VIOMUNDO

Diário da Resistência


Denúncias

Fátima Oliveira: Como deixar um doente num lugar onde ele pode morrer?


24/01/2012 - 10h43

Urge resistir ao desvio de missão dos serviços de saúde

por Fátima Oliveira, Jornal OTEMPO

Médica –  [email protected] @oliveirafatima_

A falta de retaguarda de leitos hospitalares para quem não precisa permanecer em pronto-socorros e necessita de internação é o gargalo que explica em parte a superlotação de UPAs e pronto-socorros de Belo Horizonte.

Outros motivos são a insuficiência e a baixa resolutividade da rede básica, além do acesso dificultado a ambulatórios de especialidades. Nenhuma novidade. As autoridades sanitárias responsáveis sabem disso há muito tempo. Todavia, as medidas que deveriam ter sido tomadas não foram levadas a cabo à altura do problema.

A rotina em Belo Horizonte é a superlotação de urgências e emergências, que viram “casa de passagem” – local de “espera de vaga hospitalar”, que demora e muitas vezes não sai, o que transforma as chamadas observações em enfermarias!

Não é surpresa o fenômeno da superlotação resultar em impossibilidade de um pronto-socorro cumprir a sua missão 24 horas: atender urgências e emergências, até por uma questão de lei da física: dois corpos não podem ocupar ao mesmo tempo o mesmo lugar no espaço.

As UPAs viraram “postões”, desviadas da missão para a qual foram “inventadas”, – equipamento intermediário de atenção capaz de resolver pequenas e médias urgências. As UPAs atendem um número enorme de consultas, obrigação de postos e/ou ambulatórios. Não é só que as pessoas vão às UPAs porque não sabem a finalidade delas, mas é, sobretudo, porque a rede básica não dá conta da demanda.

É o olhar sobre o desvio de função e suas causas que permite entender a superlotação de urgências e emergências, situações que possuem responsável: o gestor municipal. Não há dúvida! Tanto faz ser em Belo Horizonte como em qualquer município que enfrente situação similar, embora nas capitais, incluindo a região metropolitana, tal “inferno de Dante” é em muito piorado.

Muitos municípios das regiões metropolitanas fazem de conta que não têm nenhuma obrigação sanitária para com seus cidadãos, apenas compram ambulâncias para desovar doentes na capital 24 horas, ininterruptamente. As exceções são raras.

A garantia do exercício do direito constitucional à saúde é dever, primeiramente, do governo do local onde o doente se encontra. Ou seja, do gestor municipal. É inaceitável que tal responsabilidade seja jogada nos ombros das instituições de saúde e dos profissionais que lá trabalham, atendendo doentes ou coordenando plantão.

A regra tem sido a inversão do óbvio, configurando que as prefeituras querem fazer cortesia às custas do chapéu alheio (médicos e serviços de saúde, que não os próprios), sem a contrapartida de condições de trabalho. Em ano eleitoral, a tendência é piorar, em todos os sentidos, inclusive com a adoção do abuso de poder como regra geral, a exemplo de um serviço que deve primar pela excelência em salvar vidas, como o Samu, sendo obrigado a adotar a prática de desova – deixar o doente em local sem vaga, isto é, leito mais suporte de recursos humanos e equipamentos necessários ao doente grave.

Como cidadã, exijo um Samu cada vez mais de excelência. Como médica, sei e cumpro o meu dever moral, ético e político de “me virar” para dar retaguarda real ao Samu; mas quedo-me ao concreto: as vidas não são virtuais. Compartilho da opinião de que negar vaga ao Samu (ter a vaga e mentir que não tem) não é só imoral, é criminoso, assim como “desovar” doentes não é missão do Samu nem pode passar a ser rotina, pois também não é apenas imoral, mas criminoso. Como deixar um doente que pode sobreviver num lugar onde ele pode morrer?





22 comentários

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lia vinhas

25 de janeiro de 2012 às 13h50

O pior de tudo é a aprovação das OS aqui na cidade do Rio. Pelo qeu se tem visto em São Paulo e mesmo aqui, essas supostas cooperativas estão comendo o dinheiro da saúde sem garantir melhor atendimento. Os médicos contratados ganham mais do que o triplo dos medicos concursados e mesmo assim há postos e UPAs sem médicos, hospitais estaduais e municipais, então, nem se fale. Mas é preciso continuar a pressão e as denúncias, cobrar o porquê de as equipes de Médicos de Família só atenderem as comunidades, o que não desafogou os locais de atendimento, médicos que entram de férias e não há substitutos. Ou seja, o que de fato existe, sem dúvida, é uma troca de favore$ entre os governos locais e a iniciativa privada, nada mais.

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Maria Francisca

25 de janeiro de 2012 às 10h39

Datafolha: brasileiros avaliam saúde como principal problema do país

Apesar de ter encerrado o primeiro ano de governo com aprovação recorde de 59%, a presidente Dilma Rousseff obteve um resultado negativo na pesquisa Datafolha realizada na semana passada. Desde o final da gestão de Lula, aumentou em 11 pontos percentuais o número de brasileiros que consideram a saúde como o principal problema do país. No final de 2010, 28% dos entrevistados apontavam o setor como o mais preocupante. Após três meses da gestão Dilma, o número foi a 31%, e agora chega a 39%. O Datafolha ouviu 2.575 pessoas nos dias 18 e 19, com margem de erro de dois pontos para mais ou para menos. Informação do jornal Folha de São Paulo.

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leandro

25 de janeiro de 2012 às 06h58

E olha que as famílias já gastam mais que o governo com saúde.

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    Maria Francisca

    25 de janeiro de 2012 às 10h39

    Bobagem leando. Aliás, mentira da grossa. Vc e eu pagamos, pois TUDO, todos os gastos coma saúde, é descontado no Imposto de Renda

claudio gress

25 de janeiro de 2012 às 04h43

Acompanhei detalhadamente , como membro do Conselho Municipal de Saude do municipio do Rio , as táticas para implementações do SAMU , UPAS etc . A discussão projetada pelo Ministerio da Saude desde sempre contemplou as preocupações aqui expostas , quais sejam: o fortalecimento das ações básicas de saúde através da Estratégia de Saúde da Família ( ESF , antigo PSF) , unidades pre – hospitalares fixas para compensação dos casos do SAMU ou espontâneos , fortalecimento dos leitos para internação ( REFORSUS) . Aqui no Estado do Rio , no entanto , em que pese o interesse e o desejo dos profissionais do setor saúde , o imbróglio político persiste sendo fundamental pra dificultar as medidas articuladas pelo nível federal e estadual .
Apesar de tudo , as coisas melhoraram , ao menos no município do Rio , em que pese a carencia de novos leitos hospitalares .
Seria importante ver como os limites para contratação e remuneração dos profissionais colabora para a não organização sistemática de todo o sistema

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Robert

25 de janeiro de 2012 às 00h20

no rj a situação nao e nada diferente…
De que adianta uma cidade/estado que seja voltada ao atendimento de qualidade ao Turista (Copa e Olimpiadas) mas trate seus cidadaos como gado?

Existem no brasil pelo menos 2 classes de cidadaos:
os q possuem acesso a transporte, educação e saude privados e os demais.
Vou discorrer um pouco sobre a realidade do RJ, meu estado…

O transporte publico do RJ uma vergonha, metro e trens sucateados e lotados, barcas q operam lotadas, inclusive com acidentes recentes, e a tragedia do bondinho de sta teresa, ate hoje impune

escola publica que nao ensina, basta ver q o Rio de Janeiro ficou em penúltimo lugar no IDEB [que mede o índice de desenvolvimento da educação básica] como podemos ver aqui: https://www.viomundo.com.br/denuncias/beatriz-luga…
e aqui: http://www.youtube.com/watch?v=HqWmao_KO9Q

A saude publica entao é uma tragedia mais do q documentada, o novo modelo de gestão da saude publica brasileira​: Organizaçõ​es Sociais (OSs) é um escandalo, um vazadouro de $$$ publico
como vemos aqui o caso de SP: http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,organiza…

Ocorre q este modelo de OS’s foi replicado aqui no RJ tb, como podemos ver aqui:
Por 50 votos favoráveis e 12 votos contrários, o plenário da Alerj aprovou, na tarde desta terça-feira 23, o Projeto de Lei (PL) nº 767/2001, que entrega a gestão dos hospitais estaduais às chamadas ‘organizações sociais’, forma disfarçada de privatização https://www.viomundo.com.br/politica/cabral-privat…

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Dani

24 de janeiro de 2012 às 23h28

Novas UPAs aceleram atendimentos de emergência

A candidata Dilma Rousseff defende a ampliação desse atendimento. De acordo com a candidata, o PAC II estabelece a criação de mais 500 UPAs. “Por que a gente colocou as UPAs? Nós temos consciência de que muitas vezes as pessoas recorrem ao hospital em uma emergência, mas em muito casos uma clínica especializada é o necessário. Ela funciona 24 horas porque ninguém sabe a hora de ficar doente”.

Dilma explica que o atendimento intermediário das UPAS complementa o Sistema Único de Saúde (SUS). “Lá na UPA tem clínica geral, ortopedia, pediatria, laboratório para fazer exames de sangue, tomografia, e em algumas UPAS maiores, tem ressonância magnética”, diz.
http://www.mulherescomdilma.com.br/?p=6390

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Dani

24 de janeiro de 2012 às 23h27

Se as Upas que já existem estão virando postões, se acalmem porque a promessa é de 500 postões. A presidente Dilma prometeu na campanha eleitoral construir 500 upas no pais, com dinheiro do PACII. De onde saiu o número mágico 500 eu não sei. O ministro Padilha tem muito o que voar inaugurando upas.
Não sou contra as upas, o povo precisa, mas precisam ver essas construções desenfreadas melhor para que depois as upas não virem prédios mal assombrados.

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Enedina

24 de janeiro de 2012 às 22h34

Um assunto muito sério e tratado com a devida seriedade. Aqui em Belo Horizonte eu já me vi dentro de uma ambulância do SAMU com meu pai que passou pelo Hospital Risoleta Neves, seguiu para o Odilon; de lá para o João XXII, onde foi atendido depois de muita luta do médico do SAMU e a ambulância parada na porta do pronto socorro. Diziam que a obrigação de receber meu pai com uma suspeita de derrame cerebral era do Risoleta Neves porque moramos na Região de Venda Nova, mas lá não havia aparelhagem que meu pai precisava, nem no odilon, tudo lotado e sem condições.Foi um grande sofrimento. Só naquele dia eu compreendi que não adianta o SAMU socorrer se não tem pra onde levar e tem de ficar procurando vaga com o doente dentro da ambulância. O SAMU tem de ter as vagas que precisa, disso eu não tenho dúvida. A minha pergunta é por que não tem. O meu pai se salvou mas ficou vegetativo, segundo os médicos porque o atendimento demorou muito.

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Cosme Henrique

24 de janeiro de 2012 às 22h17

Minha mãe já utilizou a UPA de Bangu – RJ três, o marido da minha prima utilizou a mesma UPA duas vezes e o amigo do meu pai mais duas vezes e todos ele foram prontamente e muito bem atendidos!

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Mari

24 de janeiro de 2012 às 17h32

Está no Site do Ministério da Saúde a definição e o objetivo do que é uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA 24h), no entanto o desvio de função parece ser a regra. O que o Ministério da Saúde tem a nos dizer sobre isso, se vai corrigir ou não.
UPA 24h – O objetivo é diminuir as filas nos prontos-socorros dos hospitais, evitando que casos que possam ser resolvidos nas UPAS, ou unidades básicas de saúde, sejam encaminhados para as unidades hospitalares.
As UPAs funcionam 24 horas por dia, sete dias por semana, e podem resolver grande parte das urgências e emergências, como pressão e febre alta, fraturas, cortes, infarto e derrame. As UPAs inovam ao oferecer estrutura simplificada – com Raio X, eletrocardiografia, pediatria, laboratório de exames e leitos de observação. Nas localidades que contam com as UPAs, 97% dos casos são solucionados na própria unidade. Quando o paciente chega às unidades, os médicos prestam socorro, controlam o problema e detalham o diagnóstico. Eles analisam se é necessário encaminhar o paciente a um hospital ou mantê-lo em observação por 24h.

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Marcio H Silva

24 de janeiro de 2012 às 15h54

Terça feira, 17/01, estive no encontro do Amaury aqui no RJ. E entre inúmeras temas discutidos no evento, o que ficou mais marcante foi o que ele disse sobre a corrupção na área de saúde. Ele comentou que em todas as pesquisas que realiza sobre corrupção, á área mais corrupta e que envolve maior volume de grana é a área da saúde. O segundo assunto marcante foi que o PRIVATARIA II sai mesmo! ótimo, vamos dar munição para os gestores deste país trabalhar no ataque a corrupção.

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CLAUDIO LUIZ PESSUTI

24 de janeiro de 2012 às 15h35

Olhem a situação em Sao Bernardo do Campo, região do ABC, município onde mora o Lula, e governado pelo afilhado politico dele do PT, Luiz Marinho, só faltou fazer campanha no lugar do cara, município do Brasil , dizem , que mais recebe verbas federais:
http://www.dgabc.com.br/News/5937491/falta-medico…

alguém tem que avisar a Sra Dilma que não e só o "investimento" que não pode ser prejudicado.Afinal, paredes e equipamentos não cuidam de doentes…

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Mineira

24 de janeiro de 2012 às 14h52

A saúde no Brasil está na UTI. Em BH, MG está um caos. Já precisei de UPA e foi uma decepção. Uma estava fechada por falta de médicos, e a outra super lotada.

As mentiras e propagandas são uma enganação.
O povo sabe o que sofre.

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Josias

24 de janeiro de 2012 às 13h52

Ainda bem que o povo tem uma voz como a de Fátima Oliveira. As Upas são muito caras para serem trasnformadas em postões, comoe stá acontecendo no Brasil todo. Quanto ao Samu, entendo que dão duro mesmo, acontece que as prefeituras não respladam com os leitos que o samu precisa.

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Vlad

24 de janeiro de 2012 às 12h59

Eu queria ficar doente pra poder usar esse sistema.
Obama deveria copiá-lo.

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    Josias

    24 de janeiro de 2012 às 16h12

    Pois saiba que com todos esses problemas, que a gente temd e falar deles e sobre eles para melhorar o atendimento, aqui aind aé melhor pro pobre do que nos Estados Unidos. De certeza que Obama deveria copiar sim. O SUS é uma conquista popular em processo de desenvolvimento.

jhon

24 de janeiro de 2012 às 12h04

Sou médico e isso é a realidade. As UPAs viraram uma embromação…você coloca o sujeito na central de leitos e ele morre ou perde o tempo de fazer um tratamento que lhe mudaria a vida (como em um Infarto ou AVC). Aqui em BH o cenário é nebuloso. O Lamerda tá fazendo o estrago que já se sabia que iria fazer

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    Marcio H Silva

    24 de janeiro de 2012 às 15h55

    Porque negativaram o jhon? ele é médico e deve saber do que está falando. afinal ele conhece os bastidores.

    Jane Aragão

    24 de janeiro de 2012 às 16h10

    O cenário de BH é nebuloso mesmo. Tudo abarrotado de gente que fica muito dias a espera de uma vaga, e isso não é culpa dos hospitais de pronto-socorro, pois sendo um município de gestão plena do SUS, um dos poucos do Brasil, tem o dever de assumir a sua responsabilidade.
    Sobre as Upas que virarem postoes a autora está correta, pois é assim pelo Brasil todo. Como o Josias acho um desperdício de dinheiro criar upas e upas, que são caras, não dar as melhores condições para o trabalho dos médicos no atendimento de urgências e virar tudo um lugar de consulta comum. Mas todo dia o ministro Padilha corta o país para inaugurar upas. Precisava ficar claro que upa não é somente um prédio. Falo isso porque mesmo nas capitais as upas não estão equipadas o bastante para atender urgências de maior porte, nem de gente e nem de equipados, aliás nas upas não tem nem anitibióticos! Se aqui em Belo Horizonte é assim, imaginemos em outros lugares onde a situação é mais precárias.

Alberto

24 de janeiro de 2012 às 11h46

Um artigo pra sangrar as feridas dos gestores de saúde em todos os níveis. Verdadeiro, justo e bom. Falou e disse, Fátima Oliveira
O SAMU é um patrimônio do povo que precisa ser cuidado e também não pode trabalhar sem retaguarda real. Os gestores precisam ter retaguarda de leitos para o SAMU, o que é possível pois precisam trabalhar com estimativas, coisa que não fazem depois ficam brigando com os hospitais, comos e fossem deuses. Sobre as UPAs virarem postões é a mais pura realidade. Alô, alô ministro Padilha: em muitos lugares os prefeitos estão rindo até as orelhas porque não precisam mais investir na rede básica. Cuidado, hein?

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