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Leandro Fortes: Átila Brandão, o torturador ofendido
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Leandro Fortes: Átila Brandão, o torturador ofendido


26/05/2013 - 22h09

O agora pastor Átila Brandão (à esquerda), destacado agente da repressão na ditadura, tenta calar  o jornalista Emiliano José. Ele conseguiu na Justiça retirar da internet um artigo revelador

por Leandro Fortes, de Salvador, em CartaCapital

Nas manhãs de sábado, o pastor Átila Brandão, líder máximo da Igreja Batista Caminho das Árvores, faz uma exaltada pregação na TV Aratu, retransmissora do SBT na Bahia. É uma mistura de ignorância, oportunismo e preconceito.

Exemplo: o ser humano é inteligente por falar e não por pensar. Outro: o anticristo será um homossexual nascido de uma prostituta. Não se assuste, o pastor tem a solução contra o mal. Além do apego ao Evangelho e à Bíblia, Brandão acredita-se destinado a presidir o Brasil.

Infelizmente, a estratégia para derrotar o coisa-ruim via Palácio do Planalto corre sérios riscos. Atualmente, torturador de palavras e consciências, Brandão destacou-se nos anos 70 por outro tipo de barbárie, bem mais grave. Teve passagem marcante pelo aparato de repressão da ditadura.

Denunciado pelo ex-deputado e jornalista Emiliano José, o pastor perdeu a fleuma religiosa e ressuscitou seu velho estilo, consagrado nos anos de chumbo. Então oficial da Polícia Militar da Bahia, Brandão comandou espancamentos contra estudantes em Salvador entre 1968 e 1973. Em um prazo de três meses, o evangélico fez um boletim de ocorrência, registrou uma queixa-crime e abriu duas ações judiciais contra José. Seu objetivo principal é censurar o jornalista por causa do artigo intitulado “A premonição de Yaiá”. Publicado em fevereiro passado no jornal A Tarde e disponível na internet, o texto trata de uma história assustadora.

Com base em um depoimento gravado, o ex-deputado relata um momento na vida de Maria Helena Rocha Afonso, conhecida como Dona Yaiá, mãe do preso político Renato Afonso de Carvalho, ex-militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário.

Segundo Dona Yaiá, em 1971, após sentir terrível angústia no peito, decidiu por conta própria pegar um táxi e visitar o filho, então com 23 anos, preso no quartel da PM dos Dendezeiros, na chamada cidade baixa. Carvalho havia sido preso no Rio de Janeiro em fevereiro daquele mesmo ano por agentes da repressão e levado ao quartel da Polícia do Exército da Rua Barão de Mesquita, um dos mais cruéis centros de torturas do regime. Por dois dias, ficou pendurado em um pau de arara. Foi espancado e submetido a choques elétricos e afogamentos. Depois, enfrentou um fuzilamento simulado. Como, ainda assim, não entregou ninguém, seu assassinato parecia iminente.

Graças a um pedido do pai, Orlando de Carvalho, e da interferência de Dom Eugênio Salles, à época arcebispo do Rio de Janeiro, o militante foi salvo e transferido a Salvador. Sob custódia da PM baiana, achou que a fase das torturas havia passado. Engano absoluto. O militante do PCBR, hoje um respeitado professor de História na capital da Bahia, reencontrou no quartel dos Dendezeiros um velho desafeto, o capitão Átila Brandão.

Três anos antes, em 1968, Carvalho havia integrado um movimento para expulsar Brandão da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia onde ambos estudavam. Em companhia de outros militantes do movimento estudantil baiano, acusava o policial militar de ser um dos muitos agentes infiltrados pela ditadura no campus, estratégia comum naqueles tempos.

Diversos estudantes identificaram o então tenente Brandão como comandante de tropas da PM que durante manifestações de rua contra o regime liderava com brutalidade desmedida a repressão aos manifestantes.

À frente de uma equipe de torturadores, Brandão encontrou Carvalho em um dos porões do quartel, mas não quis conversa sobre o passado. Assim que o viu, disparou socos, chutes e xingamentos, tática normalmente usada antes das sessões de choques elétricos e afogamentos. O PM queria saber se o estudante conhecia um grupo de militantes do PCBR preso no Paraná pelo Exército. Quando estava prestes a montar o pau de arara e ligar a máquina de eletrochoques, o oficial foi interrompido por um soldado. Dona Yaiá havia passado pelas sentinelas e, resoluta, estava no corredor em frente ao porão onde o filho era torturado.

Segue o relato de Dona Yaiá, reportado por José, sobre a premonição naquele fevereiro de 1971: “Soube que o soldado entrou, cochichou no ouvido de Átila, e ele, irritado, mandou parar tudo, juntar o pau de arara e o resto, e se retirou. Cessou a tortura. Quando Renato saiu da sala, eu o abracei, perguntei-lhe se estava tudo bem, ele disse sim, mas pediu para que avisasse o advogado Jaime Guimarães. Queriam voltar a torturá-lo. Fiz o que Renato pediu. Não voltou a ser torturado”.

Brandão nega tudo, apesar das evidências. Entre elas, o documento número 45/69 da agência baiana do antigo Serviço Nacional de Informações datado de 13 de outubro de 1969, em que ele é citado reiteradas vezes como agente da repressão. O nome do ex-PM está na ficha montada pelo SNI sobre Rosalindo Souza, militante do PCdoB, morto e desaparecido na Guerrilha do Araguaia, em 1973. Assim como Carvalho, o guerrilheiro estava entre os estudantes que pediram a expulsão do policial militar da Faculdade de Direito em 1968.

O pastor reagiu à divulgação do artigo, à repercussão na Bahia e, claro, às ameaças a suas antigas pretensões eleitorais. Em 2006, foi candidato ao governo pelo PSC, partido do deputado Marco Feliciano, de São Paulo, com quem divide as mesmas opiniões homofóbicas.

Em 2012, apoiou ACM Neto à prefeitura de Salvador e ganhou, como prêmio, a nomeação de um filho, Átila Brandão de Oliveira Júnior, para o cargo de assessor especial da subchefia de gabinete do prefeito do DEM. Júnior era diretor da Faculdade Batista Brasileira, um dos negócios do pai.

Nas ações judiciais, Brandão acusa o jornalista de “pau mandado” e “papagaio de pirata”. Para calá-lo, pediu uma indenização de 2 milhões de reais e a retirada do artigo “A premonição de Yaiá” do site do ex-deputado, com multa diária de 10 mil reais, no caso de desobediência. Em 13 de maio, a juíza Marielza Brandão Franco, em decisão liminar, mandou retirar o texto, a esta altura reproduzido em centenas de sites pela internet, da página de José e reduziu a multa diária a 200 reais. “Esta é a primeira tentativa clara de cercear minha liberdade em 35 anos de carreira jornalística”, lamenta o ex-deputado.

Enquanto aguarda a decisão final do Tribunal de Justiça sobre as ações, o jornalista coleciona apoios de entidades de defesa de direitos humanos e reúne novos documentos sobre a participação do ex-capitão da PM na repressão durante a ditadura.

Brandão deverá ser um dos primeiros convocados pela Comissão Estadual da Verdade, a ser instalada nos próximos dias, em Salvador, pelo governador petista Jaques Wagner. Também deverá ser convidado a falar na Comissão da Verdade da Assembleia Legislativa, também instalada recentemente.

Em 25 de abril, em depoimento ao Grupo Tortura Nunca Mais da Bahia, Carvalho havia confirmado a exatidão do conteúdo tanto do relato da mãe, Dona Yaiá, quanto do artigo do ex-deputado. Na terça-feira 21, a CartaCapital o professor afirmou ter reconhecido o capitão Brandão no instante em que ele entrou na sala onde o haviam colocado para ser torturado, no quartel dos Dendezeiros. “Ele também me reconheceu, da Faculdade de Direito, tanto que me chamou de Renato, e não de ‘Joel’, meu nome de guerra no PCBR.”

No fim do ano passado, em um evento para empresários evangélicos, Brandão confessou a uma plateia na qual estava o deputado federal Anthony Garotinho que antes de ser cristão era um advogado corrupto e corruptor, além de cidadão “pronto para matar alguém”. Portava sempre uma pistola calibre 45 com dois carregadores cheios de balas. O pastor não respondeu aos pedidos de entrevista da revista. Segundo uma secretária da Igreja do Caminho das Árvores, ele estava em viagem.

 Leia também:

Luiz Cláudio Cunha: Quem teme a verdade sobre a ditadura?

Pastor processa Emiliano José por denunciar seu passado como torturador

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24 comentários

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hamilton

05 de fevereiro de 2014 às 16h22

engaçado é que dona yaia só veio dar conta disso agora vcs são um bando de idiota por acreditar nisso,acm (avó) matou tanta gente e não falavam nada.

Responder

    MariaSL

    14 de setembro de 2016 às 10h43

    rapaz, quem salva é Jesus! Leia a Biblia, para sair da ignorância!

decio

31 de janeiro de 2014 às 08h39

Ser presidente do Brasil quem escolhe é o povo. Quem é Emiliano José? Àtila ja tem um projeto imensurável de abençoar pessoas. Esses caras nunca fizeram nada por ninguém.

Responder

    cristiano

    31 de janeiro de 2014 às 18h03

    Santa ignorância!!!! Como um país vai pra frente, se a maior parte de sua população é formada por analfabetos absolutos, semi-analfabetos e analfabetos funcionais? Quanto pastor “cordeirinho” e quanta gente enganada!!
    VIVA O ANALFABETISMO FUNCIONAL!
    VIVA OS “PASTORES”!
    VIVA A IGNORÂNCIA!

    cristiano

    31 de janeiro de 2014 às 18h16

    Átila Brandão abençoando o povo!?!?!?!?!?! KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK!
    Tou rindo, mas tou em dúvida! É pra rir ou pra chorar??

    MariaSL

    14 de setembro de 2016 às 10h57

    rapaz, quem salva e quem abençoa é JESUS! Vai ler à Biblia por favor, para nao sair dizendo bobagens!

Leandra Cardoso

04 de julho de 2013 às 02h13

Venho através desta para que se possa fazer algo a respeito da Faculdade Batista Brasileira – FBB . Os professores não cumprem a carga horaria estipulada. Os professores do curso de Direito 3º semestre quase não deram aula nesse semestre… peço que averiguem a denuncia, perguntem aos alunos não só desse referido semestre como também os outros, estamos sendo prejudicados e não sabemos a quem recorrer já que a coordenadora do curso a prof..Lorena Brandão nunca pode nos atender. Os professores não tem o mestrado, poucos tem, a maioria só tem especialização. Por favor estamos sem nota em algumas disciplinas, peço que nos ajude a resolver essa questão. É uma faculdade fraca que eu não sei como funciona.

Responder

    Maria

    25 de julho de 2013 às 16h38

    Leandra Cardoso, prof.Lorena Brandão anda ausente não apenas da faculdade mas também da igreja. Antes conseguimos marcar reuniões e conversas, hoje nem mais a encontramos

    Manuel

    11 de fevereiro de 2014 às 13h48

    Olhe, a faculdade batista brasileira é uma ótima instituição e tem ótimos professores. Se está incomodada com a instituição, que se mude.

    MariaSL

    14 de setembro de 2016 às 10h49

    Procure a pagina da IBCA o da Escola no Facebook e post isso l! Ou entao abra uma pagina de denuncia, sempre no Facebook

Urariano Mota: A frase de Amado Batista é um escárnio - Viomundo - O que você não vê na mídia

31 de maio de 2013 às 11h51

[…] Leandro Fortes: Átila Brandão, o torturador ofendido […]

Responder

Murdok

27 de maio de 2013 às 21h15

O cara pensa da seguinte maneira: se os ladrões Dimas e Agestas pediram perdão pra Jesus na cruz, por que eu, um pastor torturador, não posso ser perdoado também?

Responder

Denise

27 de maio de 2013 às 17h19

O tal pastor/torturador tem muito pouco conhecimento da bìblia, pois se tivesse algum jamais iria dizer que uma pessoa é inteligente por falar e não por pensar. Ele devia ler a Bíblia , até para seguiro exemplo dado por ela onde diz que “até um tolo quando se cala parece sábio”!

Responder

Mardones

27 de maio de 2013 às 13h12

É preciso denunciar essa tentativa de censura para a mior número de pessoas saberem da vida pregressa do sr Átila. Já a ligação dele com ACM Neto não escandaliza ninguém.

Responder

monge

27 de maio de 2013 às 10h42

Sob a capa preta de muitos livros chamados de “sagrados” se escondem criminosos,
que buscam assim esconder seus reais intentos. Mas…………….

Responder

renato

27 de maio de 2013 às 09h36

Estes ratos ainda andam por aí!
Não posso julga-los pelo Evangelho.
Nem pelo Cristianismo, isto os isenta.
Mas é este o caminho que tomam para
chegar a população.
Cristo já tinha avisado, Roma entrou
por esta porta.
Mas a Loucura tomará conta de suas ações!
Isto o Cristo também avisou!
Seria excelente que as pessoas Torturadas
fossem a um culto de Libertação deste senhor!
Ninguém consegue sobreviver a Verdade!

Responder

Julio Silveira

27 de maio de 2013 às 09h10

O Brasil é um país tão injusto, mais tão injusto, que não tem sido os cidadãos de bem que tem as prerrogativas legias a seu favor mas os criminosos.

Responder

    MariaSL

    14 de setembro de 2016 às 10h55

    CONCORDO

Josean Araújo

27 de maio de 2013 às 08h30

quer dizer que o junior é sub-chefe do gabinete d neto..eles tem muito em comum mesmo.

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edir

27 de maio de 2013 às 08h23

A esposa do ex Presidente americano Busch, ambos da igreja batista conservadora, disse numa propaganda eleitoral (2004 ) para reeleicäo do marido o seguinte: Na noite anterior à decisäo que teria de tomar ,sobre o ataque ao Iraque (20/03/2003)meu marido passou horas andando de um lado para outro no jardim da Casa Branca , ORANDO, pedindo à Deus a orientacäo sobre a decisäo. E que Deus falou com Busch que ele deveria agir, (atacar). No Iraque, foram milhares de civis (criancas , mulheres, idosos) assassinados, abusos sexual praticados por soldados militares americanos. Deixou o país num caos e caíram foram. Pergunto: Seria o Deus que falou com Busch täo maldoso assim ?

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edir

27 de maio de 2013 às 08h09

Isso me assusta , o Brasil se tornando um Irä. Uma pastora da Igreja Batista, fazendo debate contra a escola de periodo integral. Diz ela que os filhos passaräo 8 horas nas mäos do estado, isso é muito perigoso. Mas näo é nenhum pouco perigoso as criancas e jovens ficarem nas ruas aprendendo a usar drogas (talvez ela pense assim)

Responder

JOTACE

27 de maio de 2013 às 00h55

Importante a denúncia que faz, e de modo tão detalhado, o Professor e Jornalista Leandro Fortes. Que as autoridades da Bahia exerçam o seu papel como devem e, num ato de Justiça, se ponham decididamente ao lado do Ex-Deputado e Jornalista Emiliano José, vítima das tremendas barbaridades que covardemente lhe inflingiu Atila Brandão. O antigo agente de repressão da ditadura, e que hoje se apresenta como Pastor da Igreja Batista e pregador da TV Aratu, está a merecer todo o repúdio do povo brasileiro, destacadamente o da Bahia.

Responder

Gerson Carneiro

27 de maio de 2013 às 00h49

Mais um pastor evangélico em pele de cordeiro.

Responder

Fabio Passos

26 de maio de 2013 às 23h29

Revoltante como a injustica se perpetua no Brasil.
Um torturador covarde e impune ate hoje consegue censurar um Jornalista.

O PiG, cumplice dos torturadores e assassinos, pouco se importa com a censura.
O stf, que deveria garantir justica, defende e protege os facinoras que cometeram crimes contra a humanidade.

O poder que sustentou a ditadura ainda sobrevive onde o voto popular nao conta.
Temos de remover de uma vez por todas os entulhos da ditadura.

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