projetos eram de “comunistas”.

Responder

Ronaldo

12 de novembro de 2014 às 01h40

Sou do Rio, trabalho no Leblon e fico revoltado ao olhar para as praças e detectar que 99% das crianças só estão ali por causa das suas empregadas. Só um número ínfimo está acompanhada da mãe ou do pai. Vá ao jardim botânico em qualquer fim de semana e irá constatar o óbvio: são as empregadas que criam os filhos das madames, enquanto estas estão na praia ou no clube Piraquê, Caiçaras etc. Triste isso. Cadê o Conselho tutelar nessas horas?

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    Viviane

    12 de novembro de 2014 às 13h44

    O Conselho Tutelar está muito ocupado perseguindo mães pobres que não tem dinheiro para contratar uma babá e não são atendidas pelo Estado que deveria abrir vagas em creches públicas. Algumas são até presas por “negligência”…

Carlos

11 de novembro de 2014 às 20h40

Fato ocorrido em João Pessoa e presenciado por mim, que, logicamente, fiquei estarrecido: Estava eu na feira livre de Jaguaribe quando me deparei com uma loira, aparentemente riquinha, fazendo suas compras; seguindo ela, EMPURRANDO UM CARRINHO DE MÃO E CARREGANDO A FEIRA, estava uma senhora mulata de meia idade (aparentemente mais de cinquenta anos). Eu não acreditei no que estava vendo, fiquei tão estarrecido que não me lembrei de filmar. Este é um dos motivos que a PIOR ELITE DO MUNDO, A BRASILEIRA, quer tirar o PT do Poder.

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Mara Arouca

11 de novembro de 2014 às 19h41

Exatamente assim! Triste realidade! Faltam às vezes sentimentos de humanidade, fraternidade e respeito ao próximo!

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Marcio Wilk

11 de novembro de 2014 às 18h03

É… nunca irá acabar! E exitem variações…alguns não aceitam empregadas domésticas negras, por serem negras, e não querem negros dentro de casa, perto dos filhos, outros preferem negras, pois sentem que elas estão no lugar delas, sendo mandadas e humilhadas. Há aqueles que dão de presente ás domésticas roupas e móveis velhos, e ainda dizem: Viu como eu sou bonzinho!

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Rosalba Tovar

11 de novembro de 2014 às 15h20

Quando tive minha filha, contei com uma empregada que cuidava dela enquanto trabalhava. Nunca consegui levar a “babá” para cuidar dela nos passeios de fim de semana. Me incomodava profundamente, eu sem nada para fazer, e outra pessoa fazendo o que era de minha responsabilidade. Sempre contratei empregadas domésticas. E muito antes da lei já assegurava os direitos: carteira assinada, férias, 13º salário. Mas convivia com amigas que diziam que eu inflacionava o mercado por agir decentemente.

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Guilherme

11 de novembro de 2014 às 15h15

Sugiro ouvirem a música “Adão Negro” da banda Adão Negro, de Salvador.
Abraços.

“O apartheid disfarçado todo dia
Quando me olho não me vejo na TV
Quando me vejo estou sempre na cozinha
Ou na favela submissa ao poder
Já fui mucama mais agora sou neguinha
Minha pretinha nós gostamos de você
Levanta saia, saia correndo para quarto
Na madrugada patrãozinho quer te ver oioi
Será que um dia eu serei a patroa
Sonho que um dia isso possa acontecer
Ficar na sala não ir mais para a cozinha
Agora digo o que vejo na TV

Um som negro
Um Deus negro
Um Adão negro
Um negro no poder

Um som negro
Um deus negro
Um Adão negro
Um Indio no poder”

https://www.youtube.com/watch?v=sU3jW5awfCI

Responder

    O Mar da Silva

    13 de novembro de 2014 às 09h13

    Salve!

    Edson Gomes também foi na ferida:

    “Somos Nós

    Sim, somos nós que estamos nas calçadas
    Sim, somos nós que estamos nas prisões
    Nos alagados (aah)

    Sim, somos nós os marginais
    Sim, somos nós brutalizados
    Os favelados dos porões do inferno
    O inferno é aqui(4x)

    Sim, somos nós os sem direitos
    Sim, somos nós os imperfeitos, somos os negros

    Sim, somos nós filhos de jah
    Sim, somos nós perseguidos
    Os habitantes dos porões do inferno
    O inferno é aqui(4x)”

    A escravidão ficará por muito tempo na alma da sociedade brasileira, pois suas consequências continuam negadas.

    Guilherme

    13 de novembro de 2014 às 10h50

    Opa!

    Como não citar o grande mestre Edson Gomes?! Muito bem lembrado, amigo.

    Deixo aqui minha colaboração:

    História do Brasil, Edson Gomes.

    Eu vou contar pra vocês
    Certa História do Brasil
    Foi quando Cabral descobriu
    Esse pais tropical

    Um certo povo surgiu
    Vindo de um certo lugar
    Forçado a trabalhar nesse imenso pais

    E era o chicote no ar
    E era o chicote a estalar
    E era o chicote a cortar
    E era o chicote a sangrar

    Um dois três até hoje dói
    Um dois três bateu mais de uma vez
    Por isso é que a gente não tem vez

    Por isso é que a gente sempre esta do lado de fora
    Por isso é que a gente sempre está lá na cozinha
    Por isso é que a gente sempre esta fazendo

    O papel menor
    O papel pior

    Abraços!

Ana Aninha Veg

11 de novembro de 2014 às 14h00

Uma vez recusei um trabalho desses e fiquei rotulada como vagabunda. Mesmo assim, mesmo precisando não aceitei. Os bondosos patrões se indignaram e devem estar indignados atè hoje. Afinal perderam uma excelente educadora porque modéstia a parte sei que sou…. :)

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