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Cartas de Minas
Cartas de Minas

Ivan Seixas: Ministro da Educação não leu o Folha Explica

29 de abril de 2013 às 10h04

O pai de Ivan morreu primeiro num jornal dos Frias

Rodrigo Vianna, do Escrevinhador, entrevistou Ivan Seixas, cujo pai foi declarado morto em “tiroteio” na manchete da Folha da Tarde antes mesmo de morrer sob tortura, durante a ditadura militar:

Escrevinhador — O ministro Aloisio Mercadante (que é do PT), enviou uma carta à Folha de S. Paulo declarando-se “perplexo” com a noticia de que Otavio Frias de Oliveira (o “seu” Frias, já falecido, pai dos atuais controladores do jornal) visitava frequentemente o centro de torturas do DOPS, além de ser amigo pessoal do delegado torturador Sergio Paranhos Fleury. O que achou da carta de Mercadante? Há motivo para se sentir “perplexo”?

Ivan Seixas — Perplexos ficamos nós com essa carta. O proprietário do Grupo Folha tinha uma relação tão íntima com o sistema repressivo da ditadura que até cedeu um de seus jornais para o DOI/CODI fazer propaganda de seus assassinatos; chegou a emprestar os carros de distribuição desse mesmo jornal (Folha da Tarde) para os torturadores montarem emboscadas contra os militantes da resistência.

O ministro não deve ler muito as publicações do próprio Grupo Folha, pois o livro da série “Folha Explica”, da jornalista Ana Estela de Souza Pinto, conta tudo isso sem rodeios:

— Na página 51 está escrito que “na Folha da Tarde o endurecimento do regime pós-AI-5 trouxe mudanças radicais. Sem ter conseguido transformar a simpatia dos estudantes em aumento de vendas, o jornal amargou baixa circulação até ser entregue, em 1969, à chefia de Antônio Aggio Jr, jornalista que tinha ligações com órgãos de segurança e adotou uma linha editorial de apoio ao regime militar (…) Na redação, militantes de esquerda foram substituidos por jornalistas ligados à polícia, alguns com cargo de delegado ou patente de major ou capitão da PM“

— Na página 52, informa-se que que “A Folha de São Paulo se mantinha distante da linha policial da Folha da Tarde, mas não enfrentou a ditadura. Desde 1968, praticava a autocensura e acatava instruções repassadas diariamente pela repressão. (…)“

— Na página 56, a jornalista afirma que “do lado da Folha, a direção não nega a possiblidade de a  ocorrido, mas sem o conhecimento da empresa. Em 2006, em depoimento para a biografia do empresário, o diretor de redação, Otávio Frias Filho, militante no movimento estudantil no final dos anos 1970, disse considerar possível que veículos da empresa tenham sido usados por policiais e que, ao questionar o pai sobre o episódio, ele sempre negou ter sido consultado sobre emprétimos deles. Frias Filho também não acredita em envolvimento do sócio de seu pai, Carlos Caldeira, que tinha afinidade com integrantes do regime militar e era amigo do Coronel Erasmo Dias. Caldeira não era o único com conexões militares. Nas redações da empresa havia policiais civis e militares, tanto infiltrados como declarados – alguns até trabalhavam armados. “

O ministro da Educação não lê? Militante da resistência, como se diz, desconhece tudo isso?

[Ouça aqui como foi a morte do pai de Ivan]

Escrevinhador — O ex-agente da repressão Claudio Guerra disse, em depoimento à Comissão da Verdade da Cãmara de Vereadores de São Paulo, que “seu” Frias colaborava com dinheiro para a “irmandade” dos torturadores, além de ser amigo pessoal de Fleury. As  afirmações de Guerra merecem crédito? São compatíveis com as informações que você já conhecia?

Ivan Seixas — A ser verdadeira a informação dada por agentes repressores ouvidos, de que a segurança pessoal do senhor Otávio Frias de Oliveira era feita pelo delegado Roberto Quass, do DEOPS/SP, chefiado pelo torturador Sérgio Fleury, podemos concluir que a ligação entre eles não era mera retórica. Como ninguém daria recibo de contribuição para o caixa da tortura, não é possível atestar a veracidade dessa informação do ex-delegado Cláudio Guerra. No entanto, até agora ninguém o desmentiu nem suas informações foram desmentidas pelos fatos.

Escrevinhador — Qual o testemunho pessoal que você, ex-preso político que teve o pai morto sob tortura, pode dar sobre a Folha e a parceria do jornal com a ditadura?

Ivan Seixas — O jornal Folha da Tarde estampou manchete comemorando a morte de meu pai quando ele ainda estava vivo. Todos os outros jornais publicaram apenas a nota oficial que o II Exército os obrigou publicar. Por outro lado, vi carros da Folha estacionados diante da sede do DOI-CODI em duas ocasiões. Como alí não havia bancas de jornal nem era estacionamento, conclui que eram os carros usados em esquemas para a montagem de emboscadas pra captura de militantes, que seriam depois torturados.

Escrevinhador — A ALN chegou a explodir carros de entrega da Folha, nos anos 70? Por que isso ocorreu? A esquerda armada sabia, naquela época, da ação do jornal em apoio aos torturadores?

Ivan Seixas — Sim. A resistência sabia que havia esse esquema de cessão de carros da Folha para a montagem de emboscadas. Por causa disso, a ALN queimou carros da Folha para avisar que já sabia disso e que não iria tolerar a continuação dessa prática.

Escrevinhador — Há um brilhante documentário, chamado “Cidadão Boilesen”, que narra a história do empresário, diretor da Ultragaz, que financiava e participava das sessões de torturas (Boilesen acabou morto, em represália, pelos guerrilheiros de esquerda). Quais as semelhanças entre Boilesen e Frias? Não falta um documentário “Cidadão Frias”?

Ivan Seixas — Nesse documentário o empresário José Papa Júnior afirma sem nenhuma cerimônia ou constrangimento que “todos nós empresários dávamos dinheiro para a OBAN e para o DOI-CODI”.

Creio que seria bem interessante a realização de um documentário “Cidadão Frias”. No Chile foi feito um documentário sobre o dono do jornal El Mercúrio, que tinha essa mesma relação com a ditadura Pinochet. O nome do filme chileno é “Diário de Miguel”.

Escrevinhador — O ministro petista afirma em sua carta: “tive a oportunidade de testemunhar o papel desempenhado pelo jornal, sob comando de seu Frias, na luta pelas liberdades democráticas (…) Frias merece meu reconhecimento”. O que poderia explicar que o minstro Mercadante tenha escrito essa carta? O ministro faz alguma cálculo político? Está desinformado? Ou tomou uma atitude pura e simplesmente bajuladora?

Ivan Seixas — Talvez seja uma mistura de um pouco de cada um desses ingredientes. Mas a bajulação aos donos da mídia, colaboradores e beneficiários da ditadura, é uma constante em nosso país. Do mesmo modo que a estreita relação com as grandes empreiteiras. Durante a ditadura, essas empresas se lambuzaram com as verbas para a construção de obras faraônicas ao mesmo tempo que davam dinheiro para as torturas. Hoje elas recebem verbas para obras grandiosas ao mesmo tempo que contribuem com TODOS os partidos.

Não por acaso, há anos que os familiares de desaparecidos insistem para que os currículos escolares oficiais incluam o ensino sobre a ditadura militar e nunca conseguiram sensibilizar os ministros da educação para isso. Acho que achamos agora a resposta para esse mistério.

Sobre El Mercurio, do Chile, que recebeu dinheiro da CIA para fazer campanha contra Salvador Allende:

Leia também:

Eduardo Guimarães: Na Folha, Mercadante afronta vítimas da ditadura

 

21 Comentários escrever comentário »

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Torturador da ditadura, o delegado Carlinhos Metralha é esculachado em Itatiba, SP - Viomundo - O que você não vê na mídia

04/05/2013 - 15h16

[…] Ivan Seixas: Ministro da Educação não leu o Folha Explica […]

Responder

Elias

30/04/2013 - 12h47

Mercadante não soube da ficha falsa de Dilma publicada em 1ª página no jornal do “seu Frias”? Mercadante não soube que o ministro Nelson Jobim disse ao mesmo jornal ter votado em Serra e foi demitido na sequência? Essa carta bajuladora não é o suficiente para Dilma, no mínimo, convidar Mercadante a se demitir? Não. Esse governo é incapaz de se indispor com a mídia golpista. Mas o pior ainda está por vir. Alexandre Padilha disse recentemente: “Eu acho, inclusive, que o Aloizio Mercadante é o candidato natural em São Paulo”. Muito antes dessa declaração de amor pela Folha, eu já não acreditava que Mercadante se elegesse governador em São Paulo. Não tem feeling, não tem carisma e sua militância de esquerda não convence. É de se esperar que o PT repense e escolha um nome melhor.

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    tiago carneiro

    30/04/2013 - 22h41

    Dilma Russerra, aquela do PSDB, ficou bastante feliz com a ficha falsa. Ela ligou pra vizinha dizendo que saiu no jornal.

    Elias

    01/05/2013 - 16h15

    Não apoiado, caro tiago.

abolicionista

30/04/2013 - 11h18

Não custa lembrar que Mercadante é o braço direito da Dilma. Talvez seja melhor a presidenta começar a usar o braço esquerdo…

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    Pedro L. F.

    01/05/2013 - 01h33

    o problema é que à esquerda tem o zé cardoso, na frente o bernardo e atrás o merval. Por cima vem chegando o stf.

    A Dilma tem sorte de nenhum de seus “apoiadores” a ter jogado da rampa do planato.

abolicionista

30/04/2013 - 11h17

E o PT utiliza a tradicional tática de colocar o enorme rabo preso entre as pernas e ficar quietinho, esperando a poeira baixar. “Deixa a militância espernear, na hora do vamovê, eles ficam do nosso lado”. Só que eu não caio mais nessa…

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    Mário SF Alves

    01/05/2013 - 01h45

    Penso que a tática (ou estratégia, não sei bem) é brochar de vez todo e qualquer ímpeto ou poder de resistência do povo. Dia virá em que, até para fins de sustentação da débil democracia que temos, pode ser necessário estimular a resistência; neste dia pode ocorrer de estarmos tão descrentes que resistência nenhuma virá. Com o governo João Goulart aconteceu algo parecido. No calor da luta pela legalidade, e em nome da governabilidade, o que havia de politicamente mais crítico e engajado na sociedade brasileira foi levado a esquecer os ânimos. Aliás, Brizola, falava com certa frequância no tal ensarrilhar armas.

Fernando Soares

29/04/2013 - 22h10

Mercadante, pede pra c…. e sai.

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Marcelo de Matos

29/04/2013 - 20h31

Mercadante foi acusado neste e em outro post aqui do Viomundo de desconhecer a História do Brasil. Essa mesma história nos mostra que os revolucionários de antigamente eram bem diferentes dos de hoje em suas estratégias. “Em março de 1936, Prestes e Olga Benário foram presos. Meses depois, Olga, grávida, foi entregue pelas autoridades brasileiras ao regime nazista da Alemanha, onde morreu executada. A filha do casal, Anita Leocádia Prestes, nasceu em um campo de concentração nazista”. Apesar de tudo isso, ao sair da prisão Prestes resolveu apoiar Getúlio “que segundo ele deveria conduzir a reconstitucionalização do país, bem como o processo de sucessão presidencial”. Prestes entendia que Getúlio representava a facção mais progressista do país e não titubeou em apoiá-lo. Já não se fazem revolucionários como antigamente. Stalin chegou a fazer aliança estratégica com Hitler para retardar a invasão da Rússia pelos alemães. Hoje nossos revolucionários não seriam capazes dessas proezas. São extremamente apegados ao passado para encararem o futuro.

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Raimundo Pedroza

29/04/2013 - 20h22

Sr. Mercadante, o senhor não deve ao povo brasileiro apenas um pedido de desculpas, mas um pedido de PERDÃO, pois não cometeu apenas um grave erro, mas um PECADO MORTAL e, de certo, será condenado ao INFERNO DAS URNAS VAZIAS.

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Raimundo Pedroza

29/04/2013 - 19h47

Na condição de militante de esquerda desde minha mais tenra juventude, e hoje com 54 anos, tenho legitimidade para sugerir um caminho mais fácil para o ilustre Ministro Mercadante se credenciar junto ao PIG: Filiar-se ao Instituto Milenium, de preferência em uma cerimônia ao vivo no Caldeirão do Ruck.

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Francisco

29/04/2013 - 18h41

Não demora, o PT sai do poder federal (talvez substituido por Feliciano, Bolssonaro, ou Agripino…) e não terá reformado o curriculo escolar nem das escolas civis e nem das militares.

Como explicar que o curriculo das Agulhas Negras permaneça intocado?

Mas o pior não é isso. Para mim o pior é não ter mexido nos PCNs (Parametros Curriculares Nacionais). Esse documento diz, por exemplo, para quê se educa no Brasil, qual o “objetivo pedagógico” do ensino no país.

Hoje, o objetivo oficial da educação no Brasil é um anódino “formar para a cidadania”. Isso significa o quê? Talvez se submeter a eleições indiretas ou outra qualquer “norma legal”. Num país que viveu ditadura e sangrenta afronta aos direitos humanos, o objetivo pedagógico só pode ser “formar defensores do regime republicano democrativo e defensores do estado democratico de direito”.

E submeter TODO o sistema educacional brasileiro a essa diretriz: desde o ensino escolar ao serviço militar (para qu~e temos serviço militar no país? Esse seria um ótimo objetivo pedagógico: educar para a resistência a golpes contra a democracia).

Ensinar o nosso povo a defender pelas armas, se preciso, o seu direito de meter uma bala na testa de qualquer auto-proclamado ditador, da esquerda, da direita, do judiciário ou de onde for.

O PSDB contestaria no Supremo? Claro… E essa é a razão pela qual deveria ser feito.

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Fabio Passos

29/04/2013 - 18h40

Ler esta entrevista da um no na garganta.
E revolta contra a atitude repugnante de mercadante.

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Jotace

29/04/2013 - 16h44

Pelo seu comportamento que envergonha o ministro mercadante deve muitas explicações e pedir perdão ao povo brasileiro. Ou então se demitir imediatamente do cargo, já que não foi demitido. Pois não cabe a um ministro brasileiro dirigir uma carta nos termos em que o fez à bandidagem da Folha, empresa sabidamente colaboradora e cujo proprietário convivia de perto com torturadores e os ajudava no cumprimento do seu ofício tenebroso. E mercadante, ao se deixar revistar por policiais estrangeiros numa solenidade oficial em pleno território brasileiro, também feriu com a sua covardia a dignidade e a soberania da nação.

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Gerson Carneiro

29/04/2013 - 14h58

Desde a data da publicação da carta que Mercadante não dar o ar da graça. Alguém o viu recentemente? Tá mais sumido que o boneco Fuleco da Copa do Mundo.

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renato

29/04/2013 - 13h41

Quer dizer que alunos deste país, não recebem informações,
ou aula, ou conhecimento, sobre os ocorridos no Brasil neste
periodo. De forma clara e didatica, decisões após as aulas
cada um que fique com a sua. Mas fatos são fatos.São devidamente históriados.
O lado de lá e o lado de cá.
Senão continuaremos ..colombo descobriu as Amérias, o Brasil
fora. cabral o Brasil as Américas fora.
E os Espanhois tomaram o resto.França quase de fora, quase.
É uma vergonha.

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assalariado.

29/04/2013 - 12h39

Todos os militantes que se dizem de esquerda, se não tiverem em sua consciência classista e politica, um corte, um viés, de que vivemos numa sociedade dividida em luta de classes, a chance de dar estes arrotos ideológicos, tipicamente da social democracia, logo os identificará, qual é sua real intensão e ‘profundidade’ de transformação social a qual este tipo de ‘esquerda’, está a serviço.

Quem é, realmente, da esquerda e tem visão histórica do que se trata a luta de classes, dificilmente, fará um discurso que faça a sua mascará ideológica cair. Neste (mais um) caso, sem novidades, estão coerentes. Afinal, a social democracia petista e suas genéricas só reforçam a ideia de que nunca foram socialistas, de fato.

Alias, saibam que um dos pais da social democracia disse no século 19, está aqui:

Karl Kautsky em: “A Conquista do Poder Político”

“O que negamos é apenas a possibilidade de um partido operário formar, em tempo normal, com os partidos burgueses, um governo ou um partido de governo, sem cair, por isso, em contradições insuperáveis que o farão, sem dúvida, fracassar. […] Um partido proletário em um governo de coalizão burguesa, far-se-á sempre cúmplice dos atos de repressão dirigidos contra a classe operária; atrairá para si o desprezo do proletariado, enquanto que a sujeição resultante da desconfiança de seus colegas burgueses o impedirá sempre de exercer uma atividade frutífera. Nenhum regime semelhante pode aumentar as forças do proletariado – ao que não se prestaria nenhum partido burguês – e só pode comprometer o partido proletário, confundir e dividir a classe operária.”

Saudações Socialistas.

Responder

Mardones

29/04/2013 - 12h01

Não adianta o PT tentar dizer que é diferente dos demais partidos brasileiros. Na prática, o PT foi tão inativo quanto os outros no que diz respeito às estruturas dominantes. E no campo da educação, fora o aumento de vagas, não houve alterações.

Aliás, o Ivan Seixas cutucou muito bem quando disse que nenhum ministro da educação modificou o conteúdo escolar para incluir o assunto ‘Ditadura Militar’.

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Alexandre Lins

29/04/2013 - 11h35

Mercadante, o “Ze” e o Bernardo sao “Ministros” da Dilma, nao sao? Faz-me rir PT!

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