VIOMUNDO

Marco Aurélio Garcia: Falta de solução da crise palestina ameaça a paz

24 de julho de 2014 às 20h56

Marco-Aurelio-Garcia

O que está em jogo na Faixa de Gaza

Em artigo exclusivo a Opera Mundi, Marco Aurélio Garcia defende condenação de ofensiva israelense por parte do governo brasileiro

Marco Aurélio Garcia, no Opera Mundi

Esta nota estará seguramente desatualizada quando for publicada. Mais de setecentos palestinos – grande parte dos quais mulheres, crianças e anciãos – foram mortos nos bombardeios das Forças Armadas israelenses na Faixa de Gaza desde que, há duas semanas, iniciou-se uma nova etapa deste absurdo conflito que se arrasta há décadas. A invasão do território palestino provocou também mais de 30 mortos entre os soldados de Israel.

O governo brasileiro reagiu em dois momentos à crise. Na sua nota de 17 de julho “condena o lançamento de foguetes e morteiros de Gaza contra Israel” e, ao mesmo tempo, deplora “o uso desproporcional da força” por parte de Israel.

Em comunicado de 23 de julho e tendo em vista a intensificação do massacre de civis, o Itamaraty considerou “inaceitável a escalada da violência entre Israel e Palestina” e, uma vez mais, condenou o “uso desproporcional da força” na Faixa de Gaza.

Na esteira dessa percepção, o Brasil votou a favor da resolução do Conselho de Direitos Humanos da ONU (somente os Estados Unidos estiveram contra) que condena as “graves e sistemáticas violações dos Direitos Humanos e Direitos Fundamentais oriundas das operações militares israelenses contra o território Palestino ocupado” e convocou seu embaixador em Tel Aviv para consultas.

A chancelaria de Israel afirmou que o Brasil “está escolhendo ser parte do problema em vez de integrar a solução” e, ao mesmo tempo, qualificou nosso país como “anão” ou “politicamente irrelevante”.

É evidente que o governo brasileiro não busca a “relevância” que a chancelaria israelense tem ganhado nos últimos anos. Menos ainda a “relevância” militar que está sendo exibida vis-à-vis populações indefesas.

Não é muito difícil entender, igualmente, que está cada dia mais complicado ser “parte da solução” neste trágico contencioso. Foi o que rapidamente entenderam o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, e o secretário-geral da ONU, Ban Ki Moon, depois de suas passagens por Tel Aviv, quando tentaram sem êxito pôr o fim às hostilidades.

Como temos posições claras sobre a situação do Oriente Médio – reconhecimento do direito de Israel e Palestina a viverem em paz e segurança – temos sido igualmente claros na condenação de toda ação terrorista, parta ela de grupos fundamentalistas ou de organizações estatais.

Estive, mais de uma vez, em Israel e na Palestina. Observei a implantação de colônias israelenses em Jerusalém Oriental, condenadas mundialmente, até por aliados incondicionais do Governo de Tel Aviv.

Vi a situação de virtual apartheid em que vivem grandes contingentes de palestinos. Constatei também que são muitos os israelenses que almejam uma paz duradoura fundada na existência de dois Estados viáveis, soberanos e seguros.

É amplamente conhecida a posição que o Brasil teve no momento da fundação do Estado de Israel. Não pode haver nenhuma dúvida sobre a perenidade desse compromisso.

Temos reiterado que a irresolução da crise palestina alimenta a instabilidade no Oriente Médio e leva água ao moinho do fundamentalismo, ameaçando a paz mundial. Não se trata, assim, de um conflito regional, mas de uma crise de alcance global.

É preocupante que os acontecimentos atuais na Palestina sirvam de estímulo para intoleráveis manifestações antissemitas, como têm ocorrido em algumas partes, felizmente não aqui no Brasil.

A criação do Estado de Israel, nos anos quarenta, após a tragédia do Holocausto, foi uma ação afirmativa da comunidade internacional para reparar minimamente o horror provocado pelo nazi-fascismo contra judeus, ciganos, homossexuais, comunistas e socialdemocratas.  Mas o fantasma do ressurgimento ou da persistência do antissemitismo não pode ser um álibi que justifique o massacre atual na Faixa de Gaza.

O Brasil e o mundo têm uma dívida enorme para com as comunidades judaicas que iluminaram as artes, a ciência e a política e fazem parte da construção da Nação brasileira.

Foi esse sentimento que Lula expressou em seu discurso, anos atrás, na Knesset, quando evocou, por exemplo, o papel de um Carlos e de um Moacir Scliar ou de uma Clarice Lispector para a cultura brasileira. A lista é interminável e a ela se juntam lutadores sociais como Jacob Gorender, Salomão Malina, Chael Charles Schraier, Iara Iavelberg, Ana Rosa Kucinski e tantos outros.

Nunca os esqueceremos.

Marco Aurélio Garcia é assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais 

Leia também:

Galeano: Pouco a pouco, Israel está apagando a Palestina do mapa

Fisk: A verdadeira história de Gaza que os israelenses não contam

Investigação VIOMUNDO

Estamos investigando a hipocrisia de deputados e senadores que dizem uma coisa ao condenar Dilma Rousseff ao impeachment mas fazem outra fora do Parlamento. Hipocrisia, sim, mas também maracutaias que deveriam fazer corar as esposas e filhos aos quais dedicaram seus votos. Muitos destes parlamentares obscuros controlam a mídia local ou regional contra qualquer tipo de investigação e estão fora do radar de jornalistas investigativos que trabalham nos grandes meios. Precisamos de sua ajuda para financiar esta investigação permanente e para manter um banco de dados digital que os eleitores poderão consultar já em 2016. Estamos recebendo dezenas de sugestões, links e documentos pelo [email protected]

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sergio moraess

27/07/2014 - 17h14

havera paz um sim havera quando nao mais exitir o estado de israel

Responder

Cláudio

27/07/2014 - 05h13

Estados Unidos e Israel, dois Estados fasci$$tas terrori$$tas que contam com o deplorável pa$$ivismo de grande parte da comunidade internacional. ‘Tá chegando o Dia D: Dia De votar bem, para o Brasil continuar melhorando!!!! De uma, duas vezes é melhor, é melhor duas vezes, é melhor mais de uma!!!! De uma vez por todas, de uma voz por todos, por você, por mim, por nós, para todos e para todas!!!! !!!! Vote consciente e de forma unitária para o seu/nosso partido ter mais força política, com maioria segura que permita que o Brasil melhore mais continuando no bom caminho. ‘Tá chegando o Dia D: Dia De votar bem, para o Brasil continuar melhorando!!!! ****:L:L:D:D . . . . Lei de Mídias Já!!!! ****:L:L:D:D ****:D:D … “Com o tempo, uma imprensa [mídia] cínica, mercenária, demagógica e corruta formará um público tão vil como ela mesma” *** * Joseph Pulitzer. ****:D:D … … “Se você não for cuidadoso(a), os jornais [mídias] farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas, e amar as pessoas que estão oprimindo” *** * Malcolm X. … … … Ley de Medios Já ! ! ! . . . … … … …:L:L:D:D

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Elias

25/07/2014 - 12h56

Com todo respeito ao chanceler Marco Aurélio Garcia, sinto-me obrigado a fazer uma observação. Em seu texto acima são citadas as palavras antissemita e antissemitismo. Toda vez que acontece esse equívoco deve ser corrigido. Árabes e judeus são semitas e não apenas os dois, há outros povos semitas. Portanto, que fique bem claro, o inimigo que se instalou na Palestina é o sionismo. O sionismo é que promove a política de extermínio. O sionismo reduziu as terras dos palestinos a guetos cada vez mais minúsculos. Como disse Eduardo Galeano aqui no Viomundo: “Pouco a pouco, Israel está apagando a Palestina do mapa.”

Sendo assim, quando se pensar em dizer antissemita, o certo é dizer antissionista. Os que não aceitam o massacre, o assassinato de crianças, mulheres e anciões, devem dizer: somos contra o o sionismo, somos antissionistas.

Responder

Urbano

25/07/2014 - 12h32

Quebrado na emenda como os estados unidos se encontram, o que os donos do poder mais desejam é o que a moral degradada e intrínseca a eles permite: guerra. Ainda não vimos nada…

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alemao

25/07/2014 - 08h17

“O Brasil e o mundo têm uma dívida enorme para com as comunidades judaicas que iluminaram as artes, a ciência e a política e fazem parte da construção da Nação brasileira.”

O que foi então a manifestação em Higienópolis contra Israel?????

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Edna Lula

25/07/2014 - 07h33

Bravo, Marco Aurélio Garcia, nosso chanceler e condutor da política externa, de fato.

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Edgar Rocha

25/07/2014 - 00h46

O que pensa a comunidade judaica brasileira (brasileira, lembrem-se disto!) diante das declarações humilhantes contra nossas representações e o holocausto de palestinos? Queria saber.

Responder

Marat

24/07/2014 - 23h28

Há uma diferença profunda entre o que Marco Aurélio fala e o que falam os representantes do governo genocida de Israel. Aqui, Marco Aurélio aborda com serenidade, enquanto os genocidas fazem piadinhas sobre futebol e outras tolices. Esse comportamento delinquente do governo israelense só se dá porque são protegidos por um governo fortemente armado, e não menos terrorista: Os Estados Unidos.
Estamos em maus lençóis, e muitas guerras e massacres virão, pois, um mundo comandado por Estados Unidos e Israel não poderia ser diferente!

Responder

    FrancoAtirador

    25/07/2014 - 01h34

    .
    .
    Essa Organização Terrorista Anglo-Saxã

    jamais iria aceitar que Hamas e Fatah

    se unissem em favor do Povo Palestino.
    .
    .

    FrancoAtirador

    25/07/2014 - 01h58

    .
    .
    23 de Abril de 2014
    RFI (Portugal)

    Hamas anuncia acordo com OLP
    e Israel bombardeia Faixa de Gaza

    (http://www.portugues.rfi.fr/mundo/20140423-hamas-anuncia-acordo-com-olp-e-israel-bombardeia-faixa-de-gaza)
    (http://www.dn.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=3826384&seccao=M%EF%BF%BDdio+Oriente&page=-1)
    .
    .
    09/07/2014

    Hamas e Fatah falam em União
    e primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu
    entrou em contato com EUA e Alemanha
    para convencê-los de que o Hamas
    é o culpado pela escalada de violência

    EFE

    Jerusalém – Os líderes das duas principais facções palestinas fizeram um novo pedido de unidade nesta quarta-feira para “combater a agressão” israelense em um dia em que pelo menos 50 pessoas morreram na terceira operação bélica de Israel contra o movimento islamita Hamas.

    O apelo aconteceu no mesmo dia em que o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, entrou em contato com líderes mundiais para explicar a operação “Limite Protetor” e tentar convencê-los de que o Hamas é o culpado pela escalada de violência.

    O líder do grupo, Khaled Meshaal, que está exilado no Catar, garantiu que o único objetivo de Netanyahu é romper o acordo de reconciliação nacional que o Hamas assinou em 23 de abril com o partido nacionalista Fatah, dirigido pelo presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas.

    Esse pacto acabou com sete anos de divisão política palestina e permitiu, em 2 de junho, a formação de um governo de unidade transitório, integrado por tecnocratas, para que sejam convocadas eleições no início do ano que vem.

    “O primeiro-ministro israelense nunca esteve interessado na reconciliação palestina e, desde o primeiro momento, se dedicou a miná-la”, afirmou.

    Meshaal denunciou que, também dentro dessa estratégia, o governo israelense bloqueou o dinheiro enviado pelo Catar à ANP para o pagamento dos salários dos funcionários de Gaza e utilizou politicamente o assassinato de três jovens israelenses que ficaram desaparecidos durante quase três semanas na Cisjordânia.

    “O sequestro foi o estopim para Netanyahu. Como se a ocupação, as colônias e o bloqueio a Gaza não fossem uma flagrante violação dos direitos palestinos. Quem quer calma em troca de calma não age assim”, afirmou Meshaal, que disse não ter informação de um sequestro que, no entanto, aplaudiu.

    Segundo ele, a solução para o atual conflito armado passa pelo governo israelense aceitar o fim da ocupação e a libertação de presos.

    “Devem acabar imediatamente os bombardeios e também a ocupação. Vocês, israelenses, devem culpar e cobrar a responsabilidade disso de Netanyahu e de seu governo de extremistas, que são a razão para estarem em refúgios”, afirmou.

    Meshaal alegou que Israel não é capaz de manter uma operação desta intensidade durante muito tempo e instigou as facções palestinas em Gaza e Cisjordânia a “assumirem a responsabilidade de combater unidas Israel até conseguir a libertação”.

    Horas antes, o próprio Abbas tinha estendido a mão para uma unidade ao afirmar que a ofensiva de Israel sobre Gaza é “um ataque a todo o povo palestino”. E também pediu hoje ao presidente egípcio, Abdel Fatah al Sisi, que intervenha para parar “a escalada de violência de Israel em Gaza”.

    Segundo um comunicado divulgado pela agência de notícias local, eles conversaram por telefone sobre a situação vivida na Faixa e sobre próximos passos a serem dados tanto por Israel como pelo Hamas e pela comunidade mundial para parar a operação.

    Fontes palestinas explicaram à Agência Efe que uma das opções é reunir apoios mundiais para pressionar Israel, que na terça-feira lançou a operação “Margem Protetora” com o objetivo declarado de debilitar o Hamas e interromper o lançamento de bombas desde a Faixa.

    Em comunicado emitido no Cairo, Al Sisi confirmou que está em contato contínuo com todas as partes e considerou que Israel é “plenamente responsável, como potência ocupante, de garantir a vida da população civil palestina de acordo com o direito internacional”.

    A mediação do Egito tenta cessar “as medidas provocadoras e criar as condições necessárias para retomar as conversas de paz” entre palestinos e israelenses, acrescentou o porta-voz presidencial, Ihab Badawy.

    Netanyahu também conversou hoje com diversos líderes mundiais para justificar a operação, para quem o início é responsabilidade do Hamas.

    Segundo a imprensa local [SIC], o chefe do governo israelense ligou para o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, para a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e para o secretário de Estado dos EUA, John Kerry. A todos eles, lembrou que o Hamas é considerado um grupo terrorista pela comunidade internacional e que nenhum país pode viver sob a ameaça de bombas vinda da organização.

    (http://tekkie.co/news/newsdetails/item_35775/hamas-e-fatah-falam-em-uni%C3%A3o-e-netanyahu-encontra-l%C3%ADderes)
    .
    .

Luís Carlos

24/07/2014 - 23h20

A covardia, cinismo e violência do Estado de Israel são impressionantes. Monstruosidade o assassinato de crianças palestinas diante do silêncio e desfaçatez dos EUA, assassino e saqueador mor.

Responder

    Pfrém

    26/07/2014 - 00h13

    A guerra é uma desgraça, mas quando é o Hamas lançando foguetes contra Israel, essa turma fica apenas rindo

FrancoAtirador

24/07/2014 - 23h08

.
.
Diante Dessa Tentativa de Extermínio de um Povo Inocente

Por Fanáticos Fascistas da Extrema-Direita de Israel,

Resta Advertir Que, Se o Judeu Nazareno Retornasse Hoje,

Seria Condenado e Crucificado Novamente na Própria Terra Natal…
.
.

Responder

    FrancoAtirador

    24/07/2014 - 23h50

    .
    .
    Votação a favor da Resolução da Comissão de Direitos Humanos da ONU

    que pede investigação em Israel por prática de Crimes de Guerra:

    (http://imgur.com/aw3b1tp)

    SIM [A Favor dos Inocentes]
    África do Sul
    Arábia Saudita
    Argélia
    Argentina
    BraSil
    Cazaquistão
    Chile
    China
    Congo
    Costa do Marfim
    Costa Rica
    Cuba
    Emirados Árabes
    Etiópia
    Filipinas
    Índia
    Indonésia
    Kwait
    Maldivas
    Marrocos
    México
    Namíbia
    Paquistão
    Peru
    Quênia
    Rússia
    Serra Leoa
    Venezuela
    Vietnam

    ABSTENÇÕES [Lavaram as Mãos, como Pilatos]
    Alemanha
    Áustria
    Benim
    Botswana
    Burkina Faso
    Coreia do Sul
    Estônia
    França
    Gabão
    Grã-Bretanha
    Irlanda
    Itália
    Japão
    Macedônia
    Montenegro
    República Tcheca
    Romênia

    NÃO (Contra os Inocentes)
    United States of America

    (http://imgur.com/aw3b1tp)

    (https://www.facebook.com/pages/Palestina-M%C3%A9xico-Corsopal/584099111687883?ref=hl&ref_type=bookmark)

    SOMOS TODOS PALESTINA INDEPENDENTE
    (http://imgur.com/E8d9Cf8)
    .
    .

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