Por Rogério Bertani*
Barba no rosto. Sandálias de couro. Uma bolsa de pano a tiracolo. Lá vem o Dr. João Luiz Cardoso.
Médico dermatologista. Especializado no tratamento dos acidentados por animais peçonhentos. Tratava e ensinava com paixão.
Era um grande incentivador da pesquisa científica dos acidentes causados por animais peçonhentos. E um grande curioso, condição obrigatória a todo cientista. Tinha enorme curiosidade sobre os animais em geral.
A gente fazia uma troca: eu falava sobre as aranhas, escorpiões e cobras e ele me ensinava sobre a clínica dos acidentes. Eu ficava à tarde no laboratório atrás do Hospital Vital Brazil e, de repente, ele batia à porta. Com algum inseto, aracnídeo, esponja que coletou no rio Amazonas e que causa dermatite de contato.
Com alguma ideia. Talvez um livro novo. Trazia um caso clínico estranho para pensarmos juntos. Uma foto de algum animal.
Falava sobre sua coleção de moedas, viagens a outros países, material arqueológico que encontrou nas barrancas do rio Amazonas. Ou apenas convidava para um café.
Esse João Luiz muitos conheceram. E eu conheci também um outro João Luiz. Indignado com as condições sociais do Brasil. Defensor da instituição na qual trabalhava.
Há mais de 20 anos atrás já apontava “o golpe”, quando decreto do governador permitiu a vinda de diretores de fora, que não eram da carreira de pesquisa.
Estava certo. A instituição nunca mais foi a mesma.
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Quando o Senador Suplicy fez denuncia de irregularidades no Senado, fomos chamados à Corregedoria Geral da Administração para conversar com o corregedor geral.
João Luiz meteu a estrelinha vermelha do PT no peito, e foi.
Quando fui depor, o corregedor criticou a atitude do colega.
Meses depois, o tal corregedor estava na mídia, acusado de intervir no depoimento da principal testemunha do “escândalo das merendas”, cujo acusado, presidente da Assembleia Legislativa, tinha como chefe de gabinete justamente o tal corregedor…
Uma vez acordou às 5 da manhã para colar cartazes nos postes, desde o Metrô Butantã até o Instituto. Convidava para ato em defesa do histórico prédio da biblioteca do instituto, no dia do seu centenário, e que estava em péssimo estado de conservação.
Quando desviaram milhões da fundação, organizou reunião na igreja ao lado do instituto. Poucos pesquisadores compareceram, entre eles um ex-diretor do instituto e ex-presidente da fundação. As pessoas tinham medo. Ele, não.
Quando fez 70 anos, compramos um bolo, refrigerantes e salgadinhos. Entre frascos com animais preservados em álcool, aranhas e escorpiões, e muito mofo nas paredes, João soprou as velhinhas.

13 de julho de 2014, quando o dr. João Luiz fez 70 anos e ganhou bolo dos colegas de trabalho. Foto: Arquivo pessoal
Porém, os 70 anos significavam a chegada da aposentadoria compulsória, que iria afastá-lo do que ele mais amava: o Hospital Vital Brazil e o acompanhamento dos acidentados por animais peçonhentos.
Também teve que deixar a casa da vila do Instituto, onde morava com sua mãe nonagenária. Ela faleceu pouco depois.
E ainda respondia a dois processos administrativos. Retaliação por suas críticas aos desmandos que testemunhava.
O baque foi grande. Perdeu a mãe, estava sendo processado e não podia mais fazer o que mais amava. Veio a depressão. E, em seguida, a doença.
Nunca mais voltou ao Instituto. Fomos visitá-lo em outra cidade, onde morava. De vez em quando ele ligava. Em uma dessas ligações, eu estava em trabalho de campo, no Pará, na estrada. Pediu para eu ligar para uma pessoa. Liguei.
João havia guardado em segredo um documento que ele encontrou nas gavetas do Hospital, quando lá chegou. Entregou para a filha de dois pesquisadores famosos, que foram perseguidos pela ditadura militar na década de 70.
Era um documento de apoio ao golpe militar, datado de 10.04.1964, assinado por vários funcionários e pesquisadores.
Esse documento foi citado em matéria premiada do jornalista Sergio Barbo, que relatou a colaboração entre a ditadura chilena e o Instituto Butantan naqueles anos de chumbo. Não sei se o Dr. João soube dessa matéria, que ele colaborou de forma fundamental.

Em fevereiro de 2023, o dr. João Luiz recebe a visita de amigos do Butantan, em Jundiaí (SP), onde estava morando: da esquerda para direita, Marcelo Ribeiro Duarte (assistente técnico), dr. João Luiz, dr. Francisco França (ex-diretor hospital Vital Brazil) e Rogério Bertani. Foto: Arquivo pessoal
A doença havia avançado. De repente, as ligações não eram mais atendidas, e a família o levou para o interior do estado.
Em novembro de 2025, durante as comemorações do 80º aniversário do Hospital Vital Brazil, o Instituto lhe concedeu medalha em homenagem pelos trabalhos prestados no hospital onde trabalhou por décadas e foi seu diretor.
No dia de ontem, recebi a notícia de seu falecimento.
Perdi um amigo, incentivador e grande companheiro de lutas por um Brasil melhor. E o Brasil perdeu um grande brasileiro.
SARAVÁ, Dr. João Luiz !!!!!!!!
*Rogério Bertani é biólogo.
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
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