VIOMUNDO

Diário da Resistência


“Câncer” das abelhas tem relação com pesticidas e fungicidas
Denúncias Falatório

“Câncer” das abelhas tem relação com pesticidas e fungicidas


01/10/2013 - 18h33

Elas desapareceram sem deixar pista. E continuaram sumindo, todos os anos, no inverno. Quando os apicultores da Flórida e da Califórnia iam checar, encontravam apenas as abelhas mais novinhas, recém-nascidas, e a rainha, que não deixa a colmeia por nada nesse mundo.

O restante da população tinha sumido, deixando para trás a comunidade e um grupo de especialistas sem saber o que fazer. De início eles conseguiram apenas dar nome ao fenômeno: Colony Colapse Disease, ou Doença do Colapso da Colmeia (CCD).

Há sete anos, Dennis van Engelsdorp se debruça sobre o problema que se tornou um grande quebra-cabeças.

Tão complexo que no fim deste mês ele vai ao Brasil a convite da Fundação Gates para participar de um seminário sobre Mulheres e Pobreza. E as abelhas com isso? Foi exatamente o que eu perguntei. Enquanto preenchia a papelada para pedir o visto brasileiro à Embaixada em Washington, ele esclareceu:

— Vou falar sobre como tentar resolver problemas complicados que parecem simples.

Ah, entendi!

O problema que parece simples consome o pesquisador e apicultor há quase uma década. Mas agora, ele está chegando mais perto das respostas.

Dennis vanEngelsdorp é co-autor de uma pesquisa recém-publicada sobre a relação de pesticidas e fungicidas com o mistério do desaparecimento das abelhas. Um problema que com o tempo está se revelando ainda mais complexo do que parecia ser.

Hoje, vanEnglesdorp compara a doença das abelhas com o câncer. Uma doença com várias faces. As abelhas provavelmente estão sofrendo com algo como o câncer, uma denominação genérica para vários tipos de manifestações diferentes da mesma doença. Existe o de pulmão, o de pele, o de ovário, e assim por diante. Dennis vanEngelsdorp acha que o mesmo acontece com as abelhas.

Os apicultores se assustaram primeiro, com o sumiço completo das abelhas. Agora, elas estão adoecendo mais lentamente.

— Quando falamos de CCD estamos falando de colônias em que todas as abelhas morrem ou abandonam a colmeia em duas semanas. Não sobra nenhuma abelha. Somente os bebês. E as abelhas são como todos os animais. Nunca abandonam os filhos. Só abandonam se o problema é terrível. Quando sentem que estão doentes, elas vão embora para não contaminar as outras abelhas. Agora, estamos vendo uma morte mais lenta das colônias.

Os cientistas já sabem que o consumo de pesticidas e fungicidas enfraquece o sistema imunológico das abelhas. Em consequência, elas já não resistem a parasitas que antes enfrentavam com facilidade.

Hoje, as plantações de milho e soja, cada vez mais extensas, não são mais cercadas de cultivos variados, como antes. As abelhas têm uma variedade cada vez menor de alimentos à disposição.

Os pesticidas usados na agricultura se espalham para além das áreas de cultivo. Os fungicidas, que pareciam inofensivos para as abelhas, se mostraram um risco.

Na pesquisa, vanEngelsdorp e os colegas encontraram até 35 pesticidas diferentes em algumas amostras de pólen e uma grande concentração, também, de fungicidas. Eles descobriram que existe uma relação direta entre o consumo de fungicidas e o enfraquecimento do sistema imunológico das abelhas.

“Recolhemos pólen de diferentes cultivos e alimentamos as abelhas. As que comeram o pólen com maior concentração de fungicida se mostraram mais suscetíveis a doenças. Normalmente, são os inseticidas que causam problemas. E existem regras para a aplicação de pesticidas em flores. Mas não existe regra para os fungicidas. Nós não achamos que eles matam as abelhas, mas as enfraquecem. A mesma coisa que acontece com a alimentação. Se você não come bem, acaba ficando doente”, diz vanEngelsdorp.

O estudo divulgado agora foi o primeiro grande avanço no combate ao mistério do desaparecimento das abelhas.

O próximo passo, diz o cientista, é entender melhor o que acontece quando os diferentes produtos químicos se combinam.

Se as abelhas que se alimentam bem podem sobreviver melhor aos efeitos dos pesticidas. Os pesquisadores também vão estudar como evitar que os produtos químicos cheguem às colmeias. “Não se trata apenas de descobrir o que está matando as abelhas, mas também determinar como é possível mantê-las saudáveis”.

Por que tanta preocupação com as abelhas? Não é só porque van Engelsdorp é apicultor há anos e sempre admirou a eficiência e a complexidade das colmeias. É que, sem as abelhas, a variedade de alimentos que nós consumimos vai diminuir muito.

Sem o leva e trás de pólen de uma flor a outra, vai ser impossível produzir uma grande variedade de frutas. Se as abelhas morrem, também some com elas boa parte da nossa alimentação.

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Por Laurindo Lalo Leal Filho



26 comentários

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Mário SF Alves

07 de outubro de 2013 às 00h38

Alimentação defensiva, pratique você também. Sem ação coletiva não se resolve o problema, mas ao menos garante-se um sobretempo para refletir.

______________________________
A propósito, segue um comentário que achei por bem divulgar:

___________________________________
Alimentação Saudável _ Segurança Alimentar _ Alimentação Defensiva

Nome: Dani
Tendência: [a favor] A favor
Comentário:

Coma comida. Não muita. Na maioria, vegetais. Não coma nada que sua avó não reconheceria como comida. Evite produtos alimentícios que contenham xarope de milho com alto teor de frutose. Só coma alimentos que acabarão apodrecendo. Evite alimentos que contenham alguma forma de açúcar (ou adoçante) listada entre os três primeiros ingredientes. Evite produtos alimentícios que contenham ingredientes que um aluno do terceiro ano não consiga pronunciar. Michael Pollan http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/814713-as-64-regras-para-comer-bem.shtml http://informacaoincorrecta.blogspot.com.br/2013/09/o-que-o-supermercado-nao-quer-que-se.html http://informacaoincorrecta.blogspot.com.br/2013/07/empresas-e-saude-fabrica-de-mentiras.html http://infancialivredeconsumismo.com/index.php/tag/marion-nestle/ http://www.foodpolitics.com/2013/09/pepsi-mexican-style/#comments

____________________________________

Copiado de: http://www.cartamaior.com.br/templates/comentarioMateriaMostrar.cfm?comentario_materia_id=89869&materia_id=22808

Responder

Elton

04 de outubro de 2013 às 07h35

Pessoal esse é um tema muito sério. Caso alguém se propor a abrir uma petição pública para garantirmos pelo menos o direito de não querer ser envenenado, eu assino e divulgo. Senão fazemos nada estamos sendo coniventes.

Responder

    Julio Silveira

    04 de outubro de 2013 às 15h35

    Elton, pode tirar nosso cavalo dessa chuva. Aqui no Brasil enquanto um governo convicto de que é popular não diminuir o poder das mídias corporativas, reacionárias imperiais, principal ferramenta de afirmação de um serie de violências contra a cidadania, tudo evidentemente muito camuflado, nós cidadãos estaremos fadados a servir de doadores couro para tambores imaginários dos PMs que assolam a má cultura nacional. Enquanto não se inverter a ordem dos interesses no Brasil, passando a cidadania a serem de fato prioritários, não permitindo que hipocritamente sejam instrumentos nos discursos que encobrem os interesses financeiros dessa minoria, fraudadora, estaremos ferrados.
    Não esqueça a Monsanto forçou sua entrada no Brasil através de uma estratégia criminosa, que contou com grandes nomes do empresariado do agronegócio do RS, que através de contrabando tornou fato consumado o uso de suas sementes no País. Na época debaixo de muita pressão midiática e politica, já que essa turma é forte financeiramente, não restou a Marina, ministra a época e ao Presidente Lula, aceitar o fato e encerrar essas ilicitudes adequando-as na legalidade.
    O Problema nosso e que ao contrario do que muitos políticos populares dizes, o principal norteador para o país não é a boa cultura mas a grana, que de boa origem ou má é sempre considerada boa.

Na análise do golpe do Chile, Folha repete "ditabranda" - Viomundo - O que você não vê na mídia

03 de outubro de 2013 às 18h03

[…] “Câncer” das abelhas tem relação com pesticidas e fungicidas […]

Responder

robsonfs9

03 de outubro de 2013 às 12h57

Acho que a matéria abaixo complementa o texto da Heloísa. Achei o link em um comentário no site Carta Maior
Segue link e trecho da entrevista

http://informacaoincorrecta.blogspot.com.br/2013/07/empresas-e-saude-fabrica-de-mentiras.html

“O que acontece com os protocolos para a avaliação dos pesticidas despejados em toneladas nos campos?

Os protocolos activados pelas indústrias, a nível europeu, a fim de obter a autorização para a colocação no mercado são chamados de “cegos”. Por exemplo, os testes de laboratório limitam-se a determinar a toxicidade da dose letal das substâncias: deixa saber em que quantidade o produto é capaz de matar uma abelha imediatamente, ou quase. Não se tenta compreender os efeitos de fracas exposições repetidas sobre o insecto.
Outro exemplo: o teste ao ar livre consiste na colocação de uma pequena colónia em 2.500 metros quadrados de campo tratado. Isso representa menos de 0,5% da área visitada por uma abelha em torno da sua colmeia. Isto significa que a exposição ao produto durante o ensaio é potencialmente biliões de vezes mais baixo daquele que pode acontecer em natureza, em áreas de grandes culturas.”

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Roberto Locatelli

02 de outubro de 2013 às 23h41

O problema é GRAVÍSSIMO. Não é uma questão de “diminuir a variedade” dos alimentos. Se as abelhas desaparecerem, passaremos fome. Simples assim.

Responder

"Os ruralistas de hoje são os bandeirantes de ontem" - Viomundo - O que você não vê na mídia

02 de outubro de 2013 às 18h55

[…] “Câncer” das abelhas tem relação com pesticidas e fungicidas […]

Responder

Luiz Fernando

02 de outubro de 2013 às 14h07

“Sem o leva e trás de pólen de uma flor a outra, vai ser impossível produzir uma grande variedade de frutas. Se as abelhas morrem, também some com elas boa parte da nossa alimentação.”

ISTO É MAIS SÉRIO DO QUE SE PENSA

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Julio Silveira

02 de outubro de 2013 às 11h34

Os Yankes criam os venenos para vende-los, depois vendem a solução, criando os antídotos. E o mundo trouxa compram-nos nos dois momentos, ninguém acorda, ninguém processa-os por isso, aceitam candidamente essa papinha travestida de beneficio. Isso sim são atos de crimes contra a humanidade.

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    Gil

    02 de outubro de 2013 às 21h16

    Toda esta química no tal de agronegócio, foi uma maneira que os EUA e outras potências encontraram para faturar em cima dos países produtores, que plantam e vendem os produtos, enquanto os mesmos fornecem os insumos, como pesticidas e sementes patenteadas por multinacionais

Oliver Blanco

02 de outubro de 2013 às 10h58

Foi a gota d’água… o uso de Agrotóxicos na produção de alimentos encontrou seu limite, ou melhor, seu fim!

“Quando se consideram os diversos sistemas de agricultura idealizados pelo homem, é interessante observar até que ponto os princípios da natureza têm sido respeitados, se foram aperfeiçoados e, o que acontece, quando negligenciados.” pg. 30

“A exploração mista é a regra: as plantas sempre são encontradas com os animais: muitas espécies de plantas e de animais vivem juntos. Nas florestas ocorrem todas as formas de animais, desde os mamíferos, até os mais simples invertebrados. O reino vegetal exibe uma cadeia semelhante: não há jamais uma tendência para a monocultura – culturas consorciadas e exploração mista, animal e vegetal, são as regras.” pg. 26

“Se estudarmos as pastagens e o mar encontraremos princípios semelhantes a serem seguidos. A cobertura da pastagem maneja a água da chuva de forma muito parecida como faz a floresta. Há pouca ou nenhuma erosão do solo: o escorrimento é praticamente de água límpida.” pg. 29

“Os profetas estão sempre a mercê dos acontecimentos. No entanto, eu me aventuraria a concluir este livro com a previsão de que, pelo menos, a metade das doenças humanas desaparecerá se nossos suprimentos alimentares passarem a ser produzidos em solos verdadeiramente férteis e consumidos em estado natural.” pg. 327

Um Testamento Agrícola, Sir Albert Howard

pra contribuir com a prosa…

Responder

Felipe Guerra

02 de outubro de 2013 às 10h29

Parabéns, Luiz Carlos Azenha.

O ÚNICO blogueiro progressista que coloca esse tema na pauta sistematicamente.

Tomara que seja um consumidor de Orgânicos.

Responder

Heitor

02 de outubro de 2013 às 09h51

Uma matéria que dá muita tristeza

Responder

Mardones

02 de outubro de 2013 às 09h21

O lobby pró abelhas é ainda muito pequeno. Mas pesquisas como essa ajudam a melhorar a conscientização das pessoas e governos, contribuindo para enfrentar o poderoso das multinacionais dos fungicidas e pesticidas.

Responder

Leandro_O

02 de outubro de 2013 às 08h27

O que queremos deixar para filhos e netos?
Porque do jeito que vão as coisas, só teremos maçãs e laranjas de frutas, soja e milho, cachorros e gato, e mais uma coisa ou outra considerado oportunista, como pombos e ratos.

Responder

Francisco Bocchini

02 de outubro de 2013 às 01h20 Responder

Mário SF Alves

01 de outubro de 2013 às 22h35

E o quê dizer disso?

E disso?

Responder

    renato

    02 de outubro de 2013 às 16h20

    Não estamos mais falando tanto de NATUREZA,
    ECOLOGIA, PROTEÇÂO, como falavamos antigamente
    parece que deixamos isto nas mãos das ONGs.
    Agora mesmo tem uma brasileira do Gren, presa na
    Russia.
    Parece que tudo se transformou em politica, e
    eu estou esquecendo de tomar partido em alguma
    coisa.
    Mantenho meu terreno limpo, sem lugares para armazenar
    água, e evitar a dengue, separo o reciclado, troco por
    vegetais, varro minha calçada, mantenho limpa e
    desobstruida, não jogo lixo na rua.
    MAS, tudo que compro vem com o mesmo peso em embalagem.
    Uso carro, me sinto culpado….não sei o que faço…
    Impotente e envelhecendo…

    Mário SF Alves

    03 de outubro de 2013 às 11h09

    É, Renato, a indústria de agroquímicos, transgênicos e afins, um conjunto de megacorporações psicopatas, constituem um exército de ocupação branca, dissimulada e de finalidade trágica (para todos nós, inclusive para os invasores).

    ——————————————–
    O que fazer? Enfrentar, enfrentar e enfrentar. E cada um contribui como pode. O aqui e agora é um deles. Lembro do José Lutzenberger, considerado o Dom Quixote da ecologia por sua luta pela implantação do reçeituário agronômico no Brasil. O mesmo Lutzenberger autor de o Do Jardim ao Poder, um livrinho deste tamaninho, porém, fundamental como instrumento de entendimento da multiplicidade de relações que permeiam a natureza e sua importância no enfrentamento de todo abuso, ideologia e meios inerentes e próprios daqueles que usam autoritariamente, criminosamente e/ou desumanizadamente o poder.

Mário SF Alves

01 de outubro de 2013 às 22h30

Colony Colapse Disease: doença do colapso da colônia. É sério isso. Afinal, a apicultura ainda é um dos sustentáculos da agricultura em sua luta de morte contra o rolo compressor da agroquímica que determina a perpetuação da selvageria capitalista no campo, a agroindústria e o agronegócio.

_______________________________
Transgênicos… tudo a ver com a CCD.

https://lh4.googleusercontent.com/-0N_ZHUecXrQ/UFcEct2ZH-I/AAAAAAAAHN0/AErbZAUqEjY/s300/monsanto-bones_logo.png

http://t1.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcQ5yXvgURFKtDJ7zR5fsE1TWeVdEhdwlda4rRoH_MTOtS-452Cl

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ma.rosa

01 de outubro de 2013 às 22h15

” É que, sem as abelhas, a variedade de alimentos que nós consumimos irá diminuir muito.” O que tem a “MONSANTO” pra dizer, sobre esta tragédia? Será a auto destruição humana? A mão humana destruindo sua e as outras espécies!!!!

Responder

renato

01 de outubro de 2013 às 20h10

Se você tivesse que CURAR o planeta, o que você faria?

Responder

Marat

01 de outubro de 2013 às 20h00

A abelha é um bicho fantástico… é nobre!
O que estão fazendo com a natureza é T-E-R-R-O-R-I-S-M-O!!!
Obamassacre e seus poodles europeus pouco se lixam… Nosso destino nas mãos de genocidas cegos pelo dinheiro e pelo poder!!!

Responder

Urbano

01 de outubro de 2013 às 18h59

O verdadeiro câncer são as multinacionais produtoras de germicidas e fungicidas.

Responder

    Urbano

    04 de outubro de 2013 às 19h03

    Que outro polinizador está sendo afetado? Ou o único alvo são as abelhas?

Dr. Rosinha: Agronegócio vence batalha para colocar mais veneno na mesa do brasileiro - Viomundo - O que você não vê na mídia

01 de outubro de 2013 às 18h34

[…] “Câncer” das abelhas tem relação com pesticidas e fungicidas […]

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