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Vanete Almeida, a guerreira do semiárido se encantou

publicado em 13 de setembro de 2012 às 23:05

por Conceição Lemes

Há menos de um ano recebi um e-mail apreensivo e, ao mesmo tempo, indignado, da nossa queridíssima Fátima Oliveira, médica, escritorae feminista. O motivo era a saúde de Vanete Almeida, líder feminista e referência histórica da luta das trabalhadoras rurais na América Latina e do Caribe.

Vanete lutava contra um câncer de mama e estava tendo dificuldade para se tratar em Pernambuco. Ela tinha plano de saúde, estava fazendo quimioterapia e precisava ser operada. Só que o cirurgião-oncologista que cuidava dela não era credenciado pelo seu plano. Via SUS, ela teria de entrar numa fila de espera e poderia morrer antes. E o preço da operação num serviço particular custava os olhos da cara.

O jeito foi pedir ajuda a amigas e amigos.  Por sugestão de pessoas que acompanhavam o processo, foi lançada então a campanha Ação de Solidariedade a Vanete Almeida. O objetivo era levantar recursos para custear a cirurgia e parte das despesas com remédios, alimentação, transporte, que aumentaram muito além do seu orçamento.

“É uma vergonha para o Governo Dilma que Vanete precise buscar solidariedade!!!!”, revoltou-se Fátima assim que soube. “Apelamos para tudo quanto é santo e NADA!”

Na época, conversei por telefone com Vanete. Entendi na hora por que a Fátima a respeitava tanto.

No início dessa semana, Fátima mandou-me outro e-mail sobre Vanete. Infelizmente, a doença havia vencido a nossa guerreira do campo. No domingo 9, aos 69 anos, ela partiu.

Natural de Custódia (PE), a vida de Vanete é uma história de luta. Mulher negra e sertaneja, como costumava se definir, ela vivia na comunidade de Jatiúca, distrito do município de Santa Cruz da Baixa Verde, no semiárido pernambucano.

Seu trabalho com mulheres rurais teve início na década de 1980, quando saía de casa de madrugada e percorria 30 quilômetros de carona em caminhões com um único objetivo: conscientizar mulheres de seus direitos, quebrando séculos de repressão. Inspirou o livro Ser Mulher num Mundo de Homens, de Cornélia Parisius.

A partir de 1996, tornou-se coordenadora internacional da Rede de Mulheres Rurais da América Latina e do Caribe (Rede LAC), que ajudou a fundar. Foi ainda assessora da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Pernambuco (Fetape).

De 1996 a 2003, integrou o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM). Em 2005, foi indicada junto com outras 51 mulheres do Brasil, ao Prêmio Nobel da Paz. Atualmente, era presidenta do CECOR (Centro de Educação Comunitária Rural), sediado em Serra Talhada.

“Conheci Vanete quando fizemos parte do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher. Aprendi a admirá-la e a amá-la  pelas convicções pelas quais pautou a sua vida, sobretudo a sua dedicação incondicional ao trabalho com a mulher camponesa e a sua compreensão da sua negritude”, homenageia-a Fátima Oliveira. “Ela gostava de dizer que fora da esquerda a luta dos oprimidos não encontraria o caminho da vitória, mas que às vezes insistir era muito cansativo principalmente quando a esquerda escorregava… E ríamos muito, porque pensávamos da mesma maneira…”

Para quem não teve a oortunidade de conhecer Vanete, segue uma coletânea de fotos com um depoimento pungente sobre os trabalhadores e trabalhadoras rurais, as injustiças, a fome e as desigualdades.  Depois, uma longa entrevista que concedeu em 2006. Para quem teve a sorte de cruzá-la ao longo da vida, é uma oportunidade de matar as saudades.

Vanete, a simplicidade de viver

Entrevista para o projeto Perpetuando a Rede LAC

Em 17 de novembro de 2006, a Imaculada Lopez. Realização da Rede LAC e do Museu da Pessoa. Transcrição: Maria da Conceição Amaral da Silva.

Do Museu da Pessoa,  via  blog Tá Tubrinando — Escritos da Chapada do Arapari  Chapadas do Araripe, de Fátima Oliveira.

Vanete Almeida
Nascimento: 21/06/1943,
Cachoeira – Município de Custódia
Profissão: Educadora Popular
Projeto: Perpetuando a Rede LAC – Rede de Mulheres Rurais da América Latina e Caribe
Eu pediria, Vanete, para você dizer o seu nome completo, a data e o local de nascimento.

Vanete – Meu nome é Maria Vanete Almeida. Eu nunca uso o Maria, só uso o Vanete Almeida. Eu nasci em uma comunidade rural que se chama Cachoeira, no município de Custódia. Que fica a 100 quilômetros de Serra Talhada. Nasci em 21 de junho de 1943.

Você nasceu na mesma terra em que seus pais, seus avós nasceram? O que é que você sabe sobre a origem da sua família?

Vanete – Eu sei que a família da minha mãe é toda de Serra Talhada e que é descendente de português. E sei que a família de meu pai é da Paraíba e é descendente de africanos. Que meu bisavô foi escravo.

Como chamava o seu pai?

Vanete – Eliezer Pinto de Souza. E ele tinha um apelido que era Elísio Paulo.

O que ele contava dos avós, dos pais dele?

Vanete – Isso eu não sei. Meu pai morreu, eu tinha sete anos. Então, eu só tenho a lembrança física de como ele era. Ele era bem alto, bem forte, bem bonito, bem alegre. Mas não sei quase nada. Eu tentei recuperar as coisas da família do meu pai há uns cinco anos. Eu sabia que tinha umas primas dele que moravam em Triunfo e eu fui atrás para saber os nomes do pai dele, do meu bisavô, os irmãos. Recuperei há pouco tempo. Minha mãe não falava muito da família do meu pai e nem da dela. Até para recuperar da família dela, eu recuperei com outros primos, com outros tios.

O que você sabe, então, dessa família que vem de Portugal?

Vanete – Da família da minha mãe, sei isso, que descende de Portugal. Sei apenas de minha bisavó, que minha mãe chamava de Mãe Zabé. Nem o nome dela eu sei. Devia ser Isabel. E sei que a minha avó era casada com um homem que era construtor, pedreiro. Alguns prédios em Serra Talhada como a Casa da Cultura foram construídos por ele. Sei que ele morreu jovem. Acho que com quarenta e poucos anos. Minha avó sofreu muito para criar a minha mãe, a minha tia e os seus filhos; e que eram muito pobres, eram agricultores. Tinham um pequeno sítio perto de Serra Talhada, que se chama Várzea. Lá eles viviam.

Fazendo o quê?

Vanete – Trabalhando na agricultura. As minhas tias-avós, os meus tios-avós trabalhavam na agricultura. A minha mãe, a sua irmã e o seu irmão já não trabalharam na agricultura.

Essa avó, mãe da sua mãe, você chegou a conhecer?

Vanete – Essa eu conheci. O nome dela era Leonor Almeida, mas ela estava sempre vestida de preto porque ela era viúva – acho que naquele tempo era assim. E todos os netos, nós a chamávamos Mãe Preta.

O que você lembra dessa avó?

Vanete – Ela foi quem me criou. Essa avó, com uma tia, desde os três anos de idade. Eu sei que minha irmã estava muito doente e eu era pequena, ficou difícil da minha mãe cuidar das duas. Aí, eu fui para minha avó e minha tia e não voltei mais pra casa dos meus pais. E minha irmã morreu.
Lembro que minha avó era uma senhora muito forte, muito firme, que me ensinava muitas coisas, que não fazia separação do neto homem e da neta mulher. Isso foi uma coisa que eu aprendi muito cedo porque ficava sempre na casa dela, eu e um neto dela. Acho que o primeiro neto dela, que se chama Noelito. E, quando nós dois fazíamos alguma coisa, ela sempre botava nós dois de castigo e nós dois fazíamos crochê. Ela dava uma agulha de crochê e uma linha, e o castigo era ficar sentado, fazendo crochê. E fazíamos os dois. E a educação e o castigo que ela dava a ele ou a mim era sempre o mesmo.

Como era essa casa da avó onde você morava?

Vanete – Eu me lembro que foram várias casas. Teve uma casa no município de Betânia onde meu pai trabalhava, e foi aí que meu pai morreu. Minha mãe, meus irmãos e meu pai moravam na melhor casa do acampamento. Uma casa que tinha água, que tinha luz, que tinha terraço, que tinha jardim. Era a casa do gerente. Mas eu, minha avó e minha tia, por opção da minha avó nós morávamos com os operários. E a casa era muito simples. Era uma casa que tinha uma sala, um quarto, um corredor, uma cozinha. E logo atrás ficava o estendedor do cisal, do material que meu pai trabalhava. Eu via muito os operários trabalhando. E eu me lembro que eu era proibida de ir à fábrica porque meu pai tinha muito medo que se rompesse uma correia, alguma coisa, e me acidentasse.

Que fábrica que era? Você falou em um acampamento…

Vanete – Era uma fábrica de caruá ou sisal. Lá eles desfibravam o caruá e faziam aqueles fardos enormes, que iam para Caruaru para ser transformado em tecido, em outras coisas.

Vanete – Caruá um tipo de sisal.

E era um acampamento, por quê?

Vanete – Atrás da casa tinha um terreno muito livre, onde se passavam os estendedores para a fibra do caruá secar. Para poder ser armazenado e transportado. Era atrás da minha casa, da casa dos operários.
Depois, nós moramos em várias casas. Moramos em um bairro de Serra Talhada, porque minha tia estava trabalhando em um posto, em uma revenda de automóveis. A gente morou nessa casa. Depois, moramos em outra casinha que ficava próximo da igreja. E só, por último, eu me lembro que, já com minha avó, meus irmãos e minha mãe, nós moramos na casa que é propriedade de minha avó, que fica na praça, e que nos pertence até hoje.

Por que chega um momento que você volta a morar com a sua mãe e seus irmãos?

Vanete – Passamos eu, minha avó e minha tia a morar com a minha mãe, que estava viúva, e com meus irmãos. Minha tia ajudava a manter as despesas da casa. A minha tia casou e foi embora. E eu fico com a minha avó, minha mãe e meus irmãos.

Voltando só um pouquinho. Você sabe como é que seus pais se conhecem? Como eles se casam?

Vanete – Eu sei que minha mãe era muito bonita… E muito namoradeira e muito paquerada. Sei também que ela via casamento como uma solução para a vida. Era como se fosse um bom emprego. Eu imagino que minha mãe só casou com o meu pai porque ele oferecia uma boa condição de vida. Porque minha mãe era muito racista. Então, como é que ela ia casar com um homem negro? Como meu pai tinha boa condição de vida, acho que ela nem via ele muito negro. E não sei como eles se conheceram. Deve ter sido em uma festa, não sei. Ela nunca falava disso.

E o que eles contam do seu nascimento?

Vanete – Do meu nascimento, minha mãe contava que quando estava se aproximando para ela parir a minha avó e o meu pai disseram: “Vamos para Serra Talhada”, que é onde nós nascemos. E ela disse: “Não, eu vou ter essa criança aqui. Porque aqui tem uma boa parteira. Mãe está aqui. Eu já tenho três filhos. Para eu me deslocar com criança é ruim. Eu vou ter aqui.” E aí eu nasci.

De parteira…

Vanete – De parteira, em uma casa muito simples, que era vizinha à fábrica de caruá. E eu nasci. E ela contava que eu nasci às vésperas do São João. Dois dias depois que eu nasci era uma grande festa, com fogos, com danças. Isso é o que eu sei do meu nascimento. E que eu nasci bem.

Aí cresce com sua avó… o que fica forte para você nessa primeira época da vida, Vanete?

Vanete – Para mim, uma coisa que fica forte, que eu me lembro, é que eu tinha vestidos muito lindos. A minha tia bordava, ela sabia fazer bordados, e os vestidos eram belíssimos. Eu era muito magrinha, meus vestidos eram sempre rodados, com um laço de fita. E eu me lembro que eram tão lindos os meus vestidos que eles sempre estavam sendo emprestados. As pessoas vinham buscar para fazer igual para suas filhas.

Como eram esses vestidos?

Vanete – Eles sempre tinham uma saia muito rodada, com bordados abaixo. Eles eram de nesgas e tinham bordados nas nesgas. E uma coisa que eu me lembro também é que eu cresci muito rápido e aí eu fiquei sem roupa. Minha roupa ficou muito curta e, um período, eu fiquei muito sem roupa.

E, esses vestidos, você usava para que ocasião?

Vanete – Com esses vestidos, eu passeava na praça, com outras crianças e ia muito para a igreja. A minha época de infância e de juventude foi a época que eu mais rezei na minha vida. Hoje eu nem rezo quase. Mas nessa época eu rezava muito. Eu era beata de igreja.

Você ia para a missa?

Vanete – Ia para a missa, ia comungar, ia rezar o terço. Ia para festas que a igreja fazia, e era com esses vestidos lindos.

Das festas, você lembra de ter participado de algumas?

Vanete – Das festas eu só me lembro que o padre era muito estúpido. Que ele batia nas pessoas, empurrava. E que eu sempre estava fora porque eu não queria passar por aquele desagravo.

E foi nessa época que você começou a estudar?

Vanete – Ah, sim. Uma coisa que eu me lembro, quando meu pai estava vivo, antes dos meus sete anos, é que ele ia para o mato, para a caatinga, colher o caruá com os operários e às vezes me levava. E me lembro que ele protegia a frente do carro para que eu dormisse dentro da cabine. Eu era tão pequenininha porém lembro nitidamente.

E já me lembro estudando em Serra Talhada. Eu e minha irmã Vanda indo para a escola. Era sempre escola pública. Era uma escola municipal e outra estadual. Eu gostava muito. Gostava muito de estudar, de ir para a escola.

Como era essa escola?

Vanete – Eu era muito cuidada. Eu já era uma moça, acho que eu tinha 12 ou 13 anos, e não podia ir para a escola só. Tinha uma moça que passava, que me levava para a escola. Era muitíssimo cuidada. Eu não sei como eu não fiquei abestalhada.

Devia ser pertinho…

Vanete – Era pertinho. Mas eu não fui uma criança assim que podia correr, brincar. Quando ia sentar, tinha que ser com as perninhas fechadas, ser bem educadazinha. Falar direito. A minha avó e minha tia primavam muito que eu fosse uma moça muito fina.

Na escola, eu me lembro que uma professora que me acompanhou desde a primeira à quinta série era muito boa. Eu me lembro dos meus colegas. Homens e mulheres que eram maravilhosos. Tinha os que eram muito capeta, davam muito trabalho. E eu ria muito com as coisas que eles faziam.

O que vocês gostavam de fazer quando crianças?

Vanete – Eu gostava de subir em árvore. Era proibida de subir, mas eu gostava de subir em árvore. Gostava de brincar de boneca. Eu brinquei de boneca até 18 anos. E, na casa da minha avó, eu tinha constantemente a minha casa de boneca arrumada, já fazia parte do adorno da casa.

Uma casinha de boneca?

Vanete – Uma casinha de boneca linda. Com sala, com cortina, com colchinhas bordadas.

Você usava um pedaço da sala?

Vanete – Um pedaço da sala para as minhas bonecas. E esse primo meu que ficava muito junto de mim. Eu não gostava muito quando ele estava porque ele queria fazer mudança. Ele tinha um caminhão e aí ele dizia: “Não, aqui não. Vamos mudar. Você vai para outra cidade”. E aí botava as minhas bonecas tudo em cima do caminhão, ele passava uma lona e levava para outro canto. Eu ficava muito desassossegada.

Devolve as minhas bonecas…

Vanete – É. “Para onde vamos agora?” Com esse caminhão carregado com as minhas bonecas? Ele dizia, para outro canto.

Como era a sua vida dentro de casa? Era muito livre?

Vanete – Dentro de casa. não era muito livre, mas eu era muito amada. Muito mimada, muito cuidada. Mas eu não podia ir para a casa da vizinha. Eu fugia para ir ficar com a menina da vizinha. Eu não podia. Minha avó achava feio uma menina que vivia na casa dos outros. Não podia brincar na praça, correr, que ela dizia que eu ia cair. Uma vez eu caí, quebrei um dente. Aí é que ficou difícil: “Não disse que você cai?” Então, eu era muito de casa, de dentro de casa. Em casa, eu podia fazer tudo o que eu quisesse. Lavar prato, lavar roupa, varrer, brincar de boneca, bordar, o que quisesse. Mas era dentro de casa.

E você vai crescendo com essa figura da sua avó…

Vanete – E da minha tia. Foram as figuras mais fortes na minha vida.

E a vida delas, a rotina delas como mulher, naquela época, como era?

Vanete – Minha avó vivia dentro de casa. Só fazia comida e fumava. Ela fumava e eu odiava. A cozinha tinha um fogão de lenha e ela aqui na sala fazendo crochê ou lendo alguma coisa, dizia: “Netinha, me traga um cigarro aceso e venha fumando”. Ah que ódio que eu tinha! Porque o cigarro tinha um gosto ruim na minha boca e eu não gostava. Mas eu trazia o cigarro dela. Me lembro que ela lia muito, ficava sentada em uma cadeira e ao lado tinha uma pilha de livros, podia ser cordel, livro de história, o que fosse. Ela lia muito e contava as histórias para a gente. Fazia crochê e cuidava dos afazeres da casa.

E a sua tia também?

Vanete – A minha tia bordava, e às vezes trabalhava fora.

Você foi crescendo, voltou a morar com os seus irmãos, com a sua mãe. A rotina da casa mudou?

Vanete – Aí eu já tinha acho que 14 ou 15 anos. Para mim, foi muito difícil conviver com meus irmãos porque, sozinha, eu era a rainha, a bem da verdade. E agora tudo era dividido com meus irmãos. Ficou difícil para mim. E eu já começo a trabalhar. Com 11 anos eu começo a fazer bordados para fora, para ganhar dinheiro. Minha tia já me incentiva a fazer o que ela fazia.

Ganhava um dinheirinho para você?

Vanete – Para mim. Eu já começo a ganhar dinheiro com 11 anos.

Você fazia o quê com esse dinheirinho?

Vanete – Eu comprava roupas, eu sempre gostei muito de roupas. Eu comprava bombons e também uma parte eu queria que fosse das despesas da casa.

E, depois desse trabalho, como é que isso foi seguindo?

Vanete – Depois eu começo a trabalhar na secretaria de um colégio, onde eu trabalhei por 15 anos. Era à noite. Eu bordava o dia inteiro à máquina. Eu bordava muito para a elite da cidade. Bordava muito bem. E, à noite, eu ia para o colégio trabalhar. Eu vivia procurando fazer algum concurso, alguma coisa para eu ter um trabalho melhor que eu tivesse um dinheiro mais certo. E eu fui estudando e aprendendo mais. Eu só tenho a quinta série primária.
Uma vez, eu fiz um concurso dos Correios. Eu tive que estudar Geografia, saber as cidades e as capitais, estudar até a Europa, a Ásia, estudar tudo. Depois eu fiz um curso do Sesp – Serviço Especial de Saúde Pública. Fui para Penedo, passei seis meses aprendendo sobre saúde, sobre curativos, partos, que também me deu uma bagagem muito boa de aprendizagem. Mas esse emprego não saiu. Então, eu voltei para a secretaria do colégio e fiquei trabalhando.
Quando eu estava na secretaria do colégio, eu fazia um trabalho voluntário na periferia da cidade. Eu tinha preocupações com os pobres e principalmente com os velhos. Eu adotava um velho e cuidava dele. Levava roupa, comida, via como ele estava. Com outras moças, da cidade nós fazíamos isso. Cuidávamos dos velhos, o grupo se chamava “Luizas de Marilac”.

Eu vou só voltar um pouquinho. Você pára de estudar na quinta série por quê?

Vanete – Porque a minha tia e a minha avó eram pobres. Naquela época, estudar era caro. E eu não podia estudar.

E você começou a trabalhar o dia todo no bordado?

Vanete – Sim.

Que bordado era esse? Como é que era essa vida de bordadeira?

Vanete – A vida de bordadeira era maravilhosa, eu tenho saudades. Você chegava com uma blusa e dizia: “Eu quero essa blusa bordada”. Ou você trazia o desenho que você queria e eu fazia a proposta: “Olha, esse desenho fica bonito na sua roupa assim, assim”. E aí eu bordava e lhe cobrava.

Eram flores…

Vanete – Eram flores, eram pássaros, eram roupas de criança que podiam ter palhaço, ter trem, ter carro, era rechilieu, que é um bordado aberto, ou um bordado aplicado. Essa flor aplicada em uma roupa. Ou toda feita de linha, como aquele vestido que eu estava usando.

À agulha?

Vanete – Era na máquina.

Como é que era essa máquina de bordar?

Vanete – O bordado era na máquina que funciona com pedal, não era máquina com motor. Tem um bastidor que a gente estica o tecido e vai bordando.

Horas e horas…

Vanete – Quando era época de festa, no mês de setembro, eu trabalhava até quatro, cinco horas da tarde, e suspendia. Tomava banho ia ao colégio, voltava umas 10, 11 horas, trabalhava até duas, três horas da manhã para poder dar conta dos trabalhos encomendados. Era um período que eu podia ganhar dinheiro e tinha que avançar.

Você lembra um bordado que você gostou de fazer?

Vanete – Ah! Lembro de muitos. Tinha uns bordados que tinham um tecido que chamava organdi. Um tecido fino que eu bordava bem colorido, bem delicado, umas florzinhas. E eu adorava. Roupa de enxoval de bebê. Você ia parir, então você trazia todos os panos do berço, o qual você ia envolver o neném, a manta. Tudo para eu bordar. E eu lhe entregava pronto.

E você aprendeu isso com sua tia?

Vanete – Sim, aprendi com minha tia, e durante muitos anos ganhei dinheiro fazendo isso.

Você continua bordando, vai estudando por conta própria…

Vanete– Por conta própria. Sempre fui estudando por conta própria.

Como é que você tinha acesso a esse estudo?

Vanete – Por interesse. Bom, eu procurava nos livros de Geografia, por exemplo, para o Correio, eu procurei.

Tinha biblioteca na cidade? Como é que chegavam esses livros?

Vanete – Não, eu me lembro que eu procurava amigas minhas que tinham conseguido estudar. Eu tomava emprestado o livro. Pessoas que eu sabia que sabiam mais Matemática, eu pedia que me ensinassem. E assim eu ia estudando.

Havia uma valorização do estudo na sua casa?

Vanete – Tinha uma valorização do estudo porque só eu e minha irmã mais velha não estudamos. Todos os outros estudaram. Meu irmão terminou Direito. Minha irmã terminou Contabilidade. E outra terminou o Pedagógico. Todos os outros conseguiram estudar.

Sua mãe e sua avó?

Vanete – Minha mãe sabia escrever e ler. Minha avó também. Mas acho que elas fizeram primeira ou segunda série. A minha avó sabia mais que minha mãe.

E como é que o trabalho voluntário chegou na sua vida?

Vanete – Aí começou o trabalho voluntário.

Como é que você começa nisso?

Vanete – Eu não sei exatamente como começou. Eu sei que eu conheci uma freira, nem me lembro direito, ela fazia distribuição de comidas com os pobres, lembro que era queijo, óleo, farinha de trigo. Acho que devia vir dos Estados Unidos. E ela sempre me pedia para ir ajudar nessa distribuição. E eu fui. E aí eu fui percebendo a pobreza da periferia da cidade. E fui entrando nisso cada vez mais. Eu via um pobre em uma casa que estava quase caindo; eu ia para algumas pessoas na cidade: “Vamos reconstruir aquela casa”. Íamos e reconstruíamos. Via uma pessoa que estava com tuberculose, doente, sem tratamento, trazia essa pessoa para o hospital. Isso, eu jovem, 14, 15 anos. Havia um abrigo de velhos, e os velhos passavam muita fome. Eu conseguia um carro e um microfone e saía pela rua pedindo: “Me dê um quilo de feijão, um quilo de açúcar para o abrigo Ana Ribeiro, eu conseguia encher a caminhonete.

Mas uma menina de 15 anos fazer essa movimentação toda. Como é que isso era recebido na comunidade? Era bem visto?

Vanete – Era. Eu acho que as pessoas se acercavam muito de mim. Quando um pobre me procurava ou quando tinha roupa para dar vinha me dar. As pessoas achavam bonito o que eu fazia. E com esse abrigo eu comecei a entrar no campo, no meio rural também. Essa freira falava que no campo a situação era mais ruim. E uma vez, era um ano de bom inverno, eu disse: “Esse ano eu vou fazer…”, eu já devia ter uns 18 anos, “eu vou fazer uma campanha para o abrigo, vou fazer no campo”. Consegui um caminhão e me enfiei no campo pedindo abóbora, milho verde. Trouxe o caminhão cheio.

Onde é esse campo, Vanete? Onde você estava morando?

Vanete – Eu morava em Serra Talhada.

Que paisagem era essa, que campo era esse?

Vanete – Ah! Uma paisagem muito linda. Da caatinga, das árvores, das plantações de milho, que, no inverno, fica muito bonito, que no verão fica muito feio. Muito seco, com muita falta de água. E fui continuando. Eu não sei nem como as coisas acontecem, porque vai acontecendo tão espontaneamente na minha vida, vão se entrelaçando pessoas. Eu fui conhecendo pessoas que também tinham interesse pelo trabalho voluntário. E chegamos a formar um grupo que tinha bancário, médico, agrônomo, estudante de sociologia, eu. E todo fim-de-semana nós íamos para a área rural conversar com as pessoas.

As pessoas moravam como?

Vanete – As pessoas moravam longe da cidade. Tinham uma estrada de terra e ruim, que até hoje é ruim. Tinham transporte uma vez por semana, não tinham luz, não tinham água. As pessoas moravam assim no meio rural, há uns 30 anos.

E você viu alguma coisa, em suas primeiras idas, que te chocou no campo?

Vanete – Eu via muita aquela solidão de morar no campo. Sem luz, sem água. Via as crianças sem uma perspectiva, sujas, sem higiene, a escola muito longe. Eu via, mas eu não via muito. Eu sentia aquela vontade e aquele compromisso de estar com aquelas pessoas, mas eu ainda não conseguia ver muito bem. Aí eu comecei esse trabalho voluntário e eu falava com os trabalhadores rurais, e comecei a estudar reforma agrária, a história do sindicalismo, comecei a estudar outras coisas. E um dia no município de São José do Belmonte os trabalhadores me chamaram para falar, para discutir sobre a terra. Eu fui e fiz uma discussão com eles sobre a terra. E havia um trabalhador que era dirigente da Federação dos Trabalhadores, Euclides Nascimento, que ficou impressionado comigo por duas coisas: porque eu sabia fazer aquele trabalho e porque eu fazia um trabalho voluntário. E eu fazia um trabalho voluntário com os trabalhadores rurais em uma época politicamente muito perigosa, nos anos 70, sem nenhum respaldo institucional.

Que perigo era esse?

Vanete – Era o tempo da ditadura militar, e de prisões e mortes de lideranças. Era um trabalho político que naquela época lhe dava a morte. E ele ficou muito impressionado como eu tinha passado todo aquele período trabalhando com os trabalhadores e não tinha sido presa, não tinha acontecido nada.

Que trabalho era esse, Vanete?

Vanete – Era de visitar as pessoas, de conversar com elas sobre a posse da terra, de conversar com elas sobre o que fazer para defender sua plantação, para não deixar que o gado do rico destruísse sua plantação, sobre os direitos. Era um trabalho assim, e era muito com os homens.

Você aprendeu esse trabalho com quem?

Vanete – Olha, eu não sei como eu aprendi. Eu fui fazendo as coisas. Eu acho que eu fui aprendendo com os próprios trabalhadores e fui percebendo o que é que eles precisavam aprender. Aí eu voltava e estudava.

Isto como uma continuidade daquele trabalho voluntário inicial?

Vanete – Como uma continuidade do trabalho. Só que agora não era mais na cidade, agora já era no meio rural.

Você também levava o que eles precisavam, além das conversas…

Vanete – Não, não levava o que eles precisavam. Isso tinha sido na periferia. Agora era um outro momento. Para o meio rural, eu levava o que eles precisavam em termos de conhecimento. Aí a Federação resolve me contratar. Esse homem que se impressionou comigo chega dentro da Federação e diz que eles precisam me contratar. E, quando eles me chamam, eu discuto com alguns amigos, vejo o que eles acham. O pessoal acha que é uma boa, que eu devo aceitar a proposta de trabalhar na FETAPE. E eu entro na Federação. E começo a coordenar 15 sindicatos, 15 municípios. Que deve ser 200 mil trabalhadores. Uma quantidade muito grande. Aí eu estou com a faca e o queijo na mão, né? Como se diz. Eu agora tenho muito espaço para trabalhar tudo o que eu quiser.

A participação, eu posso estudar a posse da terra, e a gente começa uma luta, no município de Serra Talhada, para defender a plantação com 50 famílias, que moram em terrenos que são compridos e que elas não podem cercar. E o gado dos ricos vem da Paraíba e de outros lugares e destrói a plantação deles.

Plantação do quê?

Vanete – De milho, de feijão, de abóbora. E nessa luta a gente perde o presidente do sindicato. Ele é assassinado. E mais duas lideranças são assassinadas. E muitos de nós somos ameaçados. Mas a gente consegue fazer a cerca e transformar isso em uma lei no município.

Por que a cerca não era permitida?

Vanete – A cerca não era permitida por costume e por poder dos mais ricos. A gente implanta a cerca e faz disso uma lei que se chama Lei do Travessão: todas as roças onde os trabalhadores não podem cercar, a prefeitura tem que cercar para que as roças não sejam destruídas por animais.

Nessa época, você já está 100% dedicada ao trabalho com os trabalhadores?

Vanete – Sim, eu já não bordo mais. E já tenho os meus filhos – que eu ainda vou contar. Dedico as 24 horas do dia. Trabalho feito uma louca. Viajando, andando de cavalo, andando a pé, só não ando de bicicleta porque eu não sei. No começo, eu não tinha um carro. Andava no carro da freira, no carro do padre, pegando a estrada. Depois, eu consigo um fusca, que me ajuda muito já estou mais veloz, já posso ir onde quero.

Com motorista?

Vanete – Eu não dirijo no começo. Mas começo a aprender e começo a dirigir. Aí vou-me embora. E com dois anos de trabalho, entre 1980 e 1982, eu começo a me inquietar, a me incomodar com a ausência das mulheres. Onde estão as mulheres rurais? O que houve que eu nunca percebi isso? Eu só trabalho com homens, faço reuniões com 200 homens e não vejo mulheres.

Nunca tinha pensado nisso? O que é que te fez começar a pensar?

Vanete– Acho que o incômodo de ficar sozinha no meio de tantos homens. Quando a gente tinha que dormir em um lugar, um monte de homens e só eu, eles sempre faziam uma proteção para o lugar que eu ia dormir. E eu digo: “Mas como, por que não tem outra mulher? Por que só eu?” E aí comecei a me inquietar e fui procurando as mulheres.

Conta um pouquinho sobre o que você falou. Nessa época já tinha os dois filhos. Como é que foi caminhando essa história? Você ainda morava com a sua mãe, com a sua avó, seus irmãos?

Vanete – Não, minha avó já havia morrido. Minha avó morreu em 61. Isso já era anos 80.

Vanete – Minha professora, Francisca Godoy, que me acompanhou em todo período escolar, depois que eu saí da escola, se travou uma amizade entre nós. Nós éramos amigas, nos visitávamos…. Eu fui acompanhando cada filho que ela tinha. Ela tinha um casamento péssimo, cheio de violência. E o segundo filho eu fui madrinha dele. E foram nascendo os filhos e eu fui acompanhando. Quando eu estava em Penedo, no estágio do Sesp , nasce um filho dela, e ela me escreve uma carta dizendo como ele era. Dizendo que, como eu ia demorar muito em Penedo, quando eu voltasse, ele já estaria andando de velocípede, já estaria grande. Eu voltei e fui conhecer o bebê, era Léo .

Anos depois, a violência começa a aumentar dentro da casa dela, o marido batendo muito nela. E eu tento que ela saia, que vamos juntas, a gente aluga um carro e vai para qualquer lugar. Para ver se ela escapava da morte. Mas ela dizia que não. Como é que ela ia sair com nove filhos? Eu sei que ele mata ela na frente das outras crianças. E me caem em cima essas nove crianças. Porque todos eles queriam ficar comigo. Eu não era nada da família, eles tinham outras tias, mas todos queriam ficar comigo. E aí primeiro vem meu afilhado, passou uns dias, depois vem, aí a gente consegue que ele vá estudar em um colégio no Recife. Depois vem a menina, Noemita e a gente resolve alugar uma casa para ver se eles ficam todos juntos. Foi um desastre. Aí fomos localizando cada um deles, em colégios de freiras amigas ou com familiares.

Ela era uma pessoa bem relacionada, tinha uma freira amiga em Salvador, que tinha trabalhado com ela, que manda buscar uma das meninas, mais duas meninas vão para outro colégio de freira. A gente começa a localizar as crianças e sobram duas. A menor, a pequenininha, e o menino Leonardo. E o meu afilhado diz: “Ó, madrinha Vanete, eu já sou grande, já me viro, mas eu queria que você cuidasse de Léo”. É o pequeno. “Bom, vamos ver como vai ser eu cuidar de Léo.”

A tia dele nunca tinha tido filhos, e com essa angústia de tanto menino, ela estava muito apavorada com tudo. Eu fui lá: “Leonor, Bebeto quer que eu fique com Leoninho. Eu fico. Agora, eu só fico se a família não se meter. Sou eu que vou cuidar e que vou educar Léo. Assim eu fico”. Aí ela disse: “Tudo bem, se você quer ficar com ele eu lhe dou”. Todo dia eu ia dar banho nele e só saía de lá quando ele dormia. Se eu não fosse, ele chorava. Na minha casa, achavam que eu, solteira, com 20 e poucos anos, era uma responsabilidade muito grande adotar um filho, né? Mas não me incomodei, comecei a criar Léo.

Léo veio, era uma criança muito difícil, não conseguia dormir, não conseguia estudar. Tinha medo de tudo. E eu nessa época ainda estava no colégio e no bordado. Ganhava pouco, mas resolvi que tinha que fazer um tratamento com Léo. Fui ao Recife e consegui uma psicóloga que ia tratar dele sem que eu pagasse, porque eu tinha a despesa da viagem, e assim foi. Pelo menos uma vez por mês, eu ia e ele fazia as sessões com a psicóloga. Então ele foi melhorando, foi conseguindo estudar, já dormia. Bom, aí eu resolvi que eu e Léo tínhamos que ter uma casa. E resolvi sair de casa. Fui para uma casa com Léo. Foi ótimo. Uma casinha simples e linda.

Que casinha era essa?

Vanete – A casinha era linda, era atrás da igreja de Serra Talhada, a um quarteirão da casa da minha mãe. Mas era muito lindinha. Tinha uma sala, dois quartos, uma sala de jantar, cozinha e um quintal grande, onde Léo criava os galos dele, os bichos dele. Guardava os brinquedos. Era muito lindo.
Uma mulher solteira, com filho pequeno, era difícil tomar essa decisão: “Vou morar, ter a minha casa” em Serra Talhada?

Vanete – Era. Nem existia uma mulher solteira que adotasse um filho. E, muito menos, uma mulher solteira com um filho que morasse em uma casa. Pelo menos na classe que eu pertencia, isso não era comum, não acontecia. Foi assim meio escandaloso para a cidade. Minha mãe, meus irmãos ficaram meio envergonhados. Eu contei com o apoio de pessoas importantes como o padre Jesus. Ele me apoiou. Essa casa que eu fui morar, inclusive, era do padre e eu só pagava uma pequena referência. Não era um aluguel. E um comerciante João Duque, um homem da cidade que era meu amigo, também me apoiou muitíssimo. Fez a reforma da casa, colocou algum móvel que eu não tinha. Eu não comprei nada para a casa. Tudo eu ganhei. Ganhei a geladeira, ganhei o fogão, ganhei a mesa, ganhei as cadeiras. Ganhei as coisas de botar legumes. Ganhei os pratos. Ganhei tudo. Tudo as pessoas, os meus amigos, me deram. E fui com Léo. Estávamos muito felizes.

Aí, quando eu estava trabalhando com aquelas freiras, eu também ensinava as mulheres a bordar. Eu tirava um espaço; achava que era tão bonito bordar, que era bom ensinar a elas. E aí eu tinha um curso de bordado. E nesse curso de bordado havia uma mulher da área rural. Ela plantava naquelas terras na serra de Serra Talhada, você vai conhecer. Ela plantava lá em cima com o marido dela. E estava grávida do terceiro filho. E ela grávida me disse: “Vanete, eu queria que tu fosse madrinha desse meu filho.” “Tá bom, eu vou ser madrinha do seu filho.” Aí fui.

Quando ela pariu, era uma menina, e eu com o meu irmão fomos o padrinho e a madrinha. Ela morava em um bairro pobre de Serra, e eu tinha muitos afilhados e afilhadas. Mas eu sempre tive, e tenho, o costume de acompanhar, de ver como está. E eu acompanhava a Adenilda. Ver como ela estava, se estava bem na escola, como estava. E um dia me chegou a notícia que a mãe dela ia subindo essa serra carregando peso, e que tinha tido uma ruptura , um problema e teve uma hemorragia e morreu.

Carregando que peso?

Vanete – Bom, a Adenilda ficou com o pai. E o pai era muito apaixonado pela mãe, ficou com muita dificuldade e morreu também. Em dois anos, o pai morreu. E a Adenilda veio ficar com um tio e uma tia. Dois velhos que passaram a cuidar dela. Os outros irmãos tiveram outro destino e ela ficou com esses tios. E eu sempre acompanhando. Morreu o tio, ficou só a tia. E um dia a tia me visitou, disse que estava doente e que estava com muito medo, que ia morrer e ia deixar Adenilda. Eu disse a ela que não, não tinha problema. Se ela morresse, a Adenilda vinha para mim. Agora eu já tinha uma casa, não tinha dificuldade.

Um dia, eu fui coordenar uma eleição do sindicato de Belmonte. Quando eu voltei, que chego na casa da minha mãe, sempre eu passava para beijá-la, para saudá-la, lá está a Adenilda, de pé na porta. “Ah! Morreu a tia”. Eu pensei. E tinha acontecido. A tia dela tinha morrido enquanto eu estava fora, meu irmão soube, foi lá, ajudou no que pôde no enterro e trouxe a Adenilda que era minha. Bom, eu pego a Adenilda com a bolsinha dela e levo para casa. Ela tinha 10, 11 anos.

Quando eu chego em casa, Leoninho estava trepado em uma goiabeira. Ele gostava de ir pra goiabeira. Eu deixo ela dentro de casa e vou lá comunicar a ele. Bom, antes de chegar a Adenilda, sempre morou conosco filhos de trabalhadores. Havia uma criança que tinha dificuldade de estudar, a escola era longe, vinha passar o ano comigo. Havia outro que a família estava com muita dificuldade, vinha. E ele não gostava: “Tu quer ser a mãe do mundo” falava ele. Ele não gostava. Aceitava criança que vinha, temporária, mas não gostava. E eu já sabia que ele não ia gostar da chegada de Adenilda. E eu fui lá: “Léo, eu tenho duas notícias para lhe dar”. Eu estava chegando: “Vanete, tu chegou? Tá tudo bem?” “Tá Léo, tá tudo bem. Eu tenho duas notícias para te dar”. Ele tinha, acho, 14 anos. “Se lembra da Adenilda, aquela minha afilhada do alto?” “Sim, eu sei.” “A tia dela morreu. Essa é a notícia triste. A notícia boa é que ela vem morar com a gente.” Aí ele diz: “Para mim todas as duas são tristes e ruins.” E ficou nessa árvore, isso era de manhã, ficou nessa árvore até de noite. Não desceu.

Eu tive muita dificuldade porque ele não aceitava a chegada da Adenilda, ele tratava ela mal. Foi muito, muito difícil.

E eles estudando, você trabalhando fora…

Vanete – Eles dois estudavam. Cada um tinha uma chave. Sempre, à noite, eu preparava o que era de comida. Se não, eles ajeitavam. A Adenilda é uma excelente cozinheira, cozinhava bem. E a gente dividia as tarefas. Qual era a minha tarefa, qual era a tarefa de Adenilda, qual era a tarefa de Leoninho, ele sempre me deu muito trabalho nas tarefas. Ele tinha a tarefa de lavar os pratos porque Adenilda é que cozinhava.

No início, ele quebrou todas as minhas xícaras. Todo dia quebrava uma. Quando ele quebrou a última, eu comprei outras xícaras, botei em cima da mesa e disse: “Olha, Léo, estão aqui outras xícaras. Agora, a primeira que você quebrar eu vou descontar da sua mesada. Porque você quebrou todas, Vanete está repondo. Mas a próxima você paga”. Nunca mais Leoninho quebrou uma.

E essa vida de mãe foi se conciliando com a vida de sindicalista?

Vanete – Sim. Essa vida de mãe foi se intermediando com a vida de ativista política, de sindicalista, de mulher participante das lutas dos trabalhadores rurais, e conversando com meus filhos, colocando as coisas, as dificuldades. E hoje, às vezes, eu olho para trás e não sei como eu passei essa fase. Então, eu não podia contar muito com minha família. Então, eu contava mais com amigos do que com a minha família.

Você ficava muito tempo fora, Vanete?

Vanete – Muito não. Eu fazia tudo para viajar e chegar à tarde. Mas, por exemplo, quando havia greve dos canavieiros, aí eu passava muito tempo fora. Dez, quinze dias. Uma vez eu estava em uma greve e minha mãe ligou dizendo, ela não gostava que eu participasse de nada, então, qualquer motivo ela me acusava. Disse: “Seus filhos estão se matando”, ela falou. Eu disse: “O que foi?” E logo: “Adenilda rasgou a barriga de Leoninho com um garfo!” “Tá bom. Tal hora chame os dois que eu vou falar com os dois.” Eles eram ótimos, verdadeiros. Aí eu disse: “Léo, o que aconteceu?” Ele disse: “Eu aperriei muito Adenilda. Ela estava com um garfo na mão, me passou o garfo na barriga”. “Adenilda, o que aconteceu?” Ela disse a mesma coisa. “Ele, mãe, ficou me irritando, como a senhora sabe, e eu estava com um garfo, passei-lhe na barriga para ele me deixar em paz”. Disse: “Olha, vocês sabem o que é que eu estou fazendo, não sabem? Eu estou aqui na luta dos trabalhadores, tentando defender os canavieiros da questão da violência aqui dos usineiros. Não vou poder voltar para casa agora, e eu quero contar com vocês. Quero que não aconteça mais isso”. Aí não aconteceu nunca mais.

Isso por telefone?

Vanete – Por telefone.

“Agora, passa para o seu irmão”.

Vanete – É. Isso na casa da minha mãe, porque era lá que tinha telefone. Eu não tinha. “Agora passa para o seu irmão. Pelo amor de Deus, o que é que está acontecendo com vocês?”. E aí eu me interava dos estudos, como é que estavam as coisas, como é que estava a feira que eu deixava.

O trabalho com os canavieiros estava ligado à atuação do sindicato?

Vanete – Não, estava ligado à Federação (FETAPE) eu já ia dar um apoio em outra área. A zona canavieira fica no litoral de Pernambuco. A minha luta no sertão era muito na questão da seca, das frentes de emergência, para que os trabalhadores no tempo de seca não morressem de fome. No sertão, era isso. Para defender a plantação do gado do rico. Era esse tipo de coisa.

E aí aparece essa percepção em relação às mulheres?

Vanete – Aí me aparece essa angústia e, um dia, eu vou para o Recife, converso com uma moça que tinha sido minha companheira no início do voluntariado (Haury) e digo a ela dessa minha angústia e ela diz: “Vamos começar um trabalho”. Eu disse: “Tu me ajuda?” Ela diz: “Ajudo”. Ela morava em Recife, mas uma vez por mês ela vinha. Aí a gente subia no caminhão, que nessa época ainda não tinha carro, e ia para o meio rural.

Eu escolhi uma comunidade, Caiçarinha da Penha, que a gente tinha um certo acesso. Tinha como chegar lá. Mas a gente chegava e não encontrava mulher. Era preciso sair, de casa em casa, visitando. Isso em uma pequena vila. A gente penetrou mais, foi para uma comunidade. Conseguia conversar com duas mulheres, com três mulheres. Assustadas, que não falavam. E a gente voltava, eu tinha um programa de rádio e fazia uma zoada dessas mulheres que eu tinha encontrado. Dava o nome delas, da comunidade. Que a gente estava começando a discutir com as mulheres rurais, tá, tá, tá. Quando eu voltava tinha mais mulheres.

Era uma rádio local?

Vanete – Era uma rádio local. Quando eu voltava, em vez das três, já tinham cinco nomes. Daí voltava, elas ficavam muito emocionadas e orgulhosas de seus nomes aparecerem no rádio, e juntava mais mulheres. E aí eu voltava e conversava. E assim foi…

Conversar sobre?

Vanete – Tentava conversar o que elas queriam conversar. Se elas queriam falar dos seus filhos, se elas queriam falar da fome, se elas queriam falar dos trabalhos. Eu ia escutar o que é que elas queriam dizer. E levava sempre uma informação. Uma história para contar a elas, para que elas gostassem da reunião e voltassem da outra vez. Um exercício, uma história. Alguma coisa eu levava para dizer: “Essa reunião foi boa”. Uma música. Cantava uma música para elas ficarem animadas, animarem outras e voltarem para a reunião.

E esse jeito de ouvir, de levar um estímulo… você foi criando um jeito de trabalhar, Vanete?

Vanete – Fui criando. Não sei de onde vinha a inspiração. Não sei. Fui escutando as mulheres e fui ajudando elas a falarem. Eu achava que eu não podia chegar com nada pronto. Eu nem sabia que mundo era aquele delas. Eu tinha que ouvi-las. Era muito emocionante. Porque, normalmente, até para dizer o nome delas elas tinham dificuldade. “Como é seu nome?” Tinha um tempo para esperar até que elas conseguissem dizer seu nome. E assim fomos. Quando foi em 84, já dois anos desse pinga-pinga, desse trabalho de formiga, em 84, por conta de eu estar em tantos municípios, eu consegui fazer um encontro, no qual vieram mulheres de vários municípios. Eu trouxe duas para fazer a preparação, para a gente discutir como ia ser o encontro. E acho que vieram 23 ou 25 no primeiro. A gente chama de Encontro Molhado. Só tinha choro, só tinha lágrimas, só tinha dor.

Com o apoio do sindicato? Ou isso já era uma coisa independente do sindicato?

Vanete – Não, eu tinha o apoio do sindicato, mas era muito mais o apoio à Vanete do que o apoio às mulheres. Era muito apoio a mim.

Você conseguiu organizar esse encontro com o apoio de quem?

Vanete– Consegui organizar esse encontro com o apoio dos sindicatos, alimentação, transporte. Trazer essas mulheres assustadas. “Para onde que nós estamos indo? Que é que vai acontecer? Que encontro é esse?” E para esse encontro eu já pensei: “Vou fazer um cartaz. Esse encontro tem que acontecer com um cartaz. Como é que vai chegar essa notícia para outras mulheres se não tem um cartaz?” Eu fiz um cartaz: “Somos mulheres e temos valor”. Era um cartaz simples, feito em uma gráfica em Serra Talhada, todo azul, com umas fotos de mulheres.

E, depois, fiz o relatório desse encontro. Elaborei um relatório bem bonito. Havia encontro em todo o estado e eu ia levar esse relatório e entregar para todo o estado. Porque dentro do sindicato, era muito mal visto esse meu trabalho com as mulheres. Diziam que eu era divisionista, diziam que eu estava querendo rebentar o movimento sindical com essa história de mulheres. Me faziam uma porção de acusações. Eu tive que fazer esse trabalho às escondidas. Sem a Federação saber que eu estava fazendo. E aí o clima era tão difícil que eu não pude entregar o relatório em mãos. Quando eles saíram para almoçar, em cada cadeira eu botei um.

Ia haver um congresso de trabalhadores rurais em Brasília, não sei se era o quarto ou quinto congresso. E eu disse, já com outra amiga minha, Daiza: “Vamos pegar o resumo desse pequeno encontro – que elas denunciavam que não podiam entrar no sindicato porque não eram associadas – e vamos levar para o congresso como uma tese?” E minha amiga: “Vamos”. Uma folha. Fizemos uma folha que era a participação de nós trabalhadoras rurais no nosso movimento sindical. Como tem toda uma burocracia; como nós estávamos em uma região do estado e isso tinha que passar dentro do material do estado, eu convoquei os homens. E pedi para eles irem até Recife e levar essa tese para ser introduzida dentro do material de Pernambuco. Uns homens muito lindos foram. Tinha um senhor velho que parece um rei, seu Joaquim. Disse: “Vamos lá”. E foram cinco homens. Chegaram lá, conversaram com a direção, a direção disse “não”. Que já estava fechado o material do Estado e não ia botar aquilo.

Aquilo era invenção de Vanete. Não ia colocar. Eles voltaram muito decepcionados, mas disseram que eu contava com eles dentro do encontro.
Aí eu conhecia o pessoal da Oxfam, eu não desisti. Disse: “Eu vou na Oxfam. Saber como é que a Oxfam pode me ajudar a levar essa tese.” Eu queria copiar cinco mil cópias para levar para cada participante do congresso, já que não tinha passado na tese de Pernambuco. Aí fui. A Oxfam compreendeu, me apoiou. Naquela época, só tinha xérox. Tiramos cinco mil cópias em Recife.

Encaixotei todas essas cópias, botei dentro da mala e levei para Brasília, nos ônibus da delegação do sertão. E, na viagem, eu fui discutindo com as poucas mulheres que nós tínhamos que distribuir aquela tese com todo mundo e fazer com que a discussão passasse dentro da Comissão de sindicalismo no Congresso.

E qual era o conteúdo dessa tese?

Vanete – Era a participação das mulheres no movimento sindical, que eu via que não tinha. E tinha que passar. Essa proposta era um grande momento nacional das trabalhadoras rurais. Havia uma mulher, que não era da região que eu trabalho, era de uma região vizinha, ela era presidente do sindicato de Itapetim, Dona Lia. Conversei a viagem toda com ela, para ela compreender, e entreguei na mão dela uma tese. Ela disse: “Fique tranqüila, Vanete, eu vou para o grupo de sindicalismo e eu levanto a idéia. E leio a tese.” Fiquei tranqüila. Só que peguei os companheiros e as companheiras e distribuímos as cinco mil cópias. Todos os participantes do congresso tinham uma cópia na mão. Mas como é muito papel que se distribui, não sei nem que repercussão isso teve. Mas dentro da tese de sindicalismo teve uma repercussão muito grande. E passou a idéia dos sindicatos associarem as mulheres, e começar a incentivar a participação das mulheres a nível nacional.

Elas não participavam até então.

Vanete – Elas não participavam. Na carteira do sindicato, elas eram dependentes do marido. E, se elas não tinham marido, elas não podiam se associar. Aí foi uma resolução a nível nacional e uma luta das mulheres, pela participação sindical.

Um pequeno detalhe que você falou: “Cheguei e fiz um relatório.” Por que essa preocupação em fazer um relatório já do primeiro encontro?

Vanete – E não só daquele. Tudo eu escrevia e guardava. Tudo. As primeiras reuniões, como foram, o que foi. E não sei também de onde veio, mas eu tinha um censo de registro da história. Eu achava que aquela história tinha que ser escrita. Tinha que estar registrada. E ela só podia estar registrada assim: à medida que eu fosse vivendo e fosse fazendo. Ia fazendo e guardando dentro do arquivo no Centro da Fetape em Serra Talhada – PE.

E depois desse momento importante, desse encontro nacional como é que foi avançando teu envolvimento com o movimento de mulheres?

Vanete – Ele foi se ampliando onde eu vivo, em Serra Talhada. No segundo encontro, eu já convidei umas mulheres da cidade para vir também. Uma mulher do SOS Corpo, que foi a Sonia Correia, que hoje é um grande nome internacional. Ana Bosch, das Loucas de Pedra Lilás. O pessoal da Oxfam, que tinha me apoiado. Também chamei umas mulheres da Paraíba. Eu estava sempre assim, com o olho aberto, sabe? Em cada lugar que eu ia, dizia: “Eu vou chamar essa pessoa. Na próxima eu chamo essa pessoa”. Pegava o endereço e chamava. Então, o segundo encontro foi um pipoco. Já tinha muito mais mulheres rurais do Sertão Central, de outros lugares.

Encontro local?

Vanete – Como aquele primeiro, local. Com um cartaz bem bonito. Esse já teve um cartaz muito mais elaborado, bem mais bonito. Aí, dentro do movimento sindical, eu mandei esse cartaz para as mulheres que eu conhecia de outras regiões. Botei no correio e mandei. E aí foi um sucesso. “O sertão central já está realizando um segundo encontro? Vamos chamar Vanete para a gente começar aqui.” E me chamaram em Petrolina, me chamaram em Garanhuns, me chamaram em Ribeirão, me chamaram em Rio Formoso, me chamaram em Carpina e eu ia. E realizava o primeiro encontro e estimulava as mulheres e elas seguiam. Fui para o Acre ajudar a organizar as mulheres da Amazônia.

E qual era o conteúdo desses encontros? Qual era a principal reivindicação naquele momento?

Vanete – Nesses primeiros momentos, era a participação, a organização. De que forma nós íamos fazer aquilo? Era também a identidade. “Quem sou eu?”. Era construir a auto-estima. Era saber sobre o meu corpo. “Como ele funciona? Como ele é?” E tudo isso está registrado.

São temas que surgiam delas?

Vanete – São temas que apareciam delas e que a gente ia construindo devagarinho. Me lembro que de corpo a gente fez todos os pedaços do corpo: o coração, o fígado, o intestino, o útero. Estavam todas as fichinhas viradas, e a gente ia perguntando a cada uma como era seu corpo por dentro. E elas não sabiam. Nem os nomes dos outros, elas sabiam. Sabia do coração, sabia do pulmão. O útero elas chamavam de outro nome. O intestino elas chamavam de outro nome. E a gente apontava tudo que elas conheciam, que elas sabiam no conjunto. E depois montava e dizia: “Isso aqui tem esse nome. É isso”. Era uma risada, elas riam, achavam bonito, estar aprendendo outras coisas. Coisa muito simples, muito simples, muito pequenina da vida delas. Mas que elas precisavam ir dominando aquilo ali e sabendo.

Uma vez discutindo o corpo, uma mulher, ela ficava ouvindo assim, escutando, escutando, e pediu para falar: “Mas, Vanete, eu tive 16 filhos e não sabia que eu era uma engenharia dessas?” Então era tudo muito lindo! Os depoimentos de cada uma. A questão da mulher, da importância da mulher, das relações entre homens e mulheres. E, este era muito difícil, sempre de domínio, violência, exploração, machismo.

Tem um momento que você sai do movimento sindical para…

Vanete – Sim, sim. Aí eu já estou também no movimento do Nordeste, organizando as mulheres no Nordeste. Vou sendo chamada para outras coisas e eu começo a priorizar as mulheres e a pensar que eu não posso mais continuar no movimento sindical. Eu começo a ter muita estafa, começo a ter muito estresse, a ficar doente. E eu resolvo que vou sair do movimento sindical, e saio. Converso com todos os dirigentes. É muito difícil essa minha saída. Na verdade, ainda hoje eu estou, ainda hoje eu sou chamada quando tem qualquer dificuldade maior no município, quando tem eleição dos sindicatos, quando tem festa eles sempre me convidam.

Quando você sai do sindicato, a gente já está em que época mais ou menos…

Vanete – Eu sou tão ruim de data, foi em 1992.

Foi muito antes de você ir para a Argentina e começar a idéia da Rede LAC?

Vanete – Quando eu fui para a Argentina em 1990, eu ainda estava com os sindicatos.

Coincide com a tua ida para San Bernardo, Argentina?

Vanete – Sim, sim.

Que encontro é esse?

Vanete – Nesse caminho, eu tinha ido para a Nicarágua. Em 1987, havia uma brigada, não sei como eu descobri, ia uma brigada de brasileiros para a Nicarágua. E eu assim, apaixonada pelo socialismo, né? “Eu vou lá ver como é.” E eu não tinha dinheiro para a passagem. Sempre fui pobre, sempre ganhei muito pouco. Aí eu passei uma carta circular para meus amigos: “Ó, pessoal, quero ir para a Nicarágua e não tenho dinheiro, vê como é que vocês me ajudam”. E chegou dinheiro na minha conta. Os trabalhadores me davam um real, dois reais, cinco reais. Um chegava com um casaco de frio, outro me dava uma meia, e estava pronta para ir para a Nicarágua. Nisso fui-me embora – eu só tinha Léo nessa época.

Fui para a Nicarágua, e lá a gente podia escolher para onde queria ir. E eu queria ir para o campo. Eu fui para uma fazenda estatal que se chamava La Pintada em Matagalpa. E fui colher café junto com os trabalhadores. Passei três meses. Perdi 10 quilos, isso foi bom. Essa parte foi boa. E aí fiquei cheia de verme, parecia um zoológico de verme. Foi uma experiência, boa, primeiro chegar na Nicarágua. Quando eu desci do avião, que pisei o solo da Nicarágua, eu não posso descrever a emoção que eu senti. Porque para mim, era como chegar no sonho. Eu tinha chegado no lugar onde os trabalhadores iam construir outra vida, era isso a Nicarágua para mim. Era chegar no sonho. Parecia que eu estava voando, não estava andando naquelas terras. E aí fui. Tive muitas decepções. Tanto com a delegação brasileira como com os dirigentes sandinistas. Tive enfrentamentos, etc.

Com os trabalhadores a minha relação foi a mais linda que você pode imaginar. Basta te dizer que eu estava assim, dentro da floresta, catando café e escutava: “Vanete, Vanete”. Era um trabalhador nicaragüense me trazendo uma comida especial. Eu ia passando e uma mulher chamava: “Vanete”. Ela estava me oferecendo um copo de leite. Então, minha relação com eles foi lindíssima.

Esse vínculo com a América Latina começa a nascer aí?

Vanete – É. Eu tive toda uma decepção com o socialismo, com os sandinistas. Mas eu começo a pensar que nós temos que nos unir, que romper com as fronteiras. Que a Nicarágua não pode ficar tão longe do Brasil como é hoje. E eu já tinha ido a uma reunião feminista em 83, 84 onde as reuniões se davam na sala da casa onde eu estava hospedada. E ali, noto que eu precisava fazer alguma coisa.

A quais reuniões na sua casa você está se referindo?

Vanete – No encontro feminista. Eu encontrava com operárias, digo: “Vamos à minha casa conversar?” Encontrava uma mulher que trabalhava: “Vamos à minha casa conversar?” E eu cheguei a juntar mais de 20 mulheres dentro da casa que eu estava hospedada – chalé em uma conversa informal. Conversar como era no teu país, como era no meu. E aí eu botei na cabeça: “No próximo encontro feminista, eu vou fazer uma oficina dentro da programação. Aberta. Não vai ser assim na sala do meu chalé”. Foi quando eu propus a oficina “Nossas Vidas, Nossas Organizações”. Para o V Encontro Feminista Latino Americano e do Caribe na Argentina em 1990.

Em 90?

Vanete – Em 90, em San Bernardo, na Argentina. E fui para lá.

Esperando que acontecesse o quê?

Vanete – Ah! Eu esperava encontrar muitas mulheres lá, e que a gente ia falar muita coisa. E que ia ser uma oficina muito bonita. Mas aí no primeiro dia não chegou ninguém. Eu enchi de cartazes dizendo: “Mulheres rurais e quem trabalha com mulheres rurais vamos nos reunir em tal lugar”. Eu enchi no refeitório que eu sei que é um lugar onde todo mundo vai. No outro dia, estava cheia a oficina. Fiquei muito feliz. Estava super linda. E aí não nos separamos mais. Nessa oficina, todo dia, estávamos juntas.

Eram trabalhadoras rurais?

Vanete – De trabalhadoras rurais, estavam as brasileiras, Kika, do Uruguai, e duas argentinas. Eram poucas. Acho que oito mulheres rurais. A essas, eu dava a principal voz. Elas falavam primeiro. Depois, eu abria para a roda para escutá-las. E como fomos apertando a coisa, tiramos um documento para ser lido no final do encontro, dizendo qual era a posição das mulheres rurais naquele encontro. E nos reunimos – eu, Betty Leveau, Kika Casas, Isabel Saez e outra da Argentina -: o que é que nós íamos fazer depois daquilo? Nós não podíamos parar ali.

Nesse documento, que coisas que vocês precisavam falar nesse momento?

Vanete – Oficina Rural: “Nossas vidas, nossas organizações”
1. Para nossos movimentos de Mulheres Rurais:
- Lutar para conseguir uma participação maior da Mulher Rural nas organizações sindicais, gremiais, cooperativas, partidos políticos;
- Lutar para que a mulher tenha acesso à terra ;
- Lutar para que as mulheres tenham as mesmas oportunidades de crédito;
- Lutar contra o uso de agrotóxicos que afetam aos habitantes do meio rural, particularmente a mulher em seu caráter reprodutivo;
- Lutar pela valorização e o respeito às culturas camponesas;
- Lutar pela defesa dos Direitos Humanos dos trabalhadores rurais e seus representantes e dirigentes (homens e mulheres);
- Possibilitar a capacitação dos grupos de base para que consigam financiamento para seus projetos em suas organizações. Discutir essa preocupação com os financiadores. Preocupação com as pequenas organizações de base;
- Promover pesquisas sobre a mulher rural, que correspondem a suas necessidades e que sejam devolvidas a suas participantes.

2. Proposta de expansão:
- Iniciar uma rede de intercâmbio com os países participantes do 5º Encontro Feminista Latino Americano e do Caribe do Setor Rural que trabalham com mulheres
- Realizar o 1º Encontro da Mulher Trabalhadora Rural da América Latina e do Caribe.
- Países participantes dessa discussão:
- Brasil, Argentina, México, Uruguay , Nicarágua, Honduras , Peru, Bolívia, Chile.

Vanete – É denunciava a ausência da mulher naquele encontro. Dizia que nem as argentinas estavam lá. Ao mesmo tempo, dizia que mesmo sendo poucas tínhamos um aporte, tínhamos uma mensagem para as outras. E também dizíamos que nós íamos realizar um primeiro encontro só de mulheres rurais da América Latina e do Caribe.

Quando surgiu essa idéia?

Vanete – Surgiu da necessidade aí em San Bernardo – Argentina. Porque eu já vinha de dois encontros feministas, achando que as mulheres rurais iam aparecer e não estavam. Daí a necessidade. A gente tinha de construir isso: garantir que as mulheres rurais da América Latina falassem, aparecessem, se reunissem, tivessem cara. E aí começamos.

E qual foi o passo seguinte?

Vanete – Eu volto com todo esse material, com todas fitas gravadas, sem recurso e peço a uma amiga minha, que é filha de espanhol, que faça a tradução. Cida Fernandez faz a tradução e as correções. Porque você sabe que a gravação vem muita coisa repetida, que você precisa enxugar. Cida fez isso, enxugou tudinho. Ficou um material com o que dizia o Uruguai, o que dizia Brasil, o que dizia cada país, o documento final, a lista de participantes.
Então eu pedi a Ana Bosch, que é uma outra amiga minha, que trabalhava com arte: “Ana, bota aqui uma cara bonitinha. Bota uma arte, faz alguma coisa”. As pessoas que me rodeiam tinham muito amor por mim, muito respeito e voluntariamente muito me ajudaram e ajudam, Giselda, Riva, Alejandro, Vanda, Tatá, Rivana, Adenilda. E fazem as coisas que eu peço, sem dinheiro, sabem que é assim. Ana foi lá e fez uma capa, fez tudo. Eu tirei cópias e mandei para cada país que tinha estado, que eu tinha endereço. Então elas responderam que tinham recebido e, daí, começamos.

Qual era sua ideia na hora de mandar o relatório?

Vanete – Era manter a chama. Era que elas tivessem em mãos o que eu tinha. Eu não tinha o direito de ficar com aquele material que não era meu, era nosso.

E como foi a comunicação nesses primeiros anos?

Vanete – A comunicação foi toda por correio físico. Muito devagar, muito lenta, mas muito preciosa. Firme, importante. Mandei o relatório e elas me responderam. Quando elas me responderam, eu peguei no último ponto e mandei outra cartinha dizendo: “Vocês sabem que nós assumimos essa responsabilidade do primeiro encontro. Vamos construir o 1º Encontro de Mulheres Rurais da América Latina e Caribe?” E aí provoquei que o país que tivesse uma referência de outro país me mandasse. E aí foi chegando.
Argentina conhecia uma mulher na Bolívia, me mandava. Uruguai conhecia outra mulher no Panamá, me mandava. Elas mandavam para mim. E eu tinha comunicação com esses novos países. Nessa comunicação, lenta e preciosa, nós conseguimos nos reunir, 9 países, em 93, em Fortaleza.

Eram cartas?
Vanete – Eram cartas. Somente cartas.

Mas, quando você diz “localizar uma referência”, vocês estavam em busca de quem?

Vanete – Nós estávamos em busca de mulheres rurais que estivessem em cooperativa, em grupo, em movimentos mistos, em sindicatos. Onde elas estivessem. Onde tivesse uma referência de uma mulher rural, nós mandávamos. Em qualquer encontro que eu fosse, eu estava “antenada” para conseguir isso.

E, nesse primeiro momento, você fez essa articulação com o apoio de alguém? Havia algum recurso?

Vanete – Não, nenhum. Ora era, com o meu dinheiro mesmo, ora com algum dinheiro que eu conseguia da Federação , dos sindicatos ou dos amigos. Eu pedia a um sindicato que botasse aquela comunicação. E assim ia. Alguma pessoa física. Eu tenho amigos que têm boa condição, eu pedia: “Bota essas cartas no correio?”. E todos eles botavam, com muito gosto.

E o encontro de Fortaleza, o que foi o encontro?

Vanete – O encontro de Fortaleza foi a certeza de que nós íamos caminhar. Que nós íamos conseguir. Realizamos o encontro já planejando o 1º ENLAC. E cada uma voltou para organizar sua delegação e, se possível, de outro país. Por exemplo, o Peru ajudou muito com o Chile, com a Bolívia, com o Equador. Havia outra mulher que trabalhava com Betty Leveau, Rosa Guillen, e ela tinha uma influência com a Oxfam e com a Cooperação Internacional. E aí conseguiu a viagem dela para articular outros países.

E quem participou desse encontro em Fortaleza?

Vanete – Honduras, México, Brasil, Peru, Uruguai, Chile, Bolívia, Argentina e Nicarágua.

Uma mulher de cada país?

Vanete – Duas. Que podia ser uma trabalhadora e uma assessora ou duas trabalhadoras.

Explica para a gente o que é assessora e trabalhadora, Vanete.

Vanete – Assessora é uma mulher como eu, que faz um trabalho técnico, que não vive trabalhando no campo. Mas que tem uma relação com as trabalhadoras rurais. Como Betty Leveau, isso é uma assessora.

E a trabalhadora rural?

Vanete – Trabalhadora é a mulher que toca o trabalho da terra, planta, colhe.

Só na terra?

Vanete – Só na terra.

A artesã também?

Vanete – Hoje sim, naquela época não. Naquela época era muito mais restrito. Hoje, a gente já abriu para indígena, que a gente viu que vive no meio rural. Para a artesã, para a parteira, para a professora. Quem faz esses trabalhos no campo, elas decidiram é uma mulher rural que pode participar da Rede Lac.

Mesmo sendo assessora, você tem uma relação com a terra?

Vanete – Eu tenho.

Que relação é essa?

Vanete – Eu tenho um pedaço de terra, um hectare de terra. Eu tenho a relação normal de plantio, de colheita, de horta com a ajuda de alguém por causa das minhas viagens. Na agricultura você tem que estar todo dia na roça .

Tá certo, voltando a Fortaleza. O que aconteceu nessa reunião preparatória? Ali vocês definiram o que seria o I ENLAC?

Vanete – Aí nós definimos tudo. Porque nós não tínhamos recursos para nos ver novamente. Então, nós definimos tudo. Inclusive eu fiquei com esse peso na mão, eu é que ia encaminhar e fiquei com tudo que elas disseram anotado. Nas reuniões, as pessoas se riam de mim, diziam que eu não saía um milímetro do que tinha sido decidido. E que aquilo era a minha bíblia. Em todo canto eu estava com esse caderno em baixo do braço. As trabalhadoras disseram que devia ser assim, é assim. Aí levou mais três anos, né?

Por que essa tua preocupação de anotar e levar com você?

Vanete – Era o que os países tinham decidido e que eu não tinha o poder de desmanchar. Tinha que ser assim. Achando bom, achando ruim, aquilo que elas tinham decidido. Porque eu tive que chamar outras organizações como SOS Corpo, como Cetra, como o Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste. E quando as pessoas chegavam, queriam modificam, queriam propor. Eu disse: “Se vocês querem ajudar, vão ter que ajudar no que está proposto aqui. Nós não vamos modificar nada. Não é possível”.

E qual era a essência da proposta do I ENLAC?

Vanete – A essência da proposta do I ENLAC era identidade. “Quem somos nós?”.

Por que esse tema, Vanete?

Vanete – Porque as mulheres estavam confusas. “O que é ser uma trabalhadora rural? Tu não é trabalhadora rural por que tu é indígena? Tu não é trabalhadora porque tu é mulher de trabalhador?” E a gente precisava afinar essa conceito. Que conceito é esse? Porque há conceito dos governos, das organizações, mas qual era o conceito delas?

E tinha uma coisa do ser latino-americana e caribenha também? Tinha esse traço?

Vanete – No momento, não tinha tanto não. No momento, era muito mais cada país como é, como sente. Daí que nós vamos construir com os outros. Porque, no II ENLAC em 2005 no México, é que se cria mais forte essa questão de continente, de América Latina.

No primeiro, é mais a identidade de cada um…

Vanete – No primeiro, o foco é cada país e como cada país vai fazer e como vai se juntar, de que forma. Porque nós sempre tivemos muito respeito pelo passo que a perna pode dar. Nunca propor correr quando você ainda está engatinhando.

Escolhido o tema, como foi regressar cada uma para sua casa depois desse primeiro encontro de Fortaleza? O que aconteceu até o primeiro ENLAC?

Vanete – As comunicações seguiram. Aí já entrou o telefone, a gente já se comunicava por telefone. E, três meses antes do encontro, eu me instalei com Nazaré em Fortaleza, e aí já tinha o computador, um telefone. Agilizou mais essas comunicações. Continuava com correio, mas podia chamar por telefone. Podia chamar a cobrar, nós já tínhamos conseguido recurso para isso. O Cetra, que é uma organização que nos dá apoio em Fortaleza, nos abriu as portas, nos deu muito espaço, foi muito importante o apoio do Cetra.

Quanto tempo se passou entre o encontro preparatório e o I ENLAC?

Vanete – Foram três anos. Três anos que aqui no Brasil nós fomos tentando envolver outras organizações. Fomos encaminhando projetos para a realização. Encaminhamos projetos para as passagens. E os países também foram se organizando, se articulando. Vendo como fazia até chegar à capital do seu país. Porque os nossos vôos pegavam as mulheres na capital do país. E elas tinham que chegar até aí. Então elas foram trabalhando tudo isso. E foram discutindo os temas, se preparando para o Encontro.

O grande trabalho da Rede antes do primeiro encontro foi justamente a preparação para o primeiro encontro?

Vanete – Foi. O grande trabalho foi a preparação e a busca de recursos.
Existia uma clareza de metodologia, como se mobilizar, como se organizar?

Vanete – Não, não tinha tanta clareza assim não. Isso foi fluindo. As trabalhadoras dizem que as minhas cartas que chegavam era a metodologia. Elas pegavam minhas cartas, iam para as comunidades e liam o que eu estava dizendo. E assim elas foram discutindo e se preparando.

O processo de escolha das delegadas foi importante?

Vanete – Foi dificil porque havia os termos: algumas pensavam que “delegada” era mulher do delegado. E não havia muita clareza do que era a trabalhadora rural. E vinha alguma mulher que tinha algum poder em alguma organização, era mulher de alguém que tinha algum poder. Naquele momento, foi misturado, como a realidade era. Eu sempre reforçando o que era uma mulher rural, que podia ser uma mulher de uma comunidade, que trabalhava em uma região. Eu sempre tentava esclarecer ao máximo para tentar garantir a presença dessa mulher.

Como você ia se virando com o idioma, Vanete?

Vanete – Nessa época, eu só falava português, mas tentava mandar sempre mandava as cartas em espanhol. Era difícil conseguir que alguém traduzisse, mas sempre mandava em espanhol. Como demorava muito uma carta para outra dava tempo conseguir a tradução. Eu sempre me fiz entender, mesmo falando português. O que eu acho, hoje, é que eu falava do meu coração, da minha alma para a alma delas. Então, não havia dificuldades da língua. Eu nunca deixei de me entender com elas porque eu falava português. Falava lento, devagar mostrando alguma coisa que ilustrasse o que eu estava dizendo. Sempre nos entendemos. E aí eu comecei a aprender as frases, as palavras com elas. E fiz um curso intensivo de espanhol durante um mês no Recife.

E chega o I ENLAC. O que foi esse encontro?

Vanete – E chega o I ENLAC… Foi a coisa mais linda que você pode imaginar. Mais linda. A chegada dessas mulheres no aeroporto e no centro que nós estávamos. Eu escolhi junto com Margarida Pinheiro um lugar muito bonito, muito acolhedor. As habitações muito boas. Tudo muito bom para elas se sentirem muito bem recebidas. Perto do mar, que elas podiam ver o mar. Nós tivemos assim muito carinho em decidir como íamos acolher as mulheres que nunca tinham passado a fronteira. Primamos muito esse carinho em tudo que fazemos. Então a chegada delas é a coisa mais linda. Desciam do avião buscando Vanete, que algumas me conheciam, ou o cartaz do encontro, ou a marca da rede. Elas desciam procurando. E a gente tinha uma marca da rede bem grande, que era a mesma que ia nas cartas. Mesmo assim ainda se perderam duas. Uma hora, já estávamos saindo a comissão de transporte se vira e vê: “Aquelas são mulheres do encontro”. Que eram as bolivianas. E volta o carro e pega elas.

Vocês foram buscá-las pessoalmente no aeroporto?

Vanete – Pessoalmente no aeroporto, a hora que fosse. Nós tivemos mais de 24 horas de plantão de espera e ainda assim se perderam! Para que nenhuma se perdesse, para que nenhuma ficasse aflita. Para chegar tranqüila, se sentido acolhida, com carinho.

E como foi a abertura do encontro?

Vanete – Tudo foi muito, muito emocionante.

Você lembra da cena?

Vanete – Lembro da cena: um monte de mulher na sala, todas de blusa vermelha as da coordenação sentadas, dirigindo aquele evento histórico. E aqueles olhos, assim, famintos por formação, por notícia, por coisas que iam acontecer. Muito, muito lindo! Aqueles trajes bonitos, coloridos, diferentes. Mulheres tão diferentes nos seus cabelos, nos seus trajes, no seu falar, no seu viver.

Quantas mulheres foram, mais ou menos?

Vanete – 230, 250, de 23 países.

Muitas coisas devem ter acontecido durante o encontro, mas se você fosse para você escolher alguns momentos importantes do primeiro ENLAC, o que você nos contaria?

Vanete – São tantos… Teve a oficina de identidade, onde elas se desentenderam. Tiveram dificuldade de compreender. E para completar essa oficina estava sendo coordenada por assessoras e foi muito difícil controlar esse momento. Teve um momento de oração, que foi lindíssimo, onde se oferecia o pão contra a fome. Havia muita fome nessa época no meio rural latino-americano. E muito emocionante: foram as mulheres da coca, da região de coca, oferecendo a folha de coca em uma celebração comunitária. Me lembro que o padre ficou quase sem voz, escutando as mulheres da coca oferecerem, como uma oferenda a Deus a folha de coca. Me lembro do final, quando nós fizemos uma grande bandeira branca e nós sacudíamos essa bandeira em sentido de união e de paz. E em cima da bandeira tinham balões, bolas de sopro, coloridas, que subiam como nossos sonhos, nossas alegrias, nossas lembranças. Lembro de muitos momentos lindos!.

Em relação à identidade que passo se deu nesse encontro em relação a essa busca?

Vanete – Nesse encontro, ficaram todas as dúvidas: “Quem somos? De onde venho? Se eu sou indígena, se eu sou rural? Se sou mineira, se eu sou mulher de trabalhador rural?” Ficaram as dúvidas que nós retomamos no segundo encontro.

E em relação à diversidade? Me parece ser, ao mesmo tempo, uma riqueza e um grande desafio da Rede…

Vanete – Em relação à diversidade, no primeiro encontro nós construímos o respeito. Porque havia atitudes de olhar para a outra com desvalor. Porque eu sou branca, você não é. Ou porque eu sou negra e você é branca. Houve um conflito com as mulheres do Sul do Brasil, e as mulheres da Argentina e outras. Porque elas diziam que as brancas eram “tierra-tenentes”, que não eram agricultoras. E esse momento foi muito bonito, porque essas brancas disseram: “O que pode provar para vocês hoje que nós somos agricultoras? Peçam a prova.” Aí elas disseram, as peruanas, as bolivianas, as equatorianas disseram: “As mãos”. E elas expuseram as mãos. E as outras iam verificar se tinha calosidade para saber se elas eram rurais. E depois se abraçaram. E nesse encontro a gente conseguiu construir o respeito. Respeitar o traje, respeitar o cabelo. O respeito à forma. E valorizar as tranças, os trajes, o artesanato.

Construíram esse respeito de que forma, Vanete? O que é queajudava nessa construção?

Vanete – Nós falávamos que éramos diferentes mas éramos irmãs. Éramos todas rurais, éramos todas mulheres que lutávamos por uma vida melhor. Caracterizávamos bem as coisas que nos uniam. E que dali em diante nós teríamos que nos respeitar, nos amar. Havia conflitos, por exemplo, havia um conflito do Peru com o Equador. E elas pediram espaço na programação. E nós: “O que vai acontecer?” A gente sabia que estava havendo um conflito de terra, divisas de fronteiras. E aí elas foram para frente e disseram: “Nós somos irmãs. Se nossos governos estão brigando, nós não devemos nos separar”. E se abraçaram, e toda a platéia chorou. E elas choravam também. Então, coisas assim de que nós precisávamos nos construir como irmãs apesar dos nossos governos, das diferenças, das fronteiras, de tudo.

E vocês terminam o I ENLAC com qual conquista?

Vanete – Nós terminamos o primeiro ENLAC com a conquista do respeito às diferenças. E com a missão de ter um ponto de referência em alguma parte da América Latina, que era a Secretaria. E de continuar nossa comunicação e realizar um segundo encontro.

E aí começa uma nova fase?

Vanete – Aí começa uma nova fase.

O que acontece entre o primeiro e o segundo ENLAC?

Vanete – Muita coisa! Um montão de coisas!!

O que você considera que foi essencial para que esse movimento continuasse?

Vanete – Primeiro, a grande dificuldade de manter essa chama, de manter essa idéia viva, sendo que nós não tínhamos um lugar, o dinheiro tinha acabado. E o que é que a gente ia fazer? Bom, nessa altura, eu estava no movimento do Nordeste e discuti que, como Brasil, a gente tinha que segurar. Que tinha que fazer de tudo para que isso não fosse uma sobrecarga para o movimento. Pois o movimento do Nordeste também não tinha recurso para isso. Mas a gente não podia deixar de trabalhar.

Qual movimento, Vanete?

Vanete – O Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste. Dentro do movimento, em uma sala, estava toda a Secretaria da Rede Lac. Toda documentação do primeiro encontro estava toda aí, estocada dentro de uma sala. Era nossa história que estava ali.

Em Serra Talhada?

Vanete – Em Serra Talhada. Estava toda ali. E aí eu conversei com um amigo meu, comerciante, pedi para ele disponibilizar o fax dele. Ele abriu o fax dele, a gente podia receber fax na firma dele. Ele pegava um dos funcionários e mandava me entregar. E outro amigo meu, que nós estávamos aqui no primeiro andar do Movimento de Mulheres, e aqui em baixo era uma farmácia de um amigo meu que tinha telefone. Também eu pedi para ele disponibilizar o telefone para as comunicações. E assim nós seguimos.

Conversando sobre o II ENLAC?

Vanete – Não, no momento, a gente estava conversando das conquistas, como tinha sido bonito, da importância. De como tinha nos enchido de alegria. Como nós precisávamos ficar juntas.

Quais notícias chegaram sobre a repercussão do I ENLAC?

Vanete – Ah! Chegavam notícias de como começaram a luta pela terra. Como começaram lutas pela documentação das mulheres. Pela participação nos sindicatos. Começaram a chegar às notícias, pequenininhas. “Nós fizemos isso em tal país. Tal país nós fizemos isso.”

Teve alguma notícia que você falou assim: “Estamos no caminho certo?” O que te motivava?

Vanete – Eu tinha certeza que estava no caminho certo. E tinha certeza também, que eu era um elemento de junção importante. Que eu tinha que segurar aquela barra.

Era uma barra?

Vanete – Era uma barra pesada. Pesadíssima. Fazer tudo isso sem dinheiro, sem instrumento, pedindo a um e a outro. Era uma barra. Aí eu passei uma circular. Bom, primeiro eu encaminhei todas, as fitas de vídeo para todos os países participantes. Assim que terminou o encontro, nós montamos o material e enviamos aos países. Quando terminou o encontro, eu ainda fiquei um mês em Fortaleza para fechar a Secretaria. Estava de posse de todos os endereços, que era a lista de participantes. E depois de mandar todas essas fitas, o que foi que eu fiz? Fui fazer um relatório no Peru. O Peru arranjou uma verba, um dinheiro e nos levou para fazer o relatório do encontro em Tarapoto. Eu e Nazaré fomos, fizemos o relatório e ficou ao cargo de Flora Tristán, no Peru, de imprimir. Elas imprimem o relatório depois me convidaram, também pagaram minha passagem, para ir ao lançamento de lá. E lá nós pensamos como distribuir. E começou: pedimos à Oxfam, foi pedindo às Organizações. Então, despachamos aqui para o Brasil uma quantidade enorme de relatórios. Foi a maior dificuldade para receber porque tiveram que abrir todos os pacotes, uma confusão danada.

Era importante enviar esses relatórios?

Vanete – Era importante que cada pessoa tivesse a discussão na mão. Acho que passamos bem um ano enviando. Enviamos aos pouquinhos, aos que podia, aos que pediam. E aí começamos a receber as cartas de alegria de ter chegado a memória. “Bom, está dando certo, está funcionando.” Então, eu passei uma circular para a Coordenação Internacional, consultando onde seria a sede da Secretaria.

A Coordenação Internacional se instituiu em que momento?

Vanete – A Coordenação Internacional se institui lá na preparação em 93. Os países que organizam o primeiro encontro seguem na Coordenação Internacional. Que nós vamos trocando à medida que um país não corresponde a uma determinada atividade. Sai um, entra outro. Conseguimos um dinheiro – não me lembro se foi Peru, se foi Bolívia – e fomos à Bolívia para discutir o II ENLAC e o local onde seria a Secretaria. Lá a decisão dos países, nas cartas que eu havia recebido era que devia ser no Brasil.

Era uma consulta à distância?

Vanete – Era uma consulta à distância. “Onde vocês acham que deve ser a Secretaria e por quê?” E era no Brasil. Eu voltei tão aflita com essa decisão na mão. “Meu Deus, o que é que eu vou fazer agora? Como vai ser essa Secretaria no Brasil?” Voltei com essa decisão. Passei dentro do Movimento do Nordeste. “Pessoal, a decisão dos países é que a Secretaria seja no Brasil. Que vamos fazer?” “Vamos mandar uma carta para os movimentos de mulheres rurais do Brasil, vamos marcar uma reunião em Recife. Cada um assume suas despesas, para discutir como vamos fazer.” E aí fizemos uma reunião em Recife.
Estavam o MMTR-Nordeste e a Contag e decidimos que a Secretaria devia ser no Nordeste – afinal o Nordeste tinha feito toda essa construção e é onde eu estava perto. E que, no Nordeste, devia ser em Recife. Tá bom. “Tchau.” Todo mundo foi embora, fiquei de novo com a decisão na mão. “Vai ser em Recife, como?” Passo outra circular para as organizações que eu conhecia em Recife pedindo uma sala. Começo a receber resposta. Duas organizações: a Casa da Mulher no Nordeste e o Centro Josué de Castro disponibilizam um espaço para a Rede, com muito orgulho, inclusive. Chamo de novo as representantes dessas organizações, que viessem com seu dinheiro, para a gente ver esses dois espaços e onde seria. Nessa altura, eu recebo mil dólares que uma amiga minha da Itália – Enrica Rosato me manda. Uma boa: esses mil dólares que pode ajudar no início da Secretaria. E Cornélia Parisius, uma amiga que era do DED, uma organização alemã, estava saindo e podia fazer uma doação dos móveis. Nós: “Cornélia, os móveis tu vais dar para a Secretaria, né?” Cornélia: “Tá certo”.
O pessoal vem e nós visitamos as duas instalações que nos estavam oferecendo e decidimos pela Casa da Mulher do Nordeste. Era uma sala pequena. E um espaço que quando chovia cobria até nossos pés. A gente tinha medo. Tinha muito trombadinha. Mas, vamos lá. Pegamos essas coisas de Cornélia. E com esses mil dólares reformamos. Eu e Fátima visitamos um comerciante que nós conhecíamos, pedimos uma janela, tinta, material de pintura e eletricidade. Eu sei que fizemos a Secretaria ficar bonita. E aí conseguimos um projeto com as Mujeres por un día de Oración ,da Alemanha e conseguimos trazer oito ou dez países para a inauguração da Secretaria.

Qual o significado de ter uma secretaria?

Vanete – Significava que agora as mulheres rurais da América Latina tinham um ponto para onde se dirigirem. Tinham um ponto que podia chegar suas correspondências e ter uma resposta mais ágil. Tinham um ponto onde todo o material histórico construído ia ter um lugar. Tinham um ponto em que as coisas agora saíam da cabeça de Vanete e iam também para outras pessoas. Essa que era a importância.

E a inauguração foi bonita?

Vanete – Ave Maria! A inauguração foi assim uma festa. Claro que aproveitamos a vinda para fazer uma importante reunião, onde fomos discutir estatuto, 2º Enlac, Coordenação Internacional. Aproveitar a vinda, a alegria, o entusiasmo que estava instalado em cada uma de nós e discutir o que é que íamos fazer.

O desafio naquele momento qual que era, Vanete?

Vanete – Era instalar essa Secretaria, fazer ela funcionar. Era passar todos esses endereços para um banco de dados, para o computador. E era recomeçar toda a comunicação.

Ela tinha ficado interrompida?

Vanete – Ela tinha ficado interrompida por falta de condição e de pessoal. Então, agora era: escrever para cada mulher, para ver se ela estava, se ainda estava na mesma organização e se estava disposta a continuar conosco. E aconteceu muitos endereços que voltavam: não era mais aquele. A organização já não estava ali. As pessoas já tinham morrido, já não estavam mais na direção, já tinham brigado entre si. Tinha de tudo e de todos motivos.

Rumo ao segundo ENLAC?

Vanete – Rumo à organização da Secretaria e ao II ENLAC – nessa altura a Bolívia já estava devolvendo, dizia que não podia sediar o 2º Encontro.

Por quê? Quando que se define que a Bolívia seria a sede do segundo ENLAC?

Vanete – Se define naquela reunião da Coordenação Internacional, onde está se definindo também o local da Secretaria. A Bolívia assume. E aí a Bolívia diz que não, devolve.

A idéia era que fosse cada vez em um país, Vanete?

Vanete – O encontro, sim, cada vez em um país.

Conta um pouco sobre esse momento de desistência da Bolívia.

Vanete – O momento de desistência da Bolívia foi um momento de baixa. Nós ficamos com a mão na cabeça: “E agora? O que vamos fazer? Como vamos começar do zero? Para onde vamos? Que país vai assumir depois da Bolívia dizer que não tem esta condição de realizar? É mais um dado para o outro dizer que também não tem? E o que vamos fazer?” E então parte do Brasil diz “Nós assumimos” e o Brasil se divide: eu fico com a parte que diz: “Não, não deve ser no Brasil porque o primeiro encontro foi no Brasil, a Secretaria é no Brasil e, se o segundo encontro for no Brasil, a Rede vai terminar sendo brasileira. Não deve ser. Nem que a gente passe 10 anos, mas deve ser em outro país”. E as brasileiras ficam com raiva porque eu não estou querendo que seja no Brasil e que foi tão bom no Brasil. E aí o México, muito timidamente, havia duas mexicanas: “Vamos tentar assumir”. O México tenta. Foi uma alegria. Todos os outros países ficaram contentes, o Brasil ficou triste, mas os outros países ficaram muito alegres. Se comprometeram que iam ajudar, e transfere o 2º Encontro para o México.

Então, começa uma preparação mais concreta?

Vanete – Nós já havíamos decidido os temas, o lema, já tinha coisa decididas. Passamos esse pacote para o México, que começa a articular as organizações mexicanas, a enfrentar muitas dificuldades também. Até que, em fevereiro de 2005, chega uma carta bomba do México, dizendo que ele não vai realizar o segundo ENLAC, que não tem condições. Eu nem esperei a Coordenação Internacional – fiquei desesperada – e passei uma carta muito forte para elas dizendo que elas precisavam compreender o que nós tínhamos sofrido com a renúncia de 2003 da Bolívia. Elas tinham passado dois anos com o pacote do II ENLAC, e agora, dentro do próprio ano de realização, elas devolviam? Era uma irresponsabilidade. Isso não era uma responsabilidade só da Secretaria nem só minha. Mas de cada uma de nós. E elas não podiam fazer assim. Como as mulheres que estão fora, que estão nas comunidades, como elas vão receber essa notícia e compreender o que é que está havendo? Nós sabemos, mas e elas lá? Para elas, isso vai soar como um desânimo, que a gente não consegue mais se reunir. E finalizo dizendo que em maio a gente se compromete em ir ao México, a Coordenação Internacional, e segurar na mão delas e ajudar em tudo o que for possível. E que elas não precisam realizar como o Brasil realizou. Com tanta coisa, com tanto apoio, com cartaz, com crachá, com pastas. Elas realizam como elas podem. Essa altura eu já estou pensando: “Vou ter que arrumar pasta, as canetas, os papeis aqui no Brasil. Porque elas não vão conseguir”. Bom, aí elas retomam. Assim, eu mando essa carta forte para elas e essa carta eu mando para toda a Coordenação Internacional, dizendo que pela urgência, eu tomei a iniciativa e que elas, se concordam com a minha posição, mandem carta para o México. E assim foi. Choveu de carta para o México de todos os países da Coordenação apoiando o que eu escrevi.

Enquanto isso o que está acontecendo nas organizações e na relação delas com a Rede?

Vanete – Está acontecendo de tudo. As organizações estão crescendo nos seus países. Estão se enlaçando. Uma organização que está na comunidade, ela forma uma região, ela tenta organizar uma representação a nível nacional. Ela vai observar quais são as leis do país e como isto está tocando as mulheres rurais. Elas começam discussões internas nos países.

Um pouco desencadeadas pelo I ENLAC?

Vanete – É, desencadeado pelo I ENLAC e pela participação dos países que já estão avançando nas lutas.

E as participantes do I ENLAC mantêm uma comunicação com vocês?

Vanete – Mantêm uma comunicação dizendo o que estão fazendo. E, por exemplo, todos os que estão trabalhando com o tema da violência, a gente tenta mandar notícias: como a Bolívia fez, como o Panamá está fazendo. Esse material a gente faz circular por temas. Quem está trabalhando violência, quem está trabalhando terra, quem está trabalhando água. Quem está trabalhando organização. Países que estão trabalhando Assembléias Constituintes e que as mulheres rurais precisam se fazer presentes. Aí a gente manda material sobre as Constituintes, como as mulheres se reuniram e como prepararam alguma coisa para enfrentar isso.

Comunicação feita ainda por correio?

Vanete – Aí já por computador e uma parte ainda por correio.

Uma comunicação sempre com o Brasil ajudando ou já começa a existir uma comunicação entre elas, direta?

Vanete – Não, sempre passa pelo Brasil. A comunicação há entre elas, entre países vizinhos. Mas o peso maior vem para o Brasil que distribui para as outras.

Voltando ao II ENLAC, recebida a sua carta, o México decide manter a idéia?

Vanete – Manter.

E aí começa a reta final para o encontro?

Vanete — Exatamente, aí começa uma reta final. Nós aqui no Brasil a conseguir as passagens. Elas lá a conseguirem hospedagem e alimentação, e os países a conseguir a sua parte: chegar até a capital, discutir os temas, e se preparar. Então nós já temos condição de dizer aos países quem vai ser expositor. O Panamá vai expor sobre tal tema. Tem que se preparar para expor sobre tal tema. O Brasil vai expor sobre tal tema. Bolívia vai expor sobre tal tema. E aí a Rede já comunica esses países que eles vão ser expositores, como vão ser, quanto tempo vão ser. Que assunto elas vão tratar.

Quem vai expor?

Vanete – As trabalhadoras rurais daquela delegação. Elas escolhem. Isso nós não fazemos. Nós apenas dizemos a tarefa: “Dia 18, painel sobre conjuntura”. Então a Bolívia deve falar sobre a conjuntura do seu país, mas não só da Bolívia mas falar sobre os países andinos. Vocês têm que buscar informações, vocês têm tantos minutos para falar e têm que levar esse material pronto para a nossa memória.” E assim foi.

E como foi a chegada e a abertura para o II ENLAC?

Vanete – O II ENLAC foi muito, muito bonito também. Para mim, era um momento muito difícil na minha vida pessoal. Muito difícil. Eu viajei com Fátima Silva, funcionária da secretaria da Rede Lac, para montar a Secretaria de apoio às mexicanas no início do mês de agosto de 2005. E, passamos dois meses lá. Minha mãe estava doente, em estado terminal. Viajei sem saber se, quando eu voltasse, ela estaria viva. Eu decidi com as minhas irmãs que, se ela morresse, eu não voltava para o enterro. E foi muito pesado para mim. Cada dia, cada hora foi muito difícil. Fora que foi difícil com as mexicanas.
Mas a chegada das trabalhadoras foi também muito linda. Tentamos, com muita dificuldade, que as mexicanas montassem esquema de receber. Até a última hora, isso não estava certo. Por exemplo, a delegação do Brasil chegou e se virou por si. Mas nós tivemos essa preocupação e não se perdeu ninguém, naquele México imenso. Aquela cidade horrorosa de grande. E aí chegaram todas. O local era muito bonito, muito, muito agradável. Nós tínhamos trabalhado muito para estar tudo bonito também para elas. A chegada da delegação brasileira para mim foi terrível. Porque cada dia que passava eu tinha medo que a minha mãe já tivesse morrido. Aí chegam as brasileiras, as mulheres com que eu trabalho no sertão, e essa chegada me trouxe isso muito mais forte, lágrimas e lágrimas.
Então nós fizemos a abertura, com a Coordenação Internacional. O número de participantes era um pouco menor, 18 países. A apresentação dos países conseguiu ser mais rico e mais bonito do que o primeiro. Elas estavam muito mais preparadas nesse Encontro. Nesse encontro teve muita fortaleza, muita força das mulheres porque já não tinha mais as assessores trabalhando. As trabalhadoras já assumiram com muita força, muita segurança, muita autodeterminação. Auto-estima lá em cima. Aí já nós não tivemos esse tipo de complicação, assessora x trabalhadora.

A assessora continua tendo um lugar na Rede?

Vanete – A assessora continua tendo um lugar na Rede, mas não um lugar de destaque. A Coordenação é das trabalhadoras, a exposição dos temas também. Onde já se pensou, na história do meio rural, que uma trabalhadora ia fazer uma exposição sobre análise de conjuntura? Isso quem fazia eram as assessoras. Não eram as trabalhadoras que iam falar isso, né? Mas, no encontro, eram elas. Mesmo assim, ainda tinha no final uma técnica, porque ficou difícil essa negociação com o México. As trabalhadoras é que tinham que fazer tudo, mas elas já tinham convidado algumas experts mexicanas e disseram que ficava feio dizer que elas agora não teriam papel.

Muda um pouco a discussão em relação ao primeiro ENLAC? Tem outro desafio no segundo?

Vanete – Muda porque já tem mais organizações construídas. No outro, a gente tinha essa dificuldade que era da chegada quem era trabalhadora, quem não era. E aí já não tem. A trabalhadora já se impõe, já diz o que quer discutir, como vai. E aí já entra os temas de interesse delas.

Por exemplo?

Vanete – Violência, terra, água, migração. Elas já vão dizer o que é que elas estão vivendo desses temas. E essa costura já se dá como América Latina. Elas já não se colocam como o Brasil. O Brasil se coloca como Brasil, o Equador como o Equador. Mas a conclusão do grupo em relação ao tema é como América Latina.

O tema traz essa integração?

Vanete – Isso é um grande avanço. As duas coisas: a participação dá essa idéia de que somos mais que país, e o tema que você está discutindo, que eu estou discutindo, toca você de uma forma, que toca a mim de outra, nos une.

E que passo é dado em relação a essa noção de latinidade? Como é que você percebe que isso ganha força?

Vanete – Eu percebo que ganha força quando a gente já não se prende tão fortemente ao meu país. E aí eu sei que o meu país tem avanços, mas a minha irmã que é vizinha ao meu país está sofrendo essa dificuldade, que nós, juntas, vamos ter que superar. É muito linda essa idéia. Ela ainda se constrói muito assim: o sul, os países andinos, América Central, porque são diferenças muito profundas e ainda se está, assim, como se fosse grupo. Aquele grupo ainda é América do Sul, aquele grupo são os países andinos. Nós temos que ainda avançar, que consigamos entender mais essas mulheres que vivem nessa área andina, como plantam, como vivem, como fazem. E em termos de semente a que mais nos une é o milho.

Milho?

Vanete– O milho. A banana tem em um país outro não tem. Tem pessoas que nem conhecem a banana. O feijão tem um peso. Mas o que tem um peso grande na América Latina para as mulheres rurais é o milho.

E, em relação ao desafio da diversidade, o que acontece no II ENLAC?

Vanete – Diversidade, nós já avançamos na primeira. Agora já se olha a diferença das mulheres sem choque, sem zombaria, sem desrespeito. Se olha com muito orgulho, com muito prazer em sermos tão diversas, tão diferentes. Até a língua melhorou muito no segundo. No primeiro ficou uma coisa muito difícil, português e espanhol. O Brasil ficava isolado. Somente o Brasil, o resto dos países todos se comunicando. No segundo, você já não sentia tanto isolamento assim. Você via as brasileiras conversando do seu jeito, como podiam com as outras. Então acho que essas coisas nós fomos vencendo na prática.

E como é que vocês chegam no final do II ENLAC?

Vanete – Chegamos no final do II ENLAC muito, muito fortalecidas. Muito fortalecidas porque, apesar das divergências internas que tínhamos na Coordenação Internacional, seguramos tão bem que as mulheres não perceberam. E elas estavam assim com o maior entusiasmo. Queriam discutir mais temas. Sim, no primeiro havia uma fome de falar, de falar. Todas queriam falar ao mesmo tempo. No segundo, nós abrimos um espaço que chamamos Tribuna Livre. Que foi uma noite em que elas puderam falaram do que elas quiseram. E já não tinha aquela angústia que tinha no primeiro. Elas já falavam com mais calma. Sem tanta sede. Sem tanta ânsia.

Havia um espaço livre?

Vanete – Abrimos um espaço para desafogar, para que as pessoas falassem. Porque você vai para um encontro desses e quer falar tudo do seu país, né? E não pode. Porque todas querem falar tudo, mas desafogou muito com esses espaços de feira cultural, onde todo mundo botava seus produtos e discutia como fazia, como não fazia. Esse espaço da Tribuna Livre. Nós da organização, também, fomos aprendendo que nesses encontros tinha que ter espaços assim. E até temos que criar outros aonde elas possam se conhecer, se ver, falar dos seus trabalhos. Sem ser dentro de uma temática, uma forma muito mais amiga, mais livre, mais humana até.

Isso permitiu que coisas novas aparecessem na plenária, por que tinha esses outros espaços para extravasar?

Vanete – Eu não sei se permitiu coisas novas, mas permitiu mais serenidade. Falar das coisas com mais serenidade e unir mais. Ficar mais perto da outra. Mais mão dada com a outra. Mais firme.

Encerrado o II ENLAC, vocês voltam para casa agora com o que na bagagem?
Vanete – Encerrado o II ENLAC, voltamos para cá com a alegria das mulheres, com a vontade de construir-se como América Latina. Com a certeza que estão no campo e que no campo tem que se construir uma vida digna. Com a certeza que temos que visibilizar essas mulheres que há séculos são invisíveis. Tudo isso voltamos com certeza. E com o pacote da memória. A Secretaria da Rede tem que fazer a memória desse segundo encontro para devolver para essas mulheres.

E você, ao chegar em Serra Talhada, como você encontra a sua casa?

Vanete – Eu chego em Serra Talhada e encontro minha mãe muito doente. Eu tinha mentido o tempo todo para ela. Eu tinha dito que eu estava aqui em São Paulo. Hora eu estava em São Paulo, hora eu estava no Rio de Janeiro quando eu telefonava para ela. Minhas irmãs sabiam, mas ela não. E havia um complô desse segredo, porque ela ia ficar muito angustiada em me saber tão longe. Então, quando eu chego, a primeira coisa é desmanchar essa mentira. Dizer: “Olha, eu não estava em São Paulo, eu estava no México.”

Ela morava com vocês?

Vanete – Ela morava com minhas irmãs em Serra Talhada. Eu digo isso para ela, e ela: “Não, não tem problema. Você já chegou, não tem problema”. Muito fraquinha já. E então ela me pede que quer ir para a minha casa. Eu digo para os movimentos que eu vou estar ausente, que agora eu vou cuidar dela. Levo ela para minha casa, cuido dela junto com minhas irmãs, meu irmão e amigos, um mês depois ela morre.

Com você?

Vanete – Comigo, na minha casa. O que para mim foi um prazer. Ter encontrado ela viva e ainda poder ficar com ela nos últimos dias. E eu acho que ela estava me esperando. E aí tudo pára na minha vida política. Só em novembro é que eu retomo.

A gente está falando de qual ano?

Vanete – Estamos falando de 2005. A prestação de conta das passagens do 2º Enlac, Fátima vai com o dono da agência Jameson para fazer lá em casa. Vão à minha casa, eu não saio nesse período para nada. Aí retomo tudo depois da morte dela e agora estamos terminando a memória.

Vanete, e olhando para trás, quais os aprendizados para que essa Rede, apesar de tantas dificuldades, continuasse não só sobrevivendo, mas crescendo, não é?

Vanete – Os aprendizados e os desafios são inimagináveis. Incalculáveis. São cotidianos e de minuto a minuto. E são, principalmente, para não se perder os critérios importantes, a ética, o respeito, a fala das trabalhadoras, a importância da participação delas. Esses são os grandes desafios que essa Rede impõe.

Como você vê o futuro da Rede, Vanete?

Vanete – Eu não vejo. Eu nunca vi futuro de nada, sabe? Quando eu comecei esse trabalho com aquelas três, quatro mulheres lá dentro da comunidade de Caiçarinha da Penha, eu nunca vi para onde ia esse trabalho. Eu ia construindo cada momento, cada coisa. Nunca planejei para frente. Quando ele foi avançando, eu fui me deparando com os desafios e vendo como fazer a cada um. Menos ainda essa Rede. Eu vejo como grandes desafios, mas eu não sei como vai ser para frente. Eu tenho a certeza que as trabalhadoras vão assumir cada vez mais, que vão construir do seu jeito. Mas não sei como vai ser.

Você tem um sonho para a Rede, Vanete?

Vanete – Tenho. Eu tenho um sonho do respeito às mulheres. Eu tenho o sonho de fazer as coisas o melhor possível. Eu tenho o sonho de visibilizar essas mulheres. Tenho o sonho do cuidado do não desvirtuar uma proposta que é tão bonita.

E, para você, o seu sonho?

Vanete – Ah! O meu sonho é ir para casa. Eu fui participando, participando, participando, participando e sendo puxada para a área internacional. E, com isso de ser puxada para o internacional, eu tive que fazer um exercício, um esforço muito grande para voltar para a minha base, para não ficar flutuando, para ter raiz. Foi e é um exercício muito cansativo. Eu ter que ir para o Chile, mas ter que voltar para Jatiúca para ficar dias com as mulheres que lá estão, com os grupos que lá estão. É uma luta muito grande. E meu sonho é que alguém coordene a Rede, assuma a coordenação da Rede e que eu volte para casa.

Para fazer o quê?

Vanete – Para bordar, para escrever, para pensar, para cantar. Para estar com as mulheres de base. Para seguir com elas. Hoje, eu vou seguir com elas de outra forma, porque hoje já tem um quadro de lideranças que encaminha tudo. Eu vou ser só uma pessoa que sempre esteve e que vai seguir colaborando em uma coisa, e que vê como as coisas estão andando.
E seus filhos?

Vanete – Meus filhos eles estão em Serra. Eu estando em casa eu vou vê-los mais. Vou estar mais com eles.

Já é avó?

Vanete – Já sou avó. Meu sonho é voltar para casa. Não sei se vou conseguir. Eu acho que o caminho de ida ele foi fácil. O caminho de sair do sertão e ir construindo até chegar essa América Latina e Caribe foi fácil. Mas para mim está sendo muito difícil voltar. Ir soltando essas coisas. Vige! Como está sendo difícil. Faz anos que eu tento. Eu já estou com 63 anos e queria ficar mais em paz, mais em casa. Não consegui ainda.

Para a gente terminar, eu queria te perguntar o que é que você achou de mais uma vez contar um pouco da sua história?

Vanete – Olhe, para mim, teve uma época da minha vida que era quase uma busca contar minha história. Porque me angustiava muito que eu tivesse tanta coisa referente à história das trabalhadoras rurais na minha cabeça e que eu tinha que botar isso em algum papel, em alguma coisa devia estar a história da minha vida. Consegui quando eu escrevi meu primeiro livro. Depois escrevi outras coisas outros livros com outras mulheres. Hoje, contar minha história é sempre um momento de emoção para mim. E é também de reflexão: que é que foi isso, cada momento. Porque a cada momento que eu conto para uma pessoa surgem perguntas diferentes. Que me levam a pensar coisas diferentes. Então, me faz refletir e cada vez me dá a certeza de que eu faria tudo de novo. Faria tudo de novo, sem modificações. Tudo que eu fiz, eu faria de novo. Todas as lágrimas que eu chorei, todas as dores que eu passei, todas as rupturas que eu tive que enfrentar, faria tudo de novo. E que é bom contar essa história. Eu acho que às vezes, as pessoas me vêem, até as trabalhadoras mesmo, muito como uma liderança. Uma grande liderança. Mas essa minha parte de emoção humana pouca gente vê. Eu sou sempre a ativista política, a liderança, a forte, a corajosa. Agora, aquela Vanete que gosta de carnaval, que gosta de ficar em casa que chora, que ri, que se alegra, que se entristece, que sofre que goza essa é difícil as pessoas verem.

Essa do carnaval você não me contou! Carnavalesca?

Vanete – Essa história, essa parte humana minha, ela não aparece muito. E eu sou uma pessoa muito emotiva, muito sensível, e muito forte também. Eu sei que se eu não fosse tão forte, eu não tinha construído tanta coisa. Se eu não tivesse tanta coragem dentro de mim, coragem de brigar, de discordar, de assumir, eu nunca tinha feito tanta coisa como eu fiz. E tudo foi desafiante. Desde o grupinho lá dentro do mato, pequenininho, até hoje na Rede Lac. Tudo é desafiante. Em tudo eu encontro muito embate. Sou vítima de muita inveja. Ninguém quer saber o que custa para a Vanete todo esse trabalho, mas é um trabalho bonito e eu não sei se devia ser Vanete ou se devia ser outra. E isso é motivo de discórdia, de inveja, de perseguição. E, para mim, uma das coisas muito, muito dolorosa é essa perseguição e esse desentendimento entre nós, as mulheres. E eu digo que não sei onde nós pegamos isso, nós as mulheres, eu não sou assim – mas as mulheres são muito sorrateiras, sabe? Não são assim, sinceras de frente, com coragem. Vai muito por baixo, por traição, por inveja, por fuxico. Te passando rasteira, te botando para trás. Isso para mim sempre foi uma dor muito grande. Eu sempre acho que se tem uma discórdia, vamos colocar, né? Tem uma dificuldade, vamos colocar? Por que é que eu vou ficar falando por trás, fazendo um fuxico, envolvendo outra pessoas. Jogando contra ti. Eu sempre sofri muito com isso, eu trabalhei com homens e com mulheres, e isso vem mais das mulheres. Não sei onde nós aprendemos. Em que momento da história da humanidade nós aprendemos isso. Mas é assim.

Para mim, uma honra. Estou muito agradecida pela sua história. É uma das coisas que eu mais gosto de fazer na vida, poder parar e ouvir. Obrigada pela entrevista.

Vanete – De nada, para mim também foi muito bom. Muito, muito bom, obrigada a você, ao Museu da Pessoa e a Rede Lac por mais essa oportunidade.

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15 Comentários para “Vanete Almeida, a guerreira do semiárido se encantou”

  1. [...] Sobre ela, eu poderia escrever páginas e páginas, mas fiquemos com uma declaração que dei ao Viomundo: [...]

  2. dom, 16/09/2012 - 21:38
    Joana Barbosa

    Vanete vive em nossos corações

  3. dom, 16/09/2012 - 0:04
    Luana

    “Todas as lágrimas que eu chorei, todas as dores que eu passei, todas as rupturas que eu tive que enfrentar, faria tudo de novo.”
    Eu também…

    Vanete Almeida VIVE!

  4. sáb, 15/09/2012 - 12:52
    William Rocha

    Conceição eu fiquei muito feliz de ter a oportunidade de saber que uma mulher da fibra de Vanete Almeida existiu e, ao mesmo tempo muito triste em saber do calvário que ela enfrentou para tratar de sua saúde. E olhe, ela era uma mulher rural, mas tinha algumas posses e sabia se virar. Fico a pensar em quem não tem pra onde apelar. O calvário de uma guerreira como vanete para tratar a sua doença merece ser contado como uma lição e o ministro da saúde tem de se posicionar a respeito. vanete não morreu á míngua, é verdade, mas não encontrou tudo o que uma cidadã precisa na hora da doença, teve de se socorrer na caridade pública. É triste. E é revoltante. Fala, Padilha!

    • sáb, 15/09/2012 - 13:27
      Conceição Lemes

      William, me dói muito a história do final de vida de Vanete. Lutou tanto pra que todos nós chegássemos até aqui e na hora do “vamo vê”, não teve o tratamento digno que merecia e lhe devíamos. Não por caridade — isto, acredito que a Venete odiaria — mas por solidariedade, humanidade, respeito. Desculpe-me o termo, pois acho que foi feita com ela uma grande sacanagem. E as pessoas responsáveis sabem disso. Talvez se fosse algum famoso ou amigo de quem alguém famoso (artista, parlamentar ou seja lá o que for) teriam, pelo menos, tentado ajudá-la. Pelo pouco que conversei com Vanete por telefone, pelos relatos de quem a conheceu, ela vai fazer falta, sim. Dizem que ninguém é insubstituível. Mas eu acho que ela é, sim, insubstituível. E essas pessoas que lhe voltaram as costas não chegam sequer ao calcanhar de Vanete. Viva, Vanete, guerreira de todos nós! abs e boa sorte

      • sáb, 15/09/2012 - 19:02
        renato

        E as outras mulheres Conceição ( com carinho), depois que li isto também me senti culpado!
        Porque não ajudei em nada!
        Não cheguei nem aos pés dela.Apenas me entristeci.Mas tenho certeza que todas as pessoas e mulheres que ela ajudou fizeram a vez das pedras de seu maravilhoso caminho.
        Nesta vida, de morte qualquer morrida!

  5. sáb, 15/09/2012 - 11:11
    Márcia Martins

    Uma matéria repleta de emoções, daquelas que chegam até à nossa alma. Vanete Almeida era um flor do sertão, mas também uma luz. Uma lutadora das causas populares e democráticas, mas sobretudo uma feminista que buscava dar voz às mulheres da roça, às trabalhadoras rurais. Meus cumprimentos á Conceição Lemes, uma flor do jornalismo brasileiro, pela beleza da matéria. Adorei a entrevista da Vanete ao Museu da Pessoa, que eu não conhecia, mas é grandiosa, maravilhiosa também.

  6. sex, 14/09/2012 - 17:02
    Alberto

    Prezada Conceição, para mim alguém como a Vanete é uma benção existir. Fará muita falta pois levou muito amor e alegria por onde passou

    • sex, 14/09/2012 - 18:14
      Conceição Lemes

      Alberto, com certeza. Deu pra eu perceber isso na nossa rápida conversa por telefone. Vanete é daquelas pessoas que REALMENTE fazem diferença, só aparecem de vez em quando. Sei um pouco do quanto a doutora Fátima batalhou, gritou, pra ajudá-la. Sei, inclusive, a quem a doutora recorreu. Doi saber não fizeram NADA. NADA MESMO. Essas pessoas só demonstraram a dimensão humana que têm. Viva Vanete! abs e boa sorte

      • sáb, 15/09/2012 - 11:16
        Márcia Martins

        Vanete Almeida foi realmente uma lutadora da saúde da mulher, uma militante do SUS, não suportava que o SUS não chegasse ao povo das rurais. Ela se sacrificava para pagar um plano de saúde porque viajava muito, inclusive para o exterior e precisava ter uma cobertura para qualquer eventualidade na área de saúde. E na hora em que mais precisou do seu plano ele não lhe deu a cobertura que prometia e na hora em precisou do SUS não teve guarida teve de apelar para a caridade pública, porque do que sei até para o ministro da saúde houve apelo, que não teve resposta e o SUS em Pernambuco não respondeu ao que ela precisava

  7. sex, 14/09/2012 - 13:26
    Eline das Chagas

    Quero dar os parabéns à jornalista Conceição Lemes pela bonita e justa homenagem à Vanete

  8. sex, 14/09/2012 - 13:25
    Eline das Chagas

    O Brasil deve muito à Vanete Almeida e no fim da vida negou-lhe praticamente tudo

  9. sex, 14/09/2012 - 12:40
    ricardo silveira

    Bela e justa homenagem a essa guerreira, a essa mulher. É inaceitável o não atendimento médico contribuir para a morte de uma pessoa. É inaceitável o país aceitar essa realidade capitalista passivamente.

  10. sex, 14/09/2012 - 11:50
    Urbano

    É simplesmente revoltante uma situação dessas. Para sustentarmos os bandidos do pig (afora os dos outros dois) somos bastante ágeis. É muita covardia, principalmente em relação a uma pessoa que lutou tanto em defesa dos mais necessitados

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