Ângela Carrato: A ‘receita’ do JN/Globo para manipular os brasileiros há 57 anos; série de 6 artigos

Tempo de leitura: 8 min
Alguns sabem o que a Globo faz. Mas muitos ainda caem nas suas manipulações. Foto: Reprodução

Por Conceição Lemes

O Viomundo começa a publicar nesta segunda-feira, 23/3, com exclusividade a série A ‘receita’ do JN/Globo para manipular os brasileiros há 57 anos, da jornalista Ângela Carrato, professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG.

Serão seis artigos, um por dia.

Neste de estreia, Ângela faz um resumo da verdadeira história da Globo e do Jornal Nacional — o JN, de um ponto de vista que grande parte dos brasileiros ainda desconhece.

— Por quê?!

Porque simplesmente a Globo não conta aos seus prezados telespectadores.

A emissora da Família Marinho alardeia outra história — a  versão da perspectiva dos seus interesses.

‘’Os fatos são conhecidos das pessoas, mas não o suficiente. O que eu faço é reuni-los’’, observa Ângela Carrato.

Primeiro, porque isso não chega ao para o grande público.

Segundo, as gerações mudam.

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Terceiro, a Globo está sempre escondendo os fatos e, assim, ela não conta o principal ou o mais importante.

Consequentemente, os telespectadores não sabem.

‘’Existe um modus operandi e as pessoas precisam aprender a identificá-lo, para não cair nas manipulações, em mentiras’’, atenta Ângela.

Carrato selecionou estes cinco assuntos presentes nas edições do JN no período de 11 a 22 de março para mostrar como, na prática, se dá esta manipulação:

  • Guerra dos EUA e Israel contra o Irã
  • Escândalo do Banco Master
  • Aumento dos combustíveis no Brasil
  • Denúncias de corrupção contra “Lulinha”
  • Atuação do Comando Vermelho no Rio de Janeiro

— O que a guerra contra o Irã tem a ver com o Comando Vermelho no Rio?!

— E com as denúncias de corrupção contra ‘’Lulinha’’?!

Não se espante. Tudo a ver.

É aqui que entra o modus operandi da Globo.

Esses fatos se entrelaçam, ao contrário do que muitos imaginam.

A série de Ângela Carrato vai mostrar exatamente como.

Confira agora o primeiro artigo da série.

No suicídio de Vargas (1954) e na campanha das diretas-já (1984) o povo foi para cima do jornal e da TV dos Marinho. Fotos: Reprodução

JORNAL NACIONAL: MANIPULAÇÕES, MENTIRAS, APOIO A GUERRAS E GOLPES

Por Ângela Carrato*

Não é novidade para a pessoa minimamente informada que Jornal Nacional, da TV Globo, de propriedade da família Marinho, é parte integrante de um conglomerado que sempre esteve presente na articulação dos golpes contra governos progressistas no Brasil.

Quando havia apenas o jornal O Globo, fundado em 1925, no Rio de Janeiro então capital da República, era a partir de suas páginas que se dava boa parte da mobilização da opinião pública.

Depois que Roberto Marinho obteve a concessão de uma emissora de rádio, em 1944, e da expansão com uma filial em São Paulo, em 1952, ampliou-se bastante o alcance dessas ações.

O jornal e as rádios de Marinho estavam longe de ser as mais relevantes e de contar com a maior audiência na época.

Perdiam feio para a Rádio Nacional, de propriedade do governo federal, e para os jornais de Assis Chateaubriand (1892-1968), o primeiro magnata da mídia brasileira.

Mas contribuíam para lançar, junto à opinião pública, temas e suspeitas que serviam para desacreditar políticos e políticas comprometidas com os interesses populares.

Roberto Marinho, através de seu diário, deu expressiva contribuição para derrubar o governo de Getúlio Vargas em 1945, mesmo já havendo eleição marcada para aquele final do ano.

Quando do retorno de Vargas ao poder em 1951, pelo voto popular, Marinho além de coalhar as páginas do seu jornal com denúncias contra Vargas, cedeu os microfones da rádio Globo para que Carlos Lacerda fizesse, toda noite, verdadeiros comícios contra o presidente.

É de Lacerda a expressão “mar de lama” com a qual designava o governo Vargas, acusando-o e aos seus familiares de corrupção.

O que Lacerda não dizia era que tamanha fúria tinha outro objetivo: impedir que Getúlio decretasse o monopólio da União sobre o petróleo brasileiro e criasse uma empresa estatal para explorá-lo, a Petrobras.

O desfecho desta história é conhecido. Vargas suicidou-se com um tiro no peito e a corrupção denunciada por Lacerda, O Globo e maior parte da mídia de então, jamais foi comprovada.

A tragédia fez com que a população entendesse o que havia acontecido.

No Rio e nas principais capitais brasileiras, multidões saíram às ruas, atacaram a sede de jornais que faziam oposição a Vargas, quebraram veículos de reportagem e Lacerda, para fugir do forte clamor popular, exilou-se temporariamente.

Foi a partir da concessão de um canal de televisão, que veio a ser a TV Globo, que o poder de Roberto Marinho ampliou-se muito e acabou consolidando-o não só como o maior grupo de mídia, mas um verdadeiro monopólio no Brasil, reunindo empresas de TV aberta, canais por assinatura, emissoras de rádio, jornais, produção de conteúdo, streaming e plataformas digitais.

Marinho não tinha recursos para montar a sua TV. A solução encontrada foi pedir auxílio ao então gigante de mídia dos Estados Unidos, a empresa Time-Life.

O pedido caiu como sopa no mel.

Em plena Guerra Fria, interessava à Casa Branca e às empresas de mídia do Tio Sam estarem presentes no maior número de países da América Latina, divulgando o “american way of life” e garantindo o controle do que consideravam “seu quintal”.

O problema é que a legislação brasileira de então proibia a presença de capital estrangeiro e de estrangeiros na gestão da nossa mídia. A parceria que viabilizou a criação da TV Globo era ilegal e se a legislação da época tivesse sido respeitada, a concessão teria sido cassada.

Como estamos falando de uma conjuntura muito difícil, marcada pelo golpe civil-militar de 1964, que derrubou o presidente legalmente eleito, João Goulart, e implantou uma ditadura que durou 21 anos (1964-1985), nada disso foi levado em conta.

Assis Chateaubriand, já bastante doente, e seu auxiliar direto, João Calmon, dirigentes dos Diários e Emissoras Associados, não cansaram de denunciar a ilegalidade do acordo Globo-Time-Life.

Uma CPMI foi criada no Congresso Nacional para apurar os fatos e o relatório final, assinado pelo deputado Saturnino Braga, confirmou as denúncias.

Castelo Branco, o primeiro general-ditador daquele ciclo autoritário, recebeu o relatório e o guardou em alguma gaveta.

O crime foi abafado e não se falou mais no assunto.

Quem quiser conhecer toda esta trama em detalhes, basta ler o livro de Daniel Herz, A História Secreta da Rede Globo (Editora Dom Quixote, 2009).

A partir de então, Roberto Marinho tinha mais do que afinidade política com os golpistas: dependia deles para a continuidade de seus negócios.

É o que explica a relação de mão dupla entre eles. Marinho colocou todas as suas empresas a serviço dos interesses da ditadura e os militares tudo fizeram para consolidar e ampliar seu grupo de mídia.

Sem os militares interligarem o país por intermédio de micro-ondas, a TV Globo jamais teria condição de lançar o Jornal Nacional, cujo nome já diz tudo.

Enquanto os telejornais da época eram produzidos e difundidos apenas regionalmente, a Globo colocava no ar, em 1º de setembro de 1969, um noticiário transmitido em rede nacional.

Não por acaso o Jornal Nacional acabou se consolidando como o principal veículo de informação para a população brasileira, marcada historicamente por baixo índice de alfabetização e pela alfabetização funcional.

Nos áureos tempos, o JN chegou a estar presente em 95% dos lares brasileiros, algo inédito no mundo.
Nos dias atuais, quando a sua audiência encosta nos 70% é motivo de comemoração por seus editores, âncoras e repórteres.

As novas tecnologias e as redes sociais alteraram substancialmente a forma das pessoas se informarem.

A atuação do JN em defesa da ditadura militar – escondendo a campanha das Diretas-Já, suas ações contra os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e o protagonismo que assumiu quando do golpe que derrubou a presidente Dilma Rousseff -, contribuíram para que dele se dele afastasse uma audiência mais informada e qualificada.

Mesmo assim, sua audiência ainda é grande o suficiente para justificar que se acompanhe o que o JN faz.

No momento em que Lula se prepara para disputar o quarto mandato e que seu adversário deve ser Flávio, o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, preso, cumprindo pena por tentativa de golpe de Estado, vale a pena analisar como o JN tem coberto os principais fatos tanto nacionais quanto internacionais.

Mesmo poderosa, a mídia não pode tudo. Mas pode, por exemplo, contribuir decisivamente para derrubar presidentes, para apoiar candidatos desvinculados dos interesses populares e para percepções equivocadas sobre agressores e agredidos em guerras.

A cobertura que o JN tem feito está longe de ser “isenta” como apregoa a família Marinho e seus funcionários.

Uma análise cuidadosa indica que fatos veem sendo manipulados e mentiras apresentadas como verdades.

No momento, o objetivo principal permanece o de sempre: alinhar-se aos interesses imperialistas dos Estados Unidos e de Israel, desgastar governos progressistas como o de Lula e abrir espaço para que setores de direita e extrema-direita se mantenham ou retornem ao poder.

Como em outras eleições no Brasil, o Grupo Globo sonha com um candidato da “terceira via”, mas na hora H acaba fechando com a extrema-direita para tentar derrotar os nomes progressistas.

Foi assim em 2018, quando, após apoiar a prisão sem provas de Lula, terminou ao lado do extremista de direita, Jair Bolsonaro.

Havia opção? Sim.

Quem se lembra do jornal Estado de S. Paulo que, em editorial, afirmou que era opção muito difícil escolher entre Bolsonaro e o então candidato do PT, Fernando Haddad?

O Grupo Globo estava de acordo e segue na mesma toada.

Mesmo achincalhado por Bolsonaro durante o seu governo, o grupo Globo passou longe de qualquer simpatia para com a candidatura de Lula em 2022 e já nos primeiros meses de seu terceiro mandato dava início a uma ferrenha oposição, que só vem se ampliando.

Agora, o grupo Globo dá mostras de que já embarcou na candidatura do filho de Bolsonaro, o senador Flávio.

Flávio Bolsonaro é aquele das rachadinhas, de ligação com as milícias cariocas, da compra de uma mansão de quase R$ 7 milhões em Brasília, sem ter renda para tanto, e de estar metido até o último fio de cabelo na corrupção do banco Master, via Banco de Brasília (BRB).

Em especial, o JN está colocando em prática uma operação para “lavar” Flávio Bolsonaro, ao mesmo tempo em que procura enlamear Fábio Luiz, a quem denomina de “Lulinha”, o filho mais velho do presidente Lula.

A família Marinho não está sozinha nesta empreitada.

Conta com a parceria dos demais grupos de mídia corporativa brasileira e, claro, com o apoio da turma do Trump e do chamado deep state, o “estado profundo” estadunidense, composto por burocratas, militares e redes de inteligência.

O Brasil tem agora um relevante papel na cena internacional. Integra e é um dos fundadores do BRICS.

Lula é o principal líder do Sul Global, num momento em que o mundo passa por guerras e os Estados Unidos, por um lado, fazem de tudo para conter o próprio declínio, e, por outro, tentam impedir que o mundo multipolar se consolide.

Não podemos nos esquecer que figuras como Steve Bannon e Elon Musk já anunciaram que tudo farão para derrotar Lula nas eleições de outubro.

Bannon, o ex-assessor estratégico de Trump, anda meio em baixa, enfrentado condenações por desacato ao Congresso dos Estados Unidos, mas nem por isso deve ser subestimado.

Já o trilionário Musk, tem colocado suas empresas, em especial a rede social X e os satélites da Starlink, a serviço dos interesses econômicos, financeiros e bélicos dos Estados Unidos.

Evidências nesse sentido podem ser observadas a partir do que a mídia divulga ou deixa de divulgar.

Neste sentido, o JN se configura como um espaço privilegiado para tal observação.

Todo texto midiático, entendido como uma unidade de sentido produzida com a finalidade de comunicação social – podendo ser escrito, verbal, não verbal (imagens) ou híbrido – possui voz própria. É possível “escutá-la” para além do que seus responsáveis pretendiam mostrar.

Para tanto, selecionei cinco dos principais assuntos presentes nas edições do JN no período de 11 a 18 de março para mostrar, na prática, como se dá esta manipulação.

São estes:

  • Guerra dos EUA e Israel contra o Irã
  • Escândalo do Banco Master
  • Aumento dos combustíveis no Brasil
  • Denúncias de corrupção contra “Lulinha”
  • Atuação do Comando Vermelho no Rio de Janeiro.

O que farei não tem nada de novo, mas é pouco conhecido. Trata-se de um exercício de letramento para a mídia.

Da mesma forma que precisamos ser alfabetizados para ler e escrever, assistir à mídia demanda conhecimento sobre o seu funcionamento. Afinal, notícias e reportagens estão longe de serem a mera cobertura dos fatos.

Engana-se quem acredita que tais assuntos, ao serem cobertos e levados ao ar, não estão interligados ou que não guardam relação entre si.

A forma como são abordados e apresentados fazem parte de uma teia bem articulada para capturar os incautos.

É isso que pretendo mostrar nesta série de cinco artigos, cujo primeiro aborda a Guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã.

*Ângela Carrato é jornalista, professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG e membro do Conselho Deliberativo da ABI

 

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