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Mia Couto: Acredita-se que a periferia pode dar futebolista, cantor, mas poeta, não

08 de novembro de 2012 às 14h21

O premiadíssimo Mia Couto participou nessa quarta-feira 7 do sarau da Cooperifa, no Jardim Ângela, bairro da periferia do Zona Sul da cidade de São Paulo

Daniel Mello
Repórter da Agência Brasil

São Paulo – O escritor moçambicano Mia Couto disse, em São Paulo, que impedir a população mais pobre de pensar por si mesma é uma prática racista. “Acredita-se que a periferia pode dar futebolista, cantor, dançarino. Mas, poeta? No sentido que o poeta não produz só uma arte, mas pensamento. Isso acho que é o grande racismo, a grande maneira de excluir o outro. É dizer: o outro pode produzir o que quiser, até o bonito. Mas, pensamento próprio, isso não”.

O escritor, que já recebeu diversos prêmios, como o da União Latina de Literaturas Românicas, visitou ontem (7) o sarau da Cooperifa. O evento é realizado toda quarta-feira no Bar do Zé Batidão, na região do Jardim Ângela, zona sul paulistana. Nessas reuniões, que ocorrem há 11 anos, crianças, adolescentes e adultos se revezam ao microfone para recitar poesia.

“É uma coisa nova que me acontece no Brasil, estar em um lugar como este”, disse ao começar o bate-papo com a plateia que lotou a laje do bar para ouvi-lo. Couto já esteve no país em várias ocasiões, mas só na noite de ontem satisfez a vontade de conhecer a periferia de uma grande cidade.

“Faltava-me essa experiência”, ressaltou. “Eu queria visitar a periferia de uma cidade brasileira pela mão de amigos, pela mão de gente da periferia”, acrescentou o autor que também se sente procedente de um lugar periférico.“Sou filho de portugueses que migraram nos anos 1950 para uma pequena cidade. Moçambique já é uma periferia. Eu sou da periferia da periferia, porque é uma cidade pequena”.

A identificação com a periferia da zona sul de São Paulo também está, segundo Couto, na resistência à condição de invisibilidade. Para ele, os moçambicanos têm buscado força para dizer: “queremos permanecer, queremos ser parte do mundo, queremos ser parte de um universo que não é sempre periferia”.

Na visão do autor, o processo é semelhante ao que ocorre com o projeto da Cooperifa que, além de fomentar a criação literária, busca formar público para a cultura produzida na região. “Eu vi aqui um pensamento que está muito vivo e que está contaminando, fazendo acontecer coisas”, destacou o escritor que admite ser fortemente influenciado pela cultura brasileira.

“Vocês não podem imaginar a importância de pessoas como Jorge Amado, por exemplo, nessa vontade de dizer: afinal, podemos falar dos nossos próprios assuntos. Afinal, o negro e o mulato podem ser personagens. Afinal, as nossas coisas têm valor”, disse, ao comentar como a literatura brasileira ajudou na formação das gerações das décadas de 1950 e 1960 em seu país.

Não só os autores brasileiros ajudaram na formação de Mia Couto, mas músicos como Chico Buarque e Caetano Veloso. “Sempre se pensa que um autor literário é influenciado por outros. E, às vezes, não é só. Eu fui muito tocado pela música brasileira”. Ele lembrou que tem um leque muito amplo de influências musicais, incluindo o sambista paulista Adoniran Barbosa.

Como morava em uma antiga casa colonial, contou que na juventude havia pressão para a demolição desse tipo de imóvel e a construção de edifícios mais modernos. “Lá em casa havia esse medo, que não era pronunciado, de que viesse qualquer coisa que nos levasse a isso. E essa canção do Adoniran Barbosa [Saudosa Maloca] era uma espécie de hino. Porque aquela demolição não era só de um edifício, era a demolição de um passado, de um lugar onde fomos felizes”.

Couto destacou que também encontra a África fortemente enraizada na alma dos brasileiros. “O brasileiro tem uma alma mestiça e conseguiu essa mestiçagem naquilo que era mais difícil, no componente religioso. As religiões africanas conseguiram se infiltrar nesse meio mais íntimo, naquilo que é mais fundo da nossa alma.

Mia Couto estudou medicina, formou-se em biologia, mas adotou o jornalismo depois da queda da ditadura em Portugal, em 1975, e engajou-se na guerra de libertação de Moçambique. É um dos autores do Hino Nacional moçambicano, adotado em 2002. Terra Sonâmbula, seu primeiro romance, de 1992, foi considerado um dos 12 melhores livros africanos do século 20 por um júri criado pela Feira do Livro do Zimbábue.

Edição: Graça Adjuto

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Nem sempre é o que parece | Viomundo - O que você não vê na mídia

21/02/2015 - 20h22

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Kabengele Munanga: “A educação colabora para a perpetuação do racismo” « Viomundo – O que você não vê na mídia

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10/11/2012 - 13h41

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Guilherme Varella: Você, internauta, sob dupla ameaça « Viomundo – O que você não vê na mídia

10/11/2012 - 13h34

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Cláudio

10/11/2012 - 03h13

SEM RIMAS
(para o PT e o PSTU)

A vida passa de graça
e fica ainda mais rica
nos olhos de esperança
que às mãos multiplicam

(Cláudio Carvalho Fernandes, no livro Em quanto encanto enquanto em canto, parte integrante da antologia Poesia Concursos Literários do Piauí, Fundac, Teresina, 2005, página 183.)

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Walter Maierovitch: PCC assume status de Máfia brasileira « Viomundo – O que você não vê na mídia

10/11/2012 - 00h52

[…] Mia Couto: Acredita-se que a periferia pode dar futebolista, cantor, dançarino, mas poeta, não; is… […]

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Eduardo Raio X

09/11/2012 - 19h41

Nunca se esqueça Mia que as área privilegiadas deram grandes assassinos da humanidade!

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Fabio Passos

09/11/2012 - 18h55

Emicida – Dedo na Ferida
http://www.youtube.com/watch?v=QdvYAjQYdIs


É só um pensamento, bote no orçamento
nosso sofrimento, mortes e lamentos,
forte esquecimento de gente em nosso tempo
visto como lixo, soterrado nos desabamento
em favela, disse Marighella. Elo
contra porcos em castelo
o povo tem que cobrar com os parabelo
porque a justiça deles, só vai em cima de quem usa chinelo
e é vítima, agressão de farda é legítima.
Barracos no chão, enquanto chove.
Meus heróis também morreram de overdose,
de violência, sob coturnos de quem dita decência.
Homens de farda são maus, era do caos,
frios como halls, engatilha e plau!
Carniceiros ganham prêmios,
na terra onde bebês, respiram gás lacrimogênio.

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Fabio Passos

09/11/2012 - 13h41

O Apartheid Social no Brasil não é um acidente. O regime foi construído pela “elite” branca e rica, uma diminuta minoria racista, que despreza o povo brasileiro e todas as suas manifestações culturais.

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Marcelo de Matos

09/11/2012 - 13h06

(Parte 2) Entre os Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) só a China (2ª) e a Rússia (4ª) obtiveram boa pontuação nas olimpíadas de Londres. O Brasil ficou em 22º lugar e a Índia em 55º. No Rio estão levando as UPP – Unidades de Polícia Pacificadora – para os morros, mas, quando levarão para lá as quadras esportivas? E em Sampa? Queremos ver uma Operação Saturação na periferia que não leve só motos com policiais. A China e a Rússia obtêm bons resultados porque levaram os esportes olímpicos até o povão. Aqui e na Índia só a elite tem acesso ao esporte. Fabiana Muller será, de novo, nossa musa do salto com vara. Será que não existe mais ninguém com condições de nos representar? Ou será que ela é a preferida dos patrocinadores e das agências de publicidade? Até no vôlei, que nos tem dado tantas alegrias, há pouca renovação. Se as quadras fossem levadas à periferia poderia ser diferente. Enfim, vamos ter, de novo, o simpático e eficiente Zé Roberto e as musas já conhecidas. Bola pra frente, com o inarredável Nuzman no comando do COB, infelizmente.

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Marcelo de Matos

09/11/2012 - 13h05

(Parte 1) “Acredita-se que a periferia pode dar futebolista, cantor…”. Será que se acredita mesmo? A elite dominante não acredita em nenhuma virtude da periferia. Claro que na periferia existem muitos cantores em potencial, mas, raramente são revelados. Os futebolistas, antigamente, eram formados na várzea; hoje as escolinhas de futebol é que revelam os Kakás da vida. O interior, também, revelava muitos craques. Isso porque o jovem de lá não tinha muitas opções de diversão: lazer só mesmo botando a chuteira nas costas e indo para o estádio bater uma bola. Jundiaí, Araraquara, a Bauru do Azenha e outros municípios revelavam craques. Hoje os jovens dessas cidades têm outras opções de diversão: acampar com a namorada, ir com ela para a praia. Afinal, o amor é lindo, e livre. Correr atrás de bola é coisa de trouxa e futebol virou atração de idoso. Neto (de Santo Antônio de Posse) e Evair (de Crisólia), talvez só tenham se tornado craques por falta de melhores opções de lazer em suas cidades. Os esportes olímpicos, também, passam longe da periferia.

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João de Deus Netto

09/11/2012 - 12h52

CARICATURA E ILUSTRAÇÃO DO GRANDE ANGOLANO MIA COUTO VOCÊ ENCONTRA AQUI…PONHA O “PICINEZ”… http://www.facebook.com/joao.dedeusnetto

http://picinezblog.blogspot.com.br/

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Zezinho

09/11/2012 - 12h34

Não sabia que pobre era uma raça. Isso mostra o próprio preconceito do escritor.

Esse é o erro das esquerdas, tentam consertar o erro com outro erro.
No final o que conseguem é acirrar e fomentar o ódio entre os brasileiros.

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FrancoAtirador

09/11/2012 - 11h02

.
.
Para a elite rica intelectualóide,

aos pobres, em geral, não é permitido

‘operar com SIGNOS DE PRESTÍGIO’

(nas palavras de Marilena Chauí).

Portanto, o pobre está proibido

de ser poeta, filósofo, cientista,

advogado, juiz, médico, dentista…

Assim se processa a ‘Segregação Social’.
.
.

Responder

Gerson Carneiro

09/11/2012 - 06h50

Nesse sentido, no Nordeste, muito em função da sua história, essa questão já não se faz presente, ou pelo menos não é tão acentuada. Pelo contrário, muito da poesia do Nordeste vem da periferia. Vem de gente não “letrada”. Patativa do Assaré; Jackson do Pandeiro; o próprio Luiz Gonzaga.

A Literatura de Cordel é a expressão máxima da quebra desse preconceito.

Se houve algo que os proprietários das terras e imbuídos de poder não conseguiram conter foi a expressão dos sentimentos do povo. Graças ao espírito guerreiro do povo africano. Axé, meu Pai!

Responder

Gerson Carneiro

09/11/2012 - 06h29

Na manhã desprevenida que o sol banhava
Areia branca de pureza quase imaculada
Nossos olhos calmos; nossa gente negra
Avistando longe no azul do oceano
Coração se enfeitiçando e não podia haver engano
Eram caravelas brancas como a lua

Será um “Deus”? Será um “Rei”?
De onde eu vim meu Pai? Pra onde irei?

Nesse dia traiçoeiro, estranhos guerreiros
Na bandeira tem as matas, tintas, de vermelho
Ó meu Pai, Seu grito que eles não entendem
Faz dobrar o peso das correntes que me prendem
Mas Sua coragem no meu sangue se mistura
E essa prisão já não é tão segura

Meu Deus! Que “rei”?!
Meu Rei! Que “deus”?!
De onde eu vim meu Pai? Pra onde irei?

Pela fresta da madeira dá pra ver que é dia
Mas no balançar desses porões geme longa noite fria
Ó meu Pai! Seu sonho nessa maresia
Navega à deriva de um olhar que distancia
E se nosso sangue ao longe tinge a areia branca
Há um sol da mesma cor que em outras terras levantou

Jamais meu Rei! Jamais meu Deus!
De onde eu vim meu Pai é o que eu serei.

De onde eu vim – Composição: Gerônimo

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Cláudio

09/11/2012 - 03h13

Parabéns ao Viomundo pela matéria mas tão curta que só deu para lamber os beiços, deixando um sabor de quero mais, muito (dil)mais. Essa é uma aposta (proposta) que os blogs progressistas poderiam desenvolver: MAIS artigos que relacionassem mais especificamente cultura (e arte) e política, elementos primordiais para o aperfeiçoamento constante, contínuo do pensamento. Não precisa sair publicando poeminhas aqui e ali (se bem que, para mim, seria interessante) mas de vez em quando um texto que tratasse mais pormenorizadamente dessa instigante relação política e arte, literatura, por exemplo, mostrando alguma coisa de arte engajada, que para mim é fascinante. Como diz Mia Couto, também sou “da periferia da periferia” e, infelizmente, “Acredita-se que a periferia pode dar futebolista, cantor, mas poeta, não”… Poeta tem o desplante de pensar por si e, mais ainda, querer fazer o outro também pensar de maneira própria, autônoma, igualitária na identidade complementar de seres humanos. Nunca me canso de dizer para quantos queiram ouvir que, apesar de já ter elementos dessa fraternidade universal que é a poesia e o saber do sabor das coisas humanas vindos da educação familiar, foi um poema de Vinicius de Moraes, “O Operário em Construção”, que me tocou profundamente e fez vir a certeza de que “Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava”. Considero-me um operário da poesia, admirando em Lula, por exemplo, aquele operário do poema de Vinicius que fez com que “um fato novo se viu Que a todos admirava: O que o operário dizia Outro operário escutava”. E trabalhando a poesia de cada dia, nós, operários da razão (sim, porque se faz poesia muito também, ou principalmente, com a razão), dizemos ao patrão-padrão-ladrão que “Não podes dar-me o que é meu”… Encerro com o final do belíssimo poema (que recomendo para leitura constante): “E o operário ouviu a voz De todos os seus irmãos Os seus irmãos que morreram Por outros que viverão. Uma esperança sincera Cresceu no seu coração E dentro da tarde mansa Agigantou-se a razão De um homem pobre e esquecido Razão porém que fizera Em operário construído O operário em construção.”…

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Luiz Armando Bagolin: “Ninguém achou absurdo o Museu do Carro, da Moda e da Canção” « Viomundo – O que você não vê na mídia

08/11/2012 - 22h25

[…] Mia Couto: Acredita-se que a periferia pode dar futebolista, cantor, dançarino, mas poeta, não; is… […]

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Urbano

08/11/2012 - 19h31

Para ser poeta não se faz necessário esgrimar a gramática de forma impecável, nem de forma qualquer. Quem não acreditar que pergunte a Zé Limeira e a Patativa do Assaré; né não caetano?

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Molina

08/11/2012 - 19h03

Brilhante. Tem que falar isso aos devotos do Paulo Freire…

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Pedro Serrano: É ilusório que todo crime pode e deve ser punido com encarceramento « Viomundo – O que você não vê na mídia

08/11/2012 - 16h09

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Bernardo Kucinscki: “Estamos assistindo ao surgimento de um macartismo à brasileira” « Viomundo – O que você não vê na mídia

08/11/2012 - 15h24

[…] Mia Couto: Acredita-se que a periferia pode dar futebolista, cantor, dançarino, mas poeta, não; is… […]

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