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Por Sylvio Souza*, no Código Aberto
Certa crítica contemporânea do poder algorítmico costuma terminar numa frase que parece conceder tudo: liberdade seria conservar a capacidade de abrir caminhos que ainda não existem. Mas repare no verbo. Conservar. A gramática dessa crítica é sempre a mesma: preservar margens, manter redundâncias, proteger fricções, resguardar alternativas, conservar capacidade de bifurcação. É a gramática do custódio, não a do lutador. A soberania aparece como gestão prudente de riscos — um seguro contra o dia em que as previsões falharem. O impossível comparece apenas como resíduo estatístico: o improvável também pode tornar-se histórico. Pode. Como quem admite que às vezes chove no deserto.

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I
O problema não é o diagnóstico, que é largamente correto: o poder contemporâneo opera, de fato, tornando certos caminhos progressivamente mais prováveis e outros impensáveis. O problema é que um diagnóstico sobre a administração das probabilidades, respondido com uma política de preservação de probabilidades, permanece dentro do tabuleiro que denuncia. Se o poder trabalha estreitando o horizonte do concebível, a resposta não pode ser apenas defender o direito de hesitar. Tem de ser pensar — e organizar — o impensável.
II
O impossível é a categoria mais material da história
A objeção previsível é que lutar pelo impossível seria devaneio, voluntarismo, idealismo. A história registra o contrário: o impossível é a categoria mais material que existe, porque só se verifica com corpos, logística, fome, organização e morte.
Michel-Rolph Trouillot demonstrou que a Revolução Haitiana foi “impensável mesmo enquanto acontecia”: nem senhores, nem filósofos iluministas, nem os próprios abolicionistas europeus dispunham de categorias para conceber escravizados derrotando três impérios e fundando um Estado. Não era improvável — era impensável, exatamente no sentido forte da palavra. E aconteceu. Não por devaneio, mas por doze anos de guerra, redes de comunicação entre plantations, conhecimento do terreno, febre amarela usada como aliada estratégica e uma disciplina militar que Toussaint e Dessalines construíram do nada. O impossível haitiano foi feito de material bélico e cadáveres, não de imaginação.
“Toda a experiência histórica confirma que não se atingiria o possível se, no mundo, não se tivesse tentado sempre o impossível.”
Max Weber, A política como vocação, 1919
O possível de cada época é o sedimento das lutas pelo impossível da época anterior. Sufrágio universal, jornada de oito horas, descolonização, fim da escravidão: cada um foi declarado impossível pelo cálculo probabilístico de seu tempo, e cada um foi conquistado por gente que recusou o cálculo. Quem administra o possível colhe o que os lutadores do impossível plantaram — e toda crítica que toma o campo do possível como território último da disputa naturaliza precisamente a fronteira que o poder desenha.
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Ernst Bloch chamou isso de ainda-não: o real não é apenas o que existe, mas o que existe em estado de latência, e a esperança não é afeto — é docta spes, esperança instruída, uma categoria do conhecimento com força prática. E Gramsci viveu sob a divisa que tomou de Romain Rolland: pessimismo da inteligência, otimismo da vontade. A crítica custodial ficou com a primeira metade.
III
Três tradições do impossível
Outras culturas produziram algo mais duro que a nossa: tradições em que a luta contra probabilidades esmagadoras não é exceção heroica, mas obrigação constitutiva.
Irã — Karbala como paradigma
Em 680, Hussein ibn Ali marchou com cerca de setenta e dois combatentes contra o exército omíada, sabendo que morreria. Pelo cálculo probabilístico, Karbala foi aniquilação total. Pela história, foi a derrota mais produtiva do islã xiita: catorze séculos de memória ritual que Ali Shariati, nos anos 1970, reconverteu em teoria política. No seu “xiismo vermelho”, o martírio (shahadat) não é derrota aceita, é testemunho que muda as condições de possibilidade dos que ficam — quem morre pratica um ato husseínico, quem sobrevive deve praticar um ato zainábico: transformar a derrota em narrativa insurgente. A fórmula popularizada na revolução — “todo dia é Ashura, toda terra é Karbala” — universaliza a obrigação. E o teste material veio em 1979: praticamente nenhum modelo de análise ocidental previu a queda do Xá, dono do quinto maior exército do mundo. Uma revolução sem exército próprio derrubou o regime que a ciência política considerava o mais estável da região. O impensável, de novo, com corpos.
Iêmen — o dever da insurreição
O zaidismo, ramo xiita que domina o norte iemenita há mais de mil anos, tem como doutrina distintiva o o khuruj — a saída em armas contra o governante injusto não como direito, mas como dever religioso, e critério de legitimidade do próprio imã: só merece liderar quem se levanta. É uma teologia que institucionaliza a insurreição contra probabilidades desfavoráveis. Some-se a isso a cultura tribal do zāmil, a poesia oral de mobilização que converte agravo em obrigação coletiva de resposta, e entende-se o que os planejadores da coalizão saudita não entenderam em 2015, quando previram uma campanha de semanas: o país mais pobre do mundo árabe sustentou uma década de guerra contra uma coalizão armada pelas maiores potências militares do planeta. Não se trata de romantizar — trata-se de registrar que existe ali uma gramática cultural em que “as chances são nulas” não funciona como argumento.
China — remover as montanhas
A fábula de Liezi sobre O Velho Tolo (Yugong yishan, 愚公移山) conta a história de um ancião de noventa anos que decide remover duas montanhas a picareta, e responde ao cético: quando eu morrer, continuam meus filhos, depois os netos, e as montanhas não crescem. Mao Tsé-Tung encerrou o VII Congresso do Partido, em junho de 1945, com essa fábula: as duas montanhas eram o imperialismo e o feudalismo, e “nosso Deus não é outro senão as massas do povo chinês”. Uma parábola sobre obstinação transgeracional vira doutrina de um partido que acabara de sobreviver à Longa Marcha — seis mil quilômetros, cerca de noventa por cento de perdas, um exército em farrapos que qualquer modelo dava por liquidado e que quatro anos depois tomava o poder. E Lu Xun deu à mesma ideia sua forma mais precisa: a esperança é como os caminhos sobre a terra — a terra não tinha caminhos; eles se fazem quando muitos passam.
Essas três tradições convergem num ponto que falta à crítica custodial: nelas, o impossível não é uma margem a preservar, é uma prática com pedagogia própria — o luto ritual, o poema de mobilização, a fábula partidária — que transmite entre gerações a disposição de agir contra o cálculo. São infraestruturas do impossível. Materialíssimas.
IV
A encruzilhada torna o impossível realista
Aqui entra a urgência, e ela decide a questão. Quando todos os caminhos prováveis levam à ruína, a distinção entre realismo e utopia inverte de sinal.
Para a maioria das nações do Sul Global, o menu de futuros prováveis hoje é estreito: subordinação tecnológica permanente, papel fixo de exportador de dados e matérias-primas, aquecimento que tornará porções de seus territórios inabitáveis, e uma ordem internacional em que as regras são reescritas pela força diante de todos. Nesse quadro, preservar capacidade de bifurcação é conselho para quem tem tempo. Quem está na encruzilhada existencial não precisa conservar a possibilidade de mudar de caminho um dia; precisa mudar de caminho agora, contra as probabilidades, porque as probabilidades foram fabricadas justamente para que não mude. Frantz Fanon já havia formulado isso para a descolonização: a libertação não se recebe do campo do possível oferecido pelo colonizador; ela “introduz no ser um ritmo próprio” e cria seu próprio campo. A descolonização inteira foi uma luta pelo impossível que venceu — e virou o “possível” que hoje parece banal.
E há o argumento sistêmico, usando as próprias armas do diagnóstico algorítmico: se a governança probabilística opera por pequenas vantagens acumuladas em escala, então uma política que só atua dentro das trajetórias já prováveis é, por definição, uma política já capturada — ela disputa migalhas dentro de uma distribuição desenhada por outros. A única ação que escapa da governança probabilística é a que altera a própria distribuição, e distribuições não se alteram pela margem: alteram-se por eventos. Foi Badiou quem deu nome a isso — o evento é aquilo que, impossível segundo a situação, ao acontecer reordena o que conta como possível — mas não é preciso filosofia francesa: basta a Longa Marcha, basta o Haiti, basta 1979.
V
Caminhos não se conservam, abrem-se
“A verdade última e oculta do mundo é que ele é algo que nós fazemos, e que poderíamos perfeitamente fazer diferente.”
David Graeber, The Utopia of Rules, 2015
Por isso a fórmula custodial precisa ser corrigida, não rejeitada. Liberdade não é conservar a capacidade de abrir caminhos que ainda não existem. Caminhos não se conservam em estoque; a capacidade de abri-los só existe no ato de abri-los, e atrofia quando não exercida — é o que o próprio behaviorismo deveria ter concluído. A terra não tinha caminhos, diz Lu Xun; eles se fazem quando muitos passam. Passar é a única conservação que funciona.
Soberania, então, não é capacidade de bifurcação. É bifurcação em curso: o programa material — industrial, científico, energético, militar, educacional — executado contra as probabilidades vigentes e pago no preço que o impossível sempre cobrou de quem o conquistou. O resto é gestão de risco com vocabulário emancipatório.
Referências:
BADIOU, Alain. O ser e o evento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996 [1988].
BLOCH, Ernst. O princípio esperança. Rio de Janeiro: Contraponto/EdUERJ, 2005 [1954–1959]. Edição MIT Press.
FANON, Frantz. Os condenados da terra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968 [1961].
GRAEBER, David. The Utopia of Rules. Brooklyn: Melville House, 2015. Melville House.
GRAMSCI, Antonio. Selections from the Prison Notebooks. London: Lawrence & Wishart, 1971.
HAYKEL, Bernard. Revival and Reform in Islam: The Legacy of Muhammad al-Shawkani. Cambridge: Cambridge University Press, 2003.
JAMES, C. L. R. Os jacobinos negros. São Paulo: Boitempo, 2010 [1938]. Boitempo.
KURZMAN, Charles. The Unthinkable Revolution in Iran. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2004. Harvard UP.
LU XUN. “Minha velha casa” [Gùxiāng, 1921]. In: Grito de combate (Nàhǎn). Tradução inglesa.
MAO TSÉ-TUNG. “O Velho Tolo que removeu as montanhas” (1945). marxists.org
SHARIATI, Ali. Red Shi’ism vs. Black Shi’ism; Shahadat. shariati.com
TROUILLOT, Michel-Rolph. Silencing the Past: Power and the Production of History. Boston: Beacon Press, 1995. Beacon Press.
WEBER, Max. A política como vocação (1919). Texto em inglês.
*Sylvio Souza é um observador do cenário geopolítico mundial vivendo nos EUA
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo
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