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Carlos Vainer: Rio promove “limpeza urbana” e será mais desigual em 2016

30 de janeiro de 2014 às 19h24

Carlos Vainer: “Após megaeventos, Rio será uma cidade muito mais desigual”

por Dario de Negreiros, do Rio de Janeiro 

Discutir e analisar ponderadamente o impacto causado pelos megaeventos nas cidades que brasileiras que lhes servirão de sede é tarefa que, ao menos nesta semana, chega a soar impossível.

Aos manifestantes anti-Copa, há muito que a brutalidade, o abuso e a inconsequência das instituições policiais não constituem novidade. Mas, após os eventos do último fim de semana, aqueles que já há alguns anos sustentam o bordão “Se não tiver direitos, não vai ter Copa” passaram a receber pancadas também de setores que costumam se identificar como progressistas.

O texto de Igor Ojeda (No mundo onde cresci, protestar contra violações é ser de esquerda) e o de Antonio Lassance (Vai ter Copa: argumentos para enfrentar quem torce contra o Brasil) ajudam a desfazer os simplismos e a desmentir as desinformações dos que se situam nos dois lados da polêmica.

Mas talvez ninguém ainda tenha situado a questão de modo tão abrangente quanto o faz o professor Carlos Vainer, do Ippur (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional) da Universidade Federal do Rio de Janeiro. As mudanças de paradigma dos diferentes modelos de desenvolvimento urbano, as novas formas de organização da cidade e os conflitos que delas são decorrentes há muito tempo interessam a Vainer.

Mais recentemente, desenvolveu estudos sobre as grandes intervenções e os grandes projetos urbanos: em São Paulo, analisou a construção da avenida Águas Espraiadas; em Salvador, as alterações promovidas no Pelourinho; no Rio, as intervenções ligadas aos Jogos Panamericanos. Este último levou o grupo de Vainer a se aprofundar no trabalho de avaliação dos impactos dos grandes eventos esportivos internacionais.

Na entrevista abaixo, concedida no último dia 13 no Ippur, na Cidade Universitária da UFRJ, Vainer fala sobre as consequências atuais e vindouras das grandes obras que modificam o cenário urbano da capital fluminense. Mas, mais do que isso, o pesquisador situa estas intervenções nos processos mais amplos das quais elas fazem parte: a vigência de um novo modelo de cidade e de um novo padrão de desenvolvimento urbano, cujo princípio remete ao início dos anos 90.

O diagnóstico, se quisermos, pode ser sumariamente resumido: aprofundamento das desigualdades sócio-espaciais, guetificação das áreas pobres, fim da possibilidade da gestão democrática do espaço urbano, criminalização da pobreza e dos movimentos sociais. Sem contar o legado de violações de direitos humanos sofridas por até 80 mil habitantes do Rio de Janeiro – número que, em outras estimativas, chega à casa da centena de milhar.

Se, para Vainer, algo de positivo pode ser extraído desse cenário, devemos procurá-lo nas reações à insustentabilidade deste modelo. “Toda esta tentativa de despolitização do espaço urbano foi desafiada de maneira evidente pelas milhões de pessoas que foram às ruas e que disseram: ‘esse é um espaço público, um espaço nosso’.”

Um país que, embora intensamente urbanizado, estava acostumado a ver vindos do campo seus principais movimentos sociais, vive a crise do urbano como ocasião de politização de suas cidades. “O Brasil-político se urbanizou e o Brasil-urbano se politizou”.

Em virtude dos acontecimentos dos últimos dias, decidimo-nos por antecipar a publicação desta entrevista. Ela faz parte de uma série de reportagens que o Viomundo fará sobre políticas públicas dos governos estaduais do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Pernambuco. Também faremos um balanço dos principais programas do governo Dilma. As reportagens são bancadas integralmente pelos assinantes do Viomundo, a quem agradecemos profundamente por promover jornalismo independente e compartilhá-lo generosamente em rede com outros leitores.

***

Viomundo — Professor, o Rio de Janeiro está passando por grandes intervenções urbanas, que muitas vezes procuram vender a imagem da construção de um novo paraíso. Onde o senhor diria que o carioca viverá daqui a alguns anos? Ou seja, quais seriam os resultados das transformações pelas quais passa a cidade do Rio de Janeiro atualmente?

Carlos Vainer – O resultado desse processo é, inexoravelmente, uma cidade muito mais desigual. Haverá cariocas no paraíso e haverá cariocas no inferno. Aliás, essa já é a realidade contemporânea, só que ela está sendo aguçada. O primeiro resultado de todo esse processo – que tem nos Jogos Olímpicos e na Copa um momento de evidenciação, agudização e consolidação – é o aprofundamento da desigualdade.

Viomundo — E a maior parte da população estará no inferno?

A imensa maioria da população. A região metropolitana do Rio tem 12 milhões de habitantes, o município tem em torno de 5,5 milhões. A Barra da Tijuca tem 200 mil habitantes. Compare os investimentos feitos na Barra da Tijuca com os investimentos feitos no resto da cidade. Aí nós vamos ver como é que está sendo construído o paraíso, mas, sobretudo, como estão sendo construídos os eleitos desse paraíso.

Aliás, os verdadeiros eleitos desse paraíso não são nem os moradores dos condomínios da Barra da Tijuca. São os grandes latifundiários urbanos, as grandes empresas, as grandes empreiteiras, os grandes contratados, os grandes parceiros.

Esses são os verdadeiros eleitos. E os eleitos por esse modelo de cidade fraudam, através da corrupção e dos financiamentos de campanha, a manifestação democrática do processo eleitoral.

Mas a primeira coisa que devemos considerar é que as políticas urbanas, os projetos e o padrão de desenvolvimento urbano vigentes no Rio de Janeiro não se iniciaram hoje. Se formos buscar suas origens, temos de ir pelo menos ao primeiro governo do ex-prefeito César Maia (1993-1996). Se nós pensarmos em perspectiva histórica, nós estamos desde 1992 sob a égide de um mesmo projeto e concepção de cidade.

Depois do César Maia, tivemos um governo do Luiz Paulo Conde (1997-2000), que tinha sido secretário municipal de Urbanismo do César Maia. Depois o César Maia volta e faz dois mandatos.

Depois vem o Eduardo Paes que, embora tenha se candidatado por um partido diferente do partido do César Maia, é herdeiro das mesmas concepções: foi secretário [Municipal do Meio Ambiente, a partir de 2001] e foi sub-prefeito da Barra da Tijuca no governo César Maia.

Então são mais de 20 anos de construção de um projeto de cidade e de uma coalizão de poder que vai implantar e conduzir uma nova ideia e conceito de cidade, que hoje nós assistimos ser quase transformada em modelo nacional.

Viomundo — Essa coalizão envolve quais atores?

Envolve antigas oligarquias da cidade, grandes escritórios de advocacia, de arquitetura, uma elite deste tipo; tem também os interesses dos grandes comerciantes, dos grandes proprietários de terra, do que restou do capital industrial, de todo o capital que gira em torno da atividade turística; e, progressivamente, temos o interesse das grandes empreiteiras, que são hoje um vetor fundamental das coalizões de poder a nível nacional, mas também a nível local.

Nós as contamos na palma das mãos, são dez: Odebrecht, Camargo Correia, Mendes Junior, Carioca Engenharia, OAS e mais cinco.

Grupos estruturados, poderosíssimos, que hoje são grupos de poder urbano, também. Algumas delas começaram construindo Brasília, outras cresceram sob as asas protetoras da ditadura militar (1964-1985) e suas grandes obras – como os grupos baianos, por exemplo.

E, depois, se instauraram na república democrática como um dos vetores fundamentais dos grupos dominantes. Inclusive, como nós sabemos, as grandes empreiteiras, ao lado dos grandes bancos, são os grandes financiadores de campanha, são o esteio do sistema político construído a partir da constituição de 1988.

Viomundo — E qual é este o conceito de cidade que essa coalizão implementa?

Este modelo de cidade tem três vetores fundamentais.

O primeiro é o aprofundamento da desigualdade e o desenvolvimento da cidade sob a lógica da empresa. O modelo se funda na ideia de que cidades devem ser planejadas segundo uma perspectiva estratégica.

O planejamento estratégico é transposto do planejamento empresarial para o planejamento de cidades: as cidades passam a ser pensadas como empresas que concorrem com outras empresas em um mercado internacional de cidades.

E concorrem para vender o quê? As cidades vendem localização.

Pra quem? Para as grandes empresas, que circulam pelo mundo e que, com as mudanças tecnológicas, no processo de globalização, cada vez mais são móveis – em inglês se diz footloose –, cada vez mais têm possibilidades de circular e investir em qualquer parte do mundo.

Então as cidades seriam empresas que concorreriam com empresas para atrair investimentos, turistas e eventos.

Em segundo lugar, há a despolitização da cidade.

É necessário que ela não seja objeto de discussão pública. Uma operação urbana não se discute com o público.

A população não foi chamada para discutir o que ela gostaria de fazer na área portuária. Ela não foi consultada para saber se ela quer investir bilhões em vias expressas em direção a uma área praticamente vazia da cidade, onde nós temos menos de 15% das demandas de transporte, enquanto que 80% da demanda de transporte está na área suburbana, na Baixada Fluminense e na Grande Niterói.

As populações estão submetidas a transporte precário e dispendem, às vezes, três, quatro, até cinco horas por dia no trajeto casa-trabalho/trabalho-casa.

Mas não são aí que estão sendo feitos os investimentos. Aí, o que nós assistimos é a degradação das ferrovias, das vias. Os investimentos são feitos não onde há uma demanda de transporte, mas onde há uma expectativa de valorização imobiliária.

A despolitização da cidade significa a transformação da cidade de espaço público em privado. A política diz respeito a quê? À ação coletiva no espaço público.

O processo de privatização da cidade é a negação da política, portanto o fim da expectativa da democracia urbana. É a transformação do governo urbano em um governo autoritário.

Veja bem, se você for ler os teóricos catalães, eles propunham exatamente isso: eles diziam que era necessário um governo forte, carismático.

Por quê? Porque, segundo eles, para uma cidade ser competitiva, ela precisa estar unida em torno de seu projeto.

Ou seja, a ideia de que haja disputas, oposições, no interior da cidade, enfraquece-a na competição.

Exemplo: quando o Rio ganhou a candidatura para as Olimpíadas, havia um movimento em Chicago chamado “Chicagoans for Rio”, quer dizer, “chicaguenses pelo Rio”.

Evidentemente, o COI não viu com simpatia ir para uma cidade onde havia um movimento organizado contrário. O secretário-geral da Fifa [Jérôme Valcke] já disse que democracia atrapalha fazer Copa do Mundo.

A cidade da empresa, a cidade do evento, a cidade da negociação empresarial, das chamadas parcerias público-privadas, é uma cidade para a qual a democracia é um obstáculo.

E, portanto, um elemento central deste modelo é o autoritarismo urbano, as parcerias público-privadas como forma de captura do espaço urbano pelo capital privado.

Por isso que eu digo que a contraface da cidade de exceção é a democracia direta do capital. A população é excluída dos processos de negociação e discussão dos destinos da cidade, que são tratados nas operações urbanas.

Quem é que discutiu que o autódromo do Rio deveria ser destruído para dar origem a um Parque Olímpico que vai funcionar durante um mês e que, depois, vai se transformar em um grande empreendimento imobiliário?

Exemplo extraordinário – e absurdo, que parece não ter limites – é o caso do campo de golfe olímpico na cidade do Rio, para as Olimpíadas. O Rio tem dois campos de golfe.

Descobriram que faltava neles um buraco, para seguir os padrões olímpicos. Solução? A todos os cidadãos de bom senso, parece ser estender um buraco nesse campo. Solução encontrada pela Prefeitura? Fazer um outro campo. R$ 350 milhões: este é o orçamento inicial – vai ficar provavelmente por R$ 600 milhões, R$ 700 milhões.

Não satisfeitos, vão fazer esse campo em uma área de proteção ambiental, que, portanto, foi suspensa. Mais: esse campo, agora, faz parte de um projeto imobiliário do Pasquale Mauro, que vai construir uma série de condomínios em torno do campo. Condomínio dos quais esse campo vai ser um dos luxos ofertados aos futuros compradores.

Ou seja: um processo de desperdício de recursos públicos, de entrega de área ambiental, de entrega de patrimônio público, de investimentos que vão ser capturados pelo processo de valorização imobiliária. Isso é o exemplo de uma operação urbana, isso é o exemplo do que é a democracia direta do capital, do que é a apropriação da cidade e a privatização dos espaços urbanos.

Viomundo — No momento em que são feitas as remoções, as legislações da cidade, antes flexíveis, aparecem agora com todo o seu rigor. As comunidades pobres enfrentam laudos de área de risco, de área de proteção ambiental etc. No pico do Santa Marta, chegou a ser feito um contra-laudo, que procurava mostrar que ali não seria uma área de risco e que a tentativa de remoção aconteceria, então, por outros motivos. Há um uso político desse mecanismo?

Para os amigos, tudo; para os inimigos, a lei. É necessário entender que neste processo de transformação a população passa a ser um inimigo potencial permanente.

Sempre que ela colocar em questão qualquer decisão, ela é um inimigo. Porque ela está dividindo a cidade e uma cidade dividida vai ser derrotada na competição. Por isso é necessário “manter a imagem da cidade”. Se a sua imagem não for mantida, ela não é atrativa.

O capitalista quer entrar numa cidade onde sindicatos estão lutando por salários? Eu não quero investir numa cidade conflituada por lutas sindicais, por protestos e manifestações.

Essa cidade – que é a cidade onde se exerce plenamente a democracia, onde os grupos sociais, os diferentes setores da sociedade se manifestam no espaço público levando propostas e projetos públicos – é inimiga profunda da cidade-empresa, da cidade-negócio, da cidade competitiva.

Viomundo — O quão importante é o papel das forças de segurança pública para a criação e a manutenção deste modelo de cidade?

Com o aprofundamento da desigualdade e o fim da democracia, a violência se impõe. A polícia irá atuar, então, seja para conter os pobres nos espaços que lhe foram alocados, seja para impedir as manifestações públicas, como se viu recentemente.

As manifestações são uma ameaça à cidade-empresa. Empresa e política não caminham bem: no interior de uma empresa não é possível fazer política. E se a cidade é uma cidade-empresa, também ali não vai se discutir. Quer dizer, ali vai se produtivizar o capital, vai se promover a competitividade e a produtividade. Não vamos discutir com os citadinos, porque essa cidade não é pros citadinos, é pros compradores de cidade.

Então a repressão passa a ser um elemento central no conceito mais geral de cidade.

O que nós assistimos, neste processo, é à criminalização de todos aqueles que não aderem, ou não fazem parte, desta cidade.

A cidade-empresa reconhece não o citadino ou o morador. Ela reconhece dois personagens principais: o cliente e o investidor.

Ou você é comprador, ou você é investidor.

Se você é um cidadão, se você é uma pessoa que quer discutir que cidade a gente quer, você tem de ser banido dessa cidade porque você é uma ameaça à sua competitividade, você é um traidor desta cidade.

Isso fica muito claro nos megaeventos. A recente decisão do COI de fazer os jogos de 2020 em Tóquio, nem em Madri nem em Istambul, é evidente: Istambul acabou de ser tomada por imensas manifestações e os indignados tomaram as ruas da Espanha. Vai se fazer um evento aí?

Não, a próxima Copa do Mundo vai ser no Qatar, onde não tem perspectiva nenhuma de conflito. Ou seja: esses megaeventos estão sendo progressivamente banidos para áreas supostas livres de risco de conflitos sociais, de protestos, de contestação.

O que nós assistimos recentemente no Brasil inteiro – e o Rio tem uma expressão particular, pela sua configuração, pela sua importância como cidade no país e pelo fato de juntar Copa do Mundo e Olimpíadas – foi que as forças repressivas mostraram que esses eventos são incompatíveis com a democracia. E, no caso do Rio, o que ficou muito claro foi que a polícia que mata nas favelas e nos bairros mais pobres é a mesma polícia brutal, descontrolada, desrespeitadora de qualquer direito, que reprimiu de maneira violenta, forjando flagrantes, pretendo gente de maneira arbitrária, nas cidades.

A grande diferença, nesse processo que a gente pode chamar de democratização da repressão e da brutalidade promovida pela polícia do Rio, é que nas favelas eles usam balas de chumbo, enquanto nas manifestações eles ainda usam bala de borracha.

A repressão mostrou a sua verdadeira face: ela tem uma dimensão de criminalização da pobreza, mas a outra e inseparável dimensão desta repressão é a criminalização da ação política.

Viomundo — Quando se inicia, no Rio, a implementação deste novo conceito de cidade?

Este novo conceito fica muito claro logo no início do primeiro governo César Maia, quando, com o apoio da Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro) e um consórcio de mais de 40 grandes empresas, eles contratam a consultoria catalã Tubsa (Tecnologias Urbanas Barcelona S/A), de propriedade de um grande intelectual e consultor internacional catalão, Jordi Borja, além de alguns outros urbanistas que tinham estado engajados nas concepções que deram origem à Barcelona Olímpica.

Viomundo — Este me parece um tema bastante interessante. Porque Barcelona olímpica é compreendida, no senso comum, como um projeto extremamente bem sucedido, de todos os pontos de vista. Além das diferenças que existem entre Barcelona e as cidades brasileiras, existe também um “mito Barcelona”?

O sucesso de Barcelona é o sucesso de um momento particular da história espanhola e sua integração ao mercado comum europeu. Um momento particular de afirmação da autonomia catalã no âmbito do Estado espanhol. Mas também com consequências e sequelas brutais.

Barcelona não inaugura esse processo – que, na verdade, foi inaugurado em algumas cidades americanas: Baltimore, Boston etc.

Mas Barcelona, em primeiro lugar, implanta este modelo na Europa – e, a partir de Barcelona, ele vai ser exportado para a América Latina. E Barcelona, em segundo lugar, se destaca por um grande esforço de marketing urbano, promovendo seu próprio modelo através de grandes investimentos.

Promovê-lo no sentido de afirmar, de um lado, a cataluneidade, vis à vis do Estado espanhol; e, de outro lado, afirmar a europeidade da Catalunha, tentando separá-la da Espanha e aproximá-la da Europa.

As sequelas deste modelo estão aí na crise atual, nas crises imobiliárias sucessivas, que aconteceram primeiro nos EUA, depois na Europa. E em uma taxa de desemprego, entre jovens, de 40% a 45%.

Viomundo — Essa experiência paradigmática de Barcelona pode ser considerada bem sucedida em relação ao que seria um uso democrático da cidade, do espaço público? Ou, já naquele momento, as intervenções urbanas eram excludentes?

O processo de Barcelona é um processo contínuo e não esgotado. Num primeiro momento – sob a direção de um partido socialista, que se fortaleceu na Espanha e na Catalunha, e um partido autonomista, que nasce da transição democrática espanhola –, pode-se dizer que a experiência de Barcelona foi relativamente democrática.

Ou seja: o plano estratégico da cidade, além das necessidades do marketing, foi capaz de compor uma frente urbana com diferentes componentes sociais e políticos.

Progressivamente, este modelo foi se tornando cada vez mais empresarial, mais fechado à participação, mais um modelo neoliberal como outro qualquer.

Alguns anos atrás, o próprio Jordi Borja denunciou que este projeto havia sido apropriado pelo grande capital especulativo.

Porque, depois das Olimpíadas vem a Exposição Internacional, depois vêm as smart cities…

Quer dizer, essas cidades, para se manterem competitivas dentro deste conceito, têm de estar permanentemente lançando novos produtos ao mercado. E isso passa a dominar a lógica da cidade. E, portanto, aconteceu em Barcelona, também, um processo de aburguesamento de áreas populares. Populações de baixa e média renda foram expulsas de uma série de áreas. Ou seja, Barcelona, apesar de ser uma cidade atrativa, é cada vez mais uma cidade sócio-espacialmente desigual.

O que se agudiza, evidentemente, com a crise econômica. Eu não vou dizer que a crise espanhola, ou a crise da Catalunha, têm como causa as Olimpíadas e o projeto estratégico de cidade. Mas certamente os brutais investimentos urbanos feitos no processo de competitividade urbana, e a transformação da cidade em uma cidade voltada para a exportação e não para os seus citadinos, é parte deste processo.

Hoje nós temos de 20% a 25% de desemprego na Catalunha, taxa que cresce para 40% entre os jovens. Os indignados, na Espanha, estão se manifestando contra um modelo de Estado, capital e sociedade, mas também contra um modelo urbano que transformou a cidade em uma grande empresa.

E é justamente este modelo da cidade empresa, da cidade que concorre, da cidade que tem como elemento central não o atendimento das necessidades de seus cidadãos, mas o atendimento das necessidades de seus potenciais compradores, que vai ser adotado no Rio de Janeiro.

O primeiro plano estratégico do Rio, não casualmente, não foi elaborado pelo poder público, mas por um consórcio empresarial, liderado pela Firjan e pela ACRJ (Associação Comercial do Rio de Janeiro).

Plano que vai, progressivamente, sob a orientação técnica, metodológica, intelectual e cultural dos catalães, implantar este projeto de cidade no Rio.

E, já ali, em 1994, já está dito que o Rio tem uma vocação olímpica. E logo a seguir se faz a primeira candidatura do Rio a sediar os Jogos Olímpicos.

Quem elabora essa proposta? Os mesmos consultores catalães. Essa proposta é derrotada, há uma outra proposta mais adiante e, finalmente, há a terceira, que é vitoriosa.

Nós sabemos muito bem que a vitória dessa terceira também está associada ao alinhamento do governo local com os governos estadual e federal. O governo federal investiu todo o seu prestígio – Lula, em particular –, deu uma série de garantias ao COI (Comitê Olímpico Internacional), como também à Fifa, de que o Brasil bancaria integralmente os custos, inclusive se houvesse perdas, que o Brasil entregaria as 12 cidades para a Copa, e o Rio para as Olimpíadas, segundo a vontade, o desejo e as necessidades do COI e da Fifa.

Que ao fim e ao cabo são duas instituições privadas internacionais, que não respondem diante de ninguém, a não ser dos seus próprios conselhos.

Viomundo — É possível localizarmos aquela que seria a primeira grande intervenção urbana, aqui no Rio, deste novo projeto de cidade?

A Rio+20 [Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, realizada em junho de 2012] é uma grande intervenção. Por exemplo: associado à Rio+20, você tem a Linha Amarela, que é um grande projeto urbano. Mas eu diria que este projeto teve um longo tempo de incubação. Porque você não pode entender a economia do urbano se não entender também as estruturas políticas.

Antes, havia uma grande fragmentação dos grupos dominantes. Essa fragmentação, em um certo sentido, não foi superada. Como é que se constituiu a coalizão?

Este grupo dominante não se coaliza em torno de um partido. Na estrutura partidária brasileira, o partido é o que menos importa. O Garotinho esteve no PDT, depois saiu para o PMDB. As trajetórias partidárias do César Maia, do Eduardo Paes, são irrelevantes. Isso torna mais difícil ler esses processos, porque eles não são legíveis através das representações políticas.

E é muito difícil, para a gente, saber o que está para lá dessas representações políticas. Não existe um projeto de cidade claro. Que cidade se pretende?

O plano diretor é uma piada, é um documento que ninguém leva a sério. O Estatuto da Cidade, ao autorizar as operações urbanas consorciadas, permite botar o plano diretor na lata do lixo, onde ele está na maioria das cidades brasileiras. E no Rio, também.

Viomundo — Um conceito bastante central na sua obra é o de “cidade de exceção”. O senhor fala que esta é uma “nova forma de regime urbano”. Em que isso consiste?

Em primeiro, não há regra. As operações urbanas permitem que a lei estabelecida no plano diretor seja suspensa. A cidade de exceção é a cidade em que a regra caduca sempre que se faça uma negociação entre Estado e capital privado que interesse ao capital privado.

Eu recomendo a você e a seus leitores que procurem no You Tube o vídeo de uma negociação entre o Cid Gomes, governador do Ceará, e um grupo de empresários da construção imobiliária. Você vai ver como é que eles planejam nossas cidades, como é que eles negociam pedaços da cidade.

O plano diretor teoricamente seria rígido, voluntarista, intervencionista, tecnocrático. Nós precisaríamos de flexibilidade: a cidade teria que ser entregue à lógica do mercado, porque o mercado é suposto ser a melhor forma de definir os rumos da sociedade e da cidade.

Como dizem os economistas, o mercado é a melhor forma de alocação de recursos. Qualquer intervenção que contrarie, prejudique, desequilibre o funcionamento do mercado tenderia a levar ao que os economistas chamam de uma alocação sub-ótima de recursos. A alocação ótima quem faz é o mercado.

Portanto a intervenção de Estado e o modelo de planejamento que se afirmou partir da II Guerra Mundial no plano diretor e no zoneamento urbano são colocados no banco dos réus, porque ele é suposto “anti-mercado”.

Na linguagem do Banco Mundial, é necessário um planejamento que eles chamam, agora, de market friendly, amigável com o mercado. Ou market oriented: orientado pelo e para o mercado. Então o Estado pode intervirdesde que seja para favorecer o pleno funcionamento do mercado, não para impor regras, normas etc.

Viomundo — O Estado, então, atua como um facilitador do lucro das grandes empresas a partir do uso do espaço público?

Se a saída para o desenvolvimento das cidades é ela ser competitiva e, para ela ser competitiva, ela tem que atender aos capitais aqui presentes e atrair capitais, a sua função é ser um facilitador do funcionamento do mercado capitalista.

No fundo dessa teoria estaria a ideia de que isso geraria o melhor resultado social. Quando olhamos para as todas estas cidades depois de 20, 25 anos de hegemonia do que é, na verdade, o pensamento neoliberal, nós vemos que em todas elas o que se assistiu foi ao aumento da desigualdade urbana.

Nas cidades brasileiras, que já eram profundamente desiguais, estão sendo gerados verdadeiros processos de guetificação urbana, transformação da cidade em um conjunto de cidadelas: as cidadelas dos ricos, nos condomínios fechados, cercados por muros e protegidos por vigilantes; e os condomínios dos pobres, ou os guetos dos pobres, cercados por polícias.

A Escola de Chicago definia a cidade como um aglomerado de grande porte, heterogêneo e denso. Portanto, a heterogeneidade e a densidade seriam características fundamentais do que mereceria ser chamado de cidade.

O que nós assistimos é, então, a progressiva destruição da cidade, porque a heterogeneidade densa passa a ser eliminada do espaço urbano através de sucessivos processos de segregação.

Evidentemente que isso não se inicia com César Maia – ele é importante, mas nem tanto. Se nós formos pegar a história do Rio, eu brinco sempre, ela começou em 1808, quando veio a família real para cá.

Naquela época, 20 mil casas foram apropriadas para instalar a corte, vinda de Lisboa. Então a gente pode dizer que a história da cidade do Rio se inaugura no século XIX, como capital do Império Português, com um processo de remoção.

Mais recentemente, eu diria que há três grandes ondas, que são ondas, simultaneamente, de modernização, mas também ondas de construção da estrutura dessa cidade desigual.

Viomundo — Quais são elas?

Primeira, na virada do século XIX para o século XX, que é a grande reforma Pereira Passos, que vai instaurar o porto moderno – que hoje está sendo submetido a novas transformações –, que vai criar as grandes avenidas centrais e vai abrir o caminho para a zona Sul, para a área oceânica da cidade.

Copacabana é inaugurada nesse período, através de linhas de trem, em um processo muito similar ao que nós assistimos, hoje, na Barra da Tijuca.

Você abre as linhas de bonde para as áreas vazias, que são colocadas em valorização, pela própria Light. Era uma empresa estrangeira que criava linhas de transporte, mas um transporte associado a um processo de valorização fundiária, como hoje os BRTs e os metrôs que estão sendo construídos em direção às terras vazias da Barra da Tijuca e do Recreio dos Bandeirantes.

Esse é um período de grandes remoções da população das áreas centrais da cidade e construções dos primeiros subúrbios.

A segunda grande mudança e modernização da cidade se faz sob Carlos Lacerda, no início dos anos 60, e nos primeiros anos sob a ditadura militar. É um processo de remoção brutal, também.

De toda a área da lagoa [Rodrigo de Freitas], e de áreas importantes da zona Sul da cidade, a população é removida. E as áreas são apropriadas pelo capital imobiliário em expansão. Foram removidas em torno de 35 e 40 mil pessoas.

E, agora, nós temos todo o processo, desde os anos 80, de expansão da cidade em direção à Barra da Tijuca, que é a nova fronteira de expansão do capital imobiliário.

O Estado investiu recursos inimagináveis para viabilizar esta grande operação imobiliária. Quando, no mundo inteiro, se fala em fazer cidades densas, não estender as malhas urbanas – inclusive por razões ambientais, porque isso estende transporte, circulação, custos de infraestrutura, impermeabilização do solo, eliminação de terras agrícolas e florestais.

O que é que se recomenda no mundo inteiro?

Utilizar os vazios urbanos, todas as cidades têm enormes vazios urbanos.

O Rio de Janeiro e várias outras cidades brasileiras tomam o caminho inverso, porque a sua lógica é a lógica de valorização da terra. No caso do Rio, isso ganha uma dimensão aguda, porque os milhares de quilômetros quadrados da Barra da Tijuca e do Recreio dos Bandeirantes são propriedade quase exclusiva de quatro grandes latifundistas urbanos.

Um deles é famoso e muito próximo ao governo atual, que é o Carvalho Hosken. Qual o consórcio que recebeu a concessão do Parque Olímpico? Carvalho Hosken e Odebrecht, aliança entre um grande latifundista urbano e uma grande empreiteira.

Viomundo — E quem são os outros três?

Um é o Pasquale Mauro, outro é conhecido como “Chinês da Barra” [Tjong Hiong Oei, morto em outubro de 2012] e tem mais um que me escapa, agora. São os donos da Barra da Tijuca.

E agora nós temos a estimativa de que em torno de 60 a 80 mil pessoas estão sendo removidas.

No período dos anos 60 e 70, Cidade de Deus foi construída. Assim como Vila Kennedy, Vila Aliança, grandes assentamentos que hoje são as áreas mais violentas, mais miseráveis, de maior desemprego na cidade, foram produzidas nesse período.

E, hoje, nas áreas distantes, os reassentamentos do Minha Casa Minha Vida replicam o mesmo modelo. Parece que há uma espécie de filme que se repete: Remoção I, Remoção II, Remoção III etc.

Viomundo — Essas 60 ou 80 mil pessoas estão sendo removidas em função, principalmente, de quais obras?

Obras direta ou indiretamente ligadas à Copa e às Olimpíadas. É evidente que não seria necessário remover ninguém pra fazer Copa e Olimpíada.

Elas são um grande pretexto. Tem um vídeo do prefeito, no You Tube, em que ele diz que aproveita Copa e as Olimpíadas para fazer o que precisa.

Viomundo — A Vila Autódromo parece ser um exemplo claro disso.

É um exemplo claro. Como a Vila Harmonia, que foi removida para dar passagem à Transoeste. A Transoeste foi construída e a área da qual as casas foram removidas ficou intocada. São vários pretextos.

Agora, na área do Maracanã, removeu-se uma população para se fazer um estacionamento. O estacionamento, na verdade, é o pretexto para se remover a população, porque querem limpar a área.

As vias expressas que se implantaram, e que estão em implantação, passando por cima de populações, podiam passar por cima de um condomínio. Não são obrigadas a passar por cima de uma população.

Viomundo — Mas parece que, coincidentemente, elas têm sempre de passar por cima das populações mais pobres…

Sempre, porque na verdade o trajeto é construído não segundo a lógica do melhor desempenho da via de transporte, mas segundo a lógica da limpeza urbana, que está imbricada com o processo de valorização fundiária e os grandes projetos urbanos, que querem ter uma vizinhança “limpa”.

As classes mais altas gostam do pobre para trabalhar na sua garagem, como porteiro, como empregada doméstica. Não como vizinho. Como vizinho ele é suposto nefasto, perigoso. Como empregado, ele é bom.

Isso gera uma certa ambiguidade, porque os trabalhadores são necessários mas, ao mesmo tempo, são indesejados. Isso é uma angústia permanente da burguesia carioca – e da burguesia em modo geral. Precisa deles, mas quer que eles estejam o mais longe possível. E nessa ambiguidade vai vivendo a cidade.

Esses projetos são, então, grandes pretextos para levar adiante uma terceira grande onda de remoção. Se nós formos pensar o processo de transição democrática, houve uma grande conquista com a Constituição de 1998, que foi o chamado usucapião urbano. Segundo ele, depois de uma ocupação mansa e pacífica por cinco anos, de terras não públicas, você obtém o direito de propriedade.

Isso significa que, em uma infinidade de favelas e outras áreas, os moradores têm direito à propriedade. Muitos deles não foram registrar essa propriedade e são tratados como não-proprietários. Na verdade, eles são proprietários. Eles não têm o registro da propriedade, mas eles já se transformaram em proprietários pela Constituição.

Viomundo — Há um processo, desencadeado pela instalação das UPPs, que tem sido chamado de remoção branca. A população das comunidades pacificadas muitas vezes não consegue suportar o encarecimento do custo de vida daquela região e é obrigada a se mudar. Este processo tem sido significativo?

Ele é e tende a crescer. As políticas de remoção têm duas faces: a remoção branca e a vermelha, que é pela violência.

A remoção branca depende de um processo de regularização fundiária, que é muito custoso e difícil, mas que a prefeitura pretende desenvolver, sobretudo nas áreas mais cobiçadas. Para que essas áreas ingressem no mercado de terras, é necessário que as propriedades ali sejam regularizadas, para que elas entrem no mercado de terras formal, da cidade como um todo. Isso é um problema.

De qualquer maneira, na sociedade capitalista e na cidade burguesa, os processos de remoção branca são inexoráveis.

Eles podem ser reduzidos, amenizados. Como? A remoção branca decorre da implantação, em um local, de um novo benefício urbano.

Se a cidade fosse homogênea, não haveria razão para remover. Se todas as casas da cidade tivessem água, luz, esgoto, transporte público, educação, saúde, etc, haveria uma pequena mobilização de pessoas que se mudam porque casam, porque querem morar perto de certos lugares. Mas a desigualdade urbana tem uma base na lógica capitalista essencial, que é a renda da diferenciação dos espaços urbanos.

A produção de diferenças é um dos elementos fundamentais do funcionamento da cidade burguesa capitalista. Se a gente pegar do ponto de vista dos serviços urbanos, quanto mais homogênea a distribuição dos serviços urbanos em uma cidade, mais democrática a cidade é e menos razões deste tipo você tem para sair de um bairro ou de outro.

Se toda a cidade tivesse segurança pública, ter segurança pública não seria uma vantagem, não seria um diferencial de preço. Ainda, e sempre, haverá diferenciais de natureza outra, como estar próximo da praia. Mas, na nossa cidade, além destes diferenciais dados pelas vantagens locacionais de ordem natural, os mais profundos diferenciais são aqueles decorrentes do tratamento desigual dado pelo poder público ao espaço urbano.

Eu me lembro que, alguns anos atrás, a [ex-prefeita de São Paulo] Marta Suplicy justificava que cuidava dos jardins nas áreas nobres de São Paulo porque as pessoas pagavam IPTU mais caro.

Vai pela Barra da Tijuca: você tem estradas com alamedas, jardins, grama, o departamento de parques e jardins vai lá, cuida das flores.

Aí você entra em frente à favela Rio das Pedras e, ali, a estrada é esburacada.

Não estou falando do espaço das moradias, cujos habitantes são mais pobres e têm moradias mais precárias. Estou falando da mesma estrada. O tratamento dado a essa estrada é diferente dependendo de quem são os moradores vizinhos da estrada.

O Estado é um dos promotores fundamentais da desigualdade. E isso só se resolve com uma política urbana que pense a cidade como uma totalidade.

Toda vez que você faz um investimento localizado, você gera um diferencial. A única maneira de combater de maneira consistente este tipo de processo é através de políticas de universalização do serviço.

O que nossa cidade faz? Exatamente o contrário. Ela aprofunda as desigualdades. Quando você faz investimentos em transporte, em esgoto, na direção da Barra da Tijuca, você está aumentando os diferenciais urbanos em vez de reduzí-los.

[Ouça um trecho da entrevista, clicando abaixo]

Viomundo — Quando o senhor traça todo esse panorama, eu não consigo deixar de lembrar do conceito de “Estado de exceção permanente”, do filósofo Giorgio Agamben, que diria respeito, justamente, ao modo como as democracias modernas possuiriam sempre mecanismos legais de suspensão da própria ordem legal, o que permitiria ao governante, no final das contas, agir conforme à sua vontade. O seu conceito de cidade de exceção tem essa inspiração?

Sim, ele remete a duas fontes teóricas. Uma é o Agamben, no sentido que você coloca: esse Estado, que ele chama de “terra de ninguém”, onde o fato se impõe à lei e ganha a forma legal.

Tomemos o exemplo da operação urbana. O artigo 32 do Estatuto das Cidades diz que as operações urbanas consorciadas permitem: 1. Suspender a vigência de determinadas leis e usos de ocupação do solo e 2. Legalizar desrespeitos a essas legislações que foram cometidos no passado. Ou seja, a operação urbana consorciada permite uma exceção para o futuro e uma exceção para o passado. Um urbanista francês chamou isso de “urbanismo ad hoc”, um urbanismo caso a caso, em que não existe mais norma alguma.

Os megaeventos não criaram isso, eles apenas o evidenciaram e o levaram ao paroxismo.

É proibido beber álcool nos estádios, à exceção dos jogos da Copa, porque a Lei Geral da Copa autoriza a venda de álcool nos estádios. Na verdade, não autoriza a venda de álcool, autoriza a venda de cerveja; na verdade, não autoriza a venda de cerveja, autoriza a venda de Budweiser.

Eles são neoliberais, mas adoram um monopólio. Criam-se territórios especiais em torno dos estádios onde apenas podem ser vendidos e promovidos os produtos associados à Fifa e ao COI. Há, então, uma série de regras de exceção.

Tem uma outra fonte teórica, que é a do marxismo, na qual a ideia do estado de exceção vem de uma determinada crise da dominação. E o Estado de exceção aparece como uma forma de reorganização da dominação.

A ditadura militar é um caso exemplar disso: havia uma crise social e política e o Estado de exceção vem unificar as classes dominantes, que entregam o seu poder a uma casta ou a um personagem.

O que eu chamo de cidade de exceção não está totalmente configurado nos termos marxistas, embora esteja configurado nos termos do Agamben: uma cidade que não tem mais regra, onde tudo se faz de forma excepcional, onde o Estado democrático parlamentar de direito é uma ficção, porque o legislativo é uma ficção.

A degradação dos partidos políticos, a degradação das formas de representação que caracterizam o Estado contemporâneo, transformaram-nos em motivo de desesperança total de uma juventude que, alguns anos atrás, acreditou que alguns desses partidos podiam trazer uma perspectiva de transformação.

Viomundo — Nesse contexto, como o senhor vê as manifestações ocorridas em 2013?

Elas aproximaram o Brasil-político do Brasil-real. O Brasil já é um país cerca de 80% urbano. Mas, nos últimos 20 anos, as principais lutas sociais, os principais atores populares foram rurais: os movimentos de sem-terra, os quilombolas, os indígenas. Cujas lutas são fundamentais, mas que expressam uma faceta que hoje é minoritária da sociedade brasileira. Enquanto isso, as cidades pareciam aquietadas, pacificadas. Eu acho que, em 2013, o Brasil-político se urbanizou…

Viomundo — …ou o Brasil-urbano se politizou.

O Brasil-político se urbanizou e o Brasil-urbano se politizou (risos). Toda esta tentativa de expulsão da política, de despolitização do espaço urbano, foi desafiada de maneira evidente, frontal, pelas milhões de pessoas – eu calculo em torno de 10 a 15 milhões de pessoas – que foram às ruas e que disseram: “esse é um espaço público, um espaço nosso”.

Há uma similaridade com Istambul, onde as manifestações se iniciam para preservar uma praça que se pretendia entregar a um grande shopping. Então a cidade passou a ser não apenas o palco das manifestações, mas também o objeto, aquilo que está em jogo. E o que está em jogo é a democracia urbana como expressão da democracia social, da democracia política. O que está em jogo é a preservação dos espaços públicos depois de 20 anos de neoliberalismo. Tudo isso está em jogo em nossa cidade. E os megaeventos, as remoções, a resistência às remoções, a conflituosidade urbana, eles expressam a crise desse modelo. E expressam também, a meu ver, a incapacidade das elites dominantes de darem uma resposta a essa crise.

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FrancoAtirador

03/02/2014 - 20h51

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CANTO DAS TRÊS RAÇAS
(Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte)

Por CLARA NUNES GUERREIRA*

Ninguém ouviu
Um soluçar de dor
No canto do Brasil

Um lamento triste
Sempre ecoou
Desde que o índio guerreiro
Foi pro cativeiro
E de lá cantou

Negro entoou
Um canto de revolta pelos ares
No Quilombo dos Palmares
Onde se refugiou

Fora a luta dos inconfidentes
Pela quebra das correntes
Nada adiantou

E de guerra em paz
De paz em guerra
Todo o povo dessa terra
Quando pode cantar
Canta de dor

ô, ô, ô, ô, ô, ô
ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô

ô, ô, ô, ô, ô, ô
ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô

E ecoa noite e dia
É ensurdecedor
Ai, mas que agonia
O canto do trabalhador

Esse canto que devia
Ser um canto de alegria
Soa apenas
Como um soluçar de dor

ô, ô, ô, ô, ô, ô
ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô

ô, ô, ô, ô, ô, ô
ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô

(http://letras.mus.br/clara-nunes/83169)
(http://letras.mus.br/clara-nunes)
(http://www.youtube.com/watch?v=jMn5alxlcsE)

Responder

FrancoAtirador

02/02/2014 - 21h01

.
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CONTO DE AREIA
(Romildo S. Bastos e Toninho Nascimento)

Por CLARA NUNES GUERREIRA*

É água no mar, é maré cheia ô
mareia ô, mareia
É água no mar…

Contam que toda tristeza
Que tem na Bahia
Nasceu de uns olhos morenos
Molhados de mar.

Não sei se é conto de areia
Ou se é fantasia
Que a luz da candeia alumia
Pra gente contar.

Um dia morena enfeitada
De rosas e rendas
Abriu seu sorriso de moça
E pediu pra dançar.

A noite emprestou as estrelas
Bordadas de prata
E as águas de Amaralina
Eram gotas de luar.

Era um peito só
Cheio de promessa era só
Era um peito só
Cheio de promessa era só(2x)

Quem foi que mandou
O seu amor
Se fazer de canoeiro
O vento que rola nas palmas
Arrasta o veleiro
E leva pro meio das águas
de Iemanjá
E o mestre valente vagueia
Olhando pra areia sem poder chegar
Adeus, amor

Adeus, meu amor
Não me espera
Porque eu já vou me embora
Pro reino que esconde os tesouros
De minha senhora

Desfia colares de conchas
Pra vida passar
E deixa de olhar pros veleiros
Adeus meu amor
eu não vou mais voltar

Foi beira mar, foi beira mar quem chamou
Foi beira mar ê, foi beira mar(2x)

(http://www.youtube.com/watch?v=EGREfDNByUw)
(http://www.youtube.com/watch?v=Lk7oSFHfJZU)
(http://www.youtube.com/watch?v=MqAqeV6UoC8)
.
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O MAR SERENOU
(Candeia)

Por CLARA NUNES GUERREIRA*

O mar serenou
quando ela pisou
na areia
Quem samba
na beira do mar
é sereia

O pescador não tem medo
é segredo
se volta ou se fica
no fundo do mar
Ao ver a morena bonita
sambando se explica
que não vai pescar.
Deixa o mar serenar

O mar serenou
quando ela pisou
na areia
Quem samba
na beira do mar
é sereia

A lua brilhava vaidosa
de si orgulhosa
e prosa
com o que deus lhe deu
Ao ver a morena sambando
foi se acabrunhando
então adormeceu.
O sol apareceu.

O mar serenou
quando ela pisou
na areia
Quem samba
na beira do mar
é sereia

Um frio danado
que vinha do lado gelado
que o povo até se intimidou
Morena aceitou o desafio
Sambou e o frio
sentiu seu calor.
E o samba se esquentou.

O mar serenou
quando ela pisou
na areia
Quem samba
na beira do mar
é sereia

A estrela que estava escondida
Sentiu-se atraída
depois então apareceu
Mas ficou tão enternecida
Indagou a si mesma:
-A estrela, afinal,
será ela ou sou eu?

O mar serenou
quando ela pisou
na areia
Quem samba
na beira do mar
é sereia
(http://www.youtube.com/watch?v=drGewMyo00A)
.
.
(http://www.youtube.com/watch?v=0blLJffKvW0)
(http://vimeo.com/63526419)
(http://www.youtube.com/watch?v=drGewMyo00A)
(http://www.youtube.com/watch?v=yLA4cwe_LtU)


*UM SER DE LUZ
.
.

Responder

    Mardones

    03/02/2014 - 11h05

    Odoyá!

Joca de Ipanema

02/02/2014 - 17h51

Porque esse senhor nâo vai vender o seu peixe para o pessoal do calçadão de Madureira. Manda destruir tudo e voltar ao que era. Manda também por abaixo o teleférico do alemão e o do Pavão Pavão-Pavãozinho. Fecha o plano inclinado do Santa Marta, manda arrancar o VLT para da Barra Funda e diz pro pessoal de Santa Cruz ir a luta nos trens. Aproveita, e manda aterrar o piscinão de Ramos,e bota o excelente meio de transporte de Vans de volta. Ah, não deixa inaugurar o teleférico da Gamboa. As velhinhas e anciãos, grávidas e os portadores de necessidades especiais agradecem. E seja feliz vendendo abobrinhas nos auditórios dos verdadeiros democratas, bem à sombra, o com ar condicionado, que o calor não tá mole.

Responder

    mauricio

    04/02/2014 - 09h12

    Bem dito. A entrevista – praticamente – não precisa de entrevistado.

Rafael

02/02/2014 - 16h21

“obras que modificam o cenário urbano da capital carioca”

O correto seria dizer “capital fluminense”,o Estado do Rio não é o Estado carioca,o Estado carioca é o finado Estado da Guanabara(cujos limites eram o do município do Rio de Janeiro),quem nasce no Estado do Rio é fluminense,quem nasce na capital,esse sim é carioca.

Responder

    Luiz Carlos Azenha

    02/02/2014 - 17h49

    Corrigido, obrigado. abs

Márcio Joffily

02/02/2014 - 14h22

“O Rio de Janeiro continua lindo”!, Afff

Responder

Regina Braga

02/02/2014 - 13h07

Pois é…Tú és nosso e nós somos teus…Uma frase muito bonita para o Cabral.Pena, que o povo, sofra as consequências do príncipe Maquiavel.

Responder

Bonifa

02/02/2014 - 09h33

É uma hipótese bem razoável acreditar que o evento da Copa faça aumentar a prostituição infantil em algumas cidades brasileiras. Mas fazer uma reportagem onde uma população sem água, sem energia elétrica e com esgota a céu aberto, que margeia as obras dos grandes estádios, vai oferecer suas crianças aos operários das obras, na esperança de conseguir algum dinheiro para matar a fome, a exemplo do Itaquerão é, a despeito dos graves problemas das favelas paulistas, no mínimo uma infâmia. Falar que redes de prostituição internacionais estão agindo com grupos brasileiros para a oferta de prostitutas infantis ao redor dos estádios, é outro absurdo delirante. Mas este foi o teor de uma reportagem do Daily Mirror de novembro de 2013, mas que só agora vem repercutir em alguns órgãos da mídia nacional, que avalizam nítida intenção de denegrir a imagem do Brasil. A prostituição em todas as idades é um problema catastrófico na Europa, hoje. Não sabem disso?

Responder

sandra

01/02/2014 - 16h53

reforma politica já. 20 anos dos mesmos governos em sao paulo e rio.direitos estão sendo violados há tempos, em nome da especulação imobiliária e desvios de dinheiro. que bom que descobriram isso finalmente. a verdade sobre se as pessoas realmente se importam com isso será dada pela continuidade dos movimentos. luciano huck é um claro exemplo dessa violação. mas ele é o ídolo da garotada que tá na rua. e padrão fifa é isso ai: privatização, mercantilização, corrupção, joão havelange,repressão, discriminação (nunca há lugar pra pobre e deficiente). então tá tudo de acordo com o reivindicado

Responder

Malvina Cruela

01/02/2014 - 16h50

mas protestar contra a copa é crime de lesa pátria, de alta traição anti PT, sedição hedionda…vai entender

Responder

    Leo V

    03/02/2014 - 12h11

    Troca “anti-PT” por “anti-nação” e vc tem um discurso digno de um Medici.

    Mesmo a partir de um ponto de vista nacionalista (que não é o meu, pois sou internacionalista), é ridiculo esse seu discurso. Quer dizer que a FIFA impor ao Brasil leis de exceção, e uma série de medidas é o que? Quando uma transnacional faz isso não é lesa-pátria? Quando um governo aceita não é lesa-pátria? Mas o povo protestar na rua é lesa-pátria? A que ponto chegamos…

Ted Tarantula

01/02/2014 - 15h27

o “engraçado” é que para os “analistas” que tratam tudo como um imenso fla-flu politico-ideológico, o governo federal nao tem nada a ver como o que acontece no país, já que não pode sofrer a minima critica por coisa alguma..

Responder

Marcelo

01/02/2014 - 15h03

O Brasil tinha a chance de gerar mudanças importantes com a copa do mundo deste ano. A poucos meses para os jogos, porém, se mostra o maior gastador de verbas públicas em mundial de futebol, gastos que devem beneficiar principalmente, ou apenas, a iniciativa privada. Legado para o povo? A conta.

Responder

edir

01/02/2014 - 14h48

Para assinar a petição de Impeachment do Ministro Joaquim Barbosa, clicar aqui: https://secure.avaaz.org/po/petition/Senado_Federal_Impeachment_de_Joaquim_Barbosa/?wyowTab

Responder

Andre G.

01/02/2014 - 09h23

O problema para muita gente é o fato do evento ser no Rio de Janeiro…fosse em São Paulo, as críticas seriam muito menores…

Responder

    Antonio Victor

    01/02/2014 - 21h20

    Perfeito, resumiu tudo com exatidão, a melhoranálise que li sobre o assunto. É uma verdadeira piada culpar os eventos por aumento de desigualdade, num país com a história do Brasil e num estado como o Rio, que foi entre outras coisas, quase destruído pela ditadura, apenas por votar na oposição.

Fernando Garcia

01/02/2014 - 00h04

Excelente entrevista. Me fez pensar sobre algumas coisas interessantes. Quando fala-se de desigualdade de renda temos alguns índices, dentre os quais o índice de Gini é o mais conhecido, que expressam esta desigualdade dentro de algumas hipóteses sobre processos econômicos. É sempre bom lembrar que estes índices são limitados, mas o quadro geral que eles expressão é bem razoável.

Será que há algo parecido para uma “desigualdade do espaço urbano”? Veja que o Vainer argumenta que o espaço urbano se tornará mais desigual. Ele descreve um processo, mas sua descrição não possui uma medida de desigualdade. Esta medida poderia permitir uma comparação com o Rio de hoje e o Rio de, digamos, daqui a uns 5 anos, quando o processo descrito por Vainer já estará bem aprofundado.

Sem esta comparação, o discurso da grana tende a ser mais forte e versão que ficará para a história é que a cidade tornou-se mais integrada com este processo (aliás, este é exatamente a propaganda dos vídeos oficiais da obras da olimpíadas).

No mais, devo dizer que não entendi a argumentação em relação a expandir a malha de transporte para locais vazios da cidade… quer dizer, não é assim mesmo que deve ser feito? Construir uma infraestrutura para que as áreas possam ser melhor ocupadas no futuro?

Responder

    Marcelo Dreyfus

    14/02/2014 - 17h10

    Caro Fernando, a expansão da malha de transporte em si não é o problema, mas sim a opção por fazê-las em regiões demograficamente vazias no lugar de atender áreas com uma população já consolidada. Expandir avenidas e estradas em áreas vazias atende principalmente o interesse das imobiliárias e incorporadoras, pois garante que tais terras possuam um valor de mercado elevado e crescente à medida que mais investimentos chegam a esses lugares. O interesse público é aviltado tanto na perspectiva social, pela falta de investimento em regiões mais povoadas, quanto na ambiental, uma vez que a expansão do tecido urbano é prejudicial em inúmeros aspectos como redução da cobertura vegetal, secamento de nascentes e poluição do ar e da água.

    A expansão de uma cidade é o mais caro investimento de qualquer prefeitura. Na maioria das vezes, envolve tanto o favorecimento de donos de terras com informação prévia e privilegiada dos projetos para determinadas áreas, como também desapropriações da população menos favorecida que constitui um “empecilho” aos projetos imobiliários, seja por simplesmente ocupar o espaço ou por ter um nível sócio-economico mais humilde frente aos futuros moradores. O valor das indenizações a essas pessoas são sempre bem inferiores ao preço de mercado, de modo que elas necessitam se mudar para bem longe de onde estavam.

lulipe

31/01/2014 - 22h50

O que diria a Dilma e o Lula de seus aliados…

Responder

Ricardo CP

31/01/2014 - 21h06

OK, a roubalheira no Rio tá na cara, mas quero também expor o lado mais estrutural do evento, divulgando excelente forma de argumentar a favor da Copa. Ex.: Quem é contra equivale a uma família que ganha 2.300,00 e paga 500,00 de plano de saúde reclamar que vai gastar 7,00 na Copa. Link com mais detalhes:
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=252285794932709&set=pb.223843157776973.-2207520000.1391208385.&type=3&src=https%3A%2F%2Ffbcdn-sphotos-c-a.akamaihd.net%2Fhphotos-ak-prn1%2Ft1%2F1623440_252285794932709_1068231538_n.jpg&size=600%2C800

Responder

Tadeu Silva

31/01/2014 - 19h25

A arquiteta Ermínia Maricato (Usp) vai na mesma linha do professor em vários pontos. O Plano Diretor é algo excepcionalmente suspenso pelos três poderes que tornaram a cidade exclusivamente território de reprodução econômica, quero dizer, os três eixos de pressão: empreiteiras, transportes e cartórios imobiliários. O resultado é o processo de gentrificação.

Responder

lula vescovi

31/01/2014 - 17h23

Para o Wheissmer(é assim?),todos esses argumentos nada mais são do que linhas auxiliares do conservadorismo,Carlos Vainer incluído.É DOSE.

Responder

    Luís Carlos

    01/02/2014 - 14h30

    Não. Sugiro que leias mais texto dele no RS Urgente, por exemplo. verás que estás enganado. Ele em momento algum se refere a Vainer ou argumentos como esse, mas sim a manifestações que temos assistido, o que não são a mesma coisa. Entre conteúdo, método e historicidade existem grandes diferenças.

psdb NUNCA MAIS!

31/01/2014 - 17h03

E o Carone? O blog não dá mais notícias dele. Está vivo, pelo menos?

Responder

Eugênia Loureiro

31/01/2014 - 15h04

Se a situação é tão grave assim como aponta o Prof. carlos Wainer ele aparece rindo do quê?
Provavelmente de que suas análise sectárias vão piorar o Rio e a Baixada Fluminense? Gosta de ver o circo pegar fogo.
Não acredito nisso não.E já foi tempo que sectarismo fazia escola. Hoje só pega desavisado e desinformado.
São as obras dos sonhos? provavelmente não. Mas daí a invalidar tudo, também é forçação de barra, própria dos sectários.
E invalida tudo com o mesmo bláblá sectário que tem feito invariavelmente nos ultimos 20 ou 30 anos. Dizer que Eduardo Paes é simples continuidade de Cesar Maia é muito rasteiro. Dizer que as Trans não contribuem para melhorar as condições de mobilidade de todos os cariocas e mesmo dos que moram em outros municípios é muito rasteiro. Dizer que só vai ter desigualdade e que todas essas obras não estão gerando um monte de empregos e que depois os serviços no entorno dos megaeventos vão também gerar muito emprego é muito rasteiro. Dizer que as UPPs não serviram para nada é muito rasteiro. Nem mencionar o Parque Madureira na Zona Norte é por demais rasteiro. Agora, quem quiser se informar melhor e não ficar dependente das generalidades do Prof. favor consultar fontes de informações com fontes e mais detalhes que de imediato podem ser encontradas no Portal da Transparência do Governo Federal na parte sobre os investimentos da Copa e das Olimpíadas.

Responder

    Leo V

    31/01/2014 - 17h12

    Ser contra políticas que atendem interesses privados e aumentam a desigualdade agora é ser sectário.

    Trabalhador ser contra o capital agora é ser sectário. Acho que o Eduardo Paes e o Cid Gomes dos videos então fazem política do jeito que vc gosta.

Bonifa

31/01/2014 - 14h15

As cidades brasileiras buscam se desenvolver dentro de um modelo capitalista. Grandes cidades capitalistas têm tudo em comum, sejam elas chinesas, americanas, indianas ou brasileiras. As cidades capitalistas subdesenvolvidas, são subdesenvolvidas basicamente por serem aglomerados humanos onde reina a desigualdade. O espaço urbano reflete isso. Viajemos pelo Rio, o povo pobre se aglomera desde Sepetiba e Nova Iguaçu até os morros da zona sul. Todas as obras da Copa, multiplicadas por dez, não irão sequer arranhar esta realidade. Esta realidade vai ser arranhada pelo recuo da desigualdade e pela inserção do povo pobre na senda do desenvolvimento. Não há e nunca houve democracia de espaço urbano no Rio. Mas para que ela venha, não é necessário que tenhamos estádios sórdidos, nos quais a presença da classe média seja proibitiva. Quando da inauguração do Maracanã, o ingresso custava caro, mas o povo pobre tinha uma boa camisa engomada e economizava a semana inteira para comprar seu ingresso. No estádio, gritava, berrava, mas não procurava matar ninguém. Havia menos desigualdade urbana, mesmo porque o mundo brasileiro ainda era rural. O que se tem a fazer, é elevar o nível do povo e diminuir a desigualdade, para que o povo possa usar adequadamente um bom estádio. O Brasil não quer mais ser um país subdesenvolvido. Quer crescer e se impor entre as nações ricas. Mas para isso, tem que suportar algumas vicissitudes próprias do capitalismo, como o fato de ter à disposição de quem queira pagar, bons camarotes em seus estádios. Camarotes que abriguem desde obsoletos mandatários orientais, até celebridades globais. Não importa, isso não irá interferir na índole democrática do povo brasileiro, índole que não condiz com o gigantesco abismo de desigualdade social e econômica que nos caracteriza, um dos mais fundos do mundo. Havermos superado os tempos de Carlos Lacerda, para quem a política correta seria desocupar os morros e expulsar a pobreza para os fundos da baía de Guanabara, já foi um avanço extraordinário. Quando o Urbanismo não se impõe, quando ele se fecha em copas e se divorcia do mundo político, sem cobrar com veemência a permanência constante do planejamento urbano e a vital presença do escritório central de planejamento da cidade, não pode depois vir a cobrar alternativas utópicas sobre a urgência das obras que se concretizam.

Responder

FrancoAtirador

31/01/2014 - 13h38

.
.
Funcionária da Rede Globo

foi convidada por Dilma

a pedir demissão da SECOM:

A ministra Helena Chagas, da Secretaria de Comunicação Social (SECOM),
entregou nesta sexta-feira (31) à presidente Dilma Rousseff
pedido de afastamento do cargo.
O porta-voz da Presidência, Thomas Traumann, deve assumir no lugar dela.

Íntegra da Carta de Demissão de Helena Chagas:

“Brasília, 30 de janeiro de 2014

Exma. Sra. Presidenta da República,

Conforme entendimentos anteriormente mantidos, formalizo a V.Exa. meu afastamento do cargo de Ministra de Estado – Chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República.

Na oportunidade, expresso meus agradecimentos pela oportunidade que me foi dada de servir ao país e pela confiança depositada por V. Exa. em mim e na equipe que me acompanhou, nos três anos que tive a honra de ocupar o posto do qual ora me desligo.

Foi um período de significativas realizações do seu governo, cuja divulgação se deu com todo o entusiasmo desta Secretaria. O critério da mídia técnica, que herdamos do governo do Presidente Luís Inácio Lula da Silva e que soubemos preservar e aprimorar, propiciou a oportuna e equilibrada publicidade governamental de tais ações públicas, trazendo ao cidadão informação clara e objetiva a respeito de veículos aptos a receber investimentos de mídia foi significativamente ampliado, dentro de um processo de regionalização e democratização da publicidade oficial sem precedentes. São hoje 9.963 veículos cadastrados em todos os estados.

Acredito ter contribuído, com meu trabalho e com o esforço dos servidores da Secom, para a imagem positiva que V. Exa. E seu governo têm junto aos brasileiros, como justo reflexo do desempenho da gestão pública nesses três anos em que tive o privilégio de compor seu Ministério.

Sem mais para o momento, aproveito a oportunidade para reiterar minha mais alta estima e consideração.

Respeitosamente,

Helena Chagas”
.
.
Não venham com essa de que Chagas caiu por causa de “blogs sujos”.
Caiu por viver em outro mundo…

Por Fernando Brito, no Tiolaço

É uma tolice – pior, uma redução à língua falada pelos executivos da grande mídia – dizer que Helena Chagas caiu por não concordar com a concessão de publicidade aos blogs de esquerda – que eles chamam de “sujos”, como faz O Globo, hoje (http://migre.me/hFc0L).

Não há nenhum, entre eles, que reivindique nada além de receber, se for o caso, publicidade pelas mesmas regras que todo o mercado atua, que é receber em função de seu volume de acessos e da adequação ao público que se pretende atingir.

Nada além do que faz o Google, que não discrimina, embora pague uma miséria, porque fica com a parte do leão da receita publicitária.
Mas não recusa publicidade a blogs, como este, que beiram os 3 milhões de acessos mensais, metade deles únicos.

A conversa é outra.

Helena Chagas caiu por incapacidade de fazer o que este governo precisa, sob pena de morte, fazer: enfrentar a onda avassaladora de desinformação e terrorismo político-econômico que a mídia levanta contra ele.

Isso quer dizer abrir guerra aos jornalões e à Globo?

Não, de forma alguma.

Mas significa contraditar, polemizar, esclarecer e mobilizar a opinião pública e não achar que simpatia e amizades pessoais com “repórteres especiais” e editores resolvem o problema de comunicação de um governo de esquerda.

Ou que abobrinhas de “marquetagem” servem para dissolver problemas reais, cujo enfrentamento está, em grande parte, na área de comunicação.

Um exemplo, recente e estarrecedor foram suas declarações, há poucos dias, sobre as manifestações anti- Copa e o fato de terem se tornado violentas.

Disse Helena Chagas à Agência Estado:

“Questionada pela reportagem em Davos no fim de semana, a ministra Helena Chagas, chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, admitiu que “não sabia” dos detalhes sobre como esse plano será adotado. Mas indicou que, para promover a paz, uma pomba seria solta em cada jogo para simbolizar a necessidade da realização da Copa em condições pacíficas.”

Francamente, mais que uma bobagem, isso indica o mundo da Lua em que vive a titular da Secom.

E é de lá, e por isso, que ela caiu.

Caiu, aliás, faz muito tempo.
Todos sabem que ela já não se encaixava nos rumos presidenciais há meses.

A única injunção política da queda de Helena Chagas é ela ter permanecido lá até agora.

Um governo não escolhe – ou não deveria escolher – seus colaboradores por considerações de ordem pessoal e nem mesmo de ordem profissional, apenas.

Certamente não se quer questionar nenhuma das duas em Helena Chagas.

O problema é que este governo, para sobreviver e vencer, precisa do embate político. Civilizado, democrático, republicano e diria até cortês, porque cortesia e civilidade nunca fazem mal a ninguém.

Talvez seja ela, inclusive, a menos errada neste processo.

Minha finada avó sempre me recriminava quando eu esperava algo que a natureza de alguém não lhe permitia dar.

– Meu filho, se laranjeira não dá limão o problema é seu, não da laranjeira.

Pois é: é na comunicação que este Governo precisa escolher se vai ser espremido como uma laranja pela mídia ou arder como um limão em suas feridas.

(http://tijolaco.com.br/blog/?p=13208)
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Maria Portuguesa

31/01/2014 - 12h07

A entrevista é, de fato, excelente. O professor Vainer tem olhado para a geografia urbana por um bom tempo e sua conclusão não pode ser descartada. Vivemos num país que ainda se autonomeia um agregador social, mas que, na prática, é um segregador. E o neoliberalismo tem sua marca nisso. As taxas de desemprego que celebramos hoje não se sustentarão após estes megaeventos. E, então, o que fazer? Candidatar-se novamente para sediar outra Copa? A mobilidade urbana é celebrada, mas o transporte de massa só se estende para a zona sul. A maioria da população carioca não mora lá. Então, por que priorizar aquela área? A valorização de certas áreas urbanas, num pensamento de mercado, requer inevitavelmente que se desvalorize outras. Como muito bem apontou o professor Vainer, vizinhos de classes diferentes não são bem-vindos: os pobres são desejados apenas como força de trabalho.

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    Bonifa

    31/01/2014 - 20h22

    Um ponto de partida para o agravamento escandaloso dos problemas urbanos foi a introdução da ideologia neoliberal sem qualquer respeito pelo debate. O planejamento, por aquela ideologia, seria coisa ultrapassada. O planejamento urbano não era mais necessário, ao contrário, seria um empecilho para o desenvolvimento do espaço urbano propiciado pelo livre mercado. O órgão de planejamento permanente das cidades, encarregado de manter e alimentar as soluções previstas em planos diretores, foi desprestigiado a ponto de desaparecer em alguma cidades. Por toda a parte, aconteceu a predominância dos empresários imobiliários na discussão e tomada de decisões em “planejamentos estratégicos” insuficientes e antidemocráticos, onde a ausência das questões debatidas desde sempre por arquitetos e urbanistas foi absoluta. Arquitetos e urbanistas dobraram-se a serem apenas “fazedores” dos sonhos que os capitalistas sonhavam, sem mais pensar no povo e nos destinos do país.

Heitor

31/01/2014 - 11h00

Isso ajuda a provar que a famigerada “sustentabilidade” é uma enganação, embromação, enrolação de políticos, ambientalistas, empresários e afins.

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    Mário SF Alves

    01/02/2014 - 00h39

    É isso aí, Heitor.

    ________________________________
    Empulhação neoliberal e nada mais. Talvez tenha servido pra fomentar o apêndice estado-mínimo ONGs. No mais foi mero palanque pro nhem-nhem-nhem neoliberal, e só.

Claudio Cordovil

31/01/2014 - 09h43

Entrevista primorosa! Eu gostaria de te-la feito. Carlos Vainer é a referencia maior para a compreensão desta nova cidade partida , que vai gerar rolezinhos, movimentos de junho etc etc. Acompanho e admiro Vainer de longa dara. Parabéns ao repórter. A melhor explicação para fenômenos como rolezinho. Como diziamos na minha infância no Rio de Janeiro, “o morro vai descer”, para enfrentar esta ditadura do economicismo na gestão de lugares que deveriam ser espaços de viver e não necessariamente só de comprar.

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    maria meneses

    02/02/2014 - 00h45

    Quem diria que os pobres e pretos seriam expulsos pelos gringos endinheirados.

Fernando

31/01/2014 - 09h29

Ótima e esclarecedora entrevista, espero que o debate seja em alt nível e não rotulem o professor de coxinha, tucano e agente do imperialismo.

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Luís Carlos

30/01/2014 - 22h43

Muito boa entrevista. Parabéns Azenha pela escolha do tema que é fundamental. Mas além do tema, muito ricas posições do entrevistado, problematizando processo fundiário urbano e apropriação privado de espaços públicos. Aliado a isso, apontamento feito sobre não processo de discussão, de não participação social quanto a isso. Tenho restrições apenas a conclusão no penúltimo parágrafo sobre o “Brasil urbano ter se politizado”, pois não sei se de fato ter sido isso realmente o que ocorreu. Multidões foram para as ruas, o que inicialmente seria positivo, porém o que vimos nem sempre pode ser atribuído a politização, ou apropriação política do espaço público, pois me parece carente de fator identitário de classe, elemento fundamental para politização e devida apropriação coletiva do processo de intervenção política.

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Barbara Ferreiro

30/01/2014 - 19h58

Discordo acho que ganharemos uma cidade mais plural , as vias e estradas que estão sendo criadas transformará a mobilidade urbana e acredito que após este evento a transformação continuará para as olimpíadas , já teremos o arco metropolitano rodoviário que trará mais acesso a baixada e a zona oeste aos grandes centros da cidade , a Transbaixada também ajudará a esta ligação , só resta avançar o metro para a baixada e a zona oeste.

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    FLAVIO

    31/01/2014 - 10h16

    O plano de investimento nao tem sido o metro e sim as empresas de onibus.

Antonio Passos

30/01/2014 - 19h56

Vivemos no capitalismo, como fugir desta realidade e de suas imposições ? Só para dar um exemplo, celebramos as baixas taxas de desemprego, vamos nos insurgir contra a construção civil ? As coisas são muito complicadas, e muito mais ainda num país com a nossa história de desigualdade e injustiça social.

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