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Facebook censura Viomundo por foto de crianças indígenas sem camisa em matéria sobre a devastação da Amazônia
Blog da Saúde

Facebook censura Viomundo por foto de crianças indígenas sem camisa em matéria sobre a devastação da Amazônia


27/08/2019 - 00h16

por Conceição Lemes

Na quinta-feira, 22/08, publicamos a matéria Revista médica inglesa denuncia: Bolsonaro ameaça a sobrevivência da população indígena; brasileiro explica porquê.

A revista é The Lancet, uma das mais publicações médicas mais prestigiadas.

Em editorial da edição de 10 de agosto ele tratou do aumento da devastação da floresta amazônica desde que  Jair Bolsonaro assumiu a presidência da República e as repercussões na saúde da população indígena brasileira.

Nós entrevistamos o médico Antônio Alves de Souza, que foi o primeiro secretário da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai). Ele ficou de outubro de 2010, quando a Sesai foi criada, até março de 2016.

Pois nesta segunda-feira, 26/08,  fomos surpreendidos com este comunicado do Facebook.

A alegação é de que a matéria violaria os Padrões da Comunidade do Facebook sobre nudez ou atividade sexual.

Considerando que a imagem não tem nada a ver com atividade sexual,  o motivo, por exclusão, seria o fato de as crianças indígenas estarem sem camisa com os mamilos à mostra.

Como normalmente o Facebook só age quando há denúncia de algum internauta denuncia, pensei com os meus botões:

*Será que realmente alguém denunciou o post por causa da alegada nudez das crianças ou foi o próprio Facebook?

*Se foi o Facebook,  será que ele também vai vetar fotos de crianças e homens na praia com sunga?

*Ou será algum apoiador do governo Bolsonaro fez a denúncia para impedir que se conheça o impacto que a  devastação da Amazônia sobre a saúde indígena e a nudez das crianças foi apenas pretexto?

Independentemente do motivo, a retirada da matéria do ar e o bloqueio da página do Viomundo por 24 horas são censura descarada. Revelam também ignorância.

O artigo 231 da Constituição Federal de 1988 estabelece:

“São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens”.

“Assim, faz parte das tradições e dos costumes indígenas a não utilização de vestimentas”,  explica o médico Antônio Alves que aparece na fotografia censurada.

As  crianças  são da etnia Macuxi, na aldeia Maturuca, em Raposa Serra do Sol.

Ela foi tirada em 2010, quando o médico  visitou várias aldeias para saber como aquele povo vivia.

“Grande parte dos indígenas vive em comunidades onde nudez, total ou parcial, faz parte das tradições”, prossegue.

“Assim, não compete aos não indígenas qualquer interferência no modo de vida desses povos”, afirma.

A foto censurada pelo Facebook foi feita com autorização dos pais das crianças.

“As meninas com todo o corpo coberto e os meninos (alguns) sem camisa refletem o costume dos Macuxi”, observa Antônio Alves.

“Não há qualquer violação aos costumes dos Macuxi,  portanto, não cabe censura de quem quer que seja”, frisa.

Se alguém tiver alguma dúvida sobre os costumes dos povos indígenas, o médico Antônio Alves sugere: assista ao filme Xingu ou algum documentário sobre o Quarup, festa religiosa no Parque do Xingu.

Em tempo. O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) já enfrentou situações semelhantes com o Facebook,

“Eles não fazem qualquer tipo de análise de contexto que inclua elementos da cultura”, avalia Cleber Buzatto, secretário-executivo  do Cimi.

“Ao tratar das consequências do desmatamento e das queimadas à saúde das populações indígenas, a matéria visibiliza uma situação real que costuma ficar nas sombras”, diz.

“Na verdade, em geral, a mídia comercial esconde, já que os problemas são causados pelas ações ilegais e criminosas de agentes do agronegócio”, observa o secretário-executivo do Cimi.

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Por Laurindo Lalo Leal Filho



3 comentários

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Luis Lago

28 de agosto de 2019 às 12h50

refaça a reportagem com uma montagem da foto vestindo as crianças com casmisas da cbf

Responder

Zé Maria

27 de agosto de 2019 às 15h12

O mais freqüente, nesses casos,
é o bombardeio de denúncias.
Às vezes, com o uso de “bots”.

As Empresas (FB, TT, etc) tiram
do ar e depois investigam.
Se o Usuário reclama,
quase sempre liberam.
Entretanto, há o risco de
Exclusão da Conta, em
Denúncias mais Graves.
Essas Corporações
não são confiáveis.

A Professora Lola Lola Aronovich
tem experiência nesse assunto.
Com ela a luta foi com o Google.

https://twitter.com/lolaescreva/status/819322276499910656
https://twitter.com/cynaramenezes/status/819523996748304384

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Jus Ad Rem

27 de agosto de 2019 às 00h38

Permite fakenews, discursos de ódio, golpes etc. e censura fotos de crianças indígenas…
É uma moralidade às avessas.

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