Parceria PUC-RJ, Viramundo e Rocinha dá samba, ops!, saúde

Tempo de leitura: 3 min

por Conceição Lemes

É muito comum as pessoas irem ao médico como se fossem a uma oficina mecânica. Entregam o “carro” para avaliação e depois o “pegam”, na crença de que, magicamente, montes de exames (o brasileiro é fã deles, veja aqui) e remédios por si solucionarão eventuais problemas de saúde e prevenirão um porção de outros.

Um tremendo equívoco. Saúde se constrói com check ups periódicos (veja aqui e aqui ), diagnósticos e tratamentos adequados, mas principalmente com adoção de hábitos e estilo de vida saudáveis. Acredite. Muito da nossa saúde – atual e futura – está nas mãos de cada um de nós. Isso implica informar-se. Educação em saúde.

“O modelo biomédico vigente há 100 anos, mais centrado na doença do que na saúde, tem contribuído para a perpetuação de diversas doenças infecciosas e crônico-degenerativas evitáveis, sobretudo na população de baixa renda”, afirma o médico Flávio Wittlin, coordenador executivo do curso de Educação em Saúde da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e presidente da ONG Viramundo.  “Afinal, esse modelo não prioriza a medicina preventiva, a promoção e a educação em saúde.”

“Para agravar, predomina na mídia a informação que privilegia a doença, como a publicidade de remédios e de planos de saúde”, prossegue Wittlin. “Portanto, é fundamental recuperar o tempo perdido e investir em Educação em Saúde, para ajudar a reverter essa perspectiva negativa.”

É justamente com essa visão que a PUC-RJ promoverá de março a julho de 2011 um curso de extensão universitária de Educação em Saúde. Visa à formação de pessoal para transmitir informações básicas de saúde; será em parceria com a ONG Viramundo e a comunidade da favela da Rocinha.

Público-alvo: estudantes universitários e profissionais com nível superior das áreas da saúde (médicos, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos, assistentes sociais, dentistas, fisioterapeutas), educação e comunicação, interessados em Educação em Saúde. O curso tem duas aulas semanais. Nesta entrevista, o professor Flávio Wittlin, que também integra as comissões de Saúde e  Saneamento Ambiental da recém-fundada Câmara Comunitária de Desenvolvimento Rocinha, Gávea e São Conrado, dá detalhes.

Viomundo – O curso implica trabalhar conteúdos básicos de saúde assim como as formas de levá-lo às diferentes populações?

Flávio Wittlin – É isso mesmo. Só que a agenda dos conteúdos de saúde é definida em conjunto com os moradores da Rocinha, que funciona como laboratório. Na maior parte das vezes, a Academia tenta se impor ao mundo, muitas vezes com receitas de bolo solado e de péssimo gosto. Já nós buscamos ampliar as possibilidades de conexão com a comunidade e suas diversas áreas de necessidade e interesse social.

Viomundo – Quais os objetivos educacionais do curso?

Flávio Wittlin – São vários, entre eles estes: 1) produção de conhecimento sobre questões de saúde pública e prevenção de doença e promoção de saúde; 2) a construção de novos paradigmas práticos que ampliem a eficácia de informação em saúde, sobretudo em comunidades socialmente excluídas; 3)  capacitação para manejo básico dos meios digitais para aplicação em Educação em Saúde.

Viomundo – Frequentemente no imaginário popular a disseminação de informações de saúde está associada a médicos. O projeto de vocês passa esse poder também para outros atores. Por quê?

Flávio Wittlin — A ação de saúde é muito maior do que o ato médico. Focar com exclusividade ou primazia no médico é algo muito tacanho e estúpido, um reducionismo que concorre para conservar baixo o nível de informação da população.

Há uma lacuna abissal quanto à comunicação de informação de saúde. Isso envolve desde colegas que não sabem e muitas vezes não querem comunicar nada em saúde até agentes comunitários do Programa de Saúde da Família, que têm deficiências nessa área. Mas uma vez encorajados e qualificados podem ampliar a conscientização das comunidades onde atuam.

Viomundo – Por que a Rocinha?

Flávio Wittlin – Proximidade com a PUC-RJ. O curso, aliás, é ministrado no campus da PUC e na Rocinha.  Agora, por seus indicadores sociais e de desenvolvimento humano, saúde, educação e ambientais, a Rocinha é por si só uma prioridade.

Viomundo — Como é a relação com a comunidade? E os traficantes?

Flávio Wittlin – A sensação é que estamos avançando na forma de a comunidade ver as questões de saúde. Mas ainda não conseguimos medir esses resultados.  Até recentemente as lideranças da Rocinha nos viam como outsiders. Mas estamos ganhando o respeito crescente da comunidade. Os traficantes pelo menos não nos molestam.

A propósito. Inspirando-me  nas companheiras italianas, comprometidas em construir uma rede de neopartisans contra Berlusconi et caterva, cabe a pergunta: se não agora, quando? O modelo biomédico precisa ser enfrentado com determinação, conjungando a força dos trabalhadores da saúde com a das comunidades socialmente deserdadas.

Sobre inscrições e mais informações sobre o curso de Educação em Saúde, clique aqui.

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Comentários

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Eneida Azevedo

Um agradecimento aos organizadores do curso Educação em Saúde pela excelente iniciativa e oportunidade de participação, também aos professores colaboradores com seus textos/concepções, vivências e práxis, autores em vida e em memória.

Heitor Rodrigues

Excelente iniciativa. O ato médico começa com a imposição da figura do médico sobre o paciente, o que retira do segundo a autonomia enquanto indivíduo. A submissão decorrente contraria a Constituição e a idéia de que somos todos iguais perante a lei. É um absurdo que um serviço público seja prestado por alguém acima dos cidadãos que o procuram por necessidade. A assimetria é óbvia. E é no bôjo dessa assimetria que ocorrem os inomináveis abusos e erros – não só dos médicos – que custam a saúde e até a vida das pessoas que os procuram. Os prejuízos, para a sociedade, e para as vítimas, são solenemente ignorados.

Heitor Rodrigues

Excelente iniciativa. O ato médico começa com a imposição da figura do médico sobre o paciente, o que retira do segundo a autonomia enquanto indivíduo. A submissão decorrente contraria a Constituição e a idéia de que somos todos iguais perante a lei. É um absurdo que um serviço público seja prestado por alguém acima dos cidadãos que o procuram por necessidade. A assimetria é óbvia. E é no bôjo dessa assimetria que ocorrem os inomináveis abusos e erros – não só dos médicos – que custam a saúde e até a vida das pessoas que os procuram. Os prejuízos, para a sociedade, e para as vítimas, são solenemente ignorados.
Imagino que o Dr. Flávio Wittlin tenha conhecimento de um vídeo feito sobre o sistema público de saúde inglês, que, entre outras coisas, remunera os médicos, em parte, de acordo com os indicadores de saúde dos pacientes sob seus cuidados, o que constitui poderoso contrapeso às práticas corruptoras das indústrias de produtos e serviços médicos, particularmente as farmacêuticas.
Esta é uma idéia – penso eu – capaz de colocar os usuários do SUS do mesmo lado dos operadores – os profissionais da saúde – nas pontas do Sistema. Ao lado da gigantesca tarefa que o Sr. abraçou, de educar os usuários para que cuidem de si mesmos e aprendam a preservar sua autonomia diante dos profissionais de saúde, a separação entre a classe médica e a gigantesca e mentirosa máquina de propaganda que sufoca a saúde pública, seria um grande passo para melhorar nossos indigestos indicadores de saúde, sem a necessidade da submissão do Estado e da sociedade à extorsão em curso.

O vídeo de que falo, está em: http://www.wikio.es/video/sistema-socializado-saude-4764...

.

Luiz Mario

Prezados Azenha e Conceição Lemes,
Muito obrigado por proporcionar excelente entrevista. São iniciativas assim que deveriam colocar os holofotes. Parabéns ao Dr. Flavio Wittlin e Viramundo pelo trabalho e disposição em transformar (e virar) o mundo. Parabéns inclusive pela coragem em enfrentar a indústria farmacêutica e o corporativismo dos médicos. “A verdade é um remédio muito amargo, mas é o único que confere saúde moral.” Machado de Assis.
Estou divulgando o curso com prazer.

JotaCe

BELO TRABALHO

Parabéns, Azenha, pra você, Conceição Lemes, e o Dr. Flávio Wittlin, por divulgarem da forma primorosa com que o fizeram, tão importante ação. A iniciativa é realmente de grande mérito e de extraordinário alcance, não só pelo público-alvo que pretende preparar, mas também porque visa de uma forma especial e pioneira os excluídos que ainda temos. Oxalá que o exemplo seja imitado por outras universidades e ongs, em outras áreas brasileiras, particularmente do Nordeste legal e da Amazônia, que detêm uma grande parte dos necessitados do país.
Abraços,

    Flavio Wittlin

    Caro JC:

    Obrigado por suas reflexões. Quando participamos do FSM 2009 em Belém, pudemos reconhecer o impacto quase desesperado dos necessitados na Amazônia promovendo um debate popular muito vivo sobre a saúde pública. Nós que já tínhamos trabalhado alguns anos no norte do Ceará e igualmente nas periferias do município de São Paulo, do ABC, da cidade do Rio de Janeiro e da baixada fluminense, que não diferem muito entre si na carência da área da saúde (visite o nosso portal http://www.viramundo.org que descreve parte da nossa epopéia).
    Agora, se trata de trabalhar a Promoção de Saúde ao mesmo tempo em que se avança o SUS na esfera dos cuidados assistenciais para quem precisa deles.
    O Curso de Educação em Saúde da PUC-Rio é filho da Promoção de Saúde e pretende explorar dois aspectos centrais: a elaboração de uma agenda concertada de temas de saúde na comunidade da Rocinha e o uso de tecnologia de comunicação comunitária feita pelos moradores. A liga com a comunidade vai ser dada pela participação de seis bolsistas custeados pela própria PUC que vivem, moram e trabalham na Rocinha.

    Forte abraço,
    Flavio

    PS: Para contrapor nossa iniciativa ao hegemônico modelo biomédico, estou sugerindo aos meus companheiros docentes batizar o curso com o nome de CURSO DE EDUCAÇÃO EM SAÚDE MOACYR SCLIAR.

Fernando

Muito boa a iniciativa.

E melhor ainda por ser em uma comunidade sem UPP, pra mostrar que o povo trabalhador da favela precisa de saúde e informação, e não de homens de preto apontando fuzis e revistando bolsas.

O_Brasileiro

Excelente iniciativa do grupo de extensão da universidade.
Sem informação correta o indivíduo tem mais dificuldade em tomar a decisão correta.
Porém, a mídia "glamouriza" ações que são extremamente nocivas à saúde das pessoas, tais como portar armas, usar bebidas alcóolicas, fumar (principalmente no cinema), comer "fast-food", não usar transporte público (estimulando o sedentarismo), entre outras.
Por isso, a estratégia de abordagem da população é fundamental para o sucesso da ação, principalmente entre os mais jovens.

betinho2

Se quizeram acabar com o déficit ($) do sistema de saúde e melhorar a saúde da população terão que enfrentar o lobby e a máfia das multi-farmacéuticas, liberando e tornando prática normal a AUTOHEMOTERAPIA. Procurem no Google "Luiz Moura – Autohemoterapia". No Orkut tem a comunidade "Autohemoterapia".
Já tem cura comprovada de AIDS, bem como de outras doenças consideradas incuráveis.
Eu uso a mais de 5 anos, e nunca mais tomei remédio químico, nunca mais tive gripe, nem dor de cabeça.
Acontece que a Autohemoterapia esvasia consultórios médicos e farmácias, dai a atuação do lobby para criminalçizar a aplicação, que é usada a mais de 100 anos, abandonada com o advento da pinicilina

Dr Marcelo Silber

Conceição Lemes
Querida Amiga
Que prazer um assunto como este pautado no Vi o Mundo
Sempre digo para os meus pacientes que o importante não é " desconstruir a doença" mas sim " construir sua própria saúde" . Flávio Wittlin e a ONG Viramundo estão de parabens.
Com iniciativas como esta, os brasileiros com certeza, valorizarão mais a Medicina Holística.
Neste quesito em particular, A Pediatria Brasileira é pioneira (Campanhas de imunização, valorização do aleitamento materno,etc…)
Beijo afetuoso do amigo Marcelo

    Conceição Lemes

    Que bom que vc gostou, dr. Marcelo. Precisamos marcar aquela nossa conversa. Eu não esqueci, nao. Vamos ver se depois do carnaval conseguimos agendá-la. Grande abraço

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