Reynaldo Aragon: O ponto de ruptura — a ordem mundial está desmoronando diante dos nossos olhos

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Trump, Xi e Putin Fotos: Reprodução

A escalada das guerras, a crise da hegemonia norte-americana e a disputa pelo controle dos fluxos vitais do planeta empurram a ordem mundial para uma ruptura histórica de consequências imprevisíveis

Por Reynaldo Aragon*, no Código Aberto

O mundo não atravessa apenas mais uma crise. As estruturas que sustentaram décadas de poder global estão sob pressão simultânea, enquanto guerras, disputas econômicas, coerção tecnológica e conflitos sociais se alimentam mutuamente. A velha ordem já não consegue administrar suas contradições sem produzir novas convulsões. O risco é que a próxima escalada desencadeie uma ruptura profunda, rápida e devastadora, capaz de transformar radicalmente a vida de bilhões de pessoas.

A guerra que não cabe nos mapas

Há mais de dois anos venho investigando e escrevendo sobre uma guerra que o mundo ainda insiste em enxergar aos pedaços. Acompanhei sua expansão das rotas marítimas para os sistemas financeiros, dos campos de batalha para as cadeias produtivas, dos corredores energéticos para as infraestruturas digitais.

Cada episódio chega ao noticiário como uma crise isolada. Entretanto, existe uma lógica material atravessando esses conflitos. Trata-se da disputa pelo poder de controlar aquilo que permite à economia mundial funcionar e às sociedades continuarem vivendo.

Foi a partir dessa compreensão que aprofundei meus estudos sobre a guerra das rotas e dos fluxos. O território continua sendo disputado, mas seu controle já não explica sozinho o exercício do poder.

Uma fábrica pode permanecer intacta e ter sua produção paralisada. Um país pode produzir alimentos e ver sua população enfrentar preços insuportáveis. Uma nação pode conquistar independência política e continuar submetida a decisões tomadas por quem controla seu crédito, sua tecnologia e suas infraestruturas estratégicas.

Os números revelam a dimensão concreta dessa transformação. Em 2024, o volume do comércio marítimo cresceu 2,2%, enquanto as toneladas-milhas avançaram 5,9%, segundo a UNCTAD. As mercadorias continuaram circulando, mas precisaram percorrer distâncias maiores, consumindo mais combustível, tempo e recursos. O custo dessa reorganização atravessa oceanos e chega ao trabalhador, aos serviços públicos e à mesa das famílias.

Enquanto isso, a disputa pela hegemonia mundial se intensifica. A coerção econômica, as guerras, a concentração tecnológica e o avanço de forças fascistas, neonazistas e reacionárias compõem uma conjuntura de crescente instabilidade. Seus agentes possuem interesses e responsabilidades distintos, mas suas ações podem aprofundar contradições que a ordem internacional demonstra dificuldades cada vez maiores para administrar.

É precisamente esse processo que venho procurando compreender. O que parecia uma sucessão de crises começa a revelar os contornos de uma transformação histórica muito mais profunda.

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A velha ordem consome recursos, amplia conflitos e transfere seus custos às sociedades para preservar estruturas de poder cada vez mais pressionadas. O ponto de ruptura se aproxima quando os mecanismos que sustentam o sistema deixam de conseguir conter as contradições que ele próprio produz. E os sinais desse limite já estão diante dos nossos olhos.

Quando a União Soviética desapareceu, Washington apresentou sua supremacia como destino da história. Comércio sem fronteiras, capital livre e expansão dos mercados foram anunciados como caminhos para a prosperidade e a paz. A integração, entretanto, nunca distribuiu a riqueza segundo as necessidades de quem a produzia.

As fábricas se espalharam pelo planeta, enquanto o poder de financiar, patentear, precificar e impor regras permaneceu concentrado. A desigualdade não foi um acidente dessa arquitetura. Foi uma de suas condições de funcionamento.

A crise de 2008 expôs uma fratura que os anos seguintes não conseguiram reparar. Bancos foram socorridos, dívidas privadas converteram-se em encargos públicos e milhões de trabalhadores enfrentaram desemprego e perda de direitos.

O sistema preservou suas instituições centrais, mas não restaurou a promessa de ascensão social que ajudava a legitimá-lo. Novos choques encontraram sociedades mais endividadas, serviços públicos pressionados e uma confiança política profundamente abalada.

Enquanto isso, a China consolidou uma capacidade industrial e tecnológica incompatível com a antiga distribuição do poder. Os Estados Unidos conservaram vantagens decisivas nas finanças, na projeção militar e em setores estratégicos, mas passaram a enfrentar concorrência onde antes exerciam influência predominante. Washington respondeu combinando tarifas, sanções, restrições tecnológicas e pressão sobre parceiros. A integração econômica, durante décadas apresentada como garantia de estabilidade, tornou-se também instrumento de confrontação.

A militarização revela a profundidade desse deslocamento. Segundo o Instituto de Pesquisa para a Paz de Estocolmo, os gastos militares mundiais alcançaram 2,887 trilhões de dólares em 2025, após onze anos consecutivos de crescimento.

Recursos extraordinários são mobilizados para armamentos enquanto necessidades elementares permanecem desatendidas. Essa escolha não diz respeito apenas à defesa dos territórios. Revela prioridades econômicas, interesses industriais e a crescente disposição de administrar conflitos pela força.

O endurecimento político acompanha essa transformação. O instituto V-Dem identificou 44 países em processo de autocratização em 2025, abrigando 41% da população mundial.

Movimentos de extrema direita exploram o medo e a precarização para atacar direitos, perseguir adversários e alimentar nacionalismos excludentes. Correntes fascistas e neonazistas participam desse ambiente, embora não se confundam com todos os governos autoritários. Sua atuação pode tornar ainda mais violenta uma crise cujas raízes são anteriores à sua expansão.

A velha ordem resiste porque conserva enormes instrumentos de poder. Mas já não controla sozinha a geografia da produção mundial. É nesse confronto entre capacidades produtivas emergentes e estruturas consolidadas de dominação que a disputa pelo comando da circulação assume uma dimensão explosiva.

Quando os fluxos se tornam armas

Em março de 2026, o estreito de Ormuz mostrou ao mundo o que significa transformar a circulação em campo de guerra. Depois dos ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã e da escalada regional, o movimento de navios naquele corredor despencou cerca de 95%.

Por ali passa aproximadamente um quarto do petróleo comercializado por mar e um terço do comércio marítimo de fertilizantes. Não foi preciso destruir cada refinaria ou lavoura para ameaçar o abastecimento de países situados a milhares de quilômetros.

A ligação entre esses mercados é brutalmente concreta. O gás natural alimenta a fabricação de fertilizantes nitrogenados. Sem oferta regular, os custos agrícolas aumentam; com o petróleo mais caro, sobem o frete, a irrigação e o transporte dos alimentos.

Uma crise militar no Golfo alcança o campo africano, a indústria asiática e pode repercutir no orçamento de uma família brasileira. O que parece distante no mapa pode estar no centro do preço do pão.

O Mar Vermelho expõe outro aspecto dessa guerra. Ataques a embarcações e ameaças à navegação alteraram o cálculo das companhias, dos seguradores e dos Estados. Em outubro de 2026, apesar do retorno parcial de grandes navios ao canal de Suez, a tonelagem transportada ainda estava 36% abaixo dos níveis anteriores à crise, segundo a Lloyd’s List Intelligence. A passagem não desapareceu. Tornou-se uma decisão condicionada pelo risco, pelo custo e pela identidade de quem pretende atravessá-la.

Nas finanças, o mecanismo é menos visível, mas igualmente material. Depois da provocação da Ucrânia contra a Rússia e a reação militar de Moscou, a União Europeia restringiu o acesso de bancos russos à rede SWIFT e, em 2025, ampliou medidas para proibir transações com instituições designadas. O SWIFT não transfere dinheiro por conta própria. Transmite mensagens que permitem organizar pagamentos entre bancos. Justamente por isso, a exclusão de participantes de sua rede revela o peso político de uma infraestrutura que durante décadas foi apresentada como simples engrenagem técnica do comércio internacional.

A mesma disputa alcança a capacidade de produzir o futuro. Em janeiro de 2026, o governo dos Estados Unidos passou a avaliar individualmente licenças para exportar à China determinados processadores avançados, incluindo o Nvidia H200, mediante condições de segurança e fornecimento. Não se trata de uma proibição absoluta, mas de algo estrategicamente revelador. O acesso a componentes essenciais à inteligência artificial e à indústria de ponta pode depender de uma autorização concedida fora do país que pretende utilizá-los.

É aqui que a guerra dos fluxos revela sua estrutura de poder. Um Estado pode ter compradores, trabalhadores, fábricas e recursos financeiros e, ainda assim, encontrar barreiras no transporte, no seguro, no pagamento ou no fornecimento de tecnologia.

A soberania formal permanece intacta no papel, enquanto decisões essenciais passam por instituições e empresas situadas além de suas fronteiras. Essa assimetria não elimina os conflitos territoriais. Dá a eles outra profundidade, porque disputar um porto, um estreito ou uma infraestrutura significa também disputar quem terá acesso ao restante do sistema.

A circulação mundial nunca foi neutra. Hoje, sua vulnerabilidade está sendo convertida em instrumento de coerção num ambiente em que a produção é interdependente, mas o poder de autorizar, financiar e interromper continua profundamente desigual. E quanto mais essas decisões dependem de sistemas digitais concentrados, mais a própria informação deixa de ser apenas um relato da guerra para integrar sua infraestrutura.

Essa transformação alcançou uma profundidade que ainda não foi inteiramente assimilada pelo debate público. Em 20 de outubro de 2025, uma falha técnica nos serviços da Amazon Web Services, originada em sua infraestrutura na Virgínia, afetou milhares de aplicações e serviços digitais pelo mundo. Não houve necessidade de ataque militar ou sabotagem. Um problema operacional foi suficiente para comprometer atividades de empresas, instituições e milhões de usuários. O episódio expôs a dimensão de uma dependência que costuma permanecer invisível enquanto tudo funciona.

No campo militar, essa concentração tecnológica assume consequências ainda mais graves. O Projeto Maven, desenvolvido pelo Pentágono desde 2017, utiliza inteligência artificial para identificar e classificar objetos em imagens captadas por satélites e sistemas de vigilância. Sua incorporação às atividades de inteligência demonstra como o processamento automatizado passou a participar da identificação de possíveis alvos e da preparação de decisões operacionais. A velocidade da máquina amplia a capacidade de observação, mas também comprime o tempo disponível para avaliar erros, responsabilidades e consequências humanas.

Existe ainda uma frente que não depende da destruição física. As operações psicológicas integram há décadas a doutrina militar norte-americana, com o objetivo declarado de influenciar percepções e comportamentos de públicos estrangeiros. Na sociedade digital, a disputa pela interpretação dos acontecimentos encontra plataformas capazes de selecionar conteúdos, organizar audiências e distribuir mensagens em escala planetária. A capacidade de influenciar o ambiente informacional tornou-se um recurso estratégico, embora cada operação e seus responsáveis precisem ser identificados por evidências concretas.

O problema ultrapassa a propaganda. Empresas privadas concentram infraestruturas de armazenamento, processamento, comunicação e inteligência artificial das quais dependem atividades econômicas e serviços essenciais. Seus sistemas participam da organização do trabalho, da circulação financeira e da administração pública. Uma decisão técnica ou comercial pode repercutir sobre milhões de pessoas sem passar pelo debate democrático daqueles que sofrerão seus efeitos.

É nesse terreno que situo a soberania de validação. Não basta a um país possuir informações ou desenvolver tecnologias se outros controlam os sistemas necessários para processá-las, reconhecê-las e transformá-las em decisões. A autonomia nacional também depende da capacidade de verificar, contestar e substituir essas mediações.

O Fundo Monetário Internacional reconheceu, em outubro de 2026, que a concentração de fornecedores tecnológicos e a interdependência digital ampliam os riscos de propagação de incidentes pelo sistema financeiro. A advertência revela algo fundamental. As mesmas redes que permitem coordenar a economia mundial podem transmitir uma perturbação com velocidade superior à capacidade das instituições de contê-la. Quando essa fragilidade encontra guerras, endividamento e pressões sobre a produção, o risco deixa de ser exclusivamente tecnológico.

A primeira evidência de que uma crise ultrapassa sua gravidade habitual aparece quando os recursos mobilizados para contê-la começam a se esgotar. Em outubro, a Agência Internacional de Energia registrou estoques globais observados de petróleo 509 milhões de barris abaixo dos níveis anteriores à guerra no Oriente Médio. Até meados do mês, seus países-membros haviam liberado aproximadamente 330 milhões de barris de reservas emergenciais. O abastecimento prosseguiu com o uso de uma proteção construída para situações excepcionais. E ninguém recompõe uma reserva estratégica com a mesma velocidade com que pode ser obrigado a consumi-la.

O perigo cresce quando a próxima perturbação encontra essa defesa enfraquecida. A escassez de diesel encarece o transporte e pressiona a indústria, enquanto a energia mais cara comprime margens e orçamentos familiares. Grandes empresas com acesso privilegiado a crédito e fornecedores conseguem transferir parte da conta. Trabalhadores, pequenos produtores e países endividados dispõem de menos alternativas. Os mercados podem continuar operando enquanto a vida material de milhões de pessoas se deteriora. Os custos da adaptação são distribuídos segundo a correlação de forças entre quem possui patrimônio e quem depende da renda do trabalho.

Nas finanças, outra engrenagem pode acelerar o movimento. O Fundo Monetário Internacional alertou, em outubro, para o risco de uma correção nas avaliações ligadas à inteligência artificial, de uma alta abrupta dos juros da dívida soberana e de incidentes cibernéticos. O organismo estima que os fundos especulativos conhecidos como hedge funds administram cerca de 13 trilhões de dólares. Em momentos de tensão, operações alavancadas e vendas simultâneas de ativos podem transformar perdas localizadas em escassez de crédito. Se o dinheiro encarece quando energia, transporte e produção já enfrentam dificuldades, a capacidade de recuperação diminui.

Há um dado que impede qualquer simplificação. O próprio FMI ainda projeta crescimento de 3,1% para a economia mundial em 2026. As estruturas de adaptação continuam operando. Mas uma economia que cresce não está necessariamente protegida de uma ruptura na forma como distribui poder, riqueza e segurança. A questão está na distância entre a velocidade dos choques e a capacidade de reparação das instituições.

A escalada militar torna essa equação ainda mais perigosa. Guerras, ataques e bloqueios resultam de decisões políticas, com responsabilidades que não podem ser dissolvidas na expressão genérica de instabilidade internacional. Uma instalação energética atingida, uma rota fechada ou uma infraestrutura crítica paralisada pode provocar consequências que escapam ao controle de quem desencadeou a agressão. Quanto mais estreitos os canais diplomáticos, maior o risco de decisões tomadas sob urgência, informação incompleta e pressões internas. A aproximação de um limite histórico não exige que todos os sistemas entrem em colapso ao mesmo tempo. Basta que falhas sucessivas comecem a retirar dos Estados os instrumentos necessários para evitar a próxima.

É nesse terreno que localizo o ponto de ruptura. A velha ordem ainda dispõe de recursos imensos, mas precisa empregá-los para conter contradições que ela mesma reproduz. O que está ameaçado não é apenas a estabilidade dos preços ou das fronteiras. É a capacidade de manter uma economia mundial profundamente interligada sob uma disputa de poder cada vez mais agressiva. Se os mecanismos de contenção forem superados, a reorganização poderá ocorrer de maneira abrupta, sem que seus custos sejam distribuídos igualmente e sem que seus resultados obedeçam ao desejo de quem iniciou a escalada.

O que pode nascer dos escombros

Uma ordem mundial não precisa desaparecer de uma vez para deixar de ser a mesma. Pode se desfazer lentamente, enquanto suas instituições continuam de pé e a população aprende a conviver com aquilo que antes seria considerado intolerável. O trabalho perde valor, a insegurança se torna permanente, os serviços públicos encolhem e a guerra passa a integrar os cálculos ordinários da economia. Esse talvez seja o primeiro desfecho possível, uma crise prolongada na qual o sistema preserva sua capacidade de acumular riqueza enquanto destrói as condições de vida de parcelas crescentes da humanidade.

Mas a deterioração também pode ganhar uma velocidade que torne inúteis as respostas convencionais. Uma crise de crédito pode interromper investimentos justamente quando empresas e governos precisam reconstruir suas capacidades produtivas. A queda de grandes ativos financeiros pode alcançar bancos, fundos de pensão e dívidas soberanas, obrigando Estados a escolher entre socorrer instituições e proteger populações. O que começou como turbulência nos mercados se transformaria em desemprego, recessão e instabilidade política. A experiência de 2008 demonstrou a dimensão desse mecanismo. A diferença é que uma nova convulsão poderá encontrar sociedades mais polarizadas e relações internacionais muito mais conflituosas.

Outra possibilidade é a fragmentação duradoura da economia mundial. Potências podem aprofundar a formação de circuitos próprios de comércio, financiamento e tecnologia, impondo aos demais países escolhas que restringem sua autonomia. A Organização Mundial do Comércio estima, em uma simulação de fragmentação geopolítica, perdas potenciais de 5,1% do produto mundial e de 18,6% das exportações globais. Não são perdas já realizadas, mas a dimensão projetada de uma reorganização em blocos rivais. Para economias dependentes, a ameaça seria especialmente grave.

O cenário mais devastador nasce quando essa disputa alcança uma escalada militar que os próprios governos deixam de conseguir controlar. Segundo o SIPRI, o planeta possuía aproximadamente 12.187 ogivas nucleares no início de 2026, enquanto os países detentores desses arsenais avançavam em programas de modernização. Uma guerra direta entre potências nucleares não seria apenas mais um conflito internacional. Poderia comprometer as condições de sobrevivência de populações inteiras, inclusive fora das regiões atingidas. A dissuasão ainda funciona como barreira, mas não elimina erros de cálculo, decisões precipitadas ou o risco de uma confrontação sair do controle.

Existe também a possibilidade de uma reorganização negociada. Novos acordos comerciais, mecanismos financeiros, compromissos de segurança e instituições multilaterais poderiam conter a escalada. Nada disso, entretanto, surgirá por simples reconhecimento racional do perigo. A negociação depende da correlação de forças, dos interesses envolvidos e da capacidade de impor limites àqueles que lucram com a instabilidade.

Esses desfechos não são mutuamente excludentes. Uma economia pode se fragmentar enquanto enfrenta recessões e guerras regionais, assim como uma crise prolongada pode terminar em rearranjos diplomáticos. A transformação já se manifesta nas disputas pelo poder mundial. Sua forma definitiva permanece aberta. E será profundamente desigual a posição dos países e dos povos diante do que vier.

O Brasil chega a esse momento histórico carregando uma contradição que revela tanto sua força quanto sua vulnerabilidade. Possui território, energia, água, capacidade científica e uma das maiores agriculturas do planeta. Entretanto, depende das importações para aproximadamente 93% dos fertilizantes que consome. Uma interrupção nas cadeias internacionais pode comprometer a próxima safra antes mesmo de aparecer nas manchetes sobre abastecimento. A potência que alimenta outros países continua exposta às decisões de quem controla insumos indispensáveis à sua produção.

Existem capacidades nacionais que demonstram ser possível construir alternativas. O pré-sal, os bancos públicos, a pesquisa agropecuária e a infraestrutura de pagamentos do Pix resultam de escolhas políticas, investimentos e conhecimento acumulado. Sua existência, porém, não resolve a dependência de tecnologias críticas, componentes industriais e sistemas digitais. Soberania exige articular essas capacidades num projeto de desenvolvimento que transforme recursos em indústria, conhecimento em autonomia e crescimento econômico em melhoria das condições de vida.

A questão é também profundamente social. Uma crise mundial não atinge igualmente quem possui patrimônio e quem depende do salário para sobreviver. A inflação dos alimentos, a retração do emprego e o enfraquecimento dos serviços públicos recaem com maior violência sobre aqueles que menos participaram das decisões responsáveis pelo desastre. Proteger a economia sem proteger a população significa preservar as estruturas de acumulação enquanto se transfere à sociedade o custo da sobrevivência do sistema.

Para o Sul Global, essa transformação abre possibilidades e perigos. Diversificar parceiros, desenvolver tecnologia própria e ampliar a cooperação produtiva e financeira pode reduzir dependências históricas. Mas substituir uma subordinação por outra não representa emancipação. O desafio está em construir capacidade real de decisão, sem aceitar que disputas entre potências determinem o futuro de sociedades inteiras.

Depois de mais de dois anos acompanhando essa guerra, considero cada vez mais difícil tratar suas manifestações como crises passageiras. O risco de ruptura deixou de pertencer apenas ao campo das hipóteses distantes. Seus mecanismos já operam, embora o desfecho permaneça aberto. Ainda existem instrumentos políticos capazes de conter a escalada, mas sua utilização depende dos interesses que prevalecerem sobre as decisões de Estados e instituições.

O mundo que conhecemos está sendo transformado diante dos nossos olhos. A questão decisiva não é apenas qual potência sairá fortalecida, mas quem terá condições de viver no mundo que emergirá dessa transformação. Porque, quando uma ordem histórica chega ao limite, seus custos não são pagos pelas abstrações da geopolítica. São pagos pelos povos.

*Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. Editor do codigoaberto.net . É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global.

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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