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Cartas de Minas
Cartas de Minas

Cesar Bolaño: 50 anos depois, projeto cultural da ditadura foi vitorioso

27 de março de 2014 às 21h32

Roberto Marinho com o ditador Figueiredo

por Luiz Carlos Azenha

César Ricardo Siqueira Bolaño
 é jornalista formado pela Universidade de São Paulo (USP) e doutor em Economia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), no sábado ele estará em São Paulo para participar do evento TV Globo: Do golpe de 1964 à Censura hoje.

Ele é um dos autores de Rede Globo – 40 anos de Poder e Hegemonia.

No livro, César explica a origem da hegemonia da emissora nos dias de hoje: aliança com o capital internacional, através do grupo Time Life, que permitiu a ela adotar técnicas modernas de gerenciamento e contratar as melhores equipes, além da proximidade com o projeto político da ditadura militar.

No caso, houve uma acomodação: a ditadura abriu mão da produção de conteúdo, que passou a controlar via censura. Ao mesmo tempo, com a estatal Embratel, promoveu a expansão da rede de telecomunicações, através da qual a Globo pode criar o primeiro telejornal de alcance realmente nacional, o Jornal Nacional.

Foi assim que a emissora conseguiu a gigantesca vantagem de “formar o público” da TV brasileira. Mal comparando, é como aquele traficante que oferece a droga gratuitamente para depois tirar proveito econômico do vício alheio.

Porém, os conhecedores da história da TV Excelsior sabem que a emissora, que chamou a “revolução” pelo verdadeiro nome, golpe, foi na verdade a primeira a estabelecer uma grade de programação com horários fixos.

Aliás, quando a Excelsior faliu, nos anos 70, com a concessão cassada pelo ditador Médici, o Grupo Folha ficou com parte do espólio e a Globo acabou de herdar o elenco da emissora — já havia contratado, inclusive, Tarcísio Meira e Glória Menezes. A Globo também herdou gente da TV Tupi, quando esta foi para o buraco.

Para quem não sabe, a Excelsior teve Barbosa Lima Sobrinho como editor de seu telejornal, além de um elenco que incluia de Bibi Ferreira aos Trapalhões. No Teatro Cultura Artística, em São Paulo, onde ficava sua sede, fez um programa ao vivo com Jean-Paul Sartre e Simone Beauvoir.

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O dono da Excelsior, Mário Wallace Simonsen, legalista, foi trucidado pela ditadura, que destruiu a empresa dele que exportava café, a Panair e a emissora de TV — nesta ordem.

Diz o pesquisador Fabio Venturini que os militares, estudiosos da ditadura Vargas, que teve problemas com o barão da mídia Assis Chateaubriand, escolheram um empresário que não criava problemas: Roberto Marinho.

Vejam como o censor mor da época da ditadura, o ministro da Justiça Armando Falcão, falava da Globo:

Segundo Cesar Bolaño, a Globo teve de se desfazer do capital do grupo Time Life mas adotou um padrão cultural do capitalismo associado, ou seja, dependente dos Estados Unidos. É neste sentido que ele diz que “o padrão cultural da ditadura militar foi vitorioso”: a Globo está aí para quem quiser saber o que é subordinação a ideias vindas de fora.

Ouça a interessante entrevista do professor abaixo e compareça sábado à palestra dele, 18 horas, na sede do Sindicato dos Bancários na rua Carlos Sampaio, 305, travessa da Paulista:

 

24 Comentários escrever comentário »

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Bonifa

30/03/2014 - 23h16

O problema da dominação da informação é que ela tem que total, não pode permitir uma única opção viável. E a televisão é a grande forma de dominação através do controle da informação. Daí veio a tremenda resistência da mídia televisiva ao advento da TV Brasil. Mas quando a TV Brasil se mostrou como um mero canal institucional, como as TVs Câmara, Senado, NBR e outros, então a mídia televisiva permitiu que ela existisse sem grandes ataques contra ela.

Vejam bem, a independência de um país só existe quando ele tem uma imprensa independente das grandes correntes de dominação informativa.

Isso porque essas correntes sempre defendem a política dos países das quais são oriundas.

Deste modo, temos hoje no mundo uma corrente de informação uni-ideológica, e temos também alguns países que possuem uma imprensa independente, e por isso mesmo são independentes. São eles a Rússia, a Índia, a China, Israel e o Irã. Todos eles têm uma imprensa independente e todos eles também possuem poder nuclear, menos o Irã. Isso não é uma mera coincidência. Por isso atacam o Irã, pela audácia de ter uma imprensa independente, e acham que ele busca poder nuclear para sustentar sua imprensa independente.

O Brasil só romperá uma barreira séria ao seu desenvolvimento quando também tiver uma mídia independente que seja pelo menos tão forte quanto a mídia comprometida que opera livremente em seu território. Comprometida com um esquema de dominação externa que age sobre a independência do próprio próprio Brasil.

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anac

30/03/2014 - 12h05

A Globo como Brizola bem definiu era o FILHOTE DA DITADURA.

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anac

30/03/2014 - 12h01

TORTURA NUNCA MAIS:
Lembrar é preciso.
Frei Tito de Alencar Lima, brutalmente torturado no carcere se suicidou na França.

Rezemos, mesmo os sem fé, juntos o poema – Noite de Silêncio – que Tito escreveu em Paris, a 12 de outubro de 1972:
“Quando secar o rio da minha infância / secará toda dor. Quando os regatos límpidos de meu ser secarem / minh’alma perderá sua força. Buscarei, então, pastagens distantes / lá onde o ódio não tem teto para repousar. Ali erguerei uma tenda junto aos bosques. Todas as tardes, me deitarei na relva / e nos dias silenciosos farei minha oração. Meu eterno canto de amor: / expressão pura de minha mais profunda angústia. Nos dias primaveris, colherei flores / para meu jardim da saudade. Assim, exterminarei a lembrança de um passado sombrio”.

O calvário de Frei Tito

Na terça-feira. 17 de fevereiro de 1970, oficiais do Exército retiraram Frei Tito de Alencar Lima do Presídio Tiradentes, onde se encontrava preso desde 1969, acusado de subversão. “Você agora vai conhecer a sucursal do inferno”, disse-lhe o capitão Maurício Lopes Lima.
No quartel da rua Tutóia, um outro prisioneiro, Fernando Gabeira, testemunhou o calvário de frei Tito: durante três dias, dependurado no pau-de-arara ou sentado na cadeira-do-dragão -feita de chapas metálicas e fios-, recebeu choques elétricos na cabeça, nos tendões dos pés e nos ouvidos. Deram-lhe pauladas nas costas, no peito e nas pernas, incharam suas mãos com palmatória, revestiram-no de paramentos e o fizeram abrir a boca “para receber a hóstia sagrada” – descargas elétricas na boca. Queimaram pontas de cigarro em seu corpo e fizeram-no passar pelo “corredor polonês”.
O capitão Beroni de Arruda Albernaz vaticinou: “Se não falar, será quebrado por dentro. Sabemos fazer as coisas sem deixar marcas visíveis. Se sobreviver, jamais esquecerá o preço de sua valentia”. A ceder e viver, Tito preferiu morrer. “É preferível morrer do que perder a vida”, escreveu ele em sua Bíblia. Com uma gilete, cortou a artéria do braço esquerdo. Socorrido a tempo, sobreviveu.
Foi libertado em dezembro de 1970, incluído entre os prisioneiros políticos trocados pelo embaixador suíço, seqüestrado pela VPR. Ao desembarcarem em Santiago do Chile, um companheiro comentou: “Tito, eis finalmente a liberdade!”. O frade dominicano murmurou: “Não, não é esta a liberdade”.
Em Roma, as portas do Colégio Pio Brasileiro, seminário destinado a formar a elite do nosso clero, fecharam-se para o religioso com fama de “terrorista”. Em Paris, nossos confrades o acolheram no convento de Saint Jacques, em cuja entrada uma placa recorda a invasão da Gestapo, em 1943, e o assassinato de dois dominicanos.
O capitão Albernaz tinha razão: sufocado por seus fantasmas interiores, Tito tornou-se ausente. Ouvia continuamente a voz rouca do delegado Fleury, que o prendera, e o vislumbrava em cafés e bulevares. Transferido para o convento de I’Arbresle, construído por Le Corbusier, nas proximidades de Lyon, as visões aterradoras continuaram a minar sua estrutura psíquica. Escrevia poemas:
“Em luzes e trevas derrama o sangue de minha existência / Quem me dirá como é o existir / Experiência do visível ou do invisível”.
Os médicos recomendaram-no suspender os estudos para dedicar-se a trabalhos manuais. Empregou-se como horticultor em Villefranche-sur-Saône e alugou um pequeno cômodo numa pensão de imigrantes, o Foyer Sonacotra, cujas despesas pagava com o próprio salário. O patrão o percebeu indolente, ora alegre, ora triste, sugado por um tormento interior. Em seu caderno de poemas, Tito registrou:
“São noites de silêncio / Vozes que clamam num espaço infinito / Um silêncio do homem e um silêncio de Deus”.
No sábado, 10 de agosto de 1974, frei Roland Ducret foi visitá-lo. Bateu à porta de seu quarto, na zona rural. Ninguém respondeu. Um estranho silêncio pairava sob o céu azul do verão francês e envolvia folhas, vento, flores e pássaros. Nada se movia. Sob a copa de um álamo, o corpo de Frei Tito dependurado por uma corda, balançava entre o céu e a terra. Ele tinha 28 anos.
Em março de 1983, seus restos mortais retornaram ao Brasil. Acolhidos em solene liturgia na Catedral da Sé, em São Paulo, encontram-se enterrados em Fortaleza, sua terra natal. O cardeal Aros frisou que Tito afinal encontrara, do outro lado da vida, a unidade perdida.
http://www.adital.com.br/freitito/por/irmao.html

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Mário SF Alves

29/03/2014 - 16h50

O projeto vitorioso da ditadura militar foi o MOBRAL político e cultural. Esse foi o verdadeiro sonho de consumo da ditadura; e pior, nos aflige até hoje.

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José Carlos Santos

29/03/2014 - 13h11

Essa foto do Roberto Marinho de braços dados, como uma dama, com o general Figueiredo é marcante e simboliza muito bem, mas que qualquer palavra, o grande poder da Rede Globo no Brasil daquela época (“daquela”), maior mesmo que o poder dos governantes do Brasil.

Vejam como Figueiredo, com olhos baixo, quase submisso, acompanha como que levando uma dama da opinião pública brasileira durante a ditadura militar. Eles precisavam muito desse apoio. Um casamento de papel passado.

Como dizem, a Rede Globo era a opinião pública. Mas não só a Rede Globo, mas toda grande mídia do Brasil, apoiou os governos militares, e sonegou ao país o direito a informação.

A informação “verdadeira” é um dos grande pilares dos direitos humanos e do estabelecimento de bases sólidas da democracia. Só há informação confiável, nas democracias, em ambiente de liberdades.

Nas ditaduras, as informações geralmente são falsas e desinformam mais que informam.

Infelizmente esse traço da ditadura militar, ao que parece, permanece ainda em toda grande imprensa desse país, a DESINFORMAÇÃO é traço cultura da ditadura militar que permeou todas redações de imprensa desse país, e essa cultura continua muito forte em toda nossa imprensa, mesmo depois do país ter voltado à democracia.

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Fernando

29/03/2014 - 11h21

O projeto cultural da ditadura foi mais vitorioso do que se imagina!! Até o idioma português que nós falamos foi invadido por termos em inglês (Shopping, Bike, Outdoor, etc..). E o pior é que criou-se a estúpida ilusão de que o uso de termos em inglês valoriza sua ideia ou seu produto. As pessoas tem “orgulho” de escrever SALE ao invés de liquidação, como se isso desse importância maior a sua loja! Se algum ainda duvida que as mentes brasileiras foram lavadas pela ditadura…
E a cultura? Foi invadida por um falso sentimento de pragmatismo comercial, onde o sucesso, a aparência e o dinheiro tem muito mais valor que a criatividade!(eu quero uma música fácil prá eu você e todo mundo cantar junto).
A rede globo foi, sem dúvida alguma, a empresa que MAIS PREJUDICOU o povo brasileiro ao longo da história! Pasteurizou e americanizou a cultura, inventou o jornalismo mentira, subverteu a mágica do futebol, e aplica doses diárias de preconceito e racismo na população através de suas estúpidas novelas.

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francisco

29/03/2014 - 06h57

PIG, partido da imprensa golpista

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francisco

29/03/2014 - 06h56

Só assisto a tv Brasil

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Mauro Bento

28/03/2014 - 22h38

Gostei e concordo com a análise, lembrei dos “Insociáveis”.
Mas a GLOBO é tudo isso mesmo ???
Lembro-me da Diretas Já, sem Globo, sem Facebook, mas tinha um Partido Operário nas ruas.

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renato

28/03/2014 - 20h11

A Globo é que nem droga…
É ruim para o POVO, mas há consumidor..

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Dudu - o outro

28/03/2014 - 16h49

Por conhecer um pouco dessa história macabra desse canalzinho, há anos não paro um minuto nele. Vocês não imaginam o quanto deixei de emburrecer! Infelizmente, minha opinião é radical em relação ao telespectador ou ouvinte da Globo. Ou é muito ingênuo, ou muito burro ou muito sem-vergonha.
Minha avó, por exemplo, era ingênua!

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MacCain

28/03/2014 - 15h32

Meus amigos tem uma enquete na pag. principal do portal ig: TORTURADORES DA DITADURA DEVERIAM SER PUNIDOS? Por enquanto o NÃO esta ganhando, participem e vamos mudar o placar.

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Karlo Brigante

28/03/2014 - 15h25

Interessante é que os militares além de doarem uma “Bolsa Comunicação” ao “Dr.” Roberto, Ferraram com a TUPI e A EXCELSIOR!!! Pra onde foram os excelentes profissionais desempregados ???

Na boa, até eu faria da globo a 4° emissora do mundo!!!

Responder

    Adão

    28/03/2014 - 18h35

    Você pode ainda, assume o SBT, Rede Teve ou a Record e faça melhor que a Globo.

    abolicionista

    29/03/2014 - 21h01

    Certo, se você me der 70% da verba federal com publicidade e me permitir sonegar impostos, pode deixar. Quando começo?

    Karlo Brigante

    30/03/2014 - 09h32

    Leu o texto criança?
    Não entendeu?

    Sugiro que peça pra alguém desenhar…

Bacellar

28/03/2014 - 15h20

Só discordo da frase “Mal comparando, é como aquele traficante que oferece a droga gratuitamente para depois tirar proveito econômico do vício alheio.” Mal comparando não; é uma comparaçao mais do que pertinente…

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Urbano

28/03/2014 - 13h51

Num lance rápido e estratosférico, observa-se que o livro mal falou do lixo dessa relação, quando fala do abrir mão do conteúdo programático (democracia?); mas e o chorume, o concentrado da podridão, será???

Responder

    Urbano

    28/03/2014 - 13h57

    Com o facão, temos a dimensão exata do desprezo, que sempre se deu à justiça em nosso país…

renato

28/03/2014 - 12h37

A idéia do podcast é realmente muito boa, Pedro. Conheço gente que não lê notícia quase e apenas ouve podcasts informativos, com entrevistas e talz. Talvez seja uma tendência que tem potencial de ser mais e melhor explorada.

Responder

Pedro

28/03/2014 - 11h17

Viomundo vocês já pensaram no esquema Podcast semanal? Como tema, um convidado? Eu ouço muitos podcasts.

Responder

Pedro

28/03/2014 - 11h16

Viomundo, mais uma vez obrigado. É de informações como essa que preciso para debater com os “coxinhas” no chope. Falo sempre para estimular. Estou nos 30, cresci nos 80 e 90, naquele caldo cultural do neoliberalismo. Preciso de outras referencias.

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Mardones

28/03/2014 - 10h32

Bravo!

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HenriqueD

28/03/2014 - 10h29

A TV Record da época sofreu três incêndios. Existe algum historiador que tenha se debruçado por isso e tenha algum estudo a respeito?

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