Campanha de associação marca os 50 anos do Cebes

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Ao completar cinco décadas de atuação, entidade lança campanha de associação e convoca novas gerações a fortalecer a mobilização em defesa do SUS, da democracia e do direito universal à saúde

Por Fernanda Regina da Cunha, no site do Cebes

Há 50 anos, o Brasil, imerso na ditadura, não possuía um sistema universal de saúde. O atendimento médico público era limitado e excludente, acessível principalmente aos trabalhadores vinculados à Previdência Social, enquanto grande parte da população dependia da caridade, de serviços filantrópicos ou vivia à própria sorte

Enquanto o governo militar financiava a construção e a expansão de hospitais privados, profissionais, pesquisadores, estudantes e militantes já vinham se articulando em torno da ideia de que a saúde não deveria ser tratada como mercadoria, privilégio ou benefício destinado apenas a uma parcela da população.

Foi nesse cenário que, em 1976, uma longa trajetória de elaboração intelectual, política e coletiva ganhou forma institucional com a criação do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes). Cinquenta anos depois, ao celebrar essa história, a entidade lança uma nova campanha de associação e convida novas gerações a fortalecer uma construção que permanece viva e em disputa.

O Cebes se tornaria um dos principais espaços de formulação do pensamento crítico que impulsionou o Movimento da Reforma Sanitária Brasileira e ajudou a transformar a saúde em uma questão central na luta pela redemocratização do país.

Hoje, a entidade segue na defesa da democracia e da garantia de que saúde é um direito de todos e dever do Estado. Em um cenário marcado por novas formas de mercantilização da saúde, aprofundamento das desigualdades e avanço de projetos autoritários, ampliar a participação e a mobilização em torno do Cebes também significa fortalecer sua capacidade de produzir pensamento crítico, formular alternativas e intervir no debate público.

O Cebes nasceu da convergência entre produção de conhecimento, compromisso democrático e capacidade de ação coletiva. Cinquenta anos depois, diante da crescente mercantilização, privatização e financeirização da saúde e do avanço de projetos autoritários, esse compromisso permanece atual”, destaca o presidente Carlos Fidelis Ponte. “Associar-se ao Cebes é fortalecer uma comunidade capaz de produzir pensamento crítico, formular alternativas e intervir publicamente em defesa da saúde como direito e da democracia.”

Uma ideia que ajudou a mudar o Brasil

Desde sua criação, o Cebes reuniu pessoas comprometidas com uma nova concepção de saúde. Mais do que ampliar o acesso ao atendimento médico, era preciso compreendê-la como resultado das condições de vida, trabalho, moradia, alimentação, educação, renda, ambiente e participação política.

Também em 1976, a criação da revista Saúde em Debate abriu espaço para a circulação dessas ideias em um país submetido à censura e à repressão. Suas páginas tornaram-se ambiente de formulação de propostas, crítica ao modelo vigente e articulação entre profissionais, pesquisadores, estudantes e movimentos sociais.

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Em 1979, durante o 1º Simpósio sobre Política Nacional de Saúde, realizado na Câmara dos Deputados, o Cebes apresentou o documento A questão democrática na área da saúde, no qual defendia uma profunda reorganização do sistema de saúde baseada na universalização do direito, na responsabilidade do Estado, na descentralização e na participação popular.

A proposta antecipava princípios que, anos mais tarde, estariam presentes nos debates da 8ª Conferência Nacional de Saúde, realizada em 1986, e na Constituição Federal de 1988, que reconheceu a saúde como direito de todos e dever do Estado.

O Sistema Único de Saúde nasceu desse processo coletivo de formulação, participação e luta política. Uma conquista que transformou o país ao garantir a todas as pessoas, independentemente de renda, vínculo de trabalho ou contribuição previdenciária, o direito ao cuidado.

O direito à saúde continua em disputa

A criação do SUS, no entanto, não encerrou as disputas em torno da saúde brasileira. O subfinanciamento, as desigualdades territoriais, a precarização do trabalho e o avanço da mercantilização, privatização e financeirização da saúde ainda limitam a concretização do direito estabelecido na Constituição.

Ao mesmo tempo, mudanças climáticas, envelhecimento populacional, transformações tecnológicas, emergências sanitárias e o aprofundamento das desigualdades impõem novos desafios às políticas públicas.

Defender os princípios da saúde coletiva, portanto, não significa apenas preservar uma conquista do passado. Significa disputar os rumos da saúde, enfrentar retrocessos e construir respostas para as necessidades do presente e do futuro.

Associar-se é participar

A campanha lançada no ano em que o Cebes completa 50 anos busca aproximar trabalhadores, pesquisadores, estudantes, movimentos sociais e cidadãos interessados em participar dos debates e das mobilizações que influenciam os rumos da saúde coletiva brasileira.

Para a vice-presidente do Cebes, Lenaura Lobato, a associação é uma das formas de fortalecer a capacidade de mobilização da entidade. “A Reforma Sanitária nos ensinou que mudanças profundas não acontecem apenas dentro das instituições. Elas dependem de participação social, organização política e capacidade de construir projetos coletivos. Queremos que trabalhadores, pesquisadores, estudantes, movimentos sociais e todas as pessoas comprometidas com o direito à saúde encontrem no Cebes um espaço de pertencimento, debate e ação.

Uma história voltada para o futuro

As comemorações dos 50 anos também recuperam a memória da Reforma Sanitária e sua importância para as novas gerações. Entre as iniciativas previstas estão a preservação e digitalização de documentos históricos, a ampliação do acesso às edições da revista Saúde em Debate, seminários, exposições e produções audiovisuais sobre a construção do direito à saúde no Brasil.

Resgatar essa trajetória permite compreender que o SUS não surgiu espontaneamente nem foi uma concessão do Estado. Ele foi construído por pessoas que pesquisaram, escreveram, debateram, ocuparam espaços públicos e se organizaram politicamente.

Os próximos capítulos dessa história também dependerão da capacidade de mobilização coletiva. Ao completar 50 anos, o Cebes renova o compromisso que orientou sua trajetória e convida novas pessoas a participar dessa construção.

Clique aqui e faça parte dessa construção.

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