Ângela Carrato: Grupo Globo e crise na segurança pública do RJ, tudo a ver

Tempo de leitura: 8 min
Brizola, o governador do RJ que se preocupou com os problemas sociais e a seguranca pública, enfrentou o combate permanente do Grupo Globo; Cláudio Castro, o governador que ordenou o massacre no Complexo da Alemão e da Penha, naturalizado pelo JN. Fotos: Reprodução e Fernando Frazão/Agência Brasil

Por Ângela Carrato

Nada é por acaso nos telejornais do Grupo Globo, em especial no principal deles, o Jornal Nacional (JN).

A definição das pautas, a escolha dos entrevistados, a edição e o espelho (ordenação dada às notícias e reportagens para exibição), tudo é cuidadosamente checado por hierarquias, a principal delas se reportando à direção da emissora. Os nomes desses profissionais podem ser vistos naqueles letreiros rápidos exibidos ao fim do JN.

Por isso, para olhares mais atentos tem chamado atenção reportagens sobre a violência no Rio de Janeiro, inseridas algumas vezes por semana, no noticiário do JN.

Essas reportagens abordam ações do Comando Vermelho (CV), a principal facção criminosa do Rio de Janeiro e uma das maiores do país.

Aparentemente o objetivo é o combate ao crime organizado, mas o que elas acabam passando para o telespectador é uma espécie de impotência das autoridades para enfrentar marginais de alta periculosidade.

Uma dessas reportagens, por exemplo, mostrou que o CV dispõe de drones para monitorar grupos adversários e até a própria polícia. Integrantes das forças policiais foram ouvidos e garantiram que fazem “o possível”.

Curiosamente, o empenho do governo federal no enfrentamento ao crime organizado é mostrado muito lateralmente ou ignorado.

Não há qualquer repercussão no JN, por exemplo, sobre a Lei Antifacção, recentemente sancionada pelo presidente Lula, que aumenta penas para estes criminosos (até 40 anos para os líderes). A lei foca também no bloqueio de bens, ativos digitais e participações societárias dos “magnatas do crime”.

Outra inovação de extrema importância: a nova legislação cria o Banco Nacional de Dados de Organizações Criminosas e maior cooperação entre Polícia Federal, Receita e órgãos estaduais. Até agora, mesmo o crime organizado tendo se alastrado por vários estados e regiões, não havia esta integração.

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O JN simplesmente omite que os governadores de extrema-direita resistem à PEC da Segurança Pública proposta por Lula e chegaram a criar até uma espécie de frente para combater a medida.

Os argumentos são pífios: alegam que ela fere a autonomia dos estados e retira poderes dos secretários estaduais.

Até recentemente, o agora ex-governador cassado e inelegível do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, integrava esta frente, ao lado dos colegas de São Paulo, Tarcísio de Freitas, de Minas Gerais, Romeu Zema, e de Goiás, Ronaldo Caiado.

A resistência à PEC da Segurança Pública tem motivação essencialmente política.

Por serem pré-candidatos à presidência da República nas eleições de outubro próximo, não querem que um instrumento essencial para o combate ao crime seja aprovado, temendo que a medida possa ser positiva para Lula na disputa à reeleição.

A situação do Rio de Janeiro é gravíssima.

Na segunda-feira (23), Cláudio Castro renunciou ao cargo pretendendo concorrer a uma vaga no Senado.

Com sua saída, o presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Ricardo Couto, assumiu interinamente. O Rio não tem mais vice-governador desde o ano passado, porque Thiago Pamplona assumiu um cargo no Tribunal de Contas do Estado e o presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacellar, está licenciado.

Bacellar não exerce o cargo desde 10 de dezembro, porque foi preso, durante a Operação Unha e Carne da Polícia Federal. Ele teria vazado informações sigilosas sobre a investigação contra o ex-deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, conhecido como TH Joias, acusado de intermediar compra e venda de armas para o CV.

Após as duas administrações de Leonel Brizola (1983-1987 e 1991-1994), o Rio de Janeiro viveu um período marcado por graves crises políticas, com quase todos os governadores presos, investigados ou afastados por corrupção.

A exceção fica por conta de Benedita da Silva, que foi governadora entre abril de 2002 e janeiro de 2003. Ela assumiu após a renúncia de Anthony Garotinho, de quem era vice.

Era para o JN estar detalhando esta história para seus telespectadores, não só por sua sede ser no Rio de Janeiro, como pela importância do estado e da ex-capital da República, a cidade brasileira mais visitada por turistas internacionais.

Ao contrário do que o JN e demais noticiários do Grupo Globo vem passando para os telespectadores, a crise no Rio de Janeiro tem como ser enfrentada.

Por que isso não é mostrado?

O Grupo Globo possui dois motivos para não querer se aprofundar nas razões que levaram a esta crise: tem participação direta nela e o apoio velado que dá ao senador Flávio Bolsonaro, o extremista de direita que pretende transformar esta crise em mote de sua campanha contra Lula.

Vamos aos fatos.

A chamada “era Brizola” foi marcada por um foco intenso em educação pública, infraestrutura urbana e uma postura de direitos humanos na segurança pública.

Além da construção dos Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs), idealizados por Darcy Ribeiro, foram construídos o Sambódromo, a Linha Vermelha, uma via expressa crucial para o trânsito do Rio de Janeiro, e proibiram-se operações violentas e desordenadas em favelas.

Leonel Brizola, duas vezes governador do Rio de Janeiro, acreditava que pela educação se pode transformar uma sociedade desigual, como a brasileira. Daí, o seu ousado projeto dos Cieps (no topo). Embaixo, à esquerda, Darcy Ribeiro, então vice-governador, visita turma de alunos em um Ciep. À direita, Darcy, Brizola, Oscar Niemeyer e Jamil Haddad conversam sobre o projeto. Fotos: Acervos Fundar, Cieps e Agência Senado

Brizola fez um importante trabalho no sentido de reformar a atuação da polícia para que respeitasse o cidadão.

Sua administração, no entanto, foi marcada pelo confronto direto com o patriarca do Grupo Globo, Roberto Marinho (1904-2003), que lhe moveu um combate permanente pautado por seus próprios interesses e pelos interesses da classe dominante local.

Para Brizola, a Rede Globo sempre agiu como “um partido político de oposição” e um “instrumento de manipulação”.

O enfrentamento entre Leonel Brizola e o Grupo Globo, intensificado entre as décadas de 1980 e 1990, é um dos episódios mais marcantes da política e da comunicação no Brasil.

Brizola simbolizou a luta por uma comunicação livre e democrática, ao passo que Marinho queria continuar dando as cartas tanto no governo do Rio de Janeiro quanto no país. É importante lembrar que ele foi aliado de primeira hora dos golpistas de 1964 e que o crescimento da TV Globo guarda relação direta com o seu apoio à ditadura.

Quando Brizola disputou pela primeira vez, em 1982, o governo do Rio de Janeiro, a Globo tentou manipular a apuração dos votos através da empresa Proconsult. O objetivo era favorecer o candidato conservador de sua preferência, Moreira Franco.

Após anos de ataques e críticas contundentes do jornal O Globo – que chamou Brizola de “senil” e questionou sua capacidade mental em 1992 -, ele recorreu à Justiça e ganhou um direito de resposta histórico.

Em 16 de março de 1994, Cid Moreira, leu no JN, a resposta dura de Brizola, na qual se defendeu e acusou a Globo de “ter longa e cordial convivência com os regimes autoritários”.

Brizola estava certo.

Tanto Roberto Marinho quanto seus filhos sempre apoiaram, direta ou indiretamente, candidatos conservadores para o governo do Rio de Janeiro. Em 1986, por exemplo, a Globo fez de tudo e conseguiu derrotar Darcy Ribeiro, na disputa pelo Palácio das Laranjeiras. Na época não havia reeleição e Darcy era o candidato de Brizola, para dar continuidade aos CIEPS.

O nome que teve apoio do Grupo Globo foi Moreira Franco, cuja gestão interrompeu o projeto dos CIEPS.

Roberto Marinho considerava desperdício gastar dinheiro público com a construção de escolas de tempo integral para crianças pobres. Não faltaram coberturas críticas do Grupo Globo, especialmente o jornal O Globo, contra este projeto na época de sua implementação.

Dos anos 1990 para cá, o Grupo Globo sempre ficou ao lado de candidatos conservadores que disputaram o governo do Rio. Um dos casos mais emblemáticos é a vitória do desconhecido Wilson Witzel em 2018. Ele foi eleito na onda bolsonarista, quando Lula estava preso pela criminosa Operação Lava Jato, que contava com todo o apoio do Grupo Globo.

A plataforma de Witzel era centrada na promessa de combater a corrupção e em uma segurança pública rigorosa. Ele adotou um discurso de linha dura, incluindo o uso de atiradores de elite (snipers) para matar criminosos com armas longas.

Mesmo adotando discurso semelhante ao de Bolsonaro, os dois acabaram rompidos politicamente.
Bolsonaro teve influência direta no impeachment de Witzel, acusado de crimes de responsabilidade na gestão de recursos da saúde durante a pandemia.

Uma denúncia que posteriormente poderia ter sido estendida ao próprio Bolsonaro, mas ficou restrita ao Rio de Janeiro.

Quem assumiu o cargo foi o vice, Cláudio Castro, cujo desfecho de seu governo é conhecido. Mesmo tendo feito alguns discursos de combate ao crime organizado e ações policiais intensas, a truculência que adotou em algumas dessas ações indica que sua preocupação era mais eleitoreira.

Sem qualquer solução para apresentar, buscava agradar parte da população com o criminoso discurso do “bandido bom é bandido morto”.

No final de outubro do ano passado, Castro protagonizou a operação policial considerada a mais letal da história brasileira, superando o número de mortos do massacre do Carandiru.

Ela aconteceu nos Complexos do Alemão e da Penha, na zona Norte do Rio de Janeiro, e resultou na morte de 121 pessoas, incluindo moradores e suspeitos, e quatro policiais militares.

Familiares choram os mortos da maior chacina do país Foto: Tomaz Silva /Agência Brasil

Famílias, movimentos sociais e organizações de direitos humanos denunciaram a operação como “massacre” e “barbárie institucional”, com relato de corpos com sinais de execução, invasão de casas e terror nas comunidades.

Pouca atenção foi dada pelo Grupo Globo à informação de que o ministro Alexandre de Moraes, do STF, solicitou explicações ao governador sobre o uso de câmeras corporais e a conformidade da ação em relação à Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental das Favelas (ADFP).

A ADFP constitui-se num preceito aprovado pelo STF para restringir operações policiais e reduzir a letalidade policial.

O Grupo Globo, JN à frente, acabou naturalizando a chacina com a divulgação, sem contraponto, de pesquisa em que parcela majoritária da população (62%) apoiava o massacre perpetrado pela polícia de Cláudio Castro.

O adequado, numa situação dessas, teria sido o Grupo Globo contribuir com amplas discussões, ouvir especialistas, fazer contrapontos e atuar para elevar o nível de compreensão sobre o assunto.

Além de informar, o jornalismo tem a função de educar.

O conglomerado Globo dispõe de muitos veículos de comunicação que poderiam ser utilizados em campanhas contra a violência.

Mas o JN se deu por satisfeito ao noticiar a morte dos “bandidos”.

A esse fato se soma outro ainda mais preocupante.

No momento em que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, intervém na soberania de países latino-americanos, ao adotar unilateralmente uma legislação para combater o “narcoterrorismo”, o Grupo Globo dá mostras de que a apoia.

Coincidindo com as declarações de auxiliares diretos de Trump de que está em estudo incluir facções criminosas brasileiras nesta relação, vem sendo veiculadas aquelas reportagens do JN que passam para o telespectador a impressão de que nem a polícia e nem as nossas autoridades sabem o que fazer para combater o crime organizado.

A classificação de facções criminosas como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como “narcoterroristas” não corresponde à realidade e serve apenas aos propósitos imperialistas de Trump.

Os dois grupos criminosos se dedicam ao tráfico de drogas. São basicamente comerciantes de drogas, com a lavagem de dinheiro, o controle territorial e homicídios decorrendo disso.

Já grupo terrorista é quem utiliza violência, medo ou ameaça grave para atingir objetivos políticos, ideológicos, raciais ou religiosos, segundo a classificação das Nações Unidas e seguida pelo Brasil.

Não é o caso do CV e do PCC.

Para a campanha do extremista de direita, Flávio Bolsonaro, à presidência da República, no entanto, a classificação é muito útil. Ele é tão subserviente e capacho dos Estados Unidos quanto o pai, que está preso por tentativa de golpe de estado.

Além de idolatrar as bandeiras dos Estados Unidos e de Israel, Flávio já chegou a pedir que Trump bombardeasse a baia da Guanabara, por “ouvir falar” que lá tem tráfico de drogas.

Este absurdo também foi naturalizado pelo JN e pelo Grupo Globo, numa clara indicação de qual é seu lado nas eleições de outubro.

Razão pela qual podemos pensar que essas reportagens aparentemente sem propósito fazem parte de um processo amplo e sútil de manipulação pública, cujo objetivo final envolve a pré-campanha de Flávio Bolsonaro à presidência da República.

Algo como se deu com o “combate aos marajás”, encabeçado pela Rede Globo no início dos anos 1990, que visava preparar o terreno para a campanha presidencial de Fernando Collor.

O Grupo Globo, JN incluso, não dá ponto sem nó.

*Ângela Carrato é jornalista, professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG e membro do Conselho Deliberativo da ABI

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