Leandro Demori: Está preso o homem peça-chave dos Bolsonaro

Tempo de leitura: 6 min
Os parceiros Fernando Cerimedo e Eduardo Bolsonaro Fotos: Reprodução

Agentes da CIA rondam o Brasil

Por Leandro Demori*, em sua newsletter A Grande Guerra

A extrema direita brasileira entrou em pânico esta semana por causa de um tiroteio na porta de um hotel em Santa Cruz de la Sierra, a 2.500 quilômetros de Brasília.

Na noite de segunda-feira, dois homens usando mochilas térmicas de aplicativo de entrega atiraram três vezes em uma advogada boliviana de 33 anos e fugiram. Ela sobreviveu porque se fingiu de morta, nas palavras dela. Na madrugada seguinte, a polícia prendeu no aeroporto de Viru Viru um argentino que tentava embarcar para Buenos Aires, apontado pelo Ministério Público como o suposto autor intelectual do ataque.

O argentino se chama Fernando Cerimedo, e o nome dele deveria significar alguma coisa para você.

Quem é o gringo

Cerimedo se vende no mercado como “consultor eleitoral”. Trabalhou na campanha de Javier Milei na Argentina, é dono do La Derecha Diario, um site de notícias que afunila o discurso da extrema direita na América Latina, e, até esta semana, era assessor pessoal do presidente da Bolívia, Rodrigo Paz — o governo que derrotou o campo de Evo Morales nas eleições do ano passado.

No Brasil, ele foi outra coisa: foi…

…“o especialista internacional”

Em 4 de novembro de 2022, dias depois do segundo turno, Cerimedo fez uma live chamada “Brazil Was Stolen”, vista por mais de 400 mil pessoas, apresentando um documento apócrifo segundo o qual as urnas fabricadas antes de 2020 se comportavam de forma “estatisticamente impossível” e favoreciam Lula. A frase, que em português significa “O Brasil foi Roubado”, explodiu nas buscas do Google e inundou o whatsapp do país com a narrativa de que Bolsonaro, na verdade, deveria ter vencido as eleições, o que levaria ao dia de fúria do 8 de janeiro.

Fonte: Google Trends

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Uma mentira que o TSE desmontou, mas que não parou por aí.

A fraude “documentada”

Semanas depois, a mesma tese levantada por Cerimedo, apareceu de forma idêntica na petição que o PL, partido do então presidente Jair Bolsonaro, levou ao tribunal para tentar anular votos.

Segundo a investigação da Polícia Federal, a petição do PL pedia a anulação de 59,18% dos votos do segundo turno, alegando falha nos modelos de urna anteriores a 2020 (UE2009, UE2010, UE2011, UE2013, UE2015): um suposto problema na identificação individual dos logs das urnas, que exibiam um número genérico (“67305985”) em vez de identificador único, o que supostamente impediria vincular o equipamento físico ao registro de votação.

Era exatamente o que Fernando Cerimedo havia divulgado em sua live alegando manipulação dos resultados. Segundo o relatório da PF, o material dele “embasou a representação do Partido Liberal (PL) para anular os votos computados nas referidas urnas” — ou seja, a mesma base técnica/narrativa que ele espalhou falsamente na internet virou o fundamento oficial do pedido do PL, formalizado via um laudo de um tal Instituto Voto Legal (IVL). A PF apontou, inclusive, que usar um consultor estrangeiro fazia parte de uma estratégia pra tentar escapar da jurisdição brasileira.

O TSE, claro, rejeitou o pedido, provando que mesmo as urnas mais antigas tinham identificação física e lógica individual, e depois multou o PL em R$ 22,9 milhões por litigância de má-fé.

Oi, sumido

Cerimedo desapareceu por alguns anos depois que a PF, o STF e uma CPI foram atrás dele. A conexão com os Bolsonaro, no entanto, nunca se desfez. Em julho deste ano, dias depois que Flavio Bolsonaro repetiu mentiras do pai sobre fraude nas urnas a representantes de governos estrangeiros, também assim como o pai, seu irmão Eduardo Bolsonaro apareceu do nada em seu canal no Youtube em uma live com Cerimedo. Os dois voltaram a levantar a história da fraude nas urnas, repetindo o roteiro de quatro anos atrás, agora no contexto de 2026. Já está claro: Flávio, se perder, seguirá os passos do pai e negará o resultado.

Petróleo, cocaína, ouro e informantes da CIA

O que vem a seguir são acusações de Nadia Beller, a vítima que acabou de levar três tiros. É material que a Justiça boliviana vai ter que investigar.

Nadia Beller está internada com custódia policial e vem dando entrevistas em série porque, segundo ela, teme pela própria vida. “É muito fácil entrar num hospital”, disse. A fala pública é a proteção que encontrou.

O que ela conta:

— Que estava grávida de quatro semanas de Cerimedo.

— Que “na Bolívia quem governa não é Rodrigo Paz, é Fernando Cerimedo”.

— Que testemunhou negócios envolvendo o presidente, a mulher dele e a família dela — gasolina, diesel, ouro.

— Que soube da liberação de radares para que aviõezinhos do narcotráfico pudessem pousar no oriente boliviano.

— Que tinha provas das conversas dele com operadores do tráfico.

— Que Cerimedo se dizia agente da CIA, e que descrevia assim também seu parceiro Brad Parscale (logo falaremos dele) e Natalia Basil, atual mulher do argentino.

— Que foi atraída ao hotel por uma mensagem anônima prometendo documentos contra Evo Morales, e que Cerimedo teria garantido a ela que haveria policiais à paisana no local para protegê-la.

— E, por fim: “eu tenho prova de tudo isso”.

Ela publicou no Facebook fotos de maços de dinheiro e de uma condecoração em que Cerimedo aparece como “assessor pessoal de Sua Excelência”, e pediu que o caso não corra em segredo: o governo, disse ela, é o principal interessado em calá-la.

A defesa nega tudo. Uma das advogadas dele, Margarita Arce, chamou o caso de “show político” e sugeriu que Beller teria orquestrado um “autoatentado” para manchar a imagem de Rodrigo Paz. Cerimedo se recusou a depor.

Por que isso é assunto nosso, agora

Estamos em ano eleitoral e o bolsonarismo acaba de perder uma peça grande do tabuleiro.

Não é só o constrangimento de ter o falso oráculo das urnas preso como suposto mandante de uma tentativa de assassinato. É que a defesa dele — e a defesa de todos eles — é sempre a mesma: “eu só estava fazendo perguntas técnicas”.

Fica muito mais difícil sustentar isso quando o técnico em questão é acusado de despachar dois homens de moto para matar a ex-companheira grávida, que o acusa, entre outras coisas, de operar pelos interesses da agência de espionagem dos EUA na América Latina. Um dos nomes citados pela vítima é o de Brad Parscale.

Quem é o (outro) gringo

Brad Parscale, segundo a denunciante, atua como “agente” da CIA na América Latina. Pasrcale é o estrategista digital americano que trabalha com Trump desde 2011 e comandou as campanhas dele em 2016 e 2020. Foi o “guru digital” por trás da máquina de dados e redes sociais que ajudou a eleger Trump duas vezes.

Hoje Parscale lidera uma operação de influência contratada pelo governo Netanyahu nos EUA. Seu foco é usar IA e dados para atingir com mensagens positivas eleitores americanos e tentar reduzir o desgaste da imagem de Israel entre republicanos e a base MAGA, trabalho que ganhou repercussão em reportagens de Axios, Time e The Intercept ao longo de 2026, incluindo questionamentos sobre para onde foi o dinheiro do contrato (parte teria sido direcionada a empresas de aliados antigos dele, todos operadores da extrema direita).

Na linha das estranhas coincidências…

…no lançamento da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, em julho, Netanyahu mandou um vídeo de apoio exibido na convenção, chamando Flávio de “meu amigo” e “grande campeão”. Milei, que teve em Cerimedo o cérebro de sua campanha vitoriosa na Argentina, também apareceu com Flávio, este em carne e osso.

Enquanto o entorno de Netanyahu paga um ex-operador de Trump para blindar a imagem de Israel dentro do universo republicano/MAGA nos EUA, o próprio Netanyahu aparece pessoalmente endossando a campanha do bolsonarismo no Brasil.

Cerimedo, Parscale, Bolsonaros. É a mesma rede internacional de alianças entre a direita israelense, o trumpismo e o bolsonarismo aparecendo por todos os lados. Teremos longos anos em repeteco pela frente.

*Leandro Demori é jornalista e editor da newsletter A Grande Guerra. Ao vivo todas as manhãs em seu canal no You Tube

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