Ângela Carrato: A verdade, a primeira vítima da cobertura do JN sobre a guerra dos EUA e Israel contra o Irã
Tempo de leitura: 9 min
Por Ângela Carrato*
É fato que Estados Unidos e Israel bombardearam o Irã na madrugada de 28 de fevereiro, dando início a uma guerra que não precisava acontecer.
O Irã não ameaçava em nada os EUA e os dois países estavam em meio a negociações, cuja nova rodada aconteceria na semana seguinte.
Os bombardeios ignoraram o direito internacional e deixaram claro quais eram os agressores e qual o país agredido.
Apesar desta verdade acaciana, o JN passou a se referir à guerra dos EUA e Israel contra o Irã como Conflito no Oriente Médio ou Guerra do Irã.
Percebe, caro (a) leitor (ra) como essa simples mudança tem o papel de apagar quem foi o agressor?
A operação seguinte foi a de caracterizar o Irã como um país bárbaro, uma ditadura sanguinária e seus dirigentes, os aiatolás, como religiosos retrógrados, violadores dos direitos humanos e inimigos das mulheres.
Não foi complicado obter sucesso nesta operação, uma vez que desde 1979, quando através de uma revolução, os aiatolás chegaram ao poder, toda a mídia ocidental passou a descrevê-los como retrógrados e inimigos da democracia.
A visão que a mídia ocidental passa sobre os aiatolás é a que interessa aos seus governos e às suas empresas multinacionais.
Basta lembrar que, no poder, os aiatolás expulsaram as multinacionais do Irã e reestatizaram suas reservas de petróleo, a segunda maior do mundo.
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Reservas que o xá Reza Pahlevi, após derrubar o então primeiro-ministro Mohammed Mossadegh, em 1953, havia entregue de bandeja aos interesses ingleses e estadunidenses.
Não é de agora a desumanização que a mídia faz dos aiatolás, o que facilita em muito a naturalização dos ataques contra eles, especialmente quando apresentados como responsáveis por um “regime ditatorial”.
É importante observar como o JN caprichou ao enfatizar a justeza da ação dos Estados Unidos e de Israel, sob o argumento de que o Ocidente “jamais poderia permitir” que ditadores como os aiatolás tivessem acesso a artefatos nucleares.
Ao dizer isso, o JN tenta imputar ao governo do Irã algo que ele sempre negou: buscar o domínio da tecnologia nuclear para fins bélicos.
Até hoje, o único país que lançou duas bombas nucleares foi os Estados Unidos.
Mais ainda: Israel, seu protegido, é suspeito de, há décadas, possuir a bomba atônica e não há qualquer registro de que o assunto tenha sido levado à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), órgão da ONU responsável por este tipo de fiscalização.
Todas as notícias sobre a “guerra do Irã” no telejornal da família Marinho seguem o mesmo roteiro.
Independente de quem esteja levando a melhor, a notícia começa por Israel ou Estados Unidos revidando ataques do Irã. As reportagens contam com entrevistas com especialistas ocidentais e os “fatos” são detalhados por seus correspondentes a partir dos EUA e da Europa.
A Globo não tem correspondentes fora do circuito Estados Unidos (Nova York-Washington) – Europa (Londres, Paris, Roma, Genebra) e tudo o que é dito parte da perspectiva e dos interesses do imperialismo estadunidense e de Israel.
O Irã, no enquadramento editorial do JN, sempre aparece como estando em desvantagem ou atacando indiscriminadamente Israel e os países vizinhos do Golfo Pérsico.
Frases como “Irã toca o terror nos países do Golfo” ou “Irã escala a crise” estiveram presentes na abertura (escalada) de duas edições do JN, nos dias 16 e 17/3.
No entanto, nada mais distante da realidade. O Irã não ataca alvos civis, diferentemente dos Estados Unidos e de Israel, e tem denunciado ataques de “falsa bandeira” que lhes são atribuídos.
Igualmente foi naturalizado pelo JN o fato de que no primeiro dia da guerra ter sido assassinado todos os principais dirigentes iranianos, a começar pelo aiatolá Khamenei, líder supremo, e a maioria dos seus familiares.
Neste mesmo dia, EUA e Israel bombardearam uma escola de ensino fundamental, na cidade de Minab, no sul do país, matando 180 meninas, com idade entre 7 e 12 anos.

Imagem de uma escola primária feminina atingida por um ataque aéreo no sábado em Minab, Irã, publicada pelo ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, no X.
O JN se referiu à morte dessas meninas en passant. Limitou-se, cinco dias depois, a mostrar que a escola era próxima de um suposto alvo militar e que pode ter sido atingida “por engano”.
Pior ainda: tentou passar pano para Israel, que disse não ter nada a ver com a morte das crianças, e deu espaço para Trump dizer o mesmo, anunciando que iria mandar “apurar os fatos”.
Desde então, a morte dessas meninas sumiu do JN.
Para dar impressão de que Trump está vencendo a guerra, o JN faz de tudo. Ao invés de abrir sua edição de 16/3, com um Trump patético, pedindo apoio aos líderes de países europeus e do Japão para desobstruir o estreito de Ormuz, fechado parcialmente pelo Irã, jogou esta informação crucial para o meio da reportagem, passando por cima do que há de mais elementar em se tratando de técnica de edição.
Aos que podem argumentar que tudo não passou de erro ou descuido, no dia seguinte, o JN repetiu a mesma lógica.
Jogou a principal informação, a de que Joseph Kent, diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo dos Estados Unidos (NCTC) havia renunciado ao cargo devido a divergências sobre a guerra contra o Irã para o meio da reportagem, tentando diminuir o seu impacto.
Ao contrário da mídia internacional e da própria mídia estadunidense, o JN não deu qualquer relevância à afirmação de Kent de que esta guerra interessa mais a Israel do que aos Estados Unidos.
Ao passar pano para Nethanyaru, seja em se tratando desta guerra contra o Irã, seja no genocídio em curso contra os palestinos na Faixa de Gaza, o JN dá razão aos que apontam para a prevalência do lobby sionista em seu noticiário.
Some-se a isso que o JN esconde do seu público que a guerra de Trump e de Nethanyaru têm o apoio de apenas 30% da população estadunidense.
Esconde que tem havido protestos diários nas principais cidades dos EUA e da Europa contra esta guerra.
Esconde que militares dos Estados Unidos estão denunciando a falta de sentido de uma guerra que interessa apenas a Israel.
Não satisfeitos, os editores do JN e seus âncoras falam sobre o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa 25% do carregamento de petróleo bruto mundial e grande parte do gás natural liquefeito (GNL) produzido na região, como se fosse algo que surgiu do nada e é da exclusiva responsabilidade do Irã.

Desde o início da guerra, o Irã anunciou que poderia fechar o Estreito de Ormuz. Trump e Nethanyaru não acreditaram e ampliaram os bombardeios.
O Irã cumpriu a promessa e agora, com o barril de petróleo chegando aos US$ 120,0 e com indicação de mais alta, o JN faz de tudo para jogar “esta crise econômica de proporções mundiais” nas costas do Irã e no Brasil tenta responsabilizar o presidente Lula pela alta no preço dos combustíveis.
Novamente divulgam inverdades. Infelizmente sabemos que uma mentira repetida à exaustão pode se tornar uma verdade.
O JN fez infográficos para mostrar quais líderes iranianos foram mortos, apresentando-os como se fossem integrantes de facções criminosas com suas respectivas ramificações.
Detalhe: a cor predominante nos infográficos era sépia, que no espectro cromático está associada à coisa antiga.
Os aiatolás seriam, por esta lógica, antigos, atrasados, retrógrados, merecedores de serem varridos da face da terra. Aliás, foi algo semelhante o que disse Trump, anunciando que matará qualquer novo líder do Irã que assumir o poder e se negar a aceitar os termos determinados por ele.
Nem Hitler chegou a tanto em seus pronunciamentos, mas o JN não viu nada de errado e novamente naturalizou mais esta fala absurda e criminosa de Trump, que pretende ser “o dono do mundo”, como assinalou o presidente Lula em pronunciamento em meados de janeiro.
Como o JN visa justificar crimes de guerra praticados pelos Estados Unidos e Israel, uma vez que constitui agressão suprema ao direito internacional um país sequestrar ou matar dirigentes de outros países, ele esconde todas as críticas que Lula ou outros líderes, como Gustavo Petro, da Colômbia, ou Pedro Sanches, da Espanha, façam à insensatez desta guerra, a Trump ou a Nethanyaru.
Pode demorar, mas Trump e Nethanyaru vão responder pelos seus crimes, mas o JN não parece muito preocupado com isso.
Como sempre, aposta na memória curta das pessoas.
É impressionante como a suposta cobertura do JN apresenta também, sem qualquer contraditório, as bravatas de Trump como verdades inquestionáveis, a exemplo de que o próximo país no qual ele pretende mudar o governo, depois da Venezuela e do Irã, é Cuba.
Vale perguntar: não seria o caso do JN fazer uma efetiva reportagem sobre Cuba, abordando as hostilidades dos Estados Unidos contra a ilha caribenha desde a década de 1960?
Esta reportagem que o JN não fez, acabou sendo realizada pelo Fantástico do domingo (22/3).
A melhor definição para o que foi mostrado é “patético”.
Sob o argumento de que a Globo pediu visto ao governo cubano para seus jornalistas realizarem a reportagem e não obteve resposta, o Fantástico terceirizou a reportagem para os profissionais da Associated Press, uma agência de notícias fundada em 1846, cujos proprietários são jornais, estações de rádio e de TV estadunidenses.
Ou seja: deixou a cobertura da guerra nas mãos de um dos lados da guerra.
Após mostrar Trump dando um ultimato ao Irã e um Nethanyaru visitando áreas de Israel atingidas por bombardeios do Irã, a reportagem emendou lembrando que Trump bombardeou o Irã na linha do que fez na Venezuela, onde “capturou” o ditador Nicolás Maduro e pode fazer algo parecido com a “ditadura cubana”.
Foi sobre Cuba, no entanto, que a reportagem se estendeu mais. Mostrou que o país esteve pela segunda vez em menos de uma semana às escuras, fruto da falta de petróleo, pois não há mais o fornecimento da Venezuela.
A reportagem da Associated Press, exibida pelo Fantástico, ouviu vários moradores da ilha para confirmar os graves problemas que enfrentam, pois “falta quase tudo”.
Até um retrospecto da história de Cuba, desde os tempos de colônia espanhola, foi exibido para tentar convencer o público que derrubar o governo Diaz- Canel e o regime socialista será um “ato humanitário”.
O problema é que o tal retrospecto estava marcado por mentiras.
A primeira é de Cuba estava livre após deixar de ser colônia da Espanha. Em 1901, os Estados Unidos impuseram à Constituição cubana a emenda Platt, que subordinava a ilha aos interesses dos Estados Unidos. Ela concedia aos EUA o direito de intervir militarmente no país e exigia o arrendamento de terras para bases navais, como Guantánamo.
Ao abordar a Revolução que derrubou o corrupto e ditatorial governo de Fulgêncio Batista, em 1959, afirmou que Cuba “trocou uma ditadura por outra”, referindo-se à vitória de Fidel Castro.
Sobre o embargo econômico dos Estados Unidos, que Cuba vive desde 1962, apenas algumas poucas referências, mas nada que lembre o fato de que, há décadas, a quase totalidade dos países que integram a ONU se pronuncia contra ele. Mesmo assim, o embargo é mantido pelo veto dos EUA, com o apoio de Israel.
Como a maioria das pessoas não sabe e nem pesquisa sobre o que é a Associated Press, acaba aceitando o que é mostrado. E, neste caso, o que foi mostrado não passou da mais descarada propaganda dos Estados Unidos contra o que considera seus adversários.

Se tivesse o mínimo compromisso com os fatos, era para o Fantástico ter exibido que exatamente naquele mesmo domingo, Cuba recebia uma missão de solidariedade composta por representantes de dezenas de países, que lá chegaram com alimentos e remédios.
Vários brasileiros integram esta missão, a começar por Thiago Ávila. Mais ainda, pelo menos um cargueiro chinês está a caminho de Cuba com toneladas de alimentos.
Na caradura, o Fantástico escondeu tudo isso, para passar a ideia de que a população cubana está abandonada à própria sorte.
Escondeu também o contundente pronunciamento do presidente Lula durante o Fórum Celac-África, realizado em Bogotá, na Colômbia, no dia anterior.
Em seu discurso, Lula afirmou: “não somos mais colônias. Não aceitamos mais ser apenas exportadores de minerais. Temos que ter a chance de desenvolver nossos países”, diante de uma plateia que o aplaudiu entusiasticamente.
Nada disso apareceu no Fantástico e nem aparece no JN.
Para a família Marinho o importante é esconder a importância de Lula e do Sul Global e fazer de tudo para manter em evidência o império em declínio e seus aliados. Mesmo quando este império pode jogar o mundo numa catástrofe ou dar início à Terceira Guerra Mundial.
Em síntese, a cobertura da guerra dos EUA e de Israel contra o Irã pela TV Globo, seja JN ou Fantástico, confirma tudo aquilo que o experiente jornalista australiano Phillip Knightley (1929-2016) já havia escrito: “além da mídia e seus correspondentes serem propagandistas e fabricantes de mitos, a primeira vítima sempre é a verdade”.
Seu livro tem exatamente o título de “A Primeira Vítima” e mesmo publicado em 1975, permanece de uma atualidade impressionante.
No caso as vítimas são o Irã, a Venezuela, Cuba e todo o Sul Global.
Os dois primeiros países sendo atacados para que seu petróleo seja surrupiado, Cuba para que os Estados Unidos consigam derrotar um país que ousou buscar o socialismo como caminho e o Sul Global por apostar no mundo multipolar.
Parodiando Knightley, as reportagens do JN sobre a guerra dos EUA e de Israel contra o Irã parecem ter sido editadas nos gabinetes do pessoal do Mossad e da CIA.
A da Associated Press exibida pelo Fantástico certamente foi.
*Ângela Carrato é jornalista, professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG e membro do Conselho Deliberativo da ABI




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