Massacre de Manguinhos: Cebes participa de homenagem aos pesquisadores cassados pela ditadura
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Presente na cerimônia de reintegração em 1986, o presidente do Cebes, Carlos Fidelis, analisa o significado do expurgo e seu impacto na ciência
Neste 5 de agosto, Dia Nacional de Saúde e aniversário de Oswaldo Cruz, o Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes) participa de celebração dos 40 anos da reintegração dos cientistas cassados pela ditadura militar. O expurgo, conhecido como Massacre de Manguinhos, usou o AI-5 para cassar e demitir os pesquisadores sob falsas acusações de subversão. A cerimônia de outorga póstuma do título de pesquisador emérito acontece às 14h, e é aberta ao público.
Presente em 1986 na cerimônia de reintegração, o presidente do Cebes, Carlos Fidelis, historiador e doutor em Políticas Públicas e Estratégias de Desenvolvimento, relembra, em artigo, um dos mais graves crimes políticos contra a ciência no Brasil.
“Massacre de Manguinhos: um crime contra a inteligência nacional e a democracia brasileira
Hoje celebramos o nascimento de Oswaldo Cruz e o Dia Nacional da Saúde. Recordamos também os quarenta anos da reintegração dos cientistas cassados de Manguinhos, os quarenta anos da histórica VIII Conferência Nacional de Saúde e os cinquenta anos do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes). Mais do que efemérides, essas datas evocam gerações e uma mesma luta. Homenageiam mulheres e homens que, em tempos de arbítrio, ajudaram a reconstruir a democracia brasileira, afirmando a ciência, a liberdade, a saúde e os direitos sociais como fundamentos de um novo projeto de país.
O episódio que passou à história como Massacre de Manguinhos, quando dez cientistas do Instituto Oswaldo Cruz foram cassados pelo regime militar em 1970, constitui um dos mais graves crimes políticos cometidos contra o Brasil. Seu significado ultrapassa amplamente a injusta, cruel e covarde perseguição aos pesquisadores diretamente atingidos e os limites institucionais do então Instituto Oswaldo Cruz. Representou um ataque deliberado à inteligência nacional, à liberdade de pensamento, à liberdade de expressão, à autonomia científica, à democracia, à sociedade e aos próprios interesses estratégicos do país.
Não se tratou de um excesso circunstancial, de um desvio administrativo ou de uma reação isolada da ditadura. Foi um ato consciente de violência de Estado. Ao cassar cientistas de reconhecida competência, desarticular grupos de pesquisa consolidados, interromper linhas de investigação de relevância internacional e impor a vigilância ideológica sobre uma das mais importantes instituições científicas brasileiras, o regime procurou submeter a produção do conhecimento ao arbítrio político. Não combateu ideias com argumentos nem respondeu à ciência com mais ciência. Recorreu à cassação, à censura, à perseguição e ao banimento para silenciar o pensamento crítico e intimidar todos aqueles que ousassem exercer livremente a inteligência.
A perseguição aos cientistas de Manguinhos, entretanto, não começou com as cassações de abril de 1970. Elas constituíram o desfecho de um processo iniciado logo após o golpe empresarial-militar de 1964, quando o regime passou a instalar deliberadamente um clima de medo, vigilância e verdadeira caça às bruxas no interior do Instituto Oswaldo Cruz. Inquéritos, interrogatórios, questionários humilhantes e acusações genéricas de subversão passaram a fazer parte da rotina institucional. O objetivo era claro: intimidar pesquisadores, calar o pensamento crítico e criar as condições políticas para intervir em uma das mais importantes instituições científicas do país.
As declarações de Raymundo de Britto, ministro da Saúde entre 1964 e 1967, ao Correio da Manhã de 24 de abril de 1964, não deixam margem a dúvidas quanto às intenções do novo regime:
“Se é verdade que não há fronteiras para a ciência, também é exato que há fronteiras para os cientistas. As ideias exóticas que em Manguinhos foram infiltradas serão banidas definitivamente, porque o nosso país precisa de homens que nos ajudem a acabar com o sofrimento do povo e não de elementos cujo único fito é destruir a liberdade, esfacelando o regime democrático. Manguinhos de amanhã será uma colmeia de trabalho e não, como queriam alguns, um foco de ideias subversivas. O Instituto Oswaldo Cruz terá todos os recursos de que carece para suas pesquisas.”(Raymundo de Britto, Correio da Manhã, 24 abr. 1964, apud Lent, 1978).
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A retórica do ministro reproduzia um dos mecanismos mais característicos dos regimes autoritários: transformar a divergência em ameaça, desqualificar o pensamento crítico como subversão e justificar a repressão em nome da defesa da democracia. Em nome da liberdade, restringia-se a liberdade; em nome da ciência, perseguiam-se cientistas; em nome do interesse nacional, atacava-se a própria inteligência nacional.
O testemunho de Liz Rodolpho Travassos, um dos pioneiros da oncologia experimental no Brasil e filho de Joaquim Travassos — diretor do Instituto Oswaldo Cruz entre 1962 e 1964 —, revela como essa política foi implantada no cotidiano da instituição:
“Quando ele [Joaquim Travassos] era diretor do IOC (…) Raymundo de Britto aumentou a pressão com inquéritos e questionários infames que atingiam vários pesquisadores do IOC acusados de subversão. Enquanto meu pai estava lá não permitiu que houvesse nenhum tipo de perseguição. (…) Na época diziam que Rocha Lagoa tinha sido escolhido porque era ‘um mau cientista, um mau administrador, mas um bom anticomunista’. Seguiu-se o que se conhece até hoje como Massacre de Manguinhos (…). Tudo desandou por lá naquele período.” (Travassos, apud Ponte, 2012).
O depoimento evidencia que o Massacre de Manguinhos não foi um ato repentino, mas o resultado de uma política sistemática de intimidação e aparelhamento institucional. A substituição de dirigentes comprometidos com a autonomia científica por administradores escolhidos prioritariamente por sua fidelidade ideológica simbolizou a tentativa de subordinar a ciência ao autoritarismo. Não se buscavam os melhores cientistas nem os melhores gestores. Buscavam-se dirigentes politicamente confiáveis, dispostos a transformar uma instituição dedicada à produção do conhecimento em um espaço de vigilância e submissão.
As consequências foram imediatas e profundas. O ambiente de Manguinhos deteriorou-se rapidamente. A liberdade intelectual cedeu lugar ao medo, à desconfiança e à autocensura. A colaboração científica foi enfraquecida, projetos estratégicos foram interrompidos e a instituição perdeu grande parte de sua capacidade de atrair jovens pesquisadores, que durante décadas haviam encontrado no Instituto Oswaldo Cruz um dos mais importantes centros científicos da América Latina. A perseguição atingiu não apenas os cientistas cassados, mas o próprio futuro da instituição.
Não por acaso, algum tempo depois, o então ministro da Saúde Paulo de Almeida Machado referiu-se ao Instituto Oswaldo Cruz como um “cadáver insepulto”. A expressão traduzia a dimensão da devastação produzida pelo autoritarismo. Felizmente, a história seguiria outro rumo.
Participei, em 1986, da emocionante cerimônia de reintegração dos cientistas cassados. Foi um dos momentos mais marcantes da reconstrução institucional da Fiocruz. Depois de anos de perseguição, medo e silêncio, iniciava-se um novo tempo, marcado pelo debate, pela liberdade acadêmica, pela expansão da pesquisa, pela formação de novas gerações de cientistas e pela reconstrução de uma instituição que voltaria a ocupar posição de destaque na ciência e na saúde pública brasileiras. A Fiocruz iniciava uma trajetória ascendente que em nada lembrava a instituição devastada pela repressão.
Naquele ato encontrava-se presente Ulysses Guimarães, uma das maiores lideranças da redemocratização brasileira. Dois anos depois, ao promulgar a Constituição da República de 1988, encerraria simbolicamente o ciclo autoritário ao afirmar, diante do país: “Temos ódio e nojo da ditadura.” E, no mesmo discurso, lançaria uma advertência que permanece atual: “Traidor da Constituição é traidor da Pátria.”
A Constituição de 1988 encerrou, no plano constitucional, um dos períodos mais sombrios da história brasileira e abriu um novo horizonte para a cidadania. Foi ela que reconheceu, pela primeira vez, a saúde como direito de todos e dever do Estado, criando as bases constitucionais para o Sistema Único de Saúde. Não foi uma conquista fortuita. Representou a vitória de uma longa luta conduzida por cientistas, sanitaristas, profissionais de saúde, movimentos sociais, parlamentares comprometidos com a democracia e instituições como o Cebes, cuja atuação foi decisiva para transformar uma reivindicação histórica em direito constitucional.
Como lembrava Sergio Arouca, “o maior inimigo do pensamento autoritário é o pensamento livre, porque, ao ser livre, ele se torna libertário.” Talvez nenhuma frase sintetize melhor o significado histórico do Massacre de Manguinhos. O que a ditadura pretendia destruir não eram apenas pesquisadores, laboratórios ou instituições. Pretendia destruir a liberdade de pensar. E é justamente essa liberdade que permitiu reconstruir a Fiocruz, realizar a VIII Conferência Nacional de Saúde, fortalecer o movimento da Reforma Sanitária, conquistar o direito universal à saúde e criar o Sistema Único de Saúde.
Recordar o Massacre de Manguinhos não significa apenas prestar a justa homenagem aos cientistas perseguidos. Significa reafirmar um compromisso. Compromisso com a ciência, com a democracia, com a liberdade de pensamento, com a soberania nacional e com o direito das gerações presentes e futuras de viver em um Brasil capaz de produzir conhecimento, proteger seu povo e construir, com autonomia, um projeto nacional democrático, inclusivo, sustentável e soberano.
Saúde é democracia. Democracia é saúde.
Rio de Janeiro, 5 de agosto de 2026
Carlos Fidelis da Ponte
Presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes).”
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