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Cartas de Minas
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Juliana Nóbrega: Como as Lojas Marisa ajudaram a multiplicar a intolerância

17 de maio de 2017 às 01h10

Além de tudo, um show de oportunismo das Lojas Marisa

“De mulher pra mulher…?”
 
Por Juliana Nóbrega*

Como não encontrei nenhum espaço adequado para tal tipo de mensagem no site da loja e, por escolha pessoal, não faço parte de nenhuma rede social, busquei outros espaços para deixar presente minha insatisfação com o departamento de marketing da loja “de mulher para mulher”, como diversos outros já se colocaram nestes últimos dias.

Sou (era?) uma cliente, digamos, compromissada, com a loja, já que boa parte de meu guarda-roupas está repleto de peças com seu nome, mas não posso ficar indiferente a infeliz e desprezível campanha deste dia das mães.

Não sei se por malícia, ingenuidade ou ignorância, resolveram mostrar certo posicionamento que não lhes cabe (enquanto loja de departamentos) e multiplicar ainda mais o desrespeito e intolerância presentes no país. Ainda mais envolvendo uma mulher, mãe, avó e… falecida!

Sabedores da pronunciada “polaridade” em que vive o país, o mais inteligente seria não se posicionar sobre qualquer lado político, nem que fosse para não perder clientes de um dos lados.

Mas, além de se posicionar, usou de forma irônica um discurso que fere a integridade não só dos vivos, mas dos falecidos, mostrando total falta de respeito com o humano, e somente o compromisso com a venda, com o lucro, com o marketing, com a imagem, com o espetáculo!

A palavra “espetáculo” deriva do latim spectáre: “olhar, observar atentamente, contemplar”, e tem a mesma raiz de specùlum, “espelho”, derivado do verbo specère, “olhar, observar”.

Então, todo espetáculo, por apresentar-se como reflexo do real, como espelho, é sempre uma imagem invertida do real.

Por mais parecidas que sejam a imagem e a realidade, não são a mesma coisa. São, antes, o inverso ou reverso uma da outra.

Guy Debord (2003), logo no início de sua obra Sociedade do Espetáculo, cita Feuerbach: “[…] nosso tempo, sem dúvida […] prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser […]. O que é sagrado para ele, não passa de ilusão, pois a verdade está no profano […]”, é então do eidolon (imagem) que se constitui e instaura a espetacularização do eidós (percepção da ideia), com todos os aparatos da sociedade de classes capitalista. O consumo (de mercadorias, de ideias, de valores, etc.) e alienação é que viabilizam a espetacularização. Tal consumo desenvolvido das mercadorias multiplicou na aparência os papéis a desempenhar e os objetos a escolher. Dessa forma, “o espetáculo na sociedade representa concretamente uma fabricação de alienação” (DEBORD, 2003, p. 20).

O espetáculo se confunde com a realidade social, criando as necessidades de consumo e falsos valores e ideias que constituem “a opinião pública”, o que há de maior poder para alienação e controle de consciências. Os meios de comunicação se encarregam da difusão da desinformação, ou da parcialidade na informação, num processo contínuo de construção e manutenção de uma suposta opinião pública, que deixa de ter sentido quando se torna massificação. Isso porque “[…] a tecnologia permite que a escolha e a apresentação da notícia e do comentário a partir de poucos pontos sejam suficientes para tornar homogênea a consciência de inúmeras pessoas (ADORNO, 1986, p. 72).

Os discursos midiáticos, por mais desinteressados que aparentemente possam parecer em um jornal, filme, programa televisivo, revelam comportamentos desejáveis e condicionados, seja pela afirmação ou pela negação.

Quando afirmam a violência, a banalidade, o sensacionalismo, promiscuidade, mesmo o discurso partidário; ou ainda quando negam qualquer discussão mais profunda acerca de temáticas pertinentes a consciência e existir humano; apontam para a anulação da construção do pensamento.

Desta forma, a espetacularização e a profanação do sagrado não é nada de novo a ser explorado pela tal loja, mas algo profícuo as necessidades de manutenção da máquina capitalista.

Todavia, a isenção do discurso político (perder a oportunidade de ficar quieto) seria algo inteligente para o comércio em tempos de crise!

Mas, os próximos passos estão dados, como tudo tem sido em nosso país: “estes aí que estão reclamando são um bando de petistas alienados que recebem bolsa família e pão com mortadela”.

Será? Volto a afirmar que pode ser ignorância do grupo, mas esta ideia generalizada de que posso disseminar minha opinião “comprada” dos telejornais que ela será unanime aos de bem (e os contrários se resumem a “petralhas”), está contaminando todos os espaços públicos, sejam reais ou virtuais, até quando?

Unânime deveria ser o respeito as pessoas, acima dos discursos, das imagens, do espetáculo e do lucro: enquanto os adversários políticos fazem acordos e sentam juntamente para negócios em diferentes contextos, os “adversários” anti-políticos se xingam e zombam da desgraça alheia, que também é sua.

*Formada em Filosofia, Mestre em educação, doutoranda em Filosofia Política

Referências:
 
ADORNO, T. W. A indústria cultural. In: COHN, G. Coleção Grandes Cientistas Sociais. São Paulo: Ática, 1986.

DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. E-book digitalizado por Coletivo Periferia e eBooks Brasil, 2003.

Leia também:

Como a filósofa Djamila Barbosa questionou Moro em Londres; veja

 

2 Comentários escrever comentário »

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a.ali

17/05/2017 - 09h44

Ótimo texto e, pelo que se vê, não é de hj. que a rede é oportunista. boicote, boicote…

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Eduardo

17/05/2017 - 08h22

Às trabalhadoras do Brasil, espero que comprem nas Lojas Marisa aquilo que de fato for melhor e mais barato! Porém, peço encarecidamente que continuem respeitando a memória e se mirando nos simples exemplos de D. Marisa Leticia! A superioridade não se mede pelo dinheiro!

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