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Ziegler: “Quando uma criança morre de fome no mundo, ela é assassinada”
Ziegler: "Não há escassez de alimentos. O problema da fome é o acesso à alimentação. Portanto, quando uma criança morre de fome ela é assassinada"
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Ziegler: “Quando uma criança morre de fome no mundo, ela é assassinada”


15/05/2013 - 19h44

Ziegler: "Não há escassez de alimentos. O problema da fome é o acesso à alimentação. Portanto, quando uma criança morre de fome ela é assassinada". Foto: Rafael Stedile

por José Coutinho Júnior, da Página do MST

O sociólogo suíço Jean Ziegler, ex-relator especial para o Direito à Alimentação da Nações Unidas (ONU), denunciou que a fome é um dos principais problemas da humanidade, em um debate nessa segunda-feira (13/5) em São Paulo.

“O direito à alimentação é o direito fundamental mais brutalmente violado. A fome é o que mais mata no planeta. A cada ano, 70 milhões de pessoas morrem. Destas, 18 milhões morrem de fome. A cada 5 segundos, uma criança no mundo morre de fome”, disse Ziegler.

Na década de 1950, 60 milhões de pessoas passavam fome. Atualmente, mais de um bilhão. “O planeta nas condições atuais poderia alimentar 12 bilhões de pessoas, de acordo com estudo da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Não há escassez de alimentos. O problema da fome é o acesso à alimentação. Portanto, quando uma criança morre de fome ela é assassinada”.

Ziegler afirma que é a primeira vez que a humanidade tem condições efetivas de atender às necessidades básicas de todos. Depois do fim da Guerra Fria, mais especificamente em 1991, a produção capitalista aumentou muito, chegando a dobrar em 2002. Ao mesmo tempo, essa produção seguiu um processo de monopolização das riquezas. Hoje, 52,8% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial está nas mãos de empresas multinacionais.

A concentração da riqueza nas mãos de algumas empresas faz com que os capitalistas  tenham uma grande força política. “O poder político dessas empresas foge ao controle social. 85% dos alimentos de base negociados no mundo são controlados por 10 empresas. Elas decidem cada dia quem vai morrer de fome e quem vai comer”, diz Ziegler.

O sociólogo relatou que essas empresas seguem blindadas pela tese neoliberal de que o mercado não deve ser regulado pelo Estado.

“Na Guatemala, 63% da terra está concentrada em 1,6% dos produtores. A primeira reivindicação que fiz, após a missão, foi a realização da Reforma Agrária no país. Fui rechaçado, pois uma intervenção no mercado não é possível. Não havia sequer um cadastro de terras lá: quando os latifundiários querem aumentar suas terras, mandam pistoleiros atacar a população maia que vive ao redor”.

Especulação

A especulação financeira dos alimentos nas bolsas de valores é um dos principais fatores para o crescimento dos preços da cesta básica nos últimos dois anos, dificultando o acesso aos alimentos e causando a fome. De acordo com o Banco Mundial, 1,2 bilhão de pessoas encontram-se em extrema pobreza hoje, vivendo com menos de um dólar por dia.

“Quando o preço do alimento explode, essas pessoas não podem comprar. Apesar da especulação ser algo legal, permitido pela lei, isso é um crime. Os especuladores deveriam ser julgados num tribunal internacional por crime contra a humanidade”, denuncia Ziegler.

A política de agrocombustíveis, que, além de utilizar terras que poderiam produzir comida, transforma alimentos em combustível, é mais um agravante. “É inadmissível usar terras para fazer combustível em vez de alimentos em um mundo onde a cada cinco segundo uma pessoa morre de fome”.

Política da fome

Ziegler afirma que não se pode naturalizar a fome, que é uma produção humana, criada pela sociedade desigual no capitalismo. Prova disso são as diversas políticas agrícolas praticadas tanto por empresas e subsidiadas por instituições nacionais e internacionais.

O dumping agrícola consiste em subsidiar alimentos importados em detrimento dos alimentos produzidos internamente. De acordo com Ziegler, os mercados africanos podem comprar alimentos vindos da Europa a 1/3 do preço dos produtos africanos. Os camponeses africanos, dessa forma, não conseguem produzir para se sustentar.

Ziegler denunciou o “roubo de terras”, que é o aluguel ou compra de terras em um país por fundos privados e bancos internacionais, que ocorreu com mais de 202 mil hectares de áreas férteis na África, com crédito do Banco Mundial e de instituições financeiras da África.

Os camponeses, por conta desse processo, são expulsos das terras para favelas. Esse processo tem se intensificado uma vez que os preços dos alimentos aumentam com a especulação imobiliária.

O Banco Mundial justifica o roubo de terras com o argumento de que a produtividade do camponês africano é baixa até mesmo em um ano normal, com poucos problemas (o que raramente acontece).

Um hectare gera no máximo 600 kg por ano, enquanto que na Inglaterra ou Canadá, um hectare gera uma tonelada. Para o Banco Mundial, é mais razoável dar essa terra a uma multinacional capaz de investir capital e tecnologia e tirar o camponês de lá.

“Essa não é a solução. É preciso dar os meios de produção ao camponês africano. A irrigação é pouca, não há adubo animal ou mineral nem crédito agrícola, e a dívida externa dos países impedem que eles invistam na agricultura”, defende Ziegler.

Soluções

Segundo Ziegler, a única forma de mudar as políticas que perpetuam a fome é por meio da mobilização e pressão popular.

“Temos que pressionar deputados e políticos para mudar a lei, impedindo que a especulação de alimentos continue. Devemos exigir dos ministros de finanças na assembleia do Fundo Monetário Internacional que votem pelo fim das dívidas externas. Temos que nos mobilizar para impedir o uso de agrocombustíveis e acabar com o dumping agrícola”.

Ziegler afirma que a luta contra a fome é urgente, pois quem se encontra nessas condições não pode esperar. “Essa mobilização coletiva pode pressionar democraticamente e massivamente, por medidas que acabem com a fome. A consciência solidária deve movimentar a sociedade civil. A única coisa que nos separa das vítimas da fome é que elas tiveram o azar de nascer onde se passa fome”.

O ex-relator especial para o Direito à Alimentação da Nações Unidas (ONU) veio ao Brasil lançar o livro “Destruição em Massa – Geopolítica da Fome” (Editora Cortez) e participar da 6ª edição do Seminário Anual de Serviço Social, que aconteceu no Teatro da Universidade Católica (TUCA).

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13 comentários

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Por Stanley! Ou do Anti-comunismo rasteiro | Rio Revolta !

20 de maio de 2013 às 14h56

[…] mais, se formos com o ex-relator da ONU, Jean Ziegler por exemplo, poderemos considerar que  uma criança morta de fome é, na verdade, assassinada e restará pouquíssimos países não-assassinos de crianças no mundo e curiosamente, Cuba […]

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Alberto Silva

16 de maio de 2013 às 21h31

Desde de 2010, a FAO tem em mãos e vem divulgando (de forma tímida, na minha opinião), uma alternativa concreta para tratar do Direito Humano à Alimentação Adequada, calcado na segurança alimentar nutricional. Eis aqui a tradução do Relatório de Olivier de Schutter, Relator Especial da
ONU Para Direito à Alimentação, apresentado ao Conselho de Direitos Humanos, publicado pela Comissão Interministerial de Segurança Alimentar e Nutricional, no qual é apresentada, de forma concreta e cientificamente comprovada, a Agroecologia como modelo agrícola capaz de gerar renda, trabalho, inclusão social, autonomia, produção econômica, social e ambientalmente sustentável.
http://www.capa.org.br/uploads/publicacoes/LIVRO_SISAN2_web.pdf

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angelo

16 de maio de 2013 às 16h30

Não somente sobra alimento, como também Projeto Vênus é perfeitamente viável.

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renato

16 de maio de 2013 às 14h28

O Bolsa Alimentação é o alimento com rodinhas, pode ter asas, ou navegar.
O Pessoal alimentado, reduzira por natureza a quantidade de
novos seres humanos a vir para o planeta. Consequentemente, mais
alimento irá sobrar, então poderemos reduzir areas e alimentos e
plantar cana, para dar um role de carro, e tomar uns gorós!
Todos, tomando um golinho para ficar feliz, um aperitivo antes
das refeições.
Mas….Não….a Porra do Capitalismo quer acabar com tudo, encher
o fiofó de dinheiro ( Para quem?).Daí quando for sentar num restaurante
caríssimo,e abrir a tampa do prato e encontrar lá um “cascudo”.
Não vai poder falar nada. A culpa é do Traficante ( o mais novo vilão da terra).

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Julio Silveira

16 de maio de 2013 às 13h55

O Brasil segue a tonica da civilização ocidental onde os meios, de produção de riqueza, valem mais que o cidadão. A vaca (simbolismos a parte), hoje, retornou ao status de sagrada, tornou-se de valor intrinseco acima de qualquer homem, ou mesmo criança, faminta ou sedenta. Apesar de teorizarmos uma serie de hipocrisias nossa cultura dominante ocidental, e prevalente mundialmente, quer manter uma cidadania de dependentes para propiciar poder, ascendências e um escalonamento social. Todos vieram a terra pelo mesmo modo, nus, aqui encontramos niveis, escalas, diferenças, e a temos feito questão de mantermos isso. Só assim poderemos viver supremacias a afagar nossos egos, mas isso custa caro.

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Jose Mario HRP

16 de maio de 2013 às 11h17

Governo tucano ,assassinatos de vítimas e bandidos e a briga na justiça para justificar omissão de socorro:

Politica e muito pouca ética:
Tudo começou na guerra sem freios entre PCC e PSDB.
Centenas de PMs e criminosos foram eliminados em seguidas represálias no passar de 2012.
Tal qual criança mimada o governador paulista impos as policias paulistas a proibição de socorro as vítimas feridas em crimes e também de criminosos feridos, ficando ao Samu o socorro, tudo com base em que o socorro pela policia estragaria a cena do crime a ser periciada.
Muitas pessoas morreram por serem atendidas depois de muito mais tempo do que deveriam ser para poderem sobreviver.

Tolice que incorre em crime de omissão de socorro, tipificado no código penal.
Agora uma guerra de liminares desmascara essa monstruosidade que é a vingança do PSDB diante da descoberta de que grupos de PMs assassinos, a paisana, praticam chacinas com foco em ex presidiários e pessoas com passagens policiais.
Essa vergonhosa situação foi criada por que os métodos facistas desse atual governo tem como objetivo minar o PCC, mas no fundo só prejudica o povo das periferias.
Está na hora de uma troca da guarda.

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    H. Back™

    16 de maio de 2013 às 13h40

    “(…) Está na hora de uma troca da guarda.” Acredito que não. Está na hora da troca de governador.

Gildo

16 de maio de 2013 às 10h13

A solução seria zerar todas as dívidas de todas as pessoas e nações e recomeçar novamente, numa nova perspectiva mundial. Pedir às multis e aos políticos para criarem políticas agrícolas é chover no molhado. É preciso redescobrir a alegria de ser humano.

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Mardones

16 de maio de 2013 às 08h54

É preciso aproveitar o espaço que o Brasil está ocupando na agenda global para seguir com o debate sobre a dívida externa dos países e a especulação sobre o preço dos alimentos básicos.

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Roberto Locatelli

16 de maio de 2013 às 07h50

A questão não é técnica, é política. Como foi dito no artigo, HÁ ALIMENTO NO MUNDO PARA TODOS OS SERES HUMANOS. Mas as multinacionais priorizam seus lucros.

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ricardo silveira

15 de maio de 2013 às 23h31

Não me parece que se deva, simplesmente, proibir a produção de agrocombustíveis, até porque, trata-se de energia renovável, que é outro problema a ser resolvido. A questão é garantir alimento a todos, inclusive submetendo o direito à propriedade privada ao interesse público. Na economia capitalista essa é a questão central. Pois chegou a hora de resolvê-la.

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Fabio Passos

15 de maio de 2013 às 23h12

A denuncia e estarrecedora:
– 18 milhões de pessoas morrem de fome por ano.
– A cada 5 segundos, uma criança no mundo morre de fome.

A causa tambem:

“85% dos alimentos de base negociados no mundo são controlados por 10 empresas”

Ja passou da hora de derrubar este regime podre que esta destruindo o planeta e a humanidade.
Aqui no Brasil as transnacionais do agronegocio recebem tratamento privilegiado… enquanto os camponeses recebem bala na cabeca!

Ate quando?

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souza

15 de maio de 2013 às 21h38

todos nós somos direta ou indiretamente responsáveis por tudo que acontece.

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