Marcelo Zero: O que o próximo governo Lula fará pela soberania do Brasil?
Tempo de leitura: 7 min
Por Marcelo Zero*
Pela primeira vez na história, a questão da soberania nacional terá centralidade em uma eleição brasileira.
Não é para menos.
O Brasil está sob forte ataque geopolítico.
Embasado na ressurreição da arcaica Doutrina Monroe, agora reforçada pelo “Corolário Trump”, Marco Rubio vem realizando uma forte ofensiva para consolidar todo o continente americano como área de férrea influência exclusiva dos EUA.
Voltamos aos tempos dos protetorados e dos “quintais”.
Já houve fortes intervenções no Panamá, na Venezuela, na Colômbia, em Cuba etc. Mesmo o Canadá, o vizinho dos sonhos de qualquer país, vem sofrendo com seguidas agressões do governo Trump, que ameaça transformar esse aliado de longas décadas no 51º Estado dos EUA. Da mesma forma, Trump não se cansa de ameaçar anexar, “de uma forma ou de outra”, o território da Groenlândia, que pertence à Dinamarca, um velho aliado, membro da Otan.
Não creio que haja dúvidas de que o Departamento de Estado dos EUA, com seus longos e poderosos tentáculos, tenha influenciado os resultados das eleições recentes em países latino-americanos, que levaram ao poder candidatos de extrema-direita fortemente alinhados ao trumpismo. Alinhados, no caso, é eufemismo. Trata-se, na realidade, de vergonhosa submissão. De neocolonialismo explícito.
A mesma submissão aviltante exibida pela candidatura de Flávio Bolsonaro e pelas demais candidaturas do mesmo campo ideológico, que apoiaram e até insuflaram, em alguns casos, tarifaços e sanções contra o Brasil sem quaisquer justificativas técnicas. Candidaturas que não se cansam de aplaudir as seguidas agressões contra nosso país e contra os empregos de brasileiras e brasileiros, bem como os insultos vulgares ao nosso chefe de Estado.
Marco Rubio sabe muito bem que o Brasil é fundamental para o projeto da América Latina como protetorado. Nosso país é a maior economia da região e representa cerca da metade da área geográfica e da população de toda a América do Sul. Por isso, a aposta contra o Brasil soberano, apoiada pelos numerosos “silvérios” internos, é muito alta.
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A bem da verdade, a única candidatura que tem compromisso efetivo com a soberania nacional é a de Lula. O resto não passa de uma chusma de entreguistas, sem nenhuma visão de país, cuja “estratégia” é a volta a um passado arcaico e neocolonial.
Frise-se que o atual governo Lula já vem fazendo muito pela soberania do país, tanto em política externa quanto em política de defesa.
Em política externa, o Brasil, com Lula, voltou a apresentar um amplo e diverso protagonismo internacional, rompendo com o isolamento criado no governo Bolsonaro, um pária mundial.
Em relação à geopolítica mundial, o abandono da aliança ideológica e subalterna com a extrema-direita trumpista permitiu ao Brasil reativar sua participação no BRICS e suas parcerias estratégicas com países como a China. O Brasil de Lula voltou a contribuir para a geração de uma ordem mundial multipolar, mais simétrica e assentada no multilateralismo.
Passamos a manter boas relações com todas as regiões e países do mundo, sem discriminações ideológicas. O Brasil passou a se alinhar com seus próprios interesses soberanos. E Lula, ao contrário de Bolsonaro, retomou sua condição de autêntico líder mundial, um representante cortejado do chamado Sul Global.
Em sentido inverso à pressão de Trump, o Brasil soberano de Lula acentuou a diversificação de suas parcerias estratégicas e os laços de cooperação com muitas nações do mundo. Investimos em multilateralismo e em multipolaridade. Não nos submetemos.
Deu certo. As exportações brasileiras em 2025 atingiram um recorde histórico, totalizando US$ 348,7 bilhões, um crescimento de 3,5% em relação a 2024, gerando um superávit comercial de US$ 68,3 bilhões.
Celebramos o Acordo Mercosul-UE, o que pode ser visto como uma grande façanha geopolítica e geoeconômica, uma vez que as negociações já se estendiam por um quarto de século, em uma conjuntura mundial avessa à expansão do livre comércio. Investimos em cooperação e racionalidade econômica, buscando colaborar para a geração de uma ordem mundial previsível, assentada no multilateralismo, na multipolaridade e na paz.
O Brasil também aderiu ao Acordo de Livre Comércio entre o Mercosul e a EFTA, que foi concluído em julho de 2025 e reúne dois blocos que, juntos, representam quase 300 milhões de habitantes e um PIB superior a US$ 4,39 trilhões. A EFTA reúne Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein.
Está em estado avançado de negociação o Acordo Mercosul-Canadá, o qual deverá estar concluído até o final deste ano. Coreia do Sul e Japão também estão interessados em acordos comerciais com o Brasil.
No campo da defesa nacional, no governo Lula houve avanço relevante no financiamento de projetos das Forças Armadas, com a sanção da lei que garante cerca de R$ 30 bilhões para projetos estratégicos entre 2026 e os próximos 6 anos, criando previsibilidade orçamentária para a modernização de capacidades militares e o fortalecimento da Base Industrial de Defesa. Esses recursos são contabilizados fora da meta fiscal, o que protege o orçamento contra bloqueios, garantindo o fluxo de caixa para projetos de longo prazo. O governo Lula deu as garantias de que os investimentos serão efetivamente realizados, ao contrário do que acontecia no passado.
A importância da Base Industrial e Tecnológica de Defesa advém tanto de seu caráter estratégico, decorrente da produção dos equipamentos de defesa do país, essenciais para garantir a defesa e sua autonomia, como de seus aspectos econômicos, que estão relacionados ao domínio de tecnologias sensíveis e à geração de inovação, de empregos de alta qualificação e de exportações de elevado valor agregado.
Assim, a Base Industrial e Tecnológica de Defesa pode e deve ser um pilar central de um novo projeto de desenvolvimento focado na indústria de alta tecnologia e na inovação, sob indução e atento acompanhamento do Estado.
Nesse sentido, a indústria de defesa brasileira teve um crescimento superior a 100% nas exportações no primeiro trimestre de 2026, atingindo US$ 1,02 bilhão. A Base Industrial de Defesa (BID) do Brasil vive, no governo Lula, uma fase de crescimento expressivo, com exportações recordes, atingindo US$ 3,1 bilhões em autorizações até novembro de 2025, um aumento de 74% em relação a 2024 e mais de 110% de alta acumulada em dois anos.
Ademais, houve iniciativas de planejamento de longo prazo e debates sobre ampliação estrutural dos investimentos, diante de um contexto internacional mais instável e da necessidade de aumentar a capacidade de dissuasão do país.
Entregamos o primeiro caça F-39E Gripen produzido no Brasil, lançamos ao mar o submarino Tonelero, terceiro de quatro modelos convencionais (diesel-elétrico) do PROSUB, e incorporamos à nossa Marinha a fragata Tamandaré” (F200), navio de guerra mais moderno da América Latina, também construída no Brasil. O submarino “Almirante Karam” também foi lançado ao mar.
Desse modo, o governo Lula vem procurando combinar persuasão diplomática e dissuasão estratégica, de modo a construir a “Grande Estratégia”, a qual visa, em essência, projetar os interesses soberanos do país no cenário internacional e defendê-lo de ameaças externas.
A recente aproximação do Brasil e da Rússia na área de defesa representa uma tentativa de reduzir a dependência das Forças Armadas brasileiras em relação aos EUA, desenvolvida nos governos Temer e Bolsonaro, a qual significou a inclusão do nosso país no Comando Sul dos EUA, entre outras várias medidas questionáveis.
Não obstante, isso é apenas o começo. O governo Lula sabe que, em sua próxima gestão, esses investimentos em soberania nacional terão de ser redobrados, caso queiramos permanecer como país autônomo e de futuro.
Com tal intenção, a inserção soberana do Brasil, no atual mundo anômico e conflitivo em que vivemos, deverá ter como pilares e parâmetros:
a) A diversificação e o aprofundamento das parcerias estratégicas globais. O Brasil deverá redobrar seus esforços em busca de cooperação, comércio e diálogo em todos os continentes do planeta;
b) O investimento no multilateralismo, procurando fortalecer algumas instituições internacionais de relevo, como a Organização Mundial do Comércio, hoje paralisada, e, com centralidade, a Organização das Nações Unidas (ONU). Em particular, o Brasil deverá insistir na imprescindível reforma do Conselho de Segurança da ONU, de forma a ampliar e fortalecer a única organização multilateral que tem legitimidade para autorizar o uso da força na ordem mundial;
c) O investimento na multipolaridade, de modo a desconstruir pretensões hegemônicas e criar uma ordem mundial mais diversa. Os BRICS, em especial, deverão continuar a contribuir com a governança global e o acolhimento dos interesses do chamado Sul Global, no qual estão representados os interesses da maioria da humanidade;
d) O amplo reforço da integração regional soberana e a criação e/ou robustecimento de cadeias produtivas regionais, as quais permitirão maior competitividade de nossas economias no cenário econômico mundial;
e) A consolidação do Brasil como potência ambiental, protegendo suas florestas, reduzindo a zero as emissões feitas pelo desmatamento, recuperando áreas degradadas e investindo em novos produtos e bens oriundos da nossa imensa biodiversidade;
f) A consolidação do nosso país como potência energética mundial, com cerca de 90% da sua eletricidade gerada por fontes renováveis, em 2025. Com quase 50% da matriz energética total vinda de fontes limpas, o Brasil lidera a transição energética no G20, destacando-se na geração hidrelétrica, eólica e solar, além de ter um vasto potencial em hidrogênio verde;
g) O fortalecimento do Brasil como um dos maiores produtores de alimentos do mundo, um grande ativo geoeconômico, em um mundo no qual cerca de 2,33 bilhões de pessoas sofrem com insegurança alimentar moderada ou grave;
h) O investimento na neoindustrialização, apoiada, em parte, em uma política racional de exploração das nossas imensas reservas de terras raras e minerais críticos, o que dará sustentabilidade e competitividade à indústria 4.0 brasileira;
i) A expansão da cultura brasileira no mundo. Nossa riquíssima cultura deverá contribuir para o robustecimento do nosso soft power, dinamizando a ação da nossa competente democracia;
j) Por último, deveremos continuar a propugnar o cumprimento dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), de modo a contribuir para a geração de uma ordem mundial simétrica, justa e pacífica.
De outro lado, a projeção soberana dos interesses do Brasil em um mundo, no qual as placas tectônicas geopolíticas se movem tão rapidamente também terá de contar com dissuasão estratégica suficiente para complementar nossa persuasão diplomática, o que implicará mais investimento contínuo e significativo nos projetos estratégicos das Forças Armadas.
Já pensando em um cenário mundial pós-Trump, pois suas estratégias obsoletas e irracionais estão fracassando tanto no plano interno quanto no externo, acreditamos que os pilares que descrevemos têm maior probabilidade de se tornar bem-sucedidos.
A guerra no Irã está demonstrando, com muita clareza, os limites e as insuficiências da hegemonia predatória imposta por Trump com seu “America Only”. Sem alianças firmes e negociações prévias, a aventura no Irã vem se mostrando um desastre, um atoleiro do qual agora é difícil sair.
Os aliados brasileiros de Trump e de Marco Rubio também experimentarão um fracasso monumental. Amarraram seus patéticos pôneis a um poste carcomido por cupins ideológicos.
Além dessas políticas coerentes, temos Lula. Lula se tornou o único político brasileiro que atingiu o raro status de estadista de nível internacional exatamente por causa do seu perfil notório de grande negociador, de liderança positiva, conciliadora e pacífica. Lula, mesmo falando só português, se faz entender em todo o mundo.
Lula encanta o planeta. Lula é o nosso equivalente a um Gandhi, a um Mandela. Bolsonaro, repetimos, era pária. Flávio e os outros são meros filhos, biológicos ou ideológicos, do pária. Do vira-lata que, ganindo, manifesta amor pelo seu dono cruel e autoritário.
O Brasil merece algo melhor, muito melhor.
O Brasil merece Lula.
*Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo
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