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Feministas acusam Fora do Eixo: Machismo, uso político do sexo, assédio


26/08/2013 - 19h20

MANIFESTO: Fora do Eixo e uma reflexão das mulheres contra o patriarcalismo

da Frente Feminista pela Cultura

Até o momento as críticas que têm sido feitas ao Fora do Eixo são, em sua maioria, ao sistema de funcionamento que só reproduzem as práticas já conhecidas por outras empresas dentro do sistema capitalista de exploração do trabalho.

Nós, mulheres que fizemos parte das casas Fora do Eixo Anápolis, Minas, Nordeste, São Carlos e São Paulo e outros coletivos e homens que reconhecem a veracidade desses fatos, temos que pontuar e fazer a crítica radical a reprodução patriarcal nas relações de poder dentro do Fora do Eixo. Sendo assim, gostaríamos de levantar algumas questões:

1. Como o sexismo se apresenta nas relações de trabalho e tarefas

Os projetos e atividades dentro da rede geralmente são divididos por áreas, que preservam em si uma crença sobre afinidades de gênero. Alimentada por uma lógica preconceituosa que afirma que as mulheres são mais eficientes na sistematização, são elas que organizam os arranjos, a contabilidade e as tecnologias enquanto os homens, considerados mais eficientes na argumentação e no discurso,  são direcionados para atividades externas, articulações políticas e arranjos com outros atores sociais, ampliando suas experiências para além das casas/coletivos, o que o leva a ter mais leituras políticas pelo contato com os ambientes e no próprio aumento de bagagem vinda destas experiências sociais. Desta forma, neste modus operandi,  as mulheres tendem a estar em núcleos de “enraizamento” (fixos) cujas relações se dão dentro do seu ambiente/moradia e entorno, enquanto os homens estão em núcleos de “transcendência” (móvel), possuem uma dinâmica ativa e articulam as ações e projetos que vão sustentar o coletivo, numa relação que acontece fora daquela comunidade.

2. Arranjos sexistas: clube das luluzinhas e clube dos bolinhas

Quando um(a) integrante da casa/coletivo apresenta dificuldades ou questionamentos pessoais ou sobre o processo e precisa de esclarecimentos, este(a) integrante geralmente é levado a procurar o “seu gestor” ou “gestora”, direcionado para aquele de mesmo sexo.

Acredita-se que esta política interna fortalece as relações entre os semelhantes. Entretanto, esta crença fortalece um modelo sexista, com a formação do clube dos bolinhas X o das luluzinhas.

3. “Catar e Cooptar”: o uso político do sexo no Fora do Eixo

Uma das práticas políticas do Fora do Eixo refere-se a “catar ou “cooptar” (também se usa as terminologias “entrega” e “missão”), deliberada em reunião da cúpula com o objetivo de cooptar parceiros através da sedução e do sexo.

É debatido o perfil do futuro integrante ou colaborador e quais membros teriam afinidade de atraí-lo e iniciar com ele ou ela um relacionamento amoroso e/ou sexual com a finalidade de cooptá-lo(a). Homens e mulheres fazem parte desses artifícios.

4. “Quem pega mulher feia ganha mais lastro”

Dentro do escopo de cooptação da rede, está o de se relacionar com mulher “feia”. Aquele que mantiver relacionamento amoroso ou sexual com mulher considerada feia, com o fim de cooptá-la, é mais respeitado pelos demais (tem mais “lastro”). É comum ouvir o jargão entre os que estão mais próximos da cúpula de  “quem pega mulher ‘feia’ ganha mais lastro”.

5. Como é tratada a autonomia da mulher: “ela está na sua conta agora”

Quando um agente “cooptador” traz uma agente “cooptada” para a rede, ela passa estar na sua “conta”, além de estar sob a responsabilidade do gestor(a) com quem vai trabalhar.

O agente “cooptador”, responsável por controlar o ritmo da “cooptada”, analisa a  dinâmica de trabalho dela e vigia os seus relacionamentos, amizades e conversas, relatorizando suas leituras à cúpula.

O “cooptador” também é constantemente vigiado e controlado para que não haja a “contaminação por casal”, de modo que seu relacionamento afetivo não interfira nas dinâmicas coletivas.

6. Como são vistos e tratados os relacionamentos entre casais na rede: “formação de bancadas”

Casais são vistos como “caretas” e os conflitos de relacionamento amoroso são taxados de “picaretas”, já que diante da proposta macro de um coletivo, tais conflitos estão centrados em razões muito particulares do casal e, portanto, irrelevantes ao processo coletivo. Há também um velado cerceamento das relações afetivas espontâneas.

A relação entre casais é continuamente analisada e quando não se considera mais estratégico ao grupo a permanência daquele arranjo afetivo, a sua dissolução também é argumentada e debatida pelo grupo.

7. Assedio moral, opressão, culpabilização e pedagogia do medo

Quando um(a) agente está em conflito sobre as dinâmicas e ideologias dentro do grupo, pode vir a passar pelo o que a rede chama de choque-pesadelo, prática preventiva sobre a mediação de conflitos e não “contaminação” do grupo.

Por outra leitura, o choque pesadelo é um tipo de assedio moral onde o agente “conflitador” é exposto a uma situação constrangedora e humilhante em que é confrontado por seus gestores e demais integrantes, sob uma forte conduta de opressão que o leva a mudar de opinião diante do seu constrangimento e a agir conforme as premissas do grupo.

Há, com isso, o estabelecimento de um forte sentimento de culpa por aquilo que acreditava ou pelos “conflitos” por ela ou ele processados. Assim, é estabelecida uma política de coerção, de forte cunho moralizador onde se aprende a respeitar pelo “lastro” de quem está acima e que se perpetua através do medo de contra argumentar e ser duramente rebatido.

Essas práticas, vistas por nós como repudiáveis, eram tidas por todos e todas, inclusive por nós, como naturais. Dentro da dinâmica da rede, da empolgação com a participação num projeto coletivo em que nós acreditávamos, essas situações eram aceitas como um desconforto necessário em prol de um projeto maior. Hoje, entretanto, livres dos laços que nos ligavam à rede, podemos criticar abertamente o machismo em que se pautam a divisão do trabalho e as relações internas das Casas e alguns coletivos.

Esperamos que esse manifesto seja recebido não apenas pelo Fora do Eixo, mas por todos os movimentos que pretendem construir um projeto verdadeiramente alternativo e contra-hegêmonico, como uma colaboração para construção de uma outra cultura fundada no respeito às diferenças e na igualdade de gênero.

Anápolis, Belo Horizonte, Campinas, Recife, São Carlos, São Paulo, 26 de agosto de 2013

Alejandro Vargas • Casa Fora do Eixo Nordeste (CE)

Bruno Kayapy • Espaço Cubo, Festival Calango|Grito Rock e Fora do Eixo

Camila Cortielha • Casa Fora do Eixo São Paulo (SP)

Eliza Mancuso • Fora do Eixo Campinas (SP)

Flávio Charchar • Casa Fora do Eixo Minas (MG)

Gabriel Fedel • Casa Fora do Eixo São Paulo (SP)

Gabriel Zambon • Casa Fora do Eixo Minas (MG)

Hiro Ishikawa • Casa Fora do Eixo São Carlos (SP)

Jessica Miranda • Casa Fora do Eixo Nordeste (CE)

Laís Bellini • Casa Fora do Eixo São Paulo (SP)

Leo Carneiro • Casa Fora do Eixo Anápolis (GO)

Marcos Cestari

Michelle Parron • Casa Fora do Eixo São Paulo (SP) | Casa Fora do Eixo Minas (MG)

Nowhah Luiza Freitas • Casa Fora do Eixo Anápolis (GO)

Rafa Rolim • Casa Fora do Eixo São Paulo (SP)

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15 comentários

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Bruxa Feminazi

16 de junho de 2015 às 08h24

Podre. Escroto. Mais do mesmo. Uma corja de machões usando mulheres e até homens para exercer um projetinho de poder mequetrefe. Estarei aqui para ve-los cair. Isso não vai longe.

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roberto

28 de fevereiro de 2015 às 11h52

Nunca engoli o fora do eixo, seus donos e seus escravos. Mas esse texto aí é uma lamentação e muito frágil. Como o fora do eixo não é um órgào estatal, que portanto sujeita a todos, e tampouco um emprego, pq nao paga ninguém (a não ser o Capilé e aquele amigo bonitinho dele “ninja”), submete-se a essa besteira quem quer.

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Karla Brito

28 de agosto de 2013 às 21h50

Fake distraído, Azenha? Meu nome é Lucila Karla Felix Lima de Brito. Às vezes, comento como Lucila, como Karla, com sobrenome, sem sobrenome… Essa é minha foto, mesmo, e meu e-mail. Estão incríveis, os comentários!
Desculpe-me, Azenha, mas está feio demais.

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Diana

28 de agosto de 2013 às 20h33

Karla Brito comenta cheia de acusações, mas eh um fake distraído: as vezes “baixa” como Lucila.
O lado positivo eh que depois de refletir, acha justo ser chamada de “canalha”. Ponto para a auto critica.

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Karla Brito

28 de agosto de 2013 às 19h01

Na segunda, acompanhava o twitter do Vi O Mundo, porque assistia um debate que vi o Azenha divulgar dias atrás e, lá, veio a chamada para a “denúncia” contra o Fora do Eixo. Lembrei do caso de assédio da CBN, com denúncia formal e tudo, que só vi o twitter repercutir e provoquei o perfil do Vi O Mundo. Na manhã seguinte, ao ir desligar o despertador do celular, olho o twitter e vejo sei lá quantas chamadas do perfil da Carta Capital para a matéria. Leio. Mesmo rosário de dias atrás, agora, assinado por outro grupo. Feministas, mas, mais uma vez, sem denúncia formal e auto referente a matéria sensacionalista que a revista publicou semanas antes. Procuro o nome da autora no twitter, que está com tudo nas ironias com a “denúncia” que a deixou “assustada” e que também comenta, no twitter, o caso da denúncia formal na CBN: “horrível o relato da moça assediada na CBN. É muito familiar. Acontece demais. E tem que parar”. É só uma relato, segunda ela, mesmo com denúncia formal. Claro, não vira artigo na Carta Capital… Vou no twitter do editor do site da Carta Capital: repercussão geral sobre a “denúncia” contra o Fora do Eixo. Comento aqui e no facebook da Carta Capital que, há semanas, não aprovam meus comentários no site, depois que critiquei a abordagem sobre o caso Fora do Eixo.
Tem mais: o blog do grupo que fez o tal Manifesto tem apenas um post, publicado no mesmo dia do post do blog Feminismo Pra Que? da Carta Capital… E nenhuma informação sobre o grupo (CNPJ, nomes, twitter, facebook, etc), só os abaixo assinados do Manifesto.
Não é impressionante que tenha repercutido tanto para ir parar no site da CartaCapital e no do Vi O Mundo (logo o Vi O Mundo, que é de uma apuração de setter irlandês)?
Podem até me chamar de canalha, mas leio os blogs progressista há muitos anos para reconhecer o padrão Veja… E, se querem credibilidade, ajam nesse sentido.

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edir

27 de agosto de 2013 às 15h25

Para mim está mais para seita que outra coisa. Esses “seguidores” na velhice estaräo por aí reclamando da vida e da pequena aposentadoria.

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Magui

27 de agosto de 2013 às 08h54

Lendo o texto a impressão é surreal. Como as pessoas podem entregar suas vidas assim a uma paranoia tão cristalina? Ainda bem que muitas acordaram

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Lucila

27 de agosto de 2013 às 07h42

Desculpa, mesmo, eu sou feminista, marxista, chavista, viomundista, mas quando aparenta vejismo, eu fico é cabreira, mesma. Que site mais esquisito esse do Feministas Pela Cultura, não? Um único post (http://feministaspelacultura.noblogs.org/post/2013/08/26/manifesto-fora-do-eixo-machismo/)… E já veio parar aqui e nos blogs da Carta Capital… Estará o Fernando Sabino fazendo escola na blogosfera progressista? Souberam do caso da CBN (http://www.sindijorpr.org.br/noticia/estagiaria-da-cbn-relata-assedio-sexual/5169)? Como falei pelo twitter, aquilo para mim é denúncia, isto aqui é fofoca, mesmo.

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    Edu

    28 de agosto de 2013 às 00h08

    Uma pesquisa rápida dará conta de que todas as pessoas eram participantes desse movimento, como duas amigas pessoais minhas.

    Querer deslegitimar esses testemunhos é de uma canalhice atroz. São mais de 40 denúncias já. Só não vê quem não quer.

    Essa blindagem escrota a esse projeto ridiculo de poder passou dos limites já.

    Karla Brito

    28 de agosto de 2013 às 18h16

    Quem é você para chamar uma atitude minha de canalha? Quem deslegitima qualquer “denúncia” é quem as faz, que não as leva a instituições formais e se espalha pela nuvem da internet.
    Agora, o caráter de quem usa desse expediente está sublinhado, porque, em sei lá quantos anos que comento aqui, contra tucanos, até, é a primeira vez que sou chamada de canalha.
    Não sou sua amiga, mas exijo respeito.

    Karla Brito

    28 de agosto de 2013 às 18h46

    Eu prezo o jornalismo praticado aqui e só não o estou financiando porque não consegui me entender com o sistema (embora eu seja até cadastrada nele).
    E quando eu vejo uma prática que compromete padrão que o próprio site divulga, eu acho que é até um serviço informar. Desculpe se não foi do modo mais formal, mas só comento aqui, e em qualquer site, com boa fé.
    Sei que o site preza, também, pelo jornalismo e, espero, não ve-los usando dois pesos e duas medidas.
    Que os “denunciantes” (para mim, fofoqueiros, mesmo) tenham participado do Fora do Eixo, tenham passado por situações ruins e, talvez, até criminosas, eu não duvido. Mas duvido das intenções em se espalhar essas questões pela internet, depois de anos, ao que parece, sem se preocupar em procurar meios oficiais.
    Ver a Carta Capital e o Vi O Mundo se prestando a repercutir, pela enésima vez, essas “denúncias” soltas e iguais, faz com que eu fique desconfortável, sim.
    “Foi a partir delas — e apenas delas — que publicamos nosso texto a respeito, com algumas horas de defasagem devido ao processo de checagem essencial para quem tem responsabilidade jornalística e não sai por aí, chutando desde o centro do planeta e, portanto, bem longe do Brasil.”
    https://www.viomundo.com.br/denuncias/nossos-aliados-para-esclarecer-o-papel-de-cristina-no-globogate.html

Graciete Lima

26 de agosto de 2013 às 22h05

O patriarcado é poderoso e reina. Parabéns a [email protected] pela coragem de desmascará-lo

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Gerson Carneiro

26 de agosto de 2013 às 21h30

Jim Jones.

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Alice Matos

26 de agosto de 2013 às 19h53

Realmente repugnante se expressa a verdade. São depoimentos muito fortes.

Responder

Lukas

26 de agosto de 2013 às 19h40

E eu achando que o Fora do Eixo fosse uma experiencia socializante que visava discutir uma alternativa de intermediação da cultura fora do capitalismo, ou do pós-capitalismo, enquanto dinâmica de reenquadramento de políticas intervenientes na cultura popular, visando criar, expandir e alimentar enquanto agente definidor da integração entre gêneros, raças e culturas.

Pelo jeito, é o contrário do que escrevi acima.

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