Rita Camacho: Peru, tecnocratas e algoritmos consolidam a direita no poder

Tempo de leitura: 18 min
Peru tem quase 35 milhões de habitantes, sendo o quarto país mais populoso da América do Sul (atrás de Brasil, Colômbia e Argentina). Sua extensão territorial é de 1.285.216 km², a terceira maior entre os países da região. Foto: Reprodução

Desde o fim da ditadura Fujimori, em 2000, o Peru teve 12 presidentes. Keiko é a décima terceira presidenta

Por Rita Camacho*, no site da Fundação Perseu Abramo

As últimas eleições presidenciais do Peru ocorreram em dois turnos em 2026:

Primeiro turno, em 12 e 13 de abril – 35 candidatos disputaram a Presidência da República. Os dois mais votados, segundo dados oficiais, foram Keiko Fujimori (Força Popular), de direita, com 17,18% dos votos, e Roberto Sánchez (Juntos pelo Peru), de esquerda, com 12,03%.

Segundo turno, em 7 de junho – Keiko saiu vitoriosa com 50,13%, enquanto Sánchez teve 49,86%. A diferença foi de menos de 50 mil votos.

Instabilidade

Desde o fim da ditadura Fujimori, em 2000, o Peru teve 12 presidentes. Keiko é a décima terceira. A saber:

Alberto Fujimori (julho de 1990 a novembro de 2000): foi eleito presidente em 1990 e conseguiu prorrogar seu tempo no poder com um golpe de Estado em 1992.

Valentín Paniagua (de novembro de 2000 a julho de 2001): Ele foi um dos únicos presidentes do país nos últimos anos a não estar envolvido em escândalos de corrupção e investigação nos últimos 20 anos.

Alejandro Toledo (de julho de 2001 a julho de 2006): terminou o mandato, mas acabou preso em 2019 nos EUA, país onde morava desde que saiu da presidência, investigado pelos supostos crimes de lavagem de dinheiro, conspiração e tráfico de influência.

Alan García (de julho de 2006 a julho de 2011): Após seu mandato, ele foi acusado de receber propina da Odebrecht e foi investigado por acusações de corrupção.

Apoie o VIOMUNDO

Em 2019, ao saber que seria preso preventivamente por seu envolvimento na Lava Jato, se suicidou. Ele era investigado por financiamento irregular de campanha, lavagem de dinheiro e tráfico de influência.

Ollanta Humala (de julho de 2011 a julho de 2016): Foi condenado a 15 anos de prisão por ter recebido recursos da construtora Odebrecht em 2006 e 2011. No dia 30 de julho de 2026, o Tribunal Constitucional publicou a decisão que anula a condenação de Humala por corrupção, e ele foi solto após passar 15 meses preso em uma base policial em Lima.

Pedro Pablo Kuczynski, PPK (de julho de 2016 a março de 2018): Renunciou um dia antes de o Congresso discutir seu impeachment. Vídeos divulgados pelo Partido “Fuerza Popular” que mostravam uma suposta compra de votos de seus aliados em troca de obras. PPK foi acusado de ter favorecido a empreiteira brasileira Odebrecht. Inicialmente, ele negou que tivesse qualquer relação com a empresa brasileira, mas depois ele reconheceu que, antes de ser presidente, sua empresa de consultoria prestou serviços à Odebrecht em financiamento de projetos.

Martín Vizcarra (de março de 2018 a novembro de 2020): Os deputados derrubaram Vizcarra depois da publicação de reportagens que diziam que ele recebeu US$ 640 mil (R$ 3,3 milhões) em subornos de duas empresas que prestavam serviços para o Estado quando ele foi governador em 2014, anos antes de assumir como presidente. Um procurador chegou a enviar um pedido de prisão preventiva para Vizcarra, alegando risco de fuga, mas a solicitação foi considerada infundada pela Justiça peruana.

Manuel Merino (de 10 de novembro de 2020 a 15 de novembro de 2020: A presidência de Merino durou cinco dias até sua renúncia. Ele enfrentou uma onda de protestos que pediam a sua saída por causa de duas mortes que ocorreram em atos públicos contra seu governo. Ele era um deputado que liderou os procedimentos de impeachment contra seu antecessor.

Francisco Sagasti (de novembro de 2020 a julho de 2021): Sagasti assumiu a presidência do Peru até que fosse feita uma nova eleição. Ele foi um dos poucos ex-presidentes que não foram denunciados por envolvimento em esquemas de corrupção e investigação.

Pedro Castillo (julho de 2021 a dezembro de 2022): sofreu impeachment por parte do Congresso, após decretar um governo de exceção, tentar dissolver o parlamento e declarar estado de emergência. Desde a posse, Castillo enfrentou acusações de corrupção e foi obrigado a substituir seus ministros em diversas ocasiões.

Dina Boluarte (de dezembro de 2022 a outubro de 2025): era a vice de Castillo. seu mandato, marcado pela repressão aos protestos que exigiam o fim da corrupção e da violência, terminou logo após o Congresso aprovar uma moção para destituí-la do cargo na quinta-feira (9) por “incapacidade moral permanente” para enfrentar o crime organizado no país.

José Jerí (de outubro de 2025 a fevereiro de 2026): sendo o então presidente do parlamento peruano, assumiu a Presidência com a incumbência de organizar as eleições gerais seguintes. Mas foi destituído devido a acusações de corrupção.

José María Balcázar (desde fevereiro de 2026 a julho de 2026): aos 83 anos, o deputado marxista assumiu a Presidência da República no mesmo dia em que foi eleito presidente do parlamento.

Keiko Fujimori tomou posse em 28 de julho de 2026 para um mandato até 28 de julho de 2031.

Direita domina Congresso e institucionalidade

Embora Keiko Fujimori, do Força Popular, tenha chegado à Presidência da República somente no dia 28 de julho, seu partido domina o Congresso peruano desde 2016. Karlos Tacuri Aragón, antropólogo e assessor do ex-candidato presidencial Roberto Sánchez, destaca dois marcos fundamentais a partir desse novo ciclo na história política peruana.

Em 2016, Keiko foi derrotada na campanha presidencial por Pedro Pablo Kuczynski, o PPK. “No entanto, ela mantinha uma presença parlamentar de 72 congressistas [de um total de 130] — exercendo, assim, um poder imenso. A partir do Congresso, ela começou a traçar uma estratégia — impulsionada pelos interesses centrais daqueles que trabalhavam com ela. Tratava-se de uma questão de financiamento — do respaldo econômico que ela comandava. E, de 2016 em diante, observamos aquela clássica saga peruana de repetidas tentativas de impeachment — uma vacância após outra. Houve o caso de Pedro Pablo Kuczynski (que acabou renunciando), seguido por Vizcarra e Sagasti — uma sequência de eventos que desperta grande interesse analítico, tanto dentro quanto fora da América Latina. Esse é o momento em que o Congresso buscou exercer controle sobre o Poder Executivo”.

Aragón avalia que o conflito pela disputa de poder começou ali. “Teoricamente, deveria haver um equilíbrio entre os poderes Executivo e Legislativo. No entanto, o Congresso foi gradualmente rompendo esse equilíbrio; isso não aconteceu da noite para o dia. Foi um processo de erosão lenta e constante. Agora, ao analisar a situação dez anos depois, percebe-se como implementaram pequenas alterações legais com uma sutileza imperceptível — introduzindo medidas discretamente e acionando-as mais tarde. Ninguém notou na época. Isso sugere que os especialistas jurídicos que os assessoravam são altamente qualificados; eles compreendem a estrutura do Estado por dentro, com base nas trajetórias profissionais que percorreram no Judiciário, no Ministério Público, nos conselhos nacionais de justiça e no Tribunal Constitucional — são profissionais que já estão inseridos no sistema. São eles que deflagram ações e desenterram aqueles detalhes minúsculos, aparentemente insignificantes”.

Estado mercantilista

No intervalo entre 2016 e 2021, período que antecedeu a eleição do presidente Castillo, uma estratégia foi implementada a partir do próprio aparelho estatal. O Congresso, o Judiciário e o Ministério Público adotaram medidas para impedir a formação de uma Assembleia Constituinte e a implementação de políticas públicas que, ostensivamente, favoreciam a maioria. “Essa é a realidade subjacente. Quanto à captura do Estado, por exemplo, existe o que se conhece como Lei Chlimper. Empresas agroexportadoras receberam um benefício fiscal muito especial. Elas não pagam impostos como as outras empresas, esse é o nível de detalhe envolvido. Não se tratava de implementar políticas públicas [para o bem comum]. Em última análise, desde 2016, o Estado peruano transformou-se em um Estado mercantilista. Esse é o termo-chave”.

Na avaliação de Aragón, o fujimorismo de 1990 baseava-se na tecnocracia, em grande parte, porque o Estado peruano estivera à beira do colapso antes daquele ano. “Havia hiperinflação, entre outros problemas. Consequentemente, uma equipe profissional de tecnocratas assumiu o comando do Estado e implementou políticas. É por isso que o fujimorismo está associado à implementação de políticas públicas. O Estado assumiu responsabilidades por meio de programas como o PRONA, uma iniciativa de assistência alimentar, por exemplo. No entanto, em 2016, o Estado já havia se afastado daquele modelo tecnocrático. Afinal, em um Estado tecnocrático, as entidades governamentais operam com objetivos e funções específicos. Elas têm um propósito, uma função. Precisam ser eficientes. Métricas de gestão do setor privado são transferidas para entidades públicas, e indicadores de gestão, entre outros, começam a surgir nos órgãos públicos do Estado. Tudo isso ocorre ao longo do caminho — e na busca — por um Estado eficiente sob uma perspectiva neoliberal, tecnocratas, liberais e neoliberais, assumem o comando do Estado, buscando torná-lo eficiente”.

No entanto, a partir de 2016, a situação se deteriorou. Aragón explica que essas entidades, que haviam começado a adotar métricas de desempenho específicas, voltaram-se para o mercantilismo. Já não se tratava de eficiência. Em vez disso, passaram a jogar o jogo dos negócios e da busca pelo lucro. E o Estado peruano começou a entrar em declínio. Essa deterioração do Estado peruano refletiu-se no Congresso, que teve de aprovar regulamentações para sustentar esse mercantilismo. À medida que o Estado declinava, essas entidades começaram a convergir. “Afinal, a única coisa que nos restava — um espaço potencial para debate, uma ilha de excelência dentro do Estado — era o Banco Central de Reserva. Contudo, anteriormente, havia outras entidades públicas trilhando o caminho da excelência na gestão pública.”

“Tudo passou a girar em torno do clientelismo. Isso marcou o início de uma década de declínio. Veja os índices de aprovação do último Congresso: Dina Boluarte tinha apenas 2% de aprovação. Isso reflete a situação atual e os problemas que enfrentamos. Economistas peruanos de destaque argumentam que, dado o boom das exportações de minérios, deveríamos estar crescendo 36%, e não 3%; essa estagnação deve-se a essa deterioração total. Foi nesse cenário que ocorreram as eleições, aquelas que acabaram de terminar”.

Vitória de Castillo – explosão popular e repressão

O segundo marco dos últimos anos destacado pelo antropólogo é a eleição de Pedro Castillo, em 2021. “Isso rompeu a estratégia que vinha sendo desenhada desde 2016 [por Keiko]. Ele não estava na equação. O resultado esperado era a vitória de Keiko [que outra vez havia disputado a Presidência]. O plano era que tudo aquilo em que vinham trabalhando fosse consolidado a partir de 2021. Eles estavam prontos para consolidar todos os seus esforços anteriores. Acredito que é exatamente isso que pretendem fazer agora”.

Mas a vitória de Castillo inaugurou um novo ciclo. “Naturalmente, eles já haviam acionado diversos mecanismos jurídicos e acabaram por destituí-lo ilegalmente — prendendo-o e tudo o mais. É por isso que falo de um segundo ciclo, 2022–2023, marcado pelos massacres. Quero dizer, o Estado tomou esse tipo de decisão e saiu matando pessoas indiscriminadamente em Puno, Ayacucho, Cuzco e Apurímac. Foi uma decisão de Estado. E imagine só aquele gabinete — com o envolvimento das Forças Armadas — tomando essa decisão. Foi assim que as coisas se desenrolaram, entramos em uma fase diferente. Uma fase totalmente diferente. Uma determinação de que ‘não deixaremos que a mesma coisa aconteça novamente’. Em outras palavras: ‘Não pode haver outro cenário como o de Pedro Castillo. É impossível’. Eles aprenderam a lição”.

Os protestos eclodiram por cerca de três meses no final de 2022 e começo de 2023, quando a vice de Castillo, Dina Boluarte, havia assumido o governo. Pelo menos 50 pessoas foram vítimas fatais da violência estatal. “Incluindo menores [de 18 anos]. E não eram pessoas que participavam dos protestos. Foi um conflito de dois lados; o exército de um lado, a polícia do outro. Eles saíram fazendo uma varredura pela cidade. Atirando, atirando, atirando. Havia um homem — um médico — que estava socorrendo os feridos, e foi morto; isso aconteceu em Puno. Um médico prestando socorro, usando o uniforme da Cruz Vermelha. Um pai de família que estava ajudando alguém que havia caído, ele tinha saído de casa e tentava levar a pessoa para um local seguro quando foi atingido. Esse evento — essa decisão de Estado, de política, de governo — marca outro marco importante. Ele nos situa no contexto em que nos encontramos hoje, em 2026”.

A esquerda no Peru

No Peru, a esquerda vem passando por um processo de declínio, admite Aragón. “O que resta é um espírito de dissidência — um sentimento antissistema — aliado a um forte elemento progressista. É isso que forneceria o elemento unificador, pois, no que diz respeito ao ativismo político partidário, uma vez encerrado o fervor eleitoral, os partidos de esquerda no Peru frequentemente se reduzem a pequenos núcleos de apenas cem, duzentas ou trezentas pessoas.

O processo — a catarse eleitoral — passa. Essa catarse eleitoral alinha-se a uma certa sensibilidade — que eu poderia descrever como antissistema: não gostamos do status quo como ele está, acreditamos que as coisas podem ser diferentes e compartilhamos uma visão progressista, não conservadora”. Essa dinâmica, explica o antropólogo, divide o Peru em dois — o que reflete, mais ou menos, os resultados das eleições.

E os partidos de esquerda que não conseguiram representação no Congresso acabam como o que chamam de “coletivos”, pequenos grupos que continuam trabalhando até o início do próximo ciclo eleitoral. “Aqueles que conquistaram representação, seja como senadores ou deputados, entram na dinâmica estabelecida do Congresso, porque essa representação permite a gestão territorial e a implementação de ações, atividades, células locais e assim por diante. Eles operam e trabalham. Mas, em nível institucional, minha avaliação é que eles seguem esse ciclo específico. Não é como se houvesse um partido de esquerda forte e definidor no Peru. Cada partido de esquerda tem sua própria nuance”.

Estados Unidos

Sobre a provável influência dos Estados Unidos na política peruana, Aragón conta alguns episódios simbólicos. Um dia antes de Pedro Castillo fazer seu pronunciamento à nação em que anunciava a dissolução do Congresso, em 7 de dezembro de 2022, seu então ministro da Defesa, Emilio Gustavo Bobbio Rosas, foi à Embaixada dos EUA e tirou uma foto com a então embaixadora estadunidense, Lisa Kenna [1].

Num caso mais recente, durante o último processo eleitoral, o atual embaixador dos EUA no Peru, Bernie Navarro, atuou como observador eleitoral. “Nessa condição de observador eleitoral, ele cumpriu uma agenda — uma agenda que envolvia os órgãos eleitorais. Nenhum embaixador que tenha ocupado — ou alcançado — esse status tinha uma agenda específica. Na verdade, é uma excelente jogada de marketing político”.

Quando Bernie Navarro foi nomeado embaixador, reuniu-se com o então presidente da República, José Jerí e logo publicou uma foto em redes sociais, na qual os dois aparecem comendo hambúrgueres[2]. Na legenda: Mudando o menu. Compartilhando um hambúrguer com o presidente do Peru. “A disputa comercial que ocorre atualmente no Peru é travada entre o capital chinês e o americano. Quando o Bernie posta sobre isso, ele diz algo como: ‘O Peru gosta de hambúrgueres agora, então agora vamos comer hambúrgueres’”.

Aragón lembra-se de outro episódio envolvendo o prefeito de Lima. “Há uma foto tirada no momento em que a Embaixada dos EUA fornece asfalto para recapear Lima[3]. É o primeiro embaixador que já vi distribuindo asfalto. Esse é o aspecto mais visível. Já não há qualquer pretensão de decoro; é algo descarado. Acho que isso decorre da nova estratégia deles: a ideia de que é preciso se autorregular: ‘Não me peça para intervir e regular você. Discipline-se. Porque, se eu intervier, as consequências serão severas. O Estado agora regula e disciplina a si mesmo. Autodisciplina. Não vou desviar o olhar. Se eu relaxar, as consequências serão terríveis. Então, o Estado está essencialmente se autorregulando, sem precisar de diretrizes externas. Essa é a nova estratégia deles”.

A campanha de Sánchez

Roberto Sánchez foi o candidato presidencial e é o presidente do Juntos pelo Peru.

Em janeiro de 2025, foi tomada a decisão de tentar construir uma frente unida para sua candidatura à Presidência da República. “Considerando o cenário que conhecíamos desde 2016, candidatar-se sozinho teria sido suicídio político. Quero dizer, dado que todo o aparelho estatal estava estruturado como uma máquina bem azeitada, não se podia simplesmente aparecer sozinho. No mínimo, era preciso reunir todas as forças progressistas que partilhavam da nossa análise política para construir uma frente”.

Começaram as conversas com um “amplo espectro” de grupos. “Desde Antauro Humala[4] — representando o extremo, a ala nacionalista radical — até forças dentro da Igreja Católica, por assim dizer. Todos foram convidados; havia cronogramas de reuniões e discussões, embora cada um viesse com suas próprias demandas maximalistas: ‘Eu queria uma chapa presidencial’. No entanto, aos poucos, eles começam a ceder. Mais tarde, houve conversas com os castillistas”.

Havia três bandeiras principais que foram desenvolvidas durante a conversa com as demais forças: justiça para as vítimas do massacre, liberdade para Pedro Castillo e uma nova assembleia constituinte. “Então, uma vez estabelecidas essas três bandeiras, a posição era: ‘Vocês querem se juntar a nós? Vocês precisam adotar nossa plataforma’. No fim das contas, a única aliança possível foi com o partido de Pedro Castillo, Peru Livre.

Naquele momento, segundo Aragón, a única vantagem que o Juntos pelo Peru tinha era já estar credenciado para participar da eleição. “Como havia participado das eleições de 2021, mantinha seu registro oficial. Mas havia uma regra permitindo que 20% dos candidatos fossem ‘convidados’ de fora. Esses 20% eram a parcela disponível para distribuição. Os outros 80% tinham de ser filiados ao partido”. Com isso, o Juntos pelo Peru dá a Antauro Humala duas vagas para candidatura ao Congresso, uma das quais para o pai dele, Isaac Humala.

Em dezembro de 2025, Roberto Sánchez nem aparecia nas pesquisas. “E é aí que entra a outra parte da estratégia. Traçamos o perfil do eleitor de Pedro Castillo do primeiro turno da eleição de 2021. Naquele primeiro turno — no qual Pedro Castillo foi eleito —, sua base de votos era majoritariamente rural: 75%. Analisamos e dissemos: ‘Esse é o nosso nicho principal’. Se não nos posicionássemos ali, nada aconteceria. Precisávamos conquistar esse espaço e, de fato, trabalhamos para captar o voto rural — começando pela mobilização de toda a rede rural por telefone”.

Segundo Aragón, o processo também se baseou em dados sobre a percepção pública dos eventos de 7 de dezembro (o pronunciamento de Castillo). “Foi um golpe de Estado? Não foi? Levou-se em conta a percepção daquele dia e como a imagem de Pedro Castillo persistia nas áreas urbanas, periurbanas e rurais. Portanto, tudo foi analisado. Assim, avançamos. E, a partir daí, a estratégia orientada para o mercado ganhou forma. Aparecíamos com 0,8% [de intenção de voto em janeiro de 2026], e ações específicas começaram a ser estruturadas”.

O primeiro, segundo ou terceiro passo específico foi adotar a estratégia que Pedro Castillo havia utilizado — o que ficou conhecido como a “Rota Castillo”, que significava visitar todos os lugares, mas o maior número possível de áreas rurais onde Pedro tinha sua base eleitoral. “Era um giro, um roteiro; Roberto Sánchez trabalhava até a exaustão, porque não há conectividade no Peru. Viajando por terra — estritamente por terra. Eu o levava no carro; ele dormia na estrada e depois eu o acordava: ‘Chegamos’. Uma reunião. Ele discursava. Depois, de volta ao carro. Muito exaustivo. Demais. E, obviamente, ele começou a aparecer nas pesquisas”.

Ainda assim, conta Aragón, nenhum instituto de pesquisa falava sobre o voto rural. “E nós mantínhamos isso em segredo. Não íamos revelar o jogo, sabe? Porque as pesquisas eram feitas em áreas urbanas. Foi muito difícil. Então surgiu o debate: por quê? Por quê? E, mais tarde, perceberam que o voto rural existia. Começaram a teorizar sobre o voto rural no Peru, enquanto nós já dávamos risada, porque já tínhamos feito o trabalho de base lá”.

E então houve outro elemento, segundo o antropólogo, muito importante que se destacou. “Também precisávamos definir um centro simbólico. O símbolo do Juntos pelo Peru— um J e um P — não criava uma conexão emocional. Em outras palavras, não havia um centro simbólico emocional para o partido político. Então revisamos as coisas, e foi aí que entrou a estratégia do chapéu. Mas não se trata de grupos focais; trata-se de estar em campo. Na verdade, às vezes, as pessoas me chamavam de Roberto Sánchez [por não conhecer a imagem do candidato]. Quando você está em campo, percebe o que falta na percepção das pessoas — inclusive na percepção da imagem”. E Roberto Sánchez adotou o chapéu. “Ele colocou o chapéu em Puno e, a partir daí, aos poucos, ele se tornou o centro simbólico e emocional da campanha”.

Nos Andes peruanos, segundo Aragón, existem diversos tipos de chapéus. “Cada distrito, cada província tem seu próprio chapéu característico. No litoral, há um estilo mais crioulo, mais hispânico. A questão é que nós também brincamos um pouco com isso: as pessoas chegavam, tiravam o chapéu cajamarquino e colocavam o regional. Ele circulava usando o estilo regional, mas, no comício, colocava o chapéu cajamarquino. O Roberto [Sánchez] praticamente poderia ter um museu de chapéus, porque as pessoas também queriam usá-lo. Nos comícios, as pessoas começaram a aparecer usando o chapéu. Em termos de material de campanha, nós não encomendamos chapéus. Encomendamos camisetas — é o padrão, sabe? Encomenda-se bandeiras e camisetas. Essa é a fórmula de sempre. Mas as pessoas começaram a aparecer de chapéu, também os vendedores ambulantes. E quanto às pessoas mais pobres que compareciam aos comícios, elas começaram a fazer seus próprios chapéus de papelão, de cartolina. É isso que você ganha ao estar presente na base — algo que a metodologia de marketing nem sempre lhe diz. Porque — deixe-me lhe dizer — cada detalhe conta. Então, quando a imprensa estrangeira veio ao Peru para cobrir a campanha… ‘O chapéu! Onde está o chapéu? Aqui está o chapéu’. O chapéu começou a ganhar vida própria. ‘Sr. Sánchez, vamos fazer uma entrevista — por favor, traga o chapéu’. Meu conselho para o PT e sua equipe de marketing seria: pense bem sobre esse centro simbólico-emocional. O que você deve fazer? Nós acertamos em cheio com o chapéu:”.

Durante a campanha, Aragón acompanhava e analisava principalmente a três institutos de pesquisa, O Ipsos, franquia internacional, o Instituto de Estudos Peruanos (IEP) e a Datum. “Usei esses três como referência porque analisei suas metodologias e tudo mais. Mas, na verdade, não uso mais a Datum — eles acabaram mostrando sua verdadeira face [colocaram Sánchez em quarto lugar no primeiro turno]. Decidi ficar com a Ipsos e o IEP. Tudo gira em torno da equação, certo? Se você traçou uma estratégia, precisa começar verificando se os consumidores estão realmente “comprando” o produto. Então, os números começaram a surgir: 0,8%, 1%, 2% — isso foi em fevereiro e março — e foi aí que as manobras estratégicas começaram.

Enquanto isso, as manchetes dos jornais, baseadas no vaivém das pesquisas, tinha um candidato outsider por semana ganhando as manchetes.“’Ah, olha, tem um novo outsider!’ Depois, é claro, os números caíam, mas eles já haviam garantido uma semana de manchetes. E impediam que se falasse sobre nós”. Nada menos que 35 candidatos e candidatas disputaram as eleições presidenciais no Peru.

O Juntos pelo Peru estava seguro de que a direita não conseguiria penetrar no eleitorado rural. “Claro, é outro planeta, como eu costumo dizer. As áreas rurais têm um ritmo diário diferente; as pessoas não ficavam grudadas no celular. Por outro lado, nos arrasaram nas capitais dos principais centros urbanos do Peru. Em Lima, território conservador, tivemos 2,5% no primeiro turno. Nem sequer tivemos capacidade para chegar a 8 mil votos. Um desastre total”.

Segundo turno

“O segundo turno é outra história. É aí que a máquina do seu partido político é realmente posta à prova. Porque é algo completamente diferente. Exige pessoal altamente especializado, e você precisa de uma estrutura partidária sólida e robusta, capaz de gerir operações não apenas em todo o território nacional, mas também internacionalmente. O Esteban [companheiro chileno próximo ao partido] foi o primeiro a nos dizer: ‘Não negligenciem o aspecto internacional’, porque é nessa esfera que ele [o adversário] atua. O resultado foi que vencemos em território peruano por uma margem de 26 mil ou 25 mil votos. No entanto, os votos do exterior inverteram o resultado, dando a Keiko uma vantagem de 48 mil votos. Gerir a votação dentro do Peru durante um segundo turno é extremamente difícil, considerando a enorme quantidade de seções eleitorais e a necessidade de 100 mil fiscais de mesa”.

Mudança das regras

Entre o primeiro e o segundo turno das eleições, as autoridades eleitorais peruanas fizeram uma alteração inusitada nas regras a respeito das atas de votação no exterior. Enquanto na primeira etapa da eleição as atas de apuração eram digitalizadas e enviadas à sede dos trabalhos de consolidação dos dados em Lima. “E digitalizar é fácil hoje em dia; basta usar um celular para converter em PDF”. Mas, no segundo turno, por meio de uma nova cláusula, o que se estabeleceu foi a obrigatoriedade do envio físico das atas. “O Escritório Nacional de Processos Eleitorais, obviamente, a pedido do Ministério das Relações Exteriores. Então, isso é feito com muita precisão — seguindo rigorosamente as normas, juridicamente falando. E aí você acaba atolado em um debate sobre se é uma diretriz ou uma lei geral, mas já está encurralado; a decisão já foi tomada, e você nem percebeu na hora. Ninguém mencionou isso porque estávamos focados na questão principal. E, quando se deram conta, já era tarde demais.Foi um fator importante; foi uma questão significativa. Elaborar uma estratégia para o voto rural não é muito complicado. Elaborar uma estratégia para o voto urbano-rural não é muito complicado. Não é complicado para as principais áreas urbanas. Mas o voto do exterior — isso é muito complicado”. Um detalhe curioso, segundo Aragón: as atas envidas da Austrália chegaram ao Peru antes das atas enviadas da Argentina. Daí, o antropólogo chamar a atenção para a necessidade de ter rastreabilidade de todo o processo.

“É preciso ter fiscais de votação presentes também. Tem que ser semelhante ao sistema padrão. No Peru, por exemplo, os cônsules fizeram o que quiseram com a mesa de sufrágio. Como não havia representantes do Juntos pelo Peru presentes, eles já tinham tudo combinado de antemão. Petro fez exatamente a mesma coisa. Eles não tinham permissão para nomear cônsules. Então, é preciso fazer uma limpa — remover todos os cônsules atuais e colocar os seus próprios. Como posso dizer? A estrutura institucional das relações exteriores, ou o ecossistema. Eles ocupam posições muito consolidadas. E é preciso trazer uma nova leva de cônsules, mais voltados para a legalidade. Os cônsules precisam ser substituídos, e é fácil identificá-los. Mas é preciso conquistar o apoio daquele corpo de funcionários lotados no exterior. Nós não estávamos no governo. E, obviamente, não tínhamos capacidade operacional para colocar nossos próprios representantes lá. É difícil. É impossível colocar representantes em toda parte; por isso, contamos com os representantes do Estado peruano que estão alinhados conosco”.

Aragón recomenda que é necessária uma estrutura normativa para o voto no exterior. “É preciso ter o processo claramente mapeado — porque digamos que eu seja nomeado Ministro da Água, mas minha equipe de apoio seja composta por tecnocratas da era Fujimori. Eles atuam como um freio, dizendo constantemente: ‘Não dá para fazer, não dá para fazer, não dá para fazer’. Esses tecnocratas continuam em atividade, e é provável que o mesmo aconteça no Brasil. A tecnocracia bolsonarista está entranhada em todo o aparelho do Estado. É por isso que é preciso reconstruir minuciosamente o fluxo normativo do voto no exterior. É preciso identificar os pontos específicos onde eles poderiam aplicar a estratégia que já utilizaram antes e onde poderiam fazer alterações. Você pode nem perceber, mas a mudança já foi feita. Ou talvez essa mudança já tenha ocorrido para eles sem que percebessem. Alguém precisa analisar a situação e, assim que eles se derem conta, devem buscar a equação que melhor lhes convém — aquela mais prática de implementar, e assim por diante”.

Para Aragón, outro ponto é que a estratégia para alcançar quem está no exterior precisa ser muito refinada. “Localizá-los é particularmente difícil. Quer dizer, você consegue localizar o ativista que mora na Suécia, certo? Afinal, ele emigrou, é progressista, compreende os benefícios do Estado e vai procurar o Lula — ou procurar você. Mas a pessoa comum — aquela que sempre votou — é diferente. Você precisa chegar até ela, ela não vai vir atrás de você. Você tem que ir encontrá-la. E hoje em dia isso é feito com algoritmos. Envolve busca direcionada — é uma área especializada da comunicação atualmente. Você mapeia e localiza essas pessoas. Primeiro, precisa levar informações até elas, ou talvez uma campanha fortemente nacionalista — focada no Brasil, por exemplo. Não apresente a plataforma eleitoral específica logo de cara, espere até ver que elas estão interagindo com você. Então identificar esses públicos seria a minha recomendação”.

Diante da experiência recém-vivida, Aragón reflete: “Aquelas megacorporações dos EUA lidam com algoritmos e sabem onde as pessoas estão — usando mineração de dados, rastreando palavras-chave ou marcas e interesses específicos — para localizá-las nos EUA ou em outros países. Mas fazer com que elas realmente votem é outra história. Acho que 300 mil pessoas votaram no segundo turno. O cadastro eleitoral lista cerca de um milhão de eleitores no exterior — bem, um milhão no total, com um número significativo fora do país. E a maioria dos migrantes está nos EUA, Argentina, Espanha e Chile. Quem consegue chegar até eles? Porque eles já estão inseridos em outros algoritmos. O peruano que está no Chile tem um algoritmo do tipo A. Aquele que está na Argentina tem um algoritmo do tipo B. Porque o Boca Juniors já coloca a pessoa no ecossistema da Argentina. O peruano de Miami tem outro algoritmo, porque busca Cuba, salsa, sei lá. Então, é impossível que eles cheguem às minhas plataformas de redes sociais. Apenas os hiperpolitizados chegam. Mas o eleitor comum, não. Então, é isso”.

Aragón diz que aprenderam a lição. “Isso exige jovens hipertecnologizados que realmente sabem fazer mineração de dados e sabem como comunicar e construir a rota dos algoritmos.Esses jovens existem no Peru, mas faltando apenas duas semanas para o segundo turno, onde é que iríamos encontrá-los? Como é que se estabelece a conexão necessária com eles? E acho que aconteceu a mesma coisa na Colômbia. A questão agora — no século XXI — é que, quando você tem as variáveis ​​e os algoritmos alinhados, pode ficar tranquilo. E nós não estamos preparados para esse nível”.

Depois de um longo processo de apuração dos votos. Keiko foi eleita com 50,13% dos votos no segundo turno, em 7 de junho, contra 49,86% para Sánchez. Segundo o Escritório Nacional de Processos Eleitorais (Onpe), a diferença foi de menos de 50 mil votos. Em 1º de julho, Roberto Sánchez apresentou um recurso perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) no qual questiona a vitória da direitista Keiko Fujimori. Ele alega uma suposta fraude nos votos de peruanos no exterior. O Juntos pelo Peru garantiu a liderança da Câmara, mas perdeu a do Senado “devido a uma traição política”.

Keiko Fujimori (Fuerza Popular), 51 anos, tomou posse em 28 de julho para um mandato até 2031. Em seu discurso, prometeu combater a corrupção, fortalecer o Estado e endurecer o enfrentamento ao crime organizado. Anunciou que as Forças Armadas passarão a liderar temporariamente as operações nos Estados com maiores índices de violência, em conjunto com a Polícia Nacional. Também prometeu ampliar o uso de tecnologia, com um sistema nacional de videomonitoramento, plataformas de inteligência artificial para mapear e antecipar crimes e novos centros de comando para coordenar as operações. Para seu gabinete, nomeou como ministro das Relações Exteriores Alfonso Carlos Espá Garcés-Alvear, que foi assessor de comunicação da Embaixada dos Estados Unidos no Peru. O novo funcionário é bacharel em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Peru (PUCP) e mestre em Ciência Política pela The American University, em Washington.

Notas

[1] https://www.elperuano.pe/noticia/198471-ministro-de-defensa-se-reunio-con-embajadora-de-los-estados-unidos

[2] https://www.facebook.com/usembassyperu/posts/changing-the-menu-sharing-an-american-burger-with-the-president-of-peru-ambassad/1326915589482315/

[3] https://pe.usembassy.gov/es/embajador-navarro-presenta-soluciones-con-innovaciones-estadounidenses-para-mejorar-la-infraestructura-vial-de-lima/

[4] Irmão do ex-presidente Ollanta Humala.

*Rita Camacho é jornalista.

Apoie o VIOMUNDO


Siga-nos no


Comentários

Clique aqui para ler e comentar

Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Leia também