Paulo Capel Narvai: Diversionismo político e saúde – a fluoretação da água
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Para quem usa saúde, doença, sofrimento e morte como ingrediente para diversionismos, como táticas de distração e manipulação para chegar e se manter no poder, que importância pode ter a saúde pública?
Por Paulo Capel Narvai*, em A Terra é Redonda
1.
O negacionismo científico e a difusão de fake news sobre saúde e doença podem matar. Ainda quando não matam, prejudicam políticas públicas de saúde.
Os indicadores da cobertura vacinal no Brasil, durante os governos Temer-Bolsonaro, mostram isso claramente. A hesitação vacinal, a que negacionismo e fake news levaram muitas famílias, está na origem de milhares de mortes evitáveis por vacinação.
Mas negacionistas e difusores de mentiras nunca respondem por seus crimes ou pelos prejuízos que causam à saúde pública. O caso da fluoretação da água, sob o governo de Donald Trump, é também um exemplo eloquente das consequências de recusar conhecimentos científicos e optar por crendices.
Embora um inquérito amostral com 1.114 participantes tenha revelado que 56% dos entrevistados que tinham opinião sobre o assunto sejam favoráveis à medida, e ainda que mais de sete mil pesquisas científicas indiquem que há suficiente evidência científica para o uso dessa que é considerada uma indispensável tecnologia de saúde pública para prevenir cárie dentária, o governo de Donald Trump segue propondo o contrário: segue recomendando aos Estados que cessem sua implementação.
Os estados de Utah, onde a cobertura da fluoretação alcançava 43,6% da população, e Flórida, com cobertura de 78,1%, interromperam o uso dessa tecnologia em 2025. Caso não sejam revertidas oportunamente, em dez anos será possível aferir o grau máximo do prejuízo à saúde das populações desses estados.
Em declaração publicada no site da ADA, a Associação dos Dentistas dos Estados Unidos (EUA), Robert Kennedy Jr, o “ministro da Saúde” do governo de Donald Trump admitiu que a prevalência de cárie aumentará onde a fluoretação for interrompida. Como nesse caso parece não haver dúvida sobre o fato de que os promotores do negacionismo não são pessoas ignorantes, ou estúpidas, pois têm boa formação escolar, cultura e sabem as consequências dos seus atos como autoridades públicas, resta uma questão: por que o fazem?
No Brasil, durante o governo de Jair Bolsonaro, chegamos a ter um ministro da Saúde antivacinista fake, contumaz praticante do diversionismo. Com razão, críticos do negacionismo têm aventado a hipótese do diversionismo, com objetivos políticos.
2.
No clássico Da arte da guerra, do chinês Sun Tzu (544 a.C. – 496 a.C.), o termo ‘diversionismo’ aparece duas vezes, ambas no capítulo VII, intitulado ‘Manobras estratégicas’.
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Na introdução desse capítulo ele afirma que “o general precisa integrar e harmonizar muitos elementos diferentes antes de marchar para o campo de batalha. Além disso, precisa estabelecer suas manobras táticas, e não há nada mais difícil. A dificuldade das manobras táticas consiste em ver claro o que é dúbio, em ver vantagem onde há desvantagem.
Por exemplo, seguir uma rota longa e circular, depois de ludibriar o inimigo para afastá-lo do caminho, e então, mesmo estando em desvantagem geográfica, correr para atingir a meta antes dele, eis o que demonstra bom conhecimento do artifício do diversionismo”.
Na seção ‘Táticas não amarradas’ Tzu faz considerações sobre o campo de batalha e diz que
“Não somos aptos a liderar a marcha de um exército a menos que estejamos familiarizados com a aparência do terreno – suas montanhas e florestas, suas armadilhas.
Não podemos usar as características naturais do terreno em nosso benefício a não ser nos servindo de guias locais. Precisamos, na guerra, praticar a dissimulação para obter sucesso. E nos mover apenas quando há um benefício real a ser alcançado com tal ação. Nossa decisão de concentrar ou dividir as tropas vai depender de cada circunstância. Tenhamos a rapidez do vento, a compactação de uma floresta. Em questão de assaltos e invasões, sejamos como o fogo e, quando parados, como uma montanha.
Mantenhamos nossos planos tão invisíveis e impenetráveis quanto a noite e, quando em movimento, caiamos como um relâmpago sobre o inimigo. Ao tomar de assalto uma região, devemos permitir que o butim seja dividido entre os homens; quando capturarmos um novo território, dividamo-lo em lotes para o benefício dos soldados. Precisamos ponderar e deliberar antes de agir. Aquele que aprender a usar o artifício do diversionismo será um conquistador. Eis a arte de fazer manobras”.
O termo “diversionismo” pode ser conceituado como uma estratégia, tática ou manobra para desviar a atenção ou esconder algo, com o objetivo de enganar interlocutores. Em sentido popular, equivale a “cortina de fumaça”, ou “escapar de um assunto”. O diversionismo é amplamente utilizado nas áreas política e militar, motivo pelo qual é objeto de estudo das ciências que se ocupam dessas áreas.
3.
Na área militar, as expressões “campo de batalha” e “teatro de operações” referem-se ao território onde que se travam batalhas. O conceito diz respeito, portanto, em termos militares, classicamente, ao ambiente da conflagração (terrestre, marítimo ou aéreo). Mas batalhas e guerras não se restringem ao domínio militar, pois atravessam, em todos os âmbitos, as sociedades envolvidas, nas dimensões dos mundos natural, social e simbólico.
O mundo simbólico, onde tem papel central o imaginário social, é também ele, ao seu modo, um ambiente em que se travam batalhas. Neste sentido, é um teatro de operações, cujos recursos para as disputas provêm das comunicações sociais. Não sem razão, o ex-governador da Califórnia e senador estadunidense Hiram Warren Johnson (1866-1945) afirmou em 1917 que “a primeira vítima de uma guerra é a verdade”, para dizer que em qualquer conflito todos os envolvidos se valem de recursos midiáticos, como a propaganda e a manipulação das informações, incluindo a censura, para buscar ter o controle da narrativa.
No capítulo intitulado ‘O SUS no centro da disputa política do imaginário social no contexto da pandemia de covid-19’, assinalei que o imaginário social não é um fenômeno desarticulado da realidade social, expressando, portanto, as ideologias presentes em cada sociedade, seus símbolos e mitos.
Nele ocorrem embates renhidos, cotidianos, sem trégua, em torno de valores como direitos sociais, direitos humanos, papel do Estado na garantia de direitos, equidade, justiça e tantos outros temas que mobilizam diferentes atores e os colocam em ação, e em oposição, disputando hegemonia e, para isso, desenvolvendo e empregando ferramentas que operam no mundo simbólico.
Nesse mundo, o imaginário social é, portanto, mais um teatro de operações das disputas travadas por diferentes sujeitos sociais, agentes, classes ou grupos sociais em busca de impor suas visões de mundo.
Na era da informação, com a aceleração inaudita do fluxo de dados, informações e interações em todo o planeta, proporcionada pela velocidade e amplitude da internet, as redes sociais digitais vêm se constituindo em campos de batalha ou teatro de operações midiáticas de conflitos que, como não poderia deixar de ser, impactam fortemente todo o ciclo das políticas públicas, dentre as quais as de saúde.
4.
As pautas que dizem respeito a costumes, como os debates sobre moralidade, religião, direitos civis, comportamento e tradições culturais ocupam posição destacada nessas batalhas midiáticas em ambientes digitais, em busca do domínio do imaginário social. No Brasil, com ou sem a participação de instituições governamentais dos três poderes, têm enorme apelo popular entre grupos conservadores, progressistas e contam com ampla adesão da audiência, os temas que envolvem direitos LGBTQIA+, aborto, educação, posse de armas e liberdade religiosa.
Várias dessas pautas remetem a políticas públicas de saúde e levam o SUS, por vezes, para o centro dos debates. A vacinação e o aborto são temas recorrentes. A fluoretação das águas é, no Brasil, por enquanto, menos frequente. Mas, nos EUA a fluoretação vem sendo “arrastada”, neste momento, para o centro de temas propícios ao uso como diversionismo político, pois geram falsas polêmicas sem maiores implicações para os embates abertamente político-ideológicos.
São, nesse sentido, inofensivos, e com as falsas polêmicas levantadas por competentes profissionais da área de comunicação, põem as pessoas para “debater” questões irrelevantes – mas apresentadas ao público como se fossem problemas cruciais, urgentes, que afetam, imediata e diretamente, suas vidas e de pessoas próximas.
Com tais “polêmicas”, o diversionismo político busca fazer com que o público não se ocupe de temas relevantes, dos assuntos políticos efetivamente importantes coletivamente, como a mortandade em Gaza, o desemprego, a inflação e o cerceamento de direitos nos EUA, as agressões imperialistas à Venezuela e ao Irã, o bloqueio a Cuba, dentre tantos outros temas efetivamente polêmicos. Com isso, o diversionismo distrai a atenção do que importa politicamente, com o que, nesse aspecto, não importa.
Trata-se, portanto, para quem o pratica, de sempre que necessário em alguma conjuntura adversa, usar politicamente a fluoretação da água (ou alguma vacina, ou “a cura do câncer”, dentre outros temas), como uma operação midiática diversionista, para desviar a atenção da opinião pública de assuntos politicamente relevantes. Quem o faz, pode até pensar ser essa manobra inócua, desprovida de consequências. Mas, não.
Há consequências. Importantes. Relevantes para a saúde pública. Porém, para quem usa saúde, doença, sofrimento e morte como ingrediente para diversionismos, como táticas de distração e manipulação para chegar e se manter no poder, que importância pode ter a saúde pública?
*Paulo Capel Narvai é professor titular sênior de Saúde Pública na USP. Autor, entre outros livros, de SUS: uma reforma revolucionária (Autêntica). [https://amzn.to/46jNCjR]
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo
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