“Ataques” noturnos à geladeira são sem-vergonhice?

por Conceição Lemes

A pessoa acorda decidida a manter a luta contra a balança. Durante o dia, se contenta com um bife grelhado e uma folhinha de alface ou não come nada. De repente, porém, no final de tarde, sucumbe à vontade incontrolável de comer, e “assalta” geladeira e despensa. Mesmo sem fome (até após refeições), devora em minutos o que encontra: bombons, tortas, biscoitos, arroz com feijão ou macarrão gelados, sanduíches, banana com refrigerante. Há quem se tranque na cozinha ou no quarto para não ser flagrado.

Aí, vêm os efeitos: empachamento e, pior, frustração, vergonha e culpa. A autoestima abaixa aos calcanhares, com carimbos de autocondenação do tipo “Não tenho jeito”, “Não tenho força de vontade”, “Sou sem-vergonha mesmo”.

“Só que esses ataques de comilança não são sem-vergonhice, não”, absolve a endocrinologista Maria Teresa Zanella, professora titular de Endocrinologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp),  no  capítulo sobre obesidade do livro Saúde — A hora é agora.

O culpado — atenção! — é um distúrbio de nome longo e complicado: transtorno de compulsão alimentar periódica. Atinge de 20% a 40% dos pacientes que procuram os serviços de obesidade. O drama é que muitos médicos ainda o ignoram e costumam atribuir o que acontece à velha e injusta falta de força de vontade da pessoa. Logo, não pergunta sobre o assunto e o paciente tem vergonha de contar e levar bronca. Resultado: o diagnóstico correto não é feito e o tratamento da obesidade fracassa.

CONTRA A VONTADE MESMO

Antes que alguns gordinhos se incluam nesse diagnóstico, que fique claro: beliscar o dia inteiro ou exagerar em todas as refeições não é transtorno de compulsão alimentar periódica. Também não sofre do transtorno quem, de raro em raro, tem um ataque de comilança. Isso pode ocorrer com qualquer pessoa em momentos de tristeza ou estresse intensos. É doença quando as investidas se tornam frequentes: no mínimo, dois episódios de compulsão alimentar por semana, durante seis meses consecutivos.

“Trata-se de compulsão no sentido de ser algo que o indivíduo faz contra a vontade”, explica o psiquiatra Arthur Kaufman,  coordenador do Projeto de Atendimento ao Obeso (Prato), do Instituto de Psiquiatriado Hospital das Clínicas e professor da Faculdade de Medicina da USP.

Em outras palavras: a pessoa quer evitar mas não consegue controlar. Come além do que pretendia, quando não precisava ou não queria mais. A medicina ainda não sabe bem por que isso acontece. Nesses obesos, aparentemente há diminuição no cérebro de serotonina, substância produzida pelas terminações nervosas das células do sistema nervoso central, e que é uma das “donas” do humor. A sua baixa no cérebro causa depressão. Do ponto de vista psicológico, já foram detectados vários outros fatores associados: ansiedade, estresse, raiva, tédio, frustração e solidão. Mas os ataques noturnos de comilança também podem ser apenas devido à insônia.

HORÁRIOS E COMIDAS PREFENCIAIS

Na verdade, os estudos sobre o transtorno de compulsão alimentar periódica são recentes. Os primeiros datam de 1994. Desde então, pesquisadores já descobriram, por exemplo, que os assaltos a geladeiras e despensas ocorrem a partir do final da tarde, e seguem noite adentro.

Há várias hipóteses para a preferência por esse horário. Talvez todas atuem em conjunto:

* É o momento em que a pessoa deixou o trabalho, está em casa e com mais condições para o ataque. Principalmente há a proteção oferecida pela privacidade, já que a “invasão” à geladeira costuma ser escondida por vergonha do exagero.

* Com frequência, o obeso tenta jejuar o dia inteiro (é errado, não faça isso!). Então, no fim do dia, através de mecanismo regulador, o organismo “cobra” mais alimento.

*No final da tarde, baixa a taxa de “açúcar” no sangue (porque a pessoa fica sem comer!). Idem o nível de serotonina, que segue um ritmo de produção no decorrer do dia e normalmente diminui nesse horário. A serotonina está envolvida em inúmeros comportamentos e funções: humor, sono, saciedade, ansiedade, agressividade, impulsividade, entre outros.

“Provavelmente disfunções na regulação da serotonina também ajudam a explicar por que comidas ricas em carboidratos são o principal alvo”, cogita a endocrinologista.

Curiosamente, as invasões a geladeiras e despensas nunca são em busca de tomates, alfaces, cenouras, certo? São sempre por alimentos ricos em carboidratos, como doces, massas, pães, biscoitos, cereais, chocolates. “De pronto, os alimentos ricos em carboidratos aumentam a serotonina no cérebro”, justifica Kaufman. Assim, ao menos temporariamente, melhoram o humor, aliviando depressão e ansiedade.

MÉDICO PODE PIORAR

Desconhecer, portanto, o que acontece no transtorno de compulsão alimentar periódica é derrota quase certa na balança. “Em vez de melhorar, o médico pode até agravar a obesidade”, constata Maria Teresa.

Explica-se: o médico (por desinformação) e o obeso (por vergonha ou medo de levar bronca) raramente trocam informações sobre a compulsão alimentar. Em consequência, o transtorno não é tratado, a pessoa dificilmente perde peso e entra num círculo vicioso. Como não emagrece, cresce a ansiedade, até porque tem de apresentar resultados também ao médico. E ansiedade, como se sabe, predispõe a ataques de comilança, que aumentam a ansiedade, e assim vai. Como não sabe que se trata de distúrbio, o paciente se responsabiliza pelo fracasso. O médico, por diagnóstico errado, reforça a culpa.

Não é o único equívoco. Os médicos às vezes prescrevem inibidores de apetite à base de anfetamínicos, que não funcionam nos casos de compulsão alimentar já que o problema não é o apetite.

“Além disso, esses remédios exacerbam a depressão e a ansiedade, aumentando os ataques”, alerta o médico Simão Lottenberg, médico Simão Lottenberg, do Serviço de Endocrinologia da Faculdade de Medicina da USP.

E o paciente piora, inclusive psicologicamente. O retrato é esta cruel autocondenação, repetida com frequência: “Se nem com remédio consigo parar de comer, eu não tenho solução mesmo”.

TEM SOLUÇÃO, SIM!

A obesidade associada ao transtorno de compulsão alimentar periódica tem solução. Além de atividade física regular e da mudança de hábitos alimentares — indicadas para todo mundo que deseja ter pesosaudável —, são indicados psicoterapia e/ou uso de certos antidepressivos.

A psicoterapia ajuda a pessoa a aprender a identificar o que causa a compulsão alimentar. Logo, se você suspeita dos seus ataques de comilança, não se envergonhe: discuta-os às claras com o médico. Abra o jogo, mesmo que tenham frequência inferior a dois episódios semanais e há menos de seis meses.

Na prática, se eles atrapalham o andamento da sua vida, merecem atenção e cuidado. A propósito: vários grupos ligados a universidades tratam gratuitamente o transtorno de compulsão alimentar periódica.

Quer umas dicas agora? Pois guarde bem estas dos doutores Maria Teresa, Kaufmann e Lottenberg, no livro  Saúde — A hora é agora:

* Não faça dietas muito restritivas. Aparentemente, a pessoa que passa por muitos períodos de jejum e fome está mais sujeita ao transtorno de compulsão alimentar periódica.

* Não fique o dia inteiro sem comer. Esse hábito errado facilita os ataques de comilança.

*  Não adianta aumentar a quantidade de carboidratos da dieta. O importante é ter uma alimentação o mais balanceada possível, incluindo os carboidratos.

* Fracione as refeições, com intervalos de aproximadamente três horas entre elas. Dietas muito restritivas, como você já sabe, favorecem os ataques de comilança.

* Pratique alguma atividade física regularmente — caminhada, por exemplo. Ela aumenta o nível de serotonina no cérebro, diminui a ansiedade, relaxa e reduz a compulsão alimentar.

* Se, apesar dessas medidas, sentir que o bicho começa a pegar, experimente dar uma volta no quarteirão, andar na esteira, telefonar para algum amigo ou tomar um banho de água fria. São truques que para alguns “ladrões” de geladeira funcionam. Vale a pena tentar.

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