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Diário da Resistência


Beatriz Cerqueira: Como a Vale coloca refeitório, administração e enfermaria à beira da barragem e nenhum órgão fiscalizador impede? Brumadinho não foi acidente, é crime!
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Beatriz Cerqueira: Como a Vale coloca refeitório, administração e enfermaria à beira da barragem e nenhum órgão fiscalizador impede? Brumadinho não foi acidente, é crime!


27/01/2019 - 17h52

 

Foto: Beatriz Cerqueira/Facebook

por Beatriz Cerqueira*, no Facebook

Voltei a Brumadinho neste sábado.

Uma sofrida retrospectiva do outro crime cometido por mineradoras, em Mariana, me veio à memória.

Vi o local do rompimento da barragem em Córrego do Feijão.

Como uma mineradora coloca o refeitório, sua área administrativa e enfermaria na beira da barragem?

Não consegui compreender como fizeram isso e como nenhum órgão fiscalizador fez nada a respeito.

Como depois do que vivemos em Bento Rodrigues (Mariana) não tinha, de novo, nenhum plano de evacuação e nenhuma sirene tocou?

Quando, após o período do impacto inicial em Mariana, continuamos denunciando, questionando, cobrando a punição dos responsáveis fomos chamados de radicais, isolados, ninguém nos ouvia!

Ninguém ouvia as vítimas!

Éramos acusados de não deixar a Samarco voltar a funcionar e responsabilizados por “gerar desempregos”.

Éramos acusados de “cuidar mais das vítimas do que dos empregos”.

Éramos poucos a dizer que a Samarco era criminosa em atividades oficiais. Depois das selfies muitos políticos sucumbiram ao poder econômico e político exercido pelas mineradoras.

As mineradoras não têm um plano para a preservação da vida, mas têm um plano de controle após os crimes que cometem:

1. São elas que controlam as informações sobre desaparecidos e atingidos.

O controle lhe é fundamental para construir a ideia de que o impacto é menor do que a realidade e assim também controlar a comoção pública.

Fazem parecer um processo natural diante de “um acidente”. Não é. Compare os números divulgados a cada dia.

2. Quem controla a área do rompimento e barragens não rompidas continua sendo a mineradora, mesmo comprovada a sua incapacidade de fazê-lo. O Poder Público vai depender das suas informações para atuar.

3. Controlam para que a solidariedade não se transforme em algo mais perigoso pra ela. Contam para isso com todo o sistema que orbita em torno dos seus interesses econômicos, com ramificações em vários Poderes do Estado.

4. Disputam a narrativa do que aconteceu, suas consequências e o futuro. Têm gente especializada e poder econômico para isso.

Colocam em campo pessoas que atuam nisso, mesmo quando não se apresentam como representantes da mineradora.

5. Atuam para isolar, desqualificar e criminalizar lideranças populares, comunitárias, religiosas que não aceitam se corromper e trabalhar a serviço deste sistema.

6. Operam no Poder Legislativo para impedir que este vote projetos que contrariem os seus interesses.  Num Estado minerado brasileiro um deputado apresentou o projeto mais radical de todos sabendo que o mesmo não seria aprovado. Já estava combinado.

Já aprendi: eles não se importam com a vida das pessoas.

Por isso as sirenes não tocam, as barragens rompem e eles não calculam o que os rejeitos atingirão e destruirão.

Não há plano de evacuação nem de atendimento aos atingidos. Quem ampara as pessoas são Poder Público e esta fabulosa rede de solidariedade que se forma sem que ninguém faça um chamado oficial.

Foram estas pessoas numa extraordinária rede solidária que vi hoje em Brumadinho ajudando outras pessoas. Abracei pessoas que não conhecia, ouvi o relato de sofrimento de várias famílias. Será uma longa luta!

Beatriz Cerqueira é deputada estadual eleita (PT-MG), coordenadora-geral do Sind-UTE-MG e presidenta da CUT/MG



 

 

A mídia descontrolada: Episódios da luta contra o pensamento único
A mídia descontrolada

O livro analisa atuação dos meios de comunicação.

A publicação traz uma coletânea de artigos produzidos por um dos maiores especialistas do Brasil no tema da democratização da comunicação.

Por Laurindo Lalo Leal Filho



13 comentários

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Pedro dos Anjos

29 de janeiro de 2019 às 10h19

Milton Friedman – guru do Paulo Guedes – num
momento de
cinismo reconheceu:
seu modelo capitalista ultraliberal não tinha resposta para as chamadas
‘externalidades’ – tipo essa que aconteceu em Brumadinho e Mariana. Em outras palavras, a competição desregulada entre as grandes mineradoras não teria uma alternativa para possíveis riscos de vida para a classe trabalhadora mineradora e os moradores do entorno das empreitadas. Antes, durante e depois de Mariana, a Vale ligou um “f…-se” e tem tocado o
business as usual pra frente…Seja o que deus-dinheiro quiser!

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Zé Maria

28 de janeiro de 2019 às 18h37

A Justiça do Trabalho determinou o bloqueio de R$ 800 Milhões da Vale,
para garantir o pagamento das indenizações aos Trabalhadores, inclusive aos terceirizados, ou às Famílias – em caso de Óbito – Vítimas do Rompimento da Barragem em Córrego do Feijão em Brumadinho.

A Ação Cautelar foi Proposta pelo Ministério Público do Trabalho
e a Decisão coube à Juíza Titular da 2ª Vara do Trabalho de Betim-MG.

íntegra da Decisão:
http://www.prt3.mpt.mp.br/images/Ascom/2018/Novembro/liminar_Brumadinho_II.pdf

http://portal.mpt.mp.br/wps/portal/portal_mpt/mpt/sala-imprensa/mpt-noticias/160b61e8-5259-4aea-a910-b1939c30cb80
https://portal.trt3.jus.br/internet/conheca-o-trt/comunicacao/noticias-institucionais/justica-do-trabalho-determina-que-vale-mantenha-salarios-dos-desaparecidos-e-assuma-despesas-de-funerais
http://portal.mpt.mp.br/wps/portal/portal_mpt/mpt/sala-imprensa/mpt-noticias/df8563ee-6231-4ace-a557-5d4f35ddf1bc

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Carlinhos

28 de janeiro de 2019 às 15h03

Por que o Exército Brasileiro não participou do resgate logo depois da tragédia?

Veja o diz Fernando Brito, em o Tijolaço, sobre o assunto

Ministro confirma que militar brasileiro foi excluído de ação em Brumadinho
POR FERNANDO BRITO · 28/01/2019

Este blog, ontem, botou o dedo na ferida: por que não se via militares brasileiros atuando no resgate de pessoas – ainda que apenas corpos – no desastre da barragem da Vale em Brumadinho?

Pergunta que só hoje ocorreu à imprensa fazer e o Estadão a fez ao Ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, que respondeu candidamente que os “Militares não estão na linha de frente porque governo de MG não solicitou“.

Reproduzo, literalmente, o título pelo escândalo que representa.

O governador de Minas teria pedido, disse ele, que os militares não entrassem porque “a área é restrita, sensível e que há pouco espaço para manobra”.

General, com todo o respeito, conte outra, por favor. Ainda que Zema, por absurdo que se admita, tenha dito isto, caberia ao senhor propor uma organização que permitisse ter o máximo de socorristas atuando, em especial nas primeiras horas, quando são maiores as chances de resgate com vida.

O trecho atingido pela lama tem pelo menos 10 km de extensão e centenas de metros de largura. Não se tratava apenas de definir uma área para receber a ação militar para que não houvesse “bateção de cabeça”?

Um, dois, meia dúzia de pessoas ou de corpos resgatados para serem devolvidos às famílias já teria valido a pena.

As Forças Armadas têm unidades de elite especializadas em socorro, a mais conhecida delas o Parasar, da FAB (para, de paraquedistas, e sar, de “search and rescue”, busca e salvamento em inglês).

É óbvio que governador nenhum ia recusar estas tropas, como não ia recusar simples soldados que ajudassem, no mínimo, a ajudar numa eventual necessidade de evacuar a cidade, como aconteceu ontem, no alarme de rompimento iminente de uma segunda barragem. O que a gente via eram ruas vazias, sem homens que orientassem as pessoas, acordadas no fim da madrugada, sobre para onde deveriam ir.

Diante disso, não é nenhum delírio pensar que os militares brasileiros ficaram na retaguarda para dar destaque ao socorro de militares israelenses – muito bem vindos, é certo – que certamente não foi o governador de Minas quem pediu, mas Jair Bolsonaro.

É inacreditável que os militares brasileiros sejam submetidos ao papel de “fantasmas-propaganda” de politicagem com Israel num desastre destas dimensões.

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abelardo

28 de janeiro de 2019 às 09h28

Na entrevista que a presidente do IBAMA Marilene Ramos concedeu (https://archive.org/details/youtube-fVn2Sdh8iF4) , quando sobrevoava Mariana para avaliar os graves danos, as vidas e ao meio ambiente, causadas pelo rompimento da barragem, ela fez uma menção (a partir dos 11 minutos e 45 segundos) a reivindicações que o IBAMA faz ao DNPM para que ele (DNPM) forneça mais segurança às barragens existentes no país. Se isto tivesse acontecido, certamente a barragem em Brumadinho não teria rompido e vidas humanas, animais e vegetais não pereceriam, bem como o imenso prejuízo ambiental na região somado ao prejuízo material, familiar e psicológico de centenas de famílias, não aconteceria. Observe, que em trecho anterior aos minutos citado acima ela afirma que a multa máxima de 50 milhões é baixa e que haverá, por parte de IBAMA, uma ação civil pública para reparação dos danos causados (biodiversidade, vidas, patrimoniais, etc) e que acredita a recuperação seria feita em um prazo não muito longo.
Então fica a sugestão para investigarem o que já foi, ou não, feito e que IBAMA e DNPM respondam por que ainda não o fizeram.

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Cláudio

28 de janeiro de 2019 às 04h13

Irresponsáveis, canalhas, canalhas, canalhas…

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Marcelo Alonso Lemes

28 de janeiro de 2019 às 03h05

Concordo com tudo que a Deputada Beatriz Cerqueira disse, mas sou do tempo do “a César o que é de César”….
Onde está o ex-Governador Fernando Pimentel para se explicar? Por que seu governo, seu secretário, concordaram em mudar a classificação da barragem de nível 6 para 4 e com isso pular etapas no licenciamento? Por que na reunião de dezembro o placar foi de 8 a 1 pela aprovação da operação da barragem? Como votou o Governo de MG? Nessas horas todos tem que assumir suas responsabilidades…..

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Cláudio

28 de janeiro de 2019 às 00h47

Isso é só o começo do “mar de lama” do (des)governo Bolsonazi & milicU$/milicA$$ (com dois c(h)ifrões, de SS(=$$) neofascinazista…

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Zé Maria

27 de janeiro de 2019 às 23h02

A Prova do Crime: https://youtu.be/lis0buj40Sg

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Zé Maria

27 de janeiro de 2019 às 22h14

Brumadinho é o Brasil

Por Wilson Ramos Filho (Xixo)

Cinco da manhã soam sirenes, dá-se o alarme.
A segunda barragem pode romper a qualquer momento.

Todos saem às ruas, mas sem pressa.
Amanhece. A praça, cheia. Nas rodas, como seria de se esperar,
as conversas oscilam entre confirmação de mortos e algumas mentiras.

Desolação sem desespero, o luto ainda não começou.
Resignação e contida revolta. Não há correria.
Reina a paz e a consternação. Encontraram um ônibus na lama,
muitos corpos de trabalhadores.
Já não há espanto. A desgraça é tanta que da estupefação
faz-se a desalentada normalização.

É pior que Mariana? Sim, os mortos aqui somos nós,
nossas famílias, nossos amigos.

Um abobado, forasteiro, vem falar em desastre ecológico
e nos danos à natureza, insensível, pós-moderno,
aos danos às vidas dos que sobreviveram,
às mortes encarnadas em enlameados cadáveres.
Outro, oportunista, propõe uma reza.
O cabeludo sem-noção fala em pachamama para zumbis,
olhos no passado, querendo acordar do pesadelo.

A culpa é do governo. Dos governos, dos políticos, ou das forças da natureza.
Jamais do capitalismo, dos lucros dos acionistas ou da canalha
defensora tacanha do ultraliberalismo.
Não há o que possa ser feito.

Vai estourar a outra “bagagem de dejeitos”? Só deus sabe.
Estamos nas mãos de desígnios sobrenaturais. Fazer o quê?

Sem pressa, sem altercação de vozes, sem urgências ou correrias
a morte e a vida estão na praça de Brumadinho.
Estão em todas as praças brasileiras e em todas as abrumadas mentes
no país dos obscurantismos, das lamas infinitas, tóxicas, assassinas,
como força compulsiva de ingovernáveis fatos.

https://t.co/2ROauPoeAo
https://twitter.com/WilsonRamosFil3/status/1089593356919951371
https://jornalggn.com.br/noticia/brumadinho-e-o-brasil-por-wilson-ramos-filho

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Zé Maria

27 de janeiro de 2019 às 21h34

.
A modificação trágica do cotidiano de uma pequena cidade mineira, material e espiritualmente devastada por empresários criminosos da Mineração, narrada por uma moradora de Brumadinho, em Minas Gerais:

08:23 – 25 de jan de 2019:
“Gente, rompeu barragem na minha cidade, Brumadinho, eu tô em choque”
https://twitter.com/RNApolimerase/status/1088834685545992194

08:24 – 25 de jan de 2019:
Eu odeio tanto mineração! Povo humilde de Córrego do Feijão,
gente pobre, sobrevivendo a um lugar sem estrutura! Brumadinho precisa se livrar dessas mineradoras.
https://twitter.com/RNApolimerase/status/1088835124999929856

09:37 – 25 de jan de 2019
“Minha cidade chora”
https://twitter.com/bchartsbc/status/1088851535415689218
https://twitter.com/RNApolimerase/status/1088853312831737857

04:02 – 26 de jan de 2019
“Minha cidade chora!
A sensação de luto coletivo toma conta daqui.
Um lugar de gente alegre, receptiva, agora resumido a tristeza.
Não queria que conhecessem aqui por causa de tragédia.”
https://twitter.com/RNApolimerase/status/1089131343081029632

14:52 – 26 de jan de 2019
“1% da minha cidade morta ou desaparecida.
Cidade pequena, todos nós temos um parente, conhecido ou amigos entre os desaparecidos ou mortos.
É uma cidade amiga, em que todos convivem.
Como ficará depois disso tudo?”
https://twitter.com/RNApolimerase/status/1089295011898888193

14:57 – 26 de jan de 2019
“As paisagens da minha infância, lugares que sonhei e passei
durante anos da minha vida, completamente destruídos.
Pessoas que faziam parte das nossas vidas ou pessoas
que víamos sempre no ônibus, mortas ou desaparecidas.
O lugar que amo destruído.” …
https://twitter.com/RNApolimerase/status/1089296276951318529

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Gabriel

27 de janeiro de 2019 às 19h35

Molhando a mão das autoridades desses órgãos.

Responder

Zé Maria

27 de janeiro de 2019 às 19h32

Pois é. E como é que a Vale coloca uma Barragem de Rejeitos
perto de Córregos e Rios e próxima a um Aglomerado Urbano?

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